Primeiro os anúncios.

Sábado, dia 28 de fevereiro, terei o prazer de fazer uma demonstração de culinária durante o curso de nutrição “Emagreça sem dúvida” com o dr Eric Slywitch (médico, especialista em Nutrologia), em Recife. Serão 8 horas de curso e além de ter acesso a conhecimentos valiosos (Como funciona a ganha e perda de peso? Como nossa saciedade é controlada?) você ainda se delicia um almoço e um lanche vegano. E ainda tem a minha demonstração culinária com direito a degustação. Se você estiver em Recife não perca essa oportunidade única! E no dia anterior tem uma palestra gratuita com o dr Eric.

Sou uma grande admiradora do trabalho dele e quase tudo que sei sobre nutrição aprendi com os artigos que ele escreve em seu site e com o seu livro ‘Alimentação sem carne’. Então vocês podem imaginar a minha felicidade em poder ver uma palestra e participar de um curso com ele. E a honra que senti quando ele me convidou pra fazer uma demonstração culinária durante o curso!

Também gostaria de fazer um convite pro pessoal de Natal. Domingo, dia primeiro de março, vai ter um piquenique Papacapim no Parque das Dunas, a partir das 15h. Minha estada em terras tupiniquins está chegando ao final e queria aproveitar o meu último domingo aqui pra rever velhos amigos e fazer novas amizades. Estão todos convidados. A coisa vai funcionar assim. Cada um leva um prato VEGANO (porque eu quero provar tudo:), doce ou salgado, na quantidade que quiser e compartilhamos tudo. Melhor levar algo fácil de ser degustado e que não necessite prato/garfo/faca. Estarei na área de piquenique do Parque (onde ficam as mesas de madeira) esperando por vocês. Vai ser lindo.

E agora uma receita que há anos tenho vontade de dividir com vocês.

Contei aqui que o meu leite vegetal preferido é o de amêndoas e ainda não achei nenhum mais perfeito. Comecei a fazer e consumir leite de amêndoas regularmente quando fui morar na Palestina, já que amendoeiras abundam por lá e eu podia comprar diretamente dos agricultores, por um preço bom. Mas esse não é o leite que consumo diariamente quando estou no Brasil, visitando a família. Aqui em Natal (e imagino que isso seja verdade no resto do país) amêndoas são um produto de luxo. Antigamente quando eu estava nos trópicos costumava comprar leite de soja, o que é a opção mais popular entre os veganos e os intolerantes à lactose daqui. Mas nunca gostei do sabor desse leite, muito menos da ‘transgenicalidade’ da soja. Então um dia decidi fazer leite de coco em casa e usar em tudo. E a minha vida nunca mais foi a mesma.

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Eu já fazia leite de coco pra usar em cuscuz e em receitas como meu ensopado marinho. E ao me dar conta que leite de coco caseiro é muito mais suave e delicado do que a versão industrializada, vendida em caixinhas e vidrinhos, pensei que talvez ficasse bom como substituto do leite animal em papas e vitaminas. No início a minha família estranhava e levantada as sobrancelhas sempre que me via derramar o líquido branco sobre flocos de aveia ou mixá-lo com frutas. Eles achavam que ficava tudo com o gosto forte do leite de coco industrializado. Mas garanto que o sabor é muito discreto e na maior parte do tempo passa totalmente desapercebido. Já dei o leite puro e em vitaminas pros céticos provarem e todos concordaram que no primeiro caso o sabor é muito suave e que no segundo nem dá pra adivinhar que tem coco ali.

E ainda tive uma agradável surpresa. Sempre preferi o meu café preto, mas na última vez que estive em Recife Bárbara, minha anfitriã, fez leite de coco e deixou em cima da mesa durante o café da manhã. Fiquei curiosa pra descobrir que gosto ele teria no meu café e o resultado foi tão maravilhoso que achei que tinha tido a ideia do ano! Até que Bárbara fez a mesma coisa e me disse que aquilo se chamava ‘café havaiano’. Depois outras pessoas de Recife me disseram que sempre colocavam leite de coco no café. Me dei conta que a ideia brilhante que eu achava que era minha pipocou na cabeça de muitos, mas não me deixei desmoralizar com isso. Desde então coloco regularmente leite de coco no meu café e alguns membros da família começaram a me imitar.

