Entre a França, onde passei as últimas semanas de dezembro, e o Brasil, onde estou agora, fiz uma conexão de 24 horas em Lisboa. Eu tinha ido à Lisboa muitos anos atrás e lembrava de ter adorado a cidade. Mas como eu não era vegana na época, não sabia que opções de comida vegetal a cidade tinha pra oferecer. Eu só fiquei um dia na cidade, mas estava decidida a usar esse tempo pra passear pelas ruas dos bairros do centro histórico e comer no maior número de restaurantes veganos possível.

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19h

Cheguei no aeroporto de Lisboa e me dei conta que, por estar fazendo uma conexão, minha mala seria encaminhada diretamente pro destino final da viagem. Ops! Depois de ter passado na farmácia do aeroporto pra comprar escova de dentes, pasta e sabonete, peguei um taxi pra pousada onde eu iria passar a noite.

20h 

Já na pousada comecei a fazer pesquisas internéticas pra ver se tinha algum restaurante veg(etari)ano por perto. Depois de uma hora de surf virtual sem resultados (era primeiro de janeiro, estava tudo fechado) abandonei a missão e decidi que pedir pizza por telefone era a melhor solução. Eu queria descobrir os restaurantes vegs da cidade, mas precisava ser realista. E precisava colocar algo no estômago rápido.

21h

Na recepção da pousada pedi ajuda à uma simpática Eugênia, que sabia perfeitamente o que era veganismo e decidiu que seria sua missão encontrar um jantar 100% vegetal pra mim. Depois de uma hora telefonando pra várias pizzarias (a metade estava fechada, a outra metade não fazia entrega) conseguimos falar com alguém que estava disposto a trazer uma pizza vegetariana, mas sem queijo, pra pousada. O único problema era que por causa da grande quantidade de encomendas a pizza só chegaria dali a duas horas. Duas horas!!!

24h

Jantar, enfim! Pizza com vegetais, degustada no quarto da pousada, não era exatamente o que eu esperava pra minha primeira refeição na cidade, mas pelo menos não fui dormir com a barriga vazia.

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9h

Enquanto esperava a pizza da noite anterior explorei (virtualmente) todos os restaurantes vegetarianos e veganos da cidade e fiz a lista do que visitar durante o dia. Pra quem ainda não conhece, o site Happy Cow foi a melhor invenção depois do hummus. Se eu puder escolher entre um restaurante vegetariano e um restaurante vegano, prefiro sempre o segundo. Porque gosto de apoiar restaurantes 100% vegetais, mas também por uma razão puramente egoísta: pra ter o prazer de abrir um cardápio e saber que posso escolher qualquer prato (todos os pratos!) dali. Mas infelizmente dos três restaurantes veganos da cidade (segundo o Happy Cow) um estava fechado no dia 2 de janeiro e o outro ficava muito longe do meu caminho, então só pude visitar um. E os restaurantes vegetarianos só abriam pro almoço, logo ficou o problema do café da manhã. Decidi ir à uma padaria orgânica, na esperança de encontrar pelo menos uma opção vegana por lá. E só pra garantir deixei a pousada com o endereço de uma outra padaria, que ficava por perto, na bolsa.

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11h

Depois de ter passeado pelas ruas do centro e feito muitas paradas pra fotos, cheguei na tal padaria orgânica. Fechada. A segunda padaria estava igualmente fechada. Acabei encontrando uma padaria aberta, mas as opções veganas eram quase zero. Tomei um café com um pãozinho doce e nada mais. No meio de pastéis de nata, sanduíches de presunto e muitas quiches me dei conta que o café da manhã ainda é, em muitos lugares do mundo, a refeição mais difícil pros veganos.

13h

Depois passear mais um pouco pelas ruas de Lisboa, fiz outra pausa-café. Eu viajo assim: caminho, caminho, tomo café, caminho, caminho, tomo café… Eu tinha quase certeza que a resposta seria ‘não’, mas mesmo assim perguntei se tinha leite de soja pra fazer um cappuccino vegano. Os cafés só começarão a oferecer opções veganas quando perceberem que existe uma clientela…vegana. Por isso é tão importante sinalizar a existência dos veganos em cafés, restaurantes e lanchonetes.

