Lembram do tour Papacapim na Palestina que aconteceu em novembro? Se você é novo no blog, aqui vai um resumo breve. Ano passado decidi colocar em prática uma ideia antiga: guiar um grupo de brasileiros na Palestina, pra compartilhar um pouco da vivência incrível que tive naquela terra durante os cinco anos em que chamei a Terra Santa de lar. Foram duas semanas intensas, recheadas de momentos especiais e encontros inesquecíveis. Esses posts mostram um pouco do que vivemos por lá, com  relatos dos participantes  e muitas fotos:

Tour Papacapim na Palestina – parte 1

Tour Papacapim na Palestina – parte 2

Hoje eu vim trazer boas notícias. O sucesso do tour foi tanto que esse ano vou levar mais dois grupos pra lá, um em outubro (9 ao 23/10) e outro em dezembro (4 ao 18/12).

Ficaremos o tempo inteiro na Palestina, mais precisamente na Cisjordânia (a Faixa de Gaza não faz parte do nosso roteiro). Visitaremos Belém, Jerusalém, Hebron, Ramala, Jericó e Nablus. A hospedagem será no campo de refugiados de Aida, onde seremos temporariamente adotados por uma família palestina que faz parte do projeto que ajudei a criar alguns anos atrás.

 IMG_2982 copie

IMG_3325

Algumas das atividades programadas durante a viagem são: visita guiada dos campos de refugiados de Aida e Deheisha, tour político de Jerusalém Oriental, encontro com um Comitê de Resistência Popular, piquenique no deserto, caminhada de 6 horas em um oásis no caminho de Jericó, excursões gastronômicas pra provar as delícias típicas da região, aula de culinária tradicional (naturalmente vegana) com as mulheres do projeto no campo de refugiados de Aida, visita da feira de Belém, um dia relaxando no mar morto, encontro com ativistas palestinos e israelenses e muito mais.

O grupo de outubro ainda terá direito a um super bônus. Vamos participar da colheita de azeitonas e ver como essas frutas são transformadas em azeite. Vai ser mágico!

Os grupos são pequenos, com 6 pessoas cada, e estarei o tempo todo com os participantes, dormindo na mesma casa, partilhando informações, respondendo suas perguntas e dúvidas político-gastronômicas e ocasionalmente cozinhado pra turma.

IMG_7684

minha rua

Os objetivos dessa viagem são: mostrar a Palestina que não aparece nos jornais, com suas paisagens lindas, sua culinária e cultura ricas e seu povo caloroso e resiliente, mas também apoiar a economia local, que está sendo estrangulada pela ocupação israelense. Os participantes também vão descobrir as iniciativas de resistência não-violenta que florescem por todos os lados e que não ganham atenção da mídia, e encontrar os ativistas palestinos, mas também israelenses, que estão por trás delas.

Serão 14 dias inesquecíveis, com encontros emocionantes com pessoas que estão lutando por justiça na região e degustação de pratos e mais pratos de hummus, além de uma quantidade obscena de falafel. Porque mudar o  (nosso) mundo é muito bom, mas mudar o mundo comendo hummus e falafel é melhor ainda!

Quem quiser fazer parte dessa aventura só precisa mandar um e-mail pra papacapimveg@gmail.com pra receber todos os detalhes (programação completa + preços). E acredite, o preço do tour é muito menor do que você deve estar imaginando. Aviso importante: mais da metade dos lugares já foram reservados (nos dois tours), então se você quiser se juntar a nós, me escreva o mais rapidamente possível.

Espero te ver daqui a alguns meses ao redor dessa mesa, ouvindo histórias e degustando as delícias que a Terra Santa tem pra oferecer.

IMG_20141202_174320

Fotos: Monastério grego ortodoxo no deserto (perto de Belém), onde faremos um piquenique, Jerusalém, Mar Morto, o Muro de Separação (construído por Israel) no campo de Aida, onde ficaremos hospedados (foto de Anne Paq), a Rua da Estrela, no centro antigo de Belém, que leva à Igreja da Natividade e comida típica no restaurante ao ar livre Hosh Yasmin, em Beit Jala.

Faz tanto tempo que não escrevo um post da série ‘Como preparar…’ que acredito que o pessoal que chegou aqui há pouco tempo nem sabe que essa série existe. Um episódio que aconteceu no início de 2011 me mostrou, mais uma vez, que a maioria das pessoas que conheço não tem a menor ideia de como preparar legumes. Por isso resolvi escrever artigos explicando como preparar vegetais da maneira mais simples e saborosa possível. Desde então expliquei como preparar vários legumes, mas também quinoa, chia, missô, como fazer uma salada-refeição, como fermentar legumes e muito mais. Clique na página ‘Receitas‘ pra ver a lista completa de posts dessa categoria.