Já estou ouvindo várias pessoas dizerem: “Mas coco tem gordura demais!” Essa tarde eu estava bebendo o meu café com leite de coco quando escutei: “Isso deve dar um desarranjo na barriga.”  Então explicações pros lipofóbicos e pra quem cresceu acreditando que coco deve ser evitado porque é muito gordo se fazem necessárias.

Além de ter minerais e vitaminas, o coco é rico em antioxidantes, que ajudam o nosso organismo a combater radicais livres e possui ácido láurico, um ácido graxo com propriedades anti-inflamatórias e que protege a flora intestinal. E além de lutar contra infecções o coco, pasmem, auxilia na digestão (!!!!!). Agora a parte que mais gosto de anunciar ao pessoal que acha que tomar leite de coco não é uma boa ideia porque tem muita gordura: apesar de ser rico em gorduras saturadas, a gordura do leite de coco se transforma rapidamente em energia e não é armazenada pelo corpo. Essa gordura é termogênica, o que significa que ela eleva a temperatura do corpo e precisa de mais energia pra ser digerida, aumentando a queima de calorias. E como se isso não fosse lindo o suficiente, a gordura do coco promove a sensação de saciedade e diminui a vontade de comer carboidratos (lembre que açúcar é um carboidrato). Ou seja, o coco é um aliado da boa forma. Está na hora de acabar com esse injustiça com o pobre do coco. Ele é um alimento muito saudável.

Eu dou prioridade a ingredientes locais na minha alimentação e ter ingredientes diferentes, de acordo com o lugar onde estou, me inspira e faz com que minhas receitas sejam ainda mais variadas. Se o leite de amêndoas fazia muito sentido na Palestina, aqui no Brasil, ou pelo menos aqui no Nordeste, acho que podemos dizer a mesma coisa do leite de coco. É um fruto barato, fácil de encontrar, que trás inúmeros benefícios pra saúde e que combina maravilhosamente bem com nossas frutas e comidas típicas.

Até agora adorei usar leite de coco no café, na aveia dormida (foi um sucesso durante o retiro gastronômico em Pernambuco), papa de aveia, vitaminas de frutas (com banana-com ou sem cacau- e acerola fica uma delícia!) e sorvetes de frutas (como esse). Mas o céu é o limite e tenho certeza que ainda vou descobrir muitas maneiras de utilizar esse leite, que hoje eu gosto tanto quanto o de amêndoas.

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Leite de coco (fresco, saudável, delicioso e que pode ser usado em tudo, inclusive no café)

Quanto mais fresco o leite, mais suave o sabor. Depois de alguns dias na geladeira o sabor do coco fica um pouco mais forte. Ele ainda será discretíssimo nas vitaminas de frutas, mas o sabor de coco será mais marcante em papas de aveia, aveia dormida e no café. Nada muito problemático, mas prefiro avisar. Um coco médio rende aproximadamente 1 litro de leite. Se seu coco for muito grande ou muito pequeno aumente ou diminua a quantidade de água proporcionalmente. Se você não sabe como abrir e retirar a polpa de coco seco, esse vídeo explica direitinho.

1 coco maduro (também chamado de coco seco) médio

1 litro de água

Abra o coco e retire a polpa. Você pode retirar a polpa com a ponta de uma faca. Tudo bem se na polpa estiver colado na parte escura e mais dura que fica entre a polpa branquinha e a casca. O leite será coado, então tudo bem. Se você tiver a sorte de encontrar coco fresco ralado na feira, fazer leite será ainda mais fácil (peça uma quantidade equivalente a um coco, pra saber quanto de água utilizar).

