Se alguém estava se perguntando por que esse blog anda tão silencioso, a resposta é: eu estava viajando. Acabo de chegar de uma semana em Paris, então pensei em dividir algumas imagens com vocês.

IMG_20140409_120557IMG_20140412_124045IMG_20140412_122316IMG_20140408_233242IMG_20140409_194621IMG_20140412_121752IMG_20140410_164531

IMG_20140412_123652

IMG_20140407_184605IMG_20140410_163734IMG_20140410_170056 IMG_20140411_084611IMG_20140412_122904IMG_20140412_123915

Eu estava pensando com os meus botões essa semana sobre o quanto o meu repertório de saladas é vasto e interessante. Antes de abraçar uma alimentação totalmente vegetal salada pra mim significava alface, pepino e tomate, regados com azeite e, se eu estivesse me sentindo particularmente gourmet, umas gotinhas de vinagre balsâmico. Hoje sou capaz de fazer saladas originais e surpreendentes com quase todos os ingredientes que passam pela minha frente.

Já faz alguns meses que cozinho regularmente pra uma família onívora que adora vegetais, mas não sabe nem tem tempo de prepara-los. E apesar deles gostarem de tudo que faço (até hoje o único prato que não foi aprovado foi a minha amada sopa missô, mas sei que ela nunca será uma unanimidade), minhas saladas conquistaram o coração desses belgas. Eles gostam tanto que me enviam mensagens durante o jantar pra dizer o quanto estão apreciando minhas preparações. Os coitadinhos sofriam do mesmo problema que eu: o repertório de saladas deles era extremamente limitado e nem um pouco excitante.

Minhas saladas são geralmente improvisadas com os ingredientes que encontro na cozinha, raramente compro ingredientes específicos pra fazer uma salada específica (a menos que eu esteja desejando algo como essa maravilha aqui). E você deveria fazer o mesmo. Essa regra é válida pra qualquer receita, porém saladas, mais do que qualquer outro prato, dependem totalmente da qualidade dos ingredientes utilizados. Por isso a receita pra fazer saladas deliciosas é ir à feira sem lista de compras e manter os olhos e as narinas bem abertos, à procura dos tesouros do dia. Volte pra casa com os vegetais mais frescos, suculentos e perfumados que encontrar e você estará a um passo de ter saladas inesquecíveis na mesa.

A segunda regra pra criar saladas deliciosas é escolher a mistura de ingredientes com sensibilidade. No dia-a-dia prefiro saladas simples, com um número pequeno de ingredientes. Se você tem à sua disposição vegetais capazes de ganhar um concurso de  Miss (Miss Sabor e Aroma:) essa é a rota que você deve seguir. Você pode fazer uma salada com apenas um ingrediente (no verão, quando os tomates estão na sua melhor forma, gosto de degusta-los sozinhos, com uma vinagrete leve e algumas folhinhas de manjericão), mas nesse post gostaria de mostrar como construo o tipo de salada que faço com mais frequência, caso vocês sofram de falta de criatividade saladal.

Na hora de compor as saladas que aparecem diariamente na minha mesa gosto de combinar dois vegetais (dois legumes ou um legume e uma fruta) e pelo menos um deve ser cru (muitas vezes os dois são crus). É importante utilizar vegetais que se harmonizam entre si. Se você não sabe direito o que isso quer dizer, aqui vai uma dica: pense em sabores que se complementam. Se estiver usando um ingrediente amargo (radicchio, endívia, chicória, toranja, pomelo…), junte um ingrediente adocicado (frutas doces, frescas ou desidratadas). Se estiver usando um vegetal ácido (frutas cítricas), utilize algo rico e denso (como abacate ou um molho cremoso). Se um dos ingredientes tiver um sabor muito intenso (cogumelos escuros, tomates secos, alcaparras), compense combinando com um ingrediente suave. O objetivo aqui é equilibrar os sabores e realçar os ingredientes, não anula-los, então cuidado pra não combinar algo de sabor muito delicado com algo de sabor muito potente: o primeiro pode desaparecer diante da força do segundo.