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15h

O ponto alto da viagem-relâmpago: a visita ao restaurante vegano ‘Be Happy bar’. Esse lugar era vegetariano e está em processo de veganização. No dia que fui lá quase todos os pratos oferecidos eram veganos e a meta deles é oferecer um cardápio 100% vegano até o dia 12 de janeiro. Achei isso tão bacana que fiquei ainda mais feliz por ter ido comer lá. Provei: coxinha de legumes, francesinha (um sanduíche típico português em versão vegana, com legumes grelhados e seitan, servido coberto de molho de tomate), ‘peixe’ vegano (tofu enrolado em algas marinhas, empanado e frito, acompanhado normalmente com purê, mas no dia pedi que viesse com legumes) e cheesecake de limão com calda de cereja. Os pratos estavam muito bons, mas a sobremesa foi a vedete do almoço. Antes de ir embora tive dois dedinhos de prosa com os donos, um casal de brasileiros muito simpáticos. Recomendadíssimo! Pra quem quiser ir lá: Be Happy bar, rua Presidente Arriaga, 55, Alcantara.

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17h

No caminho entre o restaurante e a pousada fui invadida por pensamentos insanos. E se eu fosse morar uns tempos em Lisboa? E se eu alugasse uma casa ali, oferecesse oficinas de culinária e criasse um ‘pop up restaurant’? Aquele cheesecake colocou ideias na minha cabeça…

19h

De volta ao aeroporto, me despedi da cidade decidida a voltar ali em breve e ficar bem mais do que 24 horas.

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*As fotos 1, 6, 11, 12 e 21 foram feitas por Anne Paq.

Tempos atrás criei uma tradição aqui no blog: encerrar o ano escolhendo os melhores posts do ano. Mas 2014 não foi um ano como os outros. Ele foi regido pela instabilidade (geográfica, legal, emocional e financeira) e pela primeira vez desde que criei o Papacapim, no início de 2010, abandonei o blog por várias semanas consecutivas, várias vezes. As dificuldades pessoais foram tamanhas que não pude manter o ritmo regular de postagens que sempre tive, tirando uma ou outra exceção, e teve períodos onde as teias de aranha reinaram por aqui. Ao ponto de ter chegado a receber um email de uma leitora perguntando se o blog tinha acabado.

Por isso a lista dos melhores posts desse ano será mais curta do que a dos anos anteriores e não terá nenhuma receita (ou quase). Quando tentei escolher minhas receitas preferidas de 2014 percebi que publiquei poucas esse ano, mas que, talvez justamente por isso, todas elas são muito especiais pra mim. Esse ano vou dar uma de mãe e declarar que amo todas as minhas crias do mesmo jeito. Se você ainda não viu o que saiu da minha cozinha em 2014 recomendo que leia tudo com atenção. Esse ano a safra foi reduzida, mas recheada de pérolas.

Então aqui vai minha seleção, um mix de coisas relacionadas ao veganismo, histórias pessoais e pessoas maravilhosas que me deram a honra de aparecer por aqui.

Guia Vegano de Amsterdã. O mais completo e saboroso que fiz até hoje.

Um questionário muito especial, respondido pela minha melhor amiga e por mim (e a sobremesa que encantou todas as pessoas que a provaram).

Quando me apaixonar não estava nos meu planos, mas aconteceu mesmo assim.

O post que respondeu uma das perguntas que me fazem com mais frequência.

Entrevistei pessoas incríveis esse ano. Bárbara e Suzy, que se juntaram à Ingrid e compartilharam dicas de alimentação saudável pra crianças. Lobo e Samara, contaram como o veganismo entrou em suas vidas. E o discurso forte e revelador de Haidi, uma ativista israelense.

Quando expliquei o silêncio por aqui e provoquei uma enxurrada de comentários transbordantes de afeto, o que me emociona sempre que volto lá.

E, claro, o tour vegano na Palestina, com depoimentos dos participantes.

Obrigada por terem acompanhado o blog, apesar das ausências e das teias de aranha. Que 2015 seja luminoso pra todos nós e recheado de delícias vegetais. E está aberta a temporada de pedidos de posts pro ano que vem: não sejam tímidos!