Aqueça meio litro de água até ficar quente, mas não muito (você ainda deve ser capaz de colocar o dedo na água sem se queimar). O calor ajuda a extrair o máximo de leite da polpa, mas evite usar água muito quente por duas razões: 1- pra não prejudicar o copo do seu liquidificador, se ele for de plástico. 2-Pra manter o leite cru e preservar o sabor fresquinho e todas as propriedades nutricionais.

Coloque a polpa do coco, em pedaços ou ralada, no liquidificador e despeje a água quente por cima. Bata (tampe bem) durante 30 segundos. Use uma peneira fina, de preferência de metal, pra coar o leite, espremendo bem com as costas de uma colher. Coloque a polpa de coco de volta no liquidificador, aqueça mais meio litro de água e repita o processo. Assim, com duas extrações, você obtém um leite mais encorpado e saboroso.

Depois coar a polpa pela segunda vez coloque-a em um pano fininho, faça uma trouxinha e esprema bem com as mãos. Esse passo é opcional, mas assim você extrai até a última gota de leite e não desperdiça nada. Descarte a polpa que sobrar ou use pra aumentar a quantidade de fibras em bolos e biscoitos (nunca tentei, mas sei que tem quem faça isso).

Transfira o leite pra uma garrafa de vidro ou outro recipiente limpo e com tampa e conserve na geladeira. Rende um pouco mais de 1 litro e se conserva entre 3-4 dias na geladeira.

 

Uma das melhores partes de viajar é, pra mim, descobrir novos ingredientes e ver o que os nativos gostam de fazer com eles. Nem sempre os pratos tradicionais que descubro nas minhas andanças pelo mundo são 100% vegetais, mas eles podem me inspirar de várias maneiras. Porém em alguns lugares os nativos têm uma admirável intimidade com vegetais e fazem as coisas mais surpreendentes e deliciosas com eles. É o caso da Toscana. Na última vez que estive por lá, em outubro, descobri algumas coisas muito boas. Ingredientes, receitas tradicionais e uma tradição gastronômica que eu imagino que deve se repetir em muitos lugares do mundo, mas que eu descobri, e pude participar pela primeira vez, durante essa viagem.

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1- Macarrão semi integral Floriddia, feito com uma variedade de trigo mais rústica

Minha amiga Giada explicou que seu macarrão preferido é feito com uma variedade de trigo mais antiga e orgânico, produzido pertinho da casa dela. Visitei a fábrica e saí de lá com uns pacotes embaixo do braço, que degustei durante a semana que fiquei na Toscana. Achei esse macarrão rústico, semi integral e rico em gérmen de trigo muito saboroso e melhor do que todas as outras massas integrais que provei até hoje.

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2- Biscoito de vinho branco

Na mesma fábrica descobri um pequeno tesouro: um biscoitinho feito com vinho branco e azeite. A lista de ingredientes é bem curtinha (a mesma farinha de trigo antigo do macarrão acima, azeite, vinho branco, açúcar e fermento natural), sem nenhum produto químico ou duvidoso e 100% vegetal. Fiquei ainda mais feliz ao ver que eles tinham escrito na embalagem a palavra ‘vegan’, prova de que estavam realmente procurando agradar a nossa tribo. Levei pra casa porque achei aquela combinação de ingredientes interessante e tive a agradável surpresa de descobrir que o sabor era muito melhor do que eu imaginava. O biscoito era leve, crocante, pouco doce e com um gostinho original e delicado, graças à mistura de azeite e vinho branco. Perfeito pra acompanhar o café da tarde (e melhor ainda com um quadradinho de chocolate amargo, como na foto acima).

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3- Farro

Sempre quis provar esse cereal, uma variedade antiga, mas que perdeu a popularidade tempos atrás (está voltando a ficar na moda!). Descobri que na Toscana ele ainda é bastante apreciado, então é fácil encontrar por lá. Parece que tem alguma confusão ao redor desse grão. Farro e espelta são a mesma coisa (parece que na Itália os dois são chamados de ‘farro’) ou são dois cereais diferentes (Triticum dicoccum e Triticum spelta, respectivamente, segundo a Wikipedia)? Não sei qual dos dois comprei, já que no pacote tinha escrito simplesmente ‘farro’, mas gostei muito. Ele se prepara como arroz (com um tempo de cozimento mais longo do que o arroz integral) e tem um sabor mais marcante do que cereais como trigo ou aveia e uma textura mais densa. Achei uma delícia e até servi como parte do jantar pra vinte pessoas que preparei na Itália.