Além do sabor, a textura também deve ser levada em consideração. Macio com crocante, ingredientes mais secos com outros suculentos… Ter texturas diferentes na mesma garfada aumenta o prazer da degustação, por isso incluo sempre um vegetal cru nas minhas saladas: além da abundância de vitaminas, ele traz aquele toque crocante que deixa qualquer receita mais interessante.

E falando em ingredientes crocantes, aqui vai a dica que me fez ter vontade de escrever esse post: acrescente sementes, muitas sementes, nas suas saladas. Também gosto de usar todos os tipos de castanhas (do Pará ou de caju, amêndoas, nozes, pistaches, avelãs), mas como minha alimentação já tem bastante (consumo queijo de castanha e leite de amêndoas todos os dias), estou começando a explorar o maravilhoso mundo das sementes. O outro motivo que fez com que eu aumentasse meu consumo de sementes e diminuísse o de castanhas foi puramente financeiro. Na Palestina castanhas eram relativamente baratas, mas aqui na Bélgica eles pesam mais no bolso. Já sementes, principalmente as de girassol, são baratinhas (enquanto um quilo de castanha do Pará -orgânica- custa 14 euros, um quilo de semente de girassol-também orgânica- custa menos de 3 euros).  E como tento dar prioridade à alimentos produzidos localmente, faz sentido comer maiss sementes (cultivadas aqui do lado, na França) e menos castanhas (que vieram de longe).

Mas apesar da minha motivação inicial ter sido o meu orçamento pequeno, hoje consumo sementes porque me apaixonei pelo sabor. Linhaça, chia e gergelim fazem parte da minha alimentação há tempos, mas agora estou consumindo sementes de girassol e de jerimum (abóbora) aos punhados! E além de serem deliciosas, sementes são um concentrado de nutrientes (gorduras boas, proteínas, fibras, vitaminas e minerais). Comecei usando sementes de maneira tímida, mas isso mudou alguns meses atrás. Trato sementes como um dos elementos que compõem a salada, não como um condimento. Ao invés de salpicar um pitadinha aqui e outra acolá, junto algumas colheradas cheias de sementes às minhas receitas. A textura fica mais interessante, o sabor mais intenso e aproveito melhor os nutrientes que elas oferecem.

Mas se você não tem intimidade nenhuma com sementes, talvez seja mais prudente começar a utiliza-las com parcimônia, pra dar uma chance às suas papilas de se adaptarem aos novos sabores. E pra que os nutrientes sejam assimilados em maiores quantidades, você deve deixa-las de molho durante 12 horas antes de consumi-las. Confesso que nunca faço isso (esquecimento), mas sempre tosto ligeiramente antes de acrescenta-las aos meus pratos. Isso libera uma quantidade maior de nutrientes (menos do que quando as deixamos de molho, infelizmente), mas pra mim é uma etapa fundamental por outro motivo: o calor deixa as sementes mais crocantes, perfumadas e melhora ainda mais o sabor.

E se a criatividade saladal ainda não chegou aí, aqui vão umas receitinhas ultra simples pra te inspirar. E um super bônus: a minha vinagrete preferida, que transforma qualquer salada boba em algo interessante e que tem um ingrediente surpresa (pulando de empolgação e me sentindo um gênio por ter pensando nisso SOZINHA!): semente de linhaça moída. Por que colocar linhaça no molho da sua salada? Eu poderia dizer ‘pra incluir mais fibras e ômega 3 da sua dieta, oras’, mas a verdade é que a quantidade utilizada aqui é pequena, logo os benefícios nutricionais também (embora seja sempre uma boa ideia acrescentar tiquinhos de linhaça aos seus pratos, pois no final do dia, juntando tudo, você terá consumido uma quantidade mais importante). Apesar dessa ideia ter partido de uma boa intenção nutricional, hoje acrescento linhaça às minhas vinagretes porque elas resolveram um pequeno problema que vagava sem solução pela minha cozinha.

Como consumo geralmente duas saladas por dia, passo bastante tempo fazendo vinagretes durante a semana. Não que seja um trabalho difícil, nem demorado, mas ao invés de preparar um porção só pra salada que eu estava prestes a consumir pensei que poderia fazer quantidades maiores, pra vários dias. Depois guardo minha vinagrete em um recipiente de vidro, bem fechado, na geladeira, e vou usando durante a semana. Só que o frio faz com que o azeite engrosse e se separe do vinagre. Nada que alguns minutos em temperatura ambiente, ou uma colher de água quente, não resolvesse. Eu disse que era um problema pequeno, micro, até. Mas depois de ter feito uma vinagrete com linhaça moída descobri o seguinte. Ela se mistura aos líquidos e cria uma emulsão perfeita, que não se separa no frio da geladeira. Micro problema resolvido e agora quando coloco a cabeça no travesseiro à noite me sinto a Einstein das panelas veganas.