Um dia, quando morava na Palestina, tive uma ideia louca: levar um grupo de brasileiros pra lá e dividir com eles um pouco do que vi, vivi e presenciei naquelas terras. A luta por justiça, a criatividade na maneira de resistir a ocupação militar israelense, a dignidade do povo, mas também as paisagens, a comida, os sorrisos… A ideia de um tour político-gastronômico-ativista morou no meu peito durante alguns anos, mas eu sempre pensava: “Quem seria louco ou louca o suficiente pra ir até a Palestina fazer um tour desses com a minha pessoa?”.

Esse ano a minha vida, que já era meio torta, deu várias cambalhotas e resolveu ficar definitivamente de cabeça pra baixo. Então pensei que já que eu estava no meio de um turbilhão, o momento era ideal pra ousar uma maluquice dessas. Coloquei esse post aqui no blog e imediatamente depois fui tomada por uma mistura de excitação e dor de barriga. Eu não sabia se levantava e dançava de alegria ou se corria pro banheiro. Eu estava convencida que a ideia era um dos maiores absurdos que já tinha saído da minha cabeça, mas ao mesmo tempo algo dentro de mim dizia que se a coisa fosse pra frente seria um absurdo tão maravilhoso que valia a pena tentar. Pra minha grande alegria, e espanto, começou a chover e-mails de pessoas interessadas em participar do tour. (Tantas, na verdade, que já tem mais dois tours programados pra 2015!)

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Então deixei Bruxelas, que foi meu lar durante o último ano, e peguei o avião que me levaria de volta pra Palestina, depois de um ano e meio sem colocar os pés lá. Cheguei uns dias antes do início do tour pra organizar tudo e dia 4 de novembro fui encontrar o grupo em Jerusalém Oriental. Passei os dias que antecederam esse encontro com a mesma mistura de excitação e dor de barriga que senti no dia que anunciei o tour aqui no blog. E pouco antes do horário marcado pro encontro tive uma leve crise de pânico. O medo de decepcionar o grupo, de não estar à altura das expectativas do pessoal e de ter planejado a pior viagem de todos os tempos me invadiu e eu não parava de repetir que não queria mais fazer tour coisa nenhuma e que, com licença, me deixem ir embora correndo.

Mas não saí correndo. Pude dividir um pouco da Palestina que me emociona e me inspira com um grupo de pessoas maravilhosas, passei 14 dias incríveis e fiz um dos trabalhos mais significativos da minha vida. E além dos cinco brasileiros que decidiram embarcar nessa aventura o acaso trouxe uma islandesa pro nosso grupo, porque loucura pouca pra mim é bobagem. Nosso grupo era um óvni. Imaginem eu explicando a empreitada pros palestinos: “Opa! Tudo certinho? Eu tenho um blog de culinária vegetal em Português e estou guiando uns brasileiros, não, essa daí é islandesa (não, nem irlandesa nem finlandesa, islandesa da Islândia), num tour político-gastronômico pela Palestina e nós gostaríamos de bater um papinho sobre o papel das mulheres no movimento de resistência popular contra a ocupação. Pode ser?”. Juntos vivemos coisas intensas, emocionantes, revoltantes e inspiradoras. Nas fotos vocês podem ver alguns dos lugares que visitamos e algumas das pessoas, principalmente palestinas, mas também israelenses,  que encontramos durante essas duas semanas (muitas não apareceram nessas fotos).

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Além das visitas e dos encontros com pessoas que contam imensamente pra mim e que fazem um trabalho remarcável na luta por justiça, também teve a descoberta da culinária palestina, que oferece inúmeras opções veganas. Cada participante comeu o dobro do seu peso em hummus e falafel. Tinha três veganos (contando comigo), três vegetarianas e uma onívora e embora todas as refeições preparadas no nosso lar provisório (no campo de refugiados de Aida) fossem veganas, deixei bem claro que cada um era livre pra se alimentar da maneira que preferisse. Tive receio que a onívora da turma se sentisse mal (julgada, criticada, oprimida), mas ela me garantiu, com a boca cheia de hummus, que estava tudo tranquilo e que ela podia sobreviver muito bem duas semanas sem carne.

No final da viagem pedi que cada participante dividisse suas impressões e quero compartilhar com vocês o que cada um escreveu (o texto não foi editado por mim, está do jeitinho que cada pessoa escreveu).