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4- Cavolo nero

Mais uma comida que eu queria provar há tempos. Esse tipo de couve, também chamada de couve da Toscana, é enrugada, alongada e bem escura. Giada e o companheiro dela cultivam legumes orgânicos e me presentearam com um punhado de folhas de cavolo nero. Essas coisas me deixam mais feliz e saltitante do qualquer outro tipo de presente. O sabor é mais forte do que a couve que gostamos de comer no Brasil, mas como sou completamente louca por folhas verdes (minha comida preferida, junto com feijões), achei aquilo um manjar dos deuses. Lá na Toscana o pessoal gosta de prepará-lo em sopas e eles estão muito certos.

 5- Flores de abobrinha

Dentro da caixa de legumes orgânicos oferecida pelos meus amigos italianos também havia flores de abobrinha. Durante a colheita me perguntaram se eu queria algumas e eu respondi ‘sim’ sem hesitação. Era mais uma comida na minha lista de ‘quero muito provar’. Apesar de ter uma ideia de como essa iguaria é preparada na Itália (recheada, empanada e frita) decidi que além de exigir um esforço muito maior do que eu estava disposta a fazer durante as férias, uma receita tão elaborada assim não seria a ideal pra me fazer descobrir o sabor delicado das flores. Então preparei de maneira bem simples, refogadas no azeite com um pouco de alho, e servi com o macarrão delicioso que mencionei acima. As flores foram aprovadíssimas!

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6- Manjerona fresca

Na casa onde fiquei tinha um jardim com várias ervas pra perfumar as preparações culinárias que saiam da cozinha. Eu tenho costume de cozinhar com manjericão, alecrim e tomilho fresco, mas foi a primeira vez que tive manjerona fresca à disposição. Achei o sabor ainda mais complexo e delicioso do que a versão desidratada e ficou sublime no meu queijo de castanha e beterraba. Então fiz a seguinte anotação mental: ter um potinho com manjerona fresca na minha próxima casa.

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133A7247 133A7255 2014-10-25 13.39.077- Feira orgânica de Pisa

Graças aos meus amigos agricultores visitei a feira orgânica que acontece quinzenalmente em Pisa, pertinho da famosa torre. Além dos vegetais encontrei vários produtos veganos, como biscoitos, pães, tortas doces e salgadas, bolos, patês… Que felicidade ver que o veganismo está crescendo e comidas vegetais estão se tornando cada vez mais populares. Adorei a feira, mas gostei ainda mais do que aconteceu depois dela. Os agricultores que vendem seus alimentos ali têm uma tradição: no final da feira eles armam uma mesa enorme onde cada um compartilha um prato trazido de casa, em um alegre almoço coletivo. Tive a honra de ser convidada pra sentar à mesa, onde dividimos um pouco do farro preparado no dia anterior e pude degustar muitas delícias, já que a mesa estava cheia de opções 100% vegetais. E qual não foi a minha surpresa ao escutar pessoas ao meu redor perguntarem, antes de aceitarem um prato, se aquilo era vegano. Alguns dos agricultores/artesãos sentados ali eram veganos, o que fez meu coração se encher de alegria e provou mais uma vez que veganismo não é só pra uma parte rica da população, que tem dinheiro pra comprar comida cara e exótica em loja de produtos naturais.