Se você e todos os seus amiguinhos usam esse truque há anos, por favor não me conte. Permita que eu continue me achando sabida:)

 salada maça-aipo-girassol

Salada de maçã, aipo e semente de girassol

Eu uso cerca de 1/3x de sementes pra fazer uma salada pra dois. Se você não tem costume de consumir sementes, use uma quantidade menor. Gosto de juntar as sementes por último, pra que elas continuem crocantes.

1 maçã bem crocante, cortada em fatias finas

2 1/2 x de aipo cortado em fatias finas

1/3 x de semente de girassol descascadas (ou menos, de acordo com o seu gosto)

Metade da receita da minha vinagrete preferida (abaixo)

Misture a maçã e o aipo, regue com a vinagrete e misture bem. Despeje as sementes de girassol sobre uma frigideira (seca) e toste em fogo médio, mexendo de vez em quando, até elas começarem a ficar douradas e liberarem um aroma intenso. Polvilhe a salada com as sementes e sirva imediatamente. Rende 2 porções.

 salada beterraba-aipo-semente jerimum

Salada de beterraba cozida, aipo e semente de abóbora

Mais uma vez, adapte as quantidades de sementes de acordo com o seu gosto. E pros interessados em informações nutricionais, essa salada é uma bomba de ferro.

2 beterrabas médias cozidas, cortadas em cubinhos

2x de aipo cortado em fatias finas

1/3 x de semente de abóbora descascada (ou menos, de acordo com o seu gosto)

Metade da receita da minha vinagrete preferida (abaixo)

Misture a beterraba com o aipo, regue com a vinagrete e misture bem. Despeje as sementes de abóbora sobre uma frigideira (seca) e toste em fogo médio, mexendo de vez em quando, até elas começarem a se partir e liberarem um aroma intenso. Polvilhe a salada com as sementes e sirva imediatamente. Rende 2 porções.

 vinagrete com missô e linhaça

Minha vinagrete preferida

No mundo da gastronomia esnobe (aquele que nasceu lá na França) ‘vinagrete’ significa um molho à base de óleo (geralmente azeite) e vinagre usado em saladas. E a linguista que mora dentro de mim (ela passa a maior parte do tempo dormindo, mas de vez em quando acorda gritando), pediu pra eu dizer que ‘vinagrete’ é uma palavra feminina. A vinagrete típica francesa é feita com azeite, vinagre, mostarda de Dijon, sal e pimenta do reino. Essa foi a receita de base que inspirou a minha vinagrete preferida. Apesar da receita francesa usar mais azeite do que vinagre, eu gosto de usar quantidades iguais desses ingredientes, pois prefiro vinagretes mais leves (e mais ácidas). A receita abaixo deve servir de guia, mas sinta-se livre pra adaptar as quantidades de acordo com o seu gosto. Mas vou logo avisando que os sabores aqui são intensos. Se quiser fazer a vinagrete sem missô (por que? POR QUE??), lembre de juntar uma pitada de sal no final.

1/2 cs de missô escuro

1/2 cs de mostarda de Dijon (cremosa ou com os grãos inteiros)

4cs de vinagre balsâmico

4cs de azeite

1/2cs de linhaça moída

Uma pitada de pimenta do reino moída na hora

Misture o missô e a mostarda. Acrescente metade do vinagre e mexa bem pra dissolver tudo. Junte o resto do vinagre, o azeite e a linhaça moída e misture vigorosamente com a colher. Tempere com a pimenta do reino. Nesse ponto você deve provar a vinagrete e se quiser um sabor mais suave acrescente um pouco mais de azeite. Rende molho suficiente pra temperar uma salada grande, ou duas pequenas. Se quiser dobre a receita e guarde o resto na geladeira, em um recipiente de vidro bem fechado (se conserva uns 4 dias). A vinagrete vai engrossar um pouco (a linhaça vai continuar absorvendo líquido), mas nada que altere o sabor. Se quiser, junte 1cs de água pra que ela fique na consistência ideal.