“Permaneci, durante os primeiros dias da viagem, endurecida pela iminente tensão sionista, como se tivesse ativado um mecanismo de defesa, afinal, envolver-se nos deixa mais vulneráveis ao sofrimento. Já conhecia a questão palestina e meu objetivo era o contato mais próximo com a luta, mas numa posição analítica, e não emotiva.

Durante a manifestação em Al Ma’sara, Yasser, um menino de 14 anos aproximou-se e perguntou:

- I love Palestine. – e, apontando pra mim – I love Palestine?

Respondi:

- Yes, I love Palestine.

Lembro da sensação instantânea de meu coração amolecer, e a certeza da inevitabilidade de me apaixonar por esse lugar. Palestina tem algo, uma força solidária que te acolhe como um abraço entre irmãos. Impossível não se embriagar pela força e generosidade do povo, pelo Al-Corão sendo entoado pelas altas torres da mesquita, pelo aroma das lojas de especiarias, pelas conversas regadas à chá e café… pois bem, minha visão analítica virou praticamente uma atrapalhada carta de amor adolescente, resultado de uma experiência que ainda não digeri, mas que faz bater aquela dor aguda no peito quando acordamos de manhã, sentindo a ausência da distância, e a certeza de que parte de mim ficou confinada pelo muro, esperando pelo retorno. Quem sabe ano que vem? Ainda guardo a chave.” (Nozomi)

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“Escrever sobre a experiência daqueles dias na Palestina, é como querer contar uma história que não sabemos do final. Sabia que seria uma grande aventura e de várias descobertas, tanto físicas como espirituais, mas da esperada aventura que duraria supostamente 14 dias, ainda sinto intensamente que jamais voltarei. A cada dia, reflexões, aprendizados e lições me transformam a cada amanhecer. Muito agradecido e feliz por te feito parte desse grupo nessa experiência única e engrandecedora.” (Josias)

“Há quase três anos conheci o Papacapim. Eu já era vegetariana e, decidida em me nutrir corretamente, já fazia minhas incursões tímidas na cozinha. Quando encontrei o blog de Sandra, percebi que havia encontrado ouro. Excelente escrita, lindas fotos e um detalhamento nas receitas que me levaram a uma temporada de testes, cada dia duas ou três receitas por uns dois meses. Depois dessa temporada comecei a receber pessoas em casa para jantares e percebi que, por causa de Sandra, minhas habilidades culinárias tinham atingido um outro nível. E entre uma receita e outra, vinham notícias da Palestina. A história de Sandra e seu ativismo me comoveram de tal forma que comecei a contá-la por aí, e a minha atenção às notícias que de lá chegavam ganharam um novo significado.

Mas apesar de ler notícias sobre o assunto, parte de mim não conseguia exatamente compreender ou formar uma imagem mental da situação, e minha forma de atuar no mundo parte do princípio que eu não posso agir sem antes compreendê-lo. Sou uma pessoa visual e só concebo, vendo.

Quando li o post que anunciava a viagem foi um “sim” automático. Corajoso, impulsivo e inconsequente, mas caiu como sopa no mel nesse momento da vida. E decidi ainda que gostaria de tentar mostrar ao mundo, ao meu modo, o que quer que eu encontrasse. Portanto, munida de um equipamento humilde, decidi experimentar registrar o tour em vídeo.

Num primeiro olhar, eu esperava uma situação muito pior. Quando Sandra disse que ficaríamos num campo de refugiados, a imagem mental que eu fazia era uma mistura de favela e um cenário apocalíptico. Mas não, o campo de refugiados é na verdade um lugar de boa aparência. A casa de Islam e as instalações em geral eram bem confortáveis, e dentro do campo eu me senti absolutamente segura, mesmo andando sozinha e à noite.

Durante a viagem encontramos seres humanos extraordinários que fazem coisas extraordinárias. Resistem à ocupação Israelense, cada um ao seu modo, com extrema solidariedade, resiliência e criatividade. Recebemos a generosidade de todas as pessoas que Sandra nos apresentou. Percebemos também que o papel do estrangeiro por lá é vital. Nossa presença lá realmente é de grande ajuda.