E o coming back hoje será em grande estilo. Não sei se a moda já chegou no Brasil, mas aqui na Europa (e nos EUA) já faz alguns anos que só se fala em kale. Essa folha humilde, cultivada há mais de 2 mil anos e que até o final da idade média era um dos legumes mais consumidos na Europa, estava fora de moda. Kale é um tipo de couve, membro da família das brássicas (a mesma do brócolis, couve-manteiga, repolho, couve-flor, couve de Bruxelas), que é provavelmente a turma de vegetais menos popular de todas. Por isso ele foi esnobado e trocado por verduras mais sexys e que agradam mais facilmente os paladares de hoje. Mas agora ele voltou com força total e é o vegetal mais in do momento.

IMG_20140927_140520

Por que esse burburinho todo ao redor do kale agora? Porque descobriram que ele é um dos alimentos mais ricos em nutrientes de todos. A comparação aqui é feita baseada na quantidade de nutrientes oferecidos por caloria e esse valor é realmente impressionante. Kale oferece mais proteínas do que qualquer outra verdura. Ele também tem ferro (caloria por caloria, ele tem mais ferro do que carne vermelha), cálcio, ômega 3 (!!!!) e muitas vitaminas. Uma xícara de kale cru oferece mais de 200% da vitamina A que necessitamos num dia,  mais de 130% da vitamina C e quase 700% da vitamina K! Essa última informação é muito importante, já que a vitamina K é essencial no processo de coagulação do sangue, é importante no desenvolvimento do esqueleto, na manutenção dos ossos e também no crescimento celular.

Se você está pensando que precisa urgentemente incluir kale na sua dieta, mas, droga!, essa hortaliça não é vendida na sua cidade, não precisa se aborrecer. Nossa couve-manteiga, aquelas folhas grandes que gostamos de refogar e servir acompanhando a feijoada, também é um boa fonte de proteínas, minerais, vitamina C e K. Faz sentido, pois como expliquei no início do texto o kale nada mais é do que um tipo de couve mais fina e frisada. Embora o kale seja realmente mais rico em nutrientes do que nossa couve (que, não custa repetir, também é uma bomba de nutrientes!), a verdadeira diferença entre os dois é gastronômica. Kale, já mencionei, tem folhas mais finas e o sabor é mais suave do que a nossa couve.

Na hora de escolher kale na feira e guardá-lo em casa, as dicas são as mesmas da couve. Escolha folhas de um verde escuro e vivo (evite as amareladas) e bem crocantes. Se as folhas estiverem moles e não fizerem mais barulho quando amassadas, elas não estão mais frescas e já perderam suas vitaminas. Pra conservar as folhas, e preservar as vitaminas por mais tempo, aqui vai uma dica que aprendi com a minha mãe: lave bem e envolva as folhas ainda molhadas em um pano de prato grande o suficiente pra cobri-las totalmente. Guarde dentro de uma vasilha de plástico tampada na geladeira. Guardadas assim as folhas se conservam uma semana.

E justamente por ter folhas mais finas o kale é uma delícia cru. O que faz muito sentido se você quiser aproveitar plenamente a vitamina C que ele oferece. Essa vitamina é muito sensível e não gosta de calor. Dependendo do método de cozimento (calor intenso ou moderado) boa parte da vitamina C presente no alimento é destruída. E como aqui na Inglaterra não tenho acesso à muitas frutas frescas nessa estação, o kale que trago da feira orgânica está sendo minha principal fonte de vitamina C no momento, logo quero aproveitá-la ao máximo.

Acredito que devemos a volta do kale à comunidade crudívora, por isso atualmente a maneira mais popular de prepará-lo é massageado, uma técnica muito usada nesse tipo de culinária. Mas kale pode ser preparado exatamente como couve: refogado, no vapor… (Veja como preparar couve aqui)

Adoro colocar essas folhas em sopas e feijões. Nesse caso acrescento o kale picadinho cru diretamente no prato onde será servido a refeição e despejo a mistura quente por cima. O calor da sopa/feijão é suficiente pra deixar as folhas tenras, mas preservando os nutrientes.

Kale massageado

Lave bem as folhas e retire os talos. Eles são comestíveis, mas com são bem duros não são muito bem-vindos em saladas. Guarde os talos e use (picado) em sopas, feijão ou em sucos. Pra retirar os talos basta segurar a folha na vertical, com o final do talo pra cima. Use a mão esquerda, se você for destra/o. Com sua mão livre passar uma faca amolada bem rente ao talo, de cima pra baixo, separando a folha. Repita do outro lado, cortando a segunda metade da folha. Você também pode usar as mãos pra fazer isso.