 IMG_20140403_204145

E enquanto escrevia esse post no meu escritório fiz uma pausa pra degustar mais uma das minhas saladas com sementes. Essa aqui tem quantidades iguais de funcho (erva doce) e maçã, mais sementes de girassol tostadas e minha vinagrete preferida.

No início do mês Anne foi convidada pra participar de uma conferência em Marseille (sul da França), no dia internacional da mulher. O evento foi organizado pelas ‘Femmes en Noir’ de Marseille, um grupo criado em solidariedade com o movimento ‘Women in Black‘, formado por mulheres israelenses que lutam há 26 anos contra a ocupação israelense nos territórios palestinos. Se você nunca ouviu falar desse movimento, vale a pena visitar o website. E não deixem de ver também a foto-reportagem feita por Activestills (o coletivo de fotógrafos do qual Anne faz parte).

Mas voltando ao evento, Anne foi convidada pra falar da luta das mulheres palestinas contra a ocupação israelense, acompanhada de uma ativista palestina, Manal Tamimi (da cidade de Nabi Saleh) e de uma ativista israelense, Haidi Motola. Anne voltou pra casa com o discurso de Haidi na bolsa, pois tinha gostado tanto do que ela disse durante a palestra que decidiu publicar suas palavras no blog dela (se você ainda não conhece, vai lá: Chroniques de Palestine et d’Ailleurs). Eu, que não participei do evento, li o discurso de Haidi no metrô e, como era de se esperar, achei muito interessante e forte.

Eu já falei da situação na Palestina por aqui e espero que vocês tenham lido a série ‘Histórias Palestinas’, onde alguns dos meus amigos palestinos mais próximos dividiram fragmentos de suas vidas conosco. Então além de ter dado a minha opinião de estrangeira morando na Palestina, que não tem lá muita importância, procuro também dar a palavra aos habitantes da região, palestinos e israelenses, pra que eles contem histórias sobre a ocupação na primeira pessoa. Foi por isso que ano passado entrevistei Sahar Vardi, uma ativista de Jerusalém (um post imperdível!). E gostaria de dividir duas coisas com vocês hoje.

A primeira é a carta aberta dos jovens israelenses objetores de consciência desse ano. Em Israel o serviço militar é obrigatório tanto pra homens (3 anos) quanto pra mulheres (2 anos), mas todo ano alguns jovens se recusam a servir o exército por razões políticas e morais. Esse ano o grupo de objetores de consciência é o maior desde 2008 (60 pessoas) e, juntos, eles escreveram uma carta ao primeiro ministro israelense, Benjamin Netanyahu, explicando porque se recusam a fazer parte do exército. Ela começa assim:

Nós, cidadãos do Estado de Israel, somos designados para o serviço militar. Apelamos aos leitores desta carta que coloquem de lado o que sempre foi tido como uma evidência e que reconsiderem as implicações do serviço militar.

Nós, abaixo assinados, temos a intenção de recusar de fazer o serviço militar e a principal razão para esta recusa é a nossa oposição à ocupação militar dos territórios palestinos. Palestinos nos territórios ocupados vivem sob o governo israelense, apesar de não terem escolhido isso, e não têm acesso a nenhum recurso legal para influenciar este regime nem os processos de tomada de decisão. Isto não é nem igualitário nem justo. Nesses territórios os direitos humanos são violados e atos definidos pelo direito internacional como crimes de guerra são perpetuados diariamente.

 

Vocês podem ler o resto da carta aqui e saber um pouco mais sobre os objetores de consciência israelenses aqui.

133A8825

A segunda coisa que queria compartilhar com vocês hoje é o discurso que Haidi fez durante o evento em Marseille. As palavras dela são mais uma janela de compreensão que se abre sobre a questão da ocupação dos territórios palestinos por Israel. E o fato dessa janela ser aberta por uma israelense, que faz parte da força ocupante, torna o relato ainda mais interessante e, pra quem tem dificuldade em aceitar a versão dos ocupados, mais fácil de ser acreditado.