E num segundo momento, imergindo nas informações que chegavam, do ponto de vista político, concluí que a situação era na verdade muito pior do que eu poderia imaginar. A violação dos direitos humanos é perversa e humilhante. Encurrala e desola. Ainda estou buscando palavras para formular juízos sobre o que vimos. E um sentimento de dualidade me tomou – há muito o que se fazer, mas é difícil demais fazer algo efetivo para modificar essa situação.

E não vou dizer que tudo foram flores. Confesso que, apesar de termos comido muito bem, tive problemas com o veganismo. Fiquei doente, triste, confusa e devagar. Também por conta da carga emocional do que estávamos presenciando, que pra mim, foi bastante pesada.

Mas ainda assim, apesar de tudo, saí de lá inspirada. É hora de refletirmos sobre as nossas decisões, sobre os nossos posicionamentos e os privilégios que temos, que não são compartilhados pela maioria dos seres humanos neste planeta. É momento de agir. Ainda que os problemas pareçam grandes demais, que nossas vidas pareçam já ter complicações suficientes, precisamos tentar mudar o mundo um projeto de cada vez, uma pessoa de cada vez, um passo de cada vez.

Eu poderia ler e pesquisar por quantos anos fossem, e nada nunca poderia substituir o fato de que eu estive lá e me encontrei com essas pessoas e experimentei um pouco da cultura, da alegria, do sofrimento e da luta Palestina. Estou feliz por ter vivido essa experiência. O desafio agora é como traduzir essa vivência e os videos captados em um produto.

Minha profunda gratidão à Sandra e a todos que nos receberam de braços abertos.” (Bianca)

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“Viajar é a possibilidade de sair do seu conforto e ser confrontado por uma realidade diferente. Quando há interesse por uma causa, além de pesquisar e estudar, a vivência concreta dentro daquele mundo é uma oportunidade de testar na prática aquilo que se acreditava ser o justo. Fui à Palestina como um ser, regressei sendo outro. Uma subjetividade externa se emaranhou em minha essência reforçando meus interesses e ideais. Vi tristeza, vi humilhação, vi tortura e sobretudo vi e vivi a injustiça. Agradeço à todos que participaram direta e indiretamente dessa transformação. Os momentos vividos e as pessoas extraordinárias que conheci sempre farão parte da minha lembrança, e principalmente, da minha existência.”  (Havana)

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Foram catorze dias de viagem, de momentos e vivências tão intensos que não sei nem por onde começar. Mas tenho que começar.

Eu poderia falar sobre os direitos humanos, sobre o direito à saúde, à educação, à moradia, a ir e vir, à infância e de como tudo isso não existe na Palestina. Poderia falar de histórias terríveis que as pessoas nos contaram, sobre assassinatos, sobre mandados de prisão contra crianças de 12 anos, sobre violência física e psicológica generalizada, sobre o medo, a revolta contida e sobre a impunidade dos soldados. Poderia falar do muro da vergonha, das construções obscenas feitas pelo governo israelense na Cisjordânia para, aos poucos, enclausurar e excluir a população palestina, e sobre a facilidade de aquisição de armas pelos residentes dessas construções ilegais. Poderia também falar sobre Hebron e a ONG que forma voluntários para servir de escudo humano e proteger as crianças de serem alvejadas com pedras atiradas por colonos israelenses no caminho à escola. Poderia falar sobre uma mãe que deixou seu filho sair no quintal enquanto a visitávamos, porque a nossa presença intimidou o soldado israelense que fazia a “ronda”, e assim o menino pôde passear em seu triciclo sem medo de ser alvo da crueldade alheia. Eu poderia contar sobre a infinidade de vezes que um dos nossos guias disse a frase “Palestinians are not allowed”, enquanto nos contava sobre as oliveiras de mais de 2000 anos de idade que tinham resistido bravamente ao passar dos anos, mas não resistiram às motosserras dos colonos israelenses. Mas prefiro compartilhar algo bonito dentro da tragédia, um momento de equilíbrio dentro do caos. 

Quando chegamos ao campo de Aida, fomos recebidos por uma família extraordinária. Sandra nos contou uma história trágica, ocorrida ali naquela sala, há não tantos anos, no mesmo lugar onde naquele momento compartilhávamos o jantar. Uma história que me marcou profundamente, e na qual não parava de pensar sempre que chegava ou saía de casa, passando ao lado da porta.