8- Patê de alho poró

Na famosa feira tinha uma barraca com vários tipos de patês e molhos, feitos artesanalmente por uma cooperativa de mulheres. Alguns eram feitos só com vegetais e um deles me intrigou: patê de alho poró. Fazer patê com esse vegetal nunca tinha me passado pela cabeça, então depois de ler a lista de ingredientes pra me assegurar que aquilo era vegano, provei um pedacinho de pão com o tal patê que estava sendo oferecido pra degustação. Adorei! Infelizmente a empolgação pra provar o patê fez com que eu lesse a lista de ingredientes rápido demais e ao checar o potinho novamente, dessa vez com calma, me dei conta que tinha ‘acciuga’ ali e essa palavra significa ‘anchova’. Ai! Acontece desses incidentes na vida de uma vegana. Por razões óbvias não levei o patê pra casa, mas depois de conversar com a senhora que produzia os patês descobri que ela usava uma quantidade ínfima de anchova naquela preparação (‘Só um pouquinho’, ela me garantiu), então me animei pra fazer uma versão vegana na minha cozinha, já que acredito que o peixinho poderá ser substituído por um ingrediente vegetal de sabor forte (tenho algumas ideias…).

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9- Panforte

Mais uma receita tradicional toscana que, pra nossa grande felicidade, é geralmente vegana (algumas pessoas usam mel, então é preciso perguntar antes de degustar). Panforte é um doce feito com frutas secas, oleaginosas (geralmente amêndoas e avelãs), açúcar e farinha e é assado, tradicionalmente, em um forno à lenha. O resultado é mais denso e pesado do que um bolo, pois a quantidade de frutas secas é bem maior do que a de farinha, e se você me perguntar, ele é bem mais gostoso também. Um pedacinho é mais que suficiente pra adoçar a sua tarde. Na verdade eu já tinha provado panforte em outras visitas à Itália, mas aquele vendido na feira orgânica foi, de longe, o melhor de todos. Além de ser feito como manda o figurino (cozinho no forno à lenha), ele tinha uma mistura simples e harmoniosa de amêndoa, damasco, laranja e especiarias (além desses ingredientes só tinha mais farinha de trigo semi integral e açúcar na receita). Delícia com um café amargo. (Pra mim todo doce fica melhor com café amargo:)

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10- Torta de ceci

Também chamada de cecina (ou farinata em outros lugares da Itália), é mais uma especialidade italiana naturalmente vegana e absurdamente deliciosa. Eu sabia que preparações à base de farinha de grão de bico eram comuns em várias regiões da Itália e nessa última viagem à Toscana pude, enfim, degustar essa maravilha. Provei pela primeira vez durante o almoço coletivo depois da feira orgânica e quase caio da cadeira com a deliciosidade da coisa e com o sabor aparentado com ovo. Não sei o quem tem na danada da farinha de grão de bico, mas fica realmente parecido com um omelete, só que muito melhor e sem aquele cheiro característico que desagrada muitos nos omeletes tradicionais. No mesmo dia, passeando sem roteiro definido por Livorno, encontrei por acaso o lugar onde é feito a torta de ceci mais famosa da região. Empolgada pela recente descoberta decidi entrar, apesar de ainda estar com a barriga cheia do almoço na feira. Era uma sala pequena, aquecida pelo grande forno à lenha, sem nenhuma placa ou letreiro na entrada. Só descobri que ali se vendia torta de ceci porque fui seguindo, discretamente, as pessoas que passavam com uma na mão. O lugar estava abarrotado de nativos degustando suas cecinas em pé, pois não tinha mesa ali. E como também não tinha cardápio, apenas números escritos em uma pequena lousa, que só os entendidos entendiam, não soube o que dizer quando a minha vez de fazer o pedido chegou. Apontei pro que a pessoa do meu lado estava comendo e a dona do local insistiu pra que eu repetisse o meu pedido em italiano: “5 e 5 con melanzane”. “5 e 5″ é um sanduíche típico de Livorno, recheado com torta de ceci. Tem o simples e o ‘con melanzane’, ou seja, com berinjela (frita). Foi um dos melhores sanduíches que já comi na vida e desde então sonho com ele.