Corte as folhas (agora sem talo) em pedaços pequenos. Mais uma vez você pode usar as mãos aqui pra rasgar as folhas. Salpique uma pitada generosa de sal sobre as folhas picadas, mais um fio de suco de limão. O sal e o limão vão ajudar a quebrar um pouco as moléculas do kale e deixá-lo mais macio. Use as mãos pra massagear as folhas até elas reduzirem de volume e adquirirem um aspecto de cozidas (veja as fotos abaixo).

133A6848 133A6849

 Seu kale está pronto pra entrar em qualquer salada crua que você quiser. Não esqueça de acrescentar um fonte de gordura boa (azeite, óleo de linhaça, abacate) na salada, pra que todos os nutrientes sejam absorvidos pelo organismo (muitos nutrientes são lipossolúveis) e pro sabor ficar mais agradável.

133A6869

Salada verde com kale massageado, alface e brotos de alfafa

Se o sabor do kale parece forte demais pra você, aconselho misturá-lo com outras folhas de sabor suave. Nessa salada usei metade kale massageado, metade alface verde e roxa e um punhado de brotos de alfafa + minha vinagrete preferida. Opcional: toste sementes de gergelim e salpique sobre sua salada na hora de servir.

133A6857

Kale massageado com laranja e sementes de girassol

Esse é o tipo de salada de kale que faço com mais frequência. Adoro incluir frutas frescas e sementes nas minhas saladas e acho que um pouco de doçura natural é tudo o que você precisa pra deixar o sabor forte do kale mais palatável.

Faça o kale massageado como explicado na receita acima. Misture com pedaços de laranja. Aprenda e cortar a casca da laranja, e qualquer outra fruta cítrica, nesse post (que também conta uma história muito emocionante) e sementes de girassol ligeiramente tostadas (em um frigideira seca, por cerca de 30 segundos). Também uso minha vinagrete preferida aqui, mas você pode temperar a salada simplesmente com azeite e vinagre balsâmico, se quiser.

-Variações: substitua a laranja por maçã, pera ou abacate em cubos. Substitua as sementes de girassol por gergelim, sementes de abóbora, nozes, castanha do Pará ou amêndoas. Você também pode usar esse molho de tahine, que deixa a salada ainda mais especial.

Mais uma vez eu tive que ir na página ‘Sobre‘ e modificar o lugar de onde esse blog está sendo escrito. Cheguei em Londres dez dias atrás e estou me acostumando com essa cidade que adoro e que até então só tinha me acolhido como turista. Levo um tempo enorme pra pagar as compras, pois me atrapalho com as danadas dessas moedas (as formas variam e parece que o tamanho é inversamente proporcional ao valor, o que pra mim não faz muito sentido). Me sinto um pouco desorientada andando pelas ruas e por causa da mão inglesa nunca tenho certeza de que lado virão os carros. Tenho que ler o que está escrito no asfalto (‘look left’ ou ‘look right’) sempre que vou atravessar a rua.

Mas tem um parque a dois minutos da minha casa, uma feira no sábado e outra (orgânica) no domingo no meu bairro e duas lojas de produtos orgânicos pertinho da minha rua, recheadas de delícias veganas, onde os vendedores já me reconhecem. Dei a sorte de morar bem no meio da área onde boa parte dos cafés e restaurantes veganos da cidade se concentram. E, pra melhorar ainda mais as coisas, estou morando com uma moça que é chef vegana crudívora e que além de ser uma simpatia só fabrica kefir de água e kombucha (e divide comigo!), vai me emprestar esse livro e traz brownie (vegano, crudívoro e feito pela própria) pra mim. Eu não podia ter escolhido um lugar melhor pra estar.

IMG_20150308_230939

IMG_20150313_160235

Mais de um ano atrás escrevi esse post falando sobre o conceito de casa, o meu percurso atípico e uma pergunta que me fazem com bastante frequência e que sempre cria desconforto do meu lado. Deixei Bruxelas, o meu último domicílio fixo, em outubro do ano passado e desde então passei pela Itália, Palestina, França, Brasil e Inglaterra. Então nos últimos meses a pergunta que mais me fazem mudou e esse novo diálogo passou a ser repetido constantemente nas conversas com familiares, amigos e pessoas que encontro por aí:

 -Você mora onde?

-(eu) Em lugar nenhum. Estou de passagem.

-Há, há, há! Mas falando sério, onde você mora?

-(eu) Não moro. (Às vezes me sinto tentada a responder: “Na Terra.”)

-Como assim? Onde é a sua casa?

-(eu) Não tenho casa no momento.