Nasci em Haifa e cresci no norte de Israel , na Galileia. Mas somente muito anos depois eu aprendi que era a Palestina também. Hoje os dois são inseparáveis pra mim, tragicamente ligados um ao outro. Eu venho de Palestina / Israel.

Eu cresci em uma pequena cidade. As cidades vizinhas mais próximas eram todas árabes , palestinas , mas nossas vidas estavam separadas . Escolas e playgrounds diferentes. Só mais tarde, em Tel Aviv, eu comecei a conhecer pessoas que tinham crescido ali do meu lado. E foi em grande parte através da minha experiência na Cisjordânia que eu também aprendi sobre a situação dos palestinos dentro de Israel.

Eu decidi não fazer o serviço militar obrigatório quando completei 18 anos, mas não posso dizer que eu realmente sabia naquela época o que era a ocupação. Eu só sabia que não queria fazer parte de um exército que estava ocupando outra nação. Foi depois que eu entendi que através da minha simples existência como cidadã israelense eu também participava dessa ocupação, que é realizada em meu nome e que somente através da resistência ativa eu podia mudar isso.

Eu não tinha então a consciência política que tenho hoje e não era madura o suficiente pra fazer da minha recusa um ato político. Eu admiro hoje os jovens que se recusam a fazer o serviço militar e que, no lugar disso, vão pra a cadeia. Eles são corajosos, não só por escolherem ser marginalizados pela sociedade, mas ao dizer isso em voz alta – nós somos contra a ocupação e a repressão, nós nos recusamos a ver isso como a única possibilidade, nós nos recusamos a nos tornarmos soldados neste estado militar.

Já que eu não tinha conhecido a realidade nos territórios ocupados durante o serviço militar, que é o caso da maioria dos israelenses, ela continuou obscura pra mim por um longo tempo. Ramallah, Al Khalil, Nablus, Jenine eram apenas buracos negros no mapa em minha mente. Eu morava em Tel Aviv, 20 minutos do checkpoint mais próximo, mas só o vi quando escolhi conscientemente ir lá. Eu acho que a situação mudou e a ocupação tornou-se mais visível e presente até mesmo na vida escapista de Tel Aviv. Mas seis anos atrás foi realmente impressionante pra mim ver o quanto ela era invisível e como eu podia viver sem ver a opressão e a violência acontecendo ali do meu lado. Tem todo um sistema que trabalha pra esconder, reprimir e justificar as violações dos direitos humanos que estão acontecendo todos os dias.

Somente aos 25 anos decidi que eu tinha que saber e ver com meus próprios olhos o que estava acontecendo. Eu me tornei voluntária na B’Tselem, uma organização de direitos humanos que trabalha nos territórios ocupados. Então, pela primeira vez, eu vi os checkpoints, as estradas de apartheid, o outro lado do muro de separação, as demolições de casas, os toques de recolher, os ataques à meia-noite e as prisões, as restrições de movimento, a falta de água e de infra-estruturas, as detenções e interrogatórios de menores. E o que você viu uma vez não pode voltar a ser invisível.

Foi então que percebi pela primeira vez que a violência tem muitas faces diferentes e que geralmente apenas a violência extrema, o sangue e as explosões, aparece na mídia e entra no nosso consciente. Mas qual é a cara da violência na vida de todos os dias? A insegurança constante, restrições, perseguições e humilhações, que cara elas têm, quem as vê ?

Começamos uma pequena oficina de vídeo, na cidade de Ni’ilin, como parte do projeto ‘Shooting Back’, de B’Tselem. Os alunos eram um pequeno grupo de adolescentes. Eu dei exercícios sobre a composição e a luz e eles filmaram manifestações. Eu falava sobre o enquadramento e narração e eles filmavam manifestações. Eu mostrei os princípios da edição e eles editavam manifestações.  Finalmente eu me juntei a eles pra ver com meus próprios olhos a manifestação semanal da sexta-feira, contra a construção do muro de separação na cidade. Eu tinha ido como fotógrafa e fiquei como manifestante.