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Quando descubro que em algum lugar a comida mais popular e barata, encontrada em todas as esquinas, é naturalmente vegana (torta de ceci em Livorno, falafel em vários países árabes, kushari no Egito…) eu sempre penso na maravilha que é ser vegana(o) nessas latitudes. E me convenço mais uma vez que se no Brasil, e em muitos lugares do mundo, a comida mais barata e fácil de ser encontrada nas ruas é cachorro-quente e outros sanduíches entupidos de produtos de origem animal, é por razões puramente culturais. Não é impossível ter comida vegana acessível e popular, mesmo entre os onívoros, como prova a culinária tradicional desses lugares.

Mas voltando à torta de ceci, fiquei fascinada com esse prato e pedi pra Marco, o companheiro de Giada, me ensinar a receita. Desde que voltei da Toscana tento reproduzir a gostosura que provei em Livorno, mas apesar de ter obtido resultados satisfatórios depois de algumas tentativas, minha torta de ceci nunca fica tão maravilhosa quanto a que provei em Livorno. Tenho certeza que o forno à lenha faz toda a diferença, mas também desconfio que a farinha de grão de bico usada na Itália seja mais fina. Essa receita é parecida com meu omelete de grão de bico (minha receita foi inspirada da original, à base de farinha de grão de bico), mas o resultado é diferente. Gosto dos dois, mas a receita que usa farinha de grão de bico ganha no quesito praticidade. Por isso decidi compartilhá-la aqui no blog. E também porque mesmo sem ter sido assada no forno à lenha e degustada nas ruas de Livorno, em uma tarde de outono toscano (o que multiplica o sabor da receita por 3), essa torta de ceci é muito gostosa. 

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Torta de ceci (omelete de grão de bico italiano)

Dependendo da sua farinha de grão de bico, você vai precisar de mais ou menos água. Meu amigo italiano usa três medidas de água pra cada medida de farinha, mas não tive muito sucesso seguindo essas indicações. Eu uso 2 medidas de água pra cada medida de farinha, mas talvez sua farinha precise de um pouco mais de água do que a minha. Só testando pra saber. Se demorar muito pra cozinhar e ficar muito mole, use menos água da próxima vez. Se a torta ficou pesada, use menos. Também uso menos óleo que o meu amigo, mas ele é um ingrediente importante pro sucesso da receita, então não aconselho usar menos do que a quantidade indicada abaixo. Ele me explicou que não usa azeite nessa receita porque ele interfere no sabor. A massa precisa descansar pelo menos 6 horas antes de ser preparada, então essa não é uma receita pra fazer de última hora.

2 x de farinha de grão de bico

4 x de água

5 cs de óleo vegetal neutro (uso girassol, mas meu amigo usa óleo de amendoim)

Sal e pimenta do reino a gosto

Despeje 1 x de água sobre a farinha de grão de bico e bata bem com um garfo pra dissolver os grumos. Quando a massa estiver bem lisa junte o resto da água, uma pitada generosa de sal e misture bem. Deixe descansando, coberto com um pano de prato limpo, por no mínimo 6 horas. Pode deixar descansando de um dia pro outro, mas se o tempo estiver quente não deixe sua massa descansar mais de 8 horas, pois ela vai fermentar (pode consumir a massa fermentada sem problemas, mas o sabor não é tão bom). Depois do descanso junte 4cs de óleo e misture novamente. Prove e ajuste o sal, se necessário. Espalhe a última colher de óleo em uma forma ou placa média e despeje a massa. A camada não deve ficar muito espessa, nem muito fina, então o tamanho da forma é importante. Leve ao forno médio/alto (não precisa pré-aquecer) e deixe assar até ficar bem dourado. Dependendo do forno isso vai levar de 45 minutos à 1 hora. A torta de ceci está pronta quando tiver bem dourada nas bordas e em cima. Se seu forno tiver a função ‘grill’, use nos últimos minutos pra deixar sua torta ainda mais corada. Polvilhe com pimenta do reino (de preferência moída na hora) e deixe esfriar um pouco, pra que ela fique mais firme e mais fácil de ser cortada, antes de degustar. Rende aproximadamente 4 porções.