Mas, no penúltimo dia da viagem, na festinha surpresa organizada para o aniversário de Sandra, e sobre o mesmo solo, a filha mais nova dessa família presenteou a todos com uma dança típica palestina enquanto fazia caras e bocas, e todos os expectadores pudemos compartilhar sonoras gargalhadas. Todos aqueles sentimentos de desespero, frustração e raiva acumulados ao longo dos dias e existentes dentro de mim se esvaíram para dar lugar ao riso, à gratidão e ao amor, enquanto a menina pedia que marcássemos o ritmo com palmas para continuar dançando.

Se existe algo que eu gostaria de dividir, é que é muito fácil sentir descomunal ódio pelo país opressor, pelos seus nacionais e por tudo ao redor. Mas também é enriquecedor ver a resistência e a coragem de um povo desprovido de tudo o que se possa imaginar, enfrentando em seu dia a dia tantas imoralidades de maneira honrada, com a esperança de que um dia se faça justiça. Desejo do fundo de meu ser que seu brio, confiança e fortaleza moral lhes permitam caminhar na mesma direção.

Peço desculpas se meu relato pode ter parecido piegas ou clichê, apenas considero extremamente difícil colocar em palavras sentimentos tão profundos e tão controversos. E Sandra, habibti, obrigada pela oportunidade, pela paciência e pela sua enorme generosidade. Você é única. Palestinian people, may you always shine. Justice will come. Inshallah.” (Tati)

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Legendas das fotos (mais uma vez agradeço Tati por me deixar publicar algumas de suas fotos aqui no blog): 1- O muro de separação, construído ilegalmente por Israel em terras palestinas, em Belém.  2- Entrada do campo de refugiados de Aida, em Belém. 3-Na frente da nossa casa em Aida. 4 e 5-Pátio e frente da escola da ONU no campo de Aida, com o muro de separação no fundo. 6-Uma parte do muro em Aida. 7,8 e 9- Tour político do distrito de Belém, com Baha. 10- Zuleikha, nossa guia em Hebron (sul da Cisjordânia), no teto da sua casa. 11- A tela de metal que os moradores de Hebron colocaram em uma das ruas do centro, pra se proteger dos ataques dos colonos israelenses que ocupam a parte superior de alguns prédios (e parte da cidade antiga) e que jogam lixo e pedras nos passantes palestinos. 12-Check point (barragem militar israelense, que controla a passagem das pessoas) no centro de Hebron. 13- Tour político de Jerusalém Oriental, com Johanna. 14- O muro, que anexa terras palestinas ao território israelense e separa comunidades. 15- Apresentação de Sahar, uma ativista israelense, sobre a militarização da sociedade israelense. 16- Uma página de um livro didático israelense, ensinando crianças pequenas a contar. 17- “Aviso. Essa terra é ocupada ilegalmente. Estado da Palestina.” 18- Check point entre Belém e Jerusalém. 19- Os livros que o grupo levou pra casa, na Educational Bookshop, em Jersualém. 20- No campo de refugiados de Deheisha, o segundo maior da Cisjordânia. 21- Manal, uma ativista do vilarejo de Nabi Saleh, que falou sobre a presença das mulheres na resistência popular. 22-Tali, ativista israelense que trabalha com BDS (Boicote, Desinvestimento e Sanções), e que explicou a origem e a importância do movimento de boicote econômico, cultural e acadêmico a Israel. 23- Durante o protesto semanal em Nabi Saleh, contra o roubo das terras do vilarejo por colonos israelenses. 24-Mais uma foto do grupo, sem nossa querida islandesa (que fez a foto) durante a caminhada de cinco horas que fizemos no deserto, no caminho de Jericó.

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A parte 1 do tour pode ser vista aqui. E quem se interessar em participar do tour no ano que vem (ainda tem alguns lugares disponíveis), é só escrever pra papacapimveg@gmail.com

Eu não podia terminar esse post sem mostrar o meme feito por Nozomi e que fez a gente chorar de tanto rir. A foto foi feita por Tati, durante o protesto semanal no vilarejo de Nabi Saleh, e eu apareci nela por acaso.  Nada como correr pelos campos com uma ruma de soldados israelenses atirando gás lacrimogêneo atrás de você : )

TOUR