As manifestações semanais em Ni’ilin começaram em meados de 2008, quando a construção do muro de separação recomeçou, depois de uma pausa causada por processos judiciais. A cidade está inteiramente localizada na área C, ou seja, completamente sob a autoridade militar israelense. Ela fica cerca de 3 km da linha verde e perto de uma dos maiores colônias israelenses, Modi’in Ilit . A rota do muro de separação estava prestes a cortar os moradores de uma grande parte de suas terras agrícolas. Ele foi claramente projetado considerando não apenas razões de segurança, mas levando em conta os planos de futura expansão das colônias israelenses. Hoje a barreira, um muro de concreto de 7 metros de altura, privou a cidade de cerca de 30% de suas terras.

Não longe dali, na cidade de Bil’in, um símbolo do protesto popular, as manifestações começaram em 2005. Depois de uma longa batalha legal eles conseguiram fazer com que o traçado do muro fosse mudado, mas 150 hectares de terras da cidade ainda estão do outro lado do muro. As manifestações da sexta-feira ainda acontecem todas as semanas, há nove anos.

Nabi Saleh é um vilarejo com cerca de 500 habitantes, que tem lutado de maneira corajosa contra o opressão. Eu conheci Nabi Saleh em 2009, quando os protestos começaram em resposta à confiscação de terras do vilarejo por colonos israelenses. Já que temos a sorte de ter Manal Tamimi aqui, eu vou deixá-la apresentar seu vilarejo e sua luta.

Estes são apenas alguns exemplos. Existem mais cidades que organizam manifestações semanais e claro que existem outros meios de luta não-violenta , ações diretas, desobediência civil e organizações de base que acontecem em ambos os lados do muro.

O grupo Anarchists Against the Wall (Anarquistas Contra o Muro) foi formado em 2003 como uma resposta à decisão de construir a barreira de separação, o muro que foi declarado ilegal pelo Tribunal Internacional de Justiça. Esse muro, símbolo da ocupação, é apenas uma das muitas formas de opressão e de controle da população palestina nos territórios ocupados. Anarchists Against the Wall tem sido ativo de diferentes maneiras na resistência à ocupação tanto dentro de Israel quanto na Cisjordânia. Por exemplo, participando e apoiando essas manifestações.

Há outras organizações israelenses e israelo/palestinas que trabalham e lutam também. Pra citar apenas algumas: ”Machsom Watch” – um movimento de mulheres israelenses que observam e documentam o que acontece nos checkpoints e tribunais militares, ”The Coalition of Women for Peace” que, entre outros, tem investigado a implicação econômica da ocupação no projeto de pesquisa “Quem lucra com a ocupação?”, ’Boycott from within” um grupo israelense de apoio ao pedido de boycott aos produtos israelenses feito pela sociedade civil palestina (BDS). Esse último grupo esteve recentemente nas manchetes em Israel por causa da ‘lei Anti-boycott’ e por causa do crescimento desse movimento e da pressão que ele vem exercendo sobre a economia israelense. Há muitos outros ainda, talvez não em número suficiente, mas o tempo é curto e não poderei apresentar todos agora.

Organizar e participar de manifestações em Israel é uma coisa, nos territórios ocupados a história é completamente diferente. A liberdade de protestar e de se reunir, um direito humano fundamental, é negada aos palestinos na Cisjordânia. A luta popular não violenta é confrontado e reprimida pelo exército e a polícia de fronteira israelenses de várias maneiras diferentes .

Muitas vezes as áreas onde acontecem os protestos semanais são declaradas zonas militares fechadas enquanto durar a manifestação, transformando o protesto em algo “ilegal” e fazendo com que os participantes sejam sujeitos a detenção e processos judiciais. Em alguns casos foram emitidas ordens proibindo totalmente algumas cidades de fazerem manifestações. Pra dispersar os chamados protestos “ilegais”, o exército usa vastos meios de controle de multidões, mesmo quando as manifestações não são violentas, algumas vezes impedindo que elas aconteçam antes mesmo de começar. 

Durante anos temos assistido a desvios repetidos dos regulamentos de ‘abrir fogo’, causando ferimentos graves e mortes. O meio mais comumente utilizado é o gás lacrimogêneo, em suas diferentes formas e métodos de disparo. Ele é teoricamente não-letal, mas quando uma lata de gás lacrimogêneo é disparada na direção de uma pessoa ela se torna uma arma muito perigosa. Balas de aço revestidas de borracha são outro meio não-letal, mas, no entanto, causam mortes quando atiradas à queima-roupa e quando o tiro visa a parte superior do corpo. Mais uma vez, essas práticas vão contra os regulamentos citados acima. 