Passei o último fim de semana na cozinha, ajudada por muitos pares de mãos e cercada por sorrisos. O retiro gastronômico na Serra Negra-PE, organizado pelo pessoal da SVB Recife, foi uma delícia em todos os sentidos. Um grupo de pessoas maravilhosas, reunidas em um lugar lindo pra degustar alguns dos meus pratos preferidos! Foram dois dias nos esbaldando com quitutes veganos e nos sentido vingados por todas as vezes que viajamos e não encontramos nada (NADA!) 100% vegetal pra colocar no prato. A experiência foi tão gostosa que fiquei até com vontade de abrir uma pousada vegana na serra, com direito a restaurante gourmet, e fazer muitos veganos felizes (começando por mim mesma). Aqui vão algumas fotos pra dividir com vocês um pouquinho da gostosura que foi o retiro. (Preparem-se pra salivar: rolou até fondue de queijo vegano.)

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Agradecimentos especiais a Marcelo e Adriano, que fizeram todas as fotos que apareceram nessa página. Muito obrigada, rapazes. Sem vocês esse esse post não teria sido possível. E quem ficou curioso pra conhecer o lugar onde aconteceu o retiro, o Recanto Casa de Farinha, basta clicar aqui.

Algumas das receitas que preparamos juntos eram inéditas, mas algumas já apareceram aqui no blog, como ensopado marinho (com alga nori picadinha), tofu mexido com tomate e manjericão, pancake de banana e coco, salada de acelga, rúcula e abacaxi, salada de maçã, aipo e semente de girassol, sorvete de manga e coco (com cardamomo), quiche de tomate seco e espinafre (uma adaptação dessa receita)…

E uma das que mais fizeram sucesso foi o creme de feijão branco, alho e alecrim, que servi no café da manhã. Faz tempos que publiquei essa receita, mas acho que ela não chamou a atenção de muita gente. Ou talvez, como um dos participantes do retiro me explicou, tem tanta receita aqui no blog que algumas acabam se escondendo embaixo das outras. E como essa pasta fez muito sucesso, achei uma boa ideia postar a receita novamente, pois imagino que ela seja novidade pra alguns de vocês.

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Creme de feijão branco com alho e alecrim

Alecrim fresco é a estrela da receita, então nem pense em usar alecrim desidratado. Ervas desidratadas têm um sabor menos intenso e (sei que não vou surpreender ninguém com essa afirmação) menos “vivo”.

 2x de feijão branco cozido (sem tempero e escorrido)

1/2x de castanhas de caju (de molho por 6 horas)

3 dentes de alho picados

1 galhinho* de alecrim fresco

4cs de suco de limão

1/4x de água

4cs de azeite

sal e pimenta do reino a gosto

Em uma panela ou frigideira pequena aqueça o azeite. Quando estiver quente, mas não fervente, junte o ramo de alecrim, desligue o fogo e deixe descansar 10 minutos. Descarte o alecrim (se algumas folhinhas ficarem na panela não tem problema), aqueça o azeite novamente em fogo baixo e frite o alho até ficar bem dourado. Alho queima fácil então fique de olho na panela o tempo todo. Desligue o fogo, junte o feijão branco e mexa bem pra incorporar todo o azeite (assim o feijão “limpa” a panela e nem uma gotinha de azeite é desperdiçada).  Transfira tudo pro liquidificador, acrescente as castanhas escorridas, o suco de limão, a água, uma dose generosa de sal (usei quase 1cc) e pimenta do reino a gosto. Triture até as castanhas se desfazerem completamente e a mistura ficar super cremosa. À partir daí, bata mais 1 minuto (30 segundos-pausa-30 segundos) pra incorporar ar no creme e deixar a textura mais leve. Prove e corrija o tempero, se necessário. Sirva em temperatura ambiente, com pão, torradinhas ou palitos de legumes crus. Se conserva 4 dias na geladeira (talvez mais, mas sempre como tudo antes). Rende um pouco mais de 2x.

* Um galhinho de cerca de 5cm é suficiente.

(Abaixo o pessoal bacana que participou do retiro. Adorei ter conhecido vocês- e revisto quem eu já conhecia. Vou torcer pra que tenha outro retiro gastronômico no ano que vem:)

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