-Mas você vai se mudar pra algum lugar, não vai? Vai ter uma casa um dia, não? Onde vai ser sua casa?

-(eu) Não sei ainda.

E a coisa continua por mais alguns minutos, durante os quais eu tento convencer a pessoa na minha frente de que não, não estou brincando e que sim, é possível não morar em canto nenhum e que no momento sou nômade.  Então a conversa termina com a pessoa declarando, de maneira mais ou menos explícita, que eu sou bem louca e que ela nunca poderia viver desse jeito. Ser chamada de louca não me ofende, mas a última parte me irrita bastante, embora eu tente dar uma resposta educada. Por que as pessoas sentem necessidade de me informar que não poderiam viver da maneira que vivo, como se eu esperasse isso delas, é pra mim um mistério.

(“Você é vegana? Eu nunca poderia deixar de comer carne/queijo!” Sem problemas, ainda podemos ser amigos. “Você é lésbica? Eu nunca poderia namorar uma mulher!” Não se preocupe, tenho certeza que tem homens héteros interessantes por aí. “Você tem uma relação aberta? Isso nunca daria certo pra mim!” Tudo bem, cada um procura o modelo de relacionamento que funciona melhor pra si.)

Então seguindo a tendência que o pessoal tem de explicar que o que funciona pra você não funcionaria de maneira alguma pra eles (EXATAMENTE!!!!), agora comecei a escutar o tempo todo: “Eu nunca poderia viver sem ter um cantinho pra chamar de meu.”

IMG_20150308_134416

IMG_20150315_134412

Embora eu ache que tem muitas maneiras possíveis de viver, e o fato de escolher uma não significa que acho as outras inferiores, a verdade é que essa vida de nômade não é a que mais me agrada. É a ideal no momento atual, mas não gostaria que fosse assim por muito tempo. Eu não gosto de ficar trocando de cama o tempo todo e preciso de um espaço meu pra me sentir emocionalmente equilibrada. E quem acompanha esse blog há tempos percebeu que as receitas não aparecem mais com a frequência de antes. Culpa de viver pulando de casa em casa, sem poder carregar o meu material de trabalho comigo. A vida de cozinheira itinerante também me fez descobrir algo óbvio: a inspiração aparece com menos frequência quando estou constantemente preocupada em encontrar o meu próximo teto. Apesar da minha vontade de guardar as malas no armário, comprar lençóis de algodão egípcio com  dois mil fios (se é que isso existe) e ter um jardim onde plantar manjericão e alecrim, vou continuar na estrada durante um tempo.

Pra quem ficou curioso sobre o que está acontecendo do lado de cá da tela no momento aqui vão algumas notícias. Ficarei em Londres durante os próximos seis meses, trabalhando com culinária vegetal e aprendendo a contar moedas de libras. Estou atualmente procurando emprego em um dos maravilhosos restaurantes veganos da cidade e também vou cozinhar em ‘supper clubs’ e outros eventos independentes (sexta participo do primeiro!), além de continuar oferecendo oficinas de culinária. Leitores que moram em Londres, se vocês quiserem participar de uma oficina de culinária ou quiserem que eu cozinhe em algum evento, é só me escrever. Aliás, mandem sinal de fumaça através dos comentários ou via email pois eu ficaria bem feliz em encontrar vocês pra tomar um chá e trocar ideias.

IMG_20150314_150435

IMG_20150314_150635

Cenas dos próximos capítulos desse blog. O Papacapim acaba de completar cinco anos e pra comemorar a data em breve aparecerá aqui uma série de posts muito especial, que vem tomando forma no meu coração há quase dois anos. Também pretendo aproveitar esses seis meses aqui pra provar todas as delícias veganas que a cidade tem pra oferecer e fazer uma versão atualizada e bem mais completa do Guia Vegano de Londres. E vou publicar muitas receitas, claro, incluindo o agora famoso brownie vegano e crudívoro da minha nova amiga. Muitas pessoas queridas aparecerão por aqui, vai ter muita comida saborosa, dicas de nutrição e vida vegana e algumas surpresas.

Então enquanto eu estiver puxando uma mala, sem domicílio fixo, sem cama que seja só minha e sem jardim pra plantar manjericão, a minha casa vai ser o blog.

 *Sobre a comida que apareceu nesse post: a torta é de manga e coco (crudívora) e as duas fotos que aparecem depois são de cafés da manhã típicos daqui, só que em versão vegana (com cogumelos, panqueca de batata, salsicha vegana, espinafre, tomates grelhados, pão torrado e os tradicionais ‘baked beans’- feijão branco em um molho de tomate ligeiramente adocicado).IMG_20150317_225832