Munição real deve ser acionado somente em caso de ameaça imediata à vida, porém ela tem sido usada durante as manifestações, geralmente contra pessoas atirando pedras, quando a ameaça à vida é totalmente questionável. O “skunk ” é, de fato, não-letal, mas é uma maneira muito desagradável de dispersar a multidão. O skunk (gambá em Inglês) é uma mistura química extremamente fedorenta, desenvolvida pela polícia israelense, que é pulverizada através de um canhão de água montado em um caminhão. Às vezes ele é pulverizado dentro da cidade, deixando o mau cheiro nas casas e nas pessoas por muito tempo. Frequentemente toda a cidade sofre quando o exército entra em uma área povoada: restrição de movimento, gás lacrimogêneo, skunk e danos às propriedades.

O uso indevido de armas de controle da multidão durante as manifestações causaram muitos acidentes e dezenove mortes. Quatorze causadas por munição real, três por gás lacrimogêneo e duas por balas de aço revestidas de borracha. Além disso o exército muitas vezes invade as cidades e casas durante a noite, pra prender pessoas.

Muitos dos organizadores foram perseguidos na justiça, acusados de ‘organizar manifestações’ e ‘incitação à violência’. Alguns ativistas estrangeiros que vieram mostrar solidariedade foram deportados por terem participado das manifestações. Muitos palestinos tiveram suas permissões pra entrar em Israel ou simplesmente pra ter acesso às suas terras do outro lado do muro confiscadas como punição. Tudo isso numa tentativa de suprimir a luta popular.

“Pare ou eu atiro!” gritou o soldado para mim. O exército tinha invadido Nabi Saleh e eu estava correndo entre as oliveiras. ”Você não pode estar falando sério “, pensei para mim mesma, mas parei, pois estava com medo demais pra ver se ele estava realmente falando sério. Fui presa e acusada de atirar pedras contra os soldados, uma acusação grave, mas muito mais grave se você é palestino. Um sistema legal diferente é aplicado se você é palestino ou israelense. Isso inclui os colonos israelenses que vivem na verdade na mesma área geográfica que os palestinos.

Enquanto os palestinos são sujeitos à lei militar e são julgados em um tribunal militar, que praticamente proíbe toda manifestação, israelenses e estrangeiros são julgados em um tribunal civil israelense, que reconhece a liberdade de protesto, conforme as normas em uma democracia. Os palestinos são frequentemente detidos por muitos meses sem ver um juiz ou um advogado e isso inclui menores de idade. Os direitos dos palestinos são constantemente violados, métodos coercitivos são usados ​​durante os interrogatórios e as multas e encargos que eles enfrentam são muito maiores do que eles receberiam pelas mesmas ações se fossem julgados no tribunal civil.

O sistema de justiça civil não permitiria tão facilmente que um grupo de soldados invadisse uma casa na calada da noite pra prender menores. Com certeza não permitiria que eles fossem interrogados sem a presença dos pais e sem qualquer orientação jurídica. Mas na Palestina isso acontece muito frequentemente, como as histórias de Nabi Saleh e Ni’ilin nos mostram. Os testemunhos desses meninos apavorados são então usados como prova para condenar outras pessoas, um método que não seria aceito em nenhum sistema de justiça democrático.

Fui detida por 24 horas (o máximo permitido no meu caso), mais algumas horas extras porque era Shabat. Antes de me liberar o juíz me  perguntou: “Você não tem nada melhor para fazer numa sexta-feira ?” Na hora eu não respondi, mas agora eu gostaria de responder: “Não, eu não posso imaginar uma maneira melhor de passar uma sexta-feira do que resistindo à ocupação violenta e destrutiva e abraçando a possibilidade de uma mudança e de uma maneira de viver diferente.”

Descobri uma coisa maravilhosa, mas acho que quando eu descrever o que é vocês vão querer fechar a janela e ler outro blog. Mas lá vai. Brócolis confit. Traduzindo: brócolis cozinhado com azeite e alho durante uma hora, até ficar tão macio que você pode espalhar sobre uma fatia de pão como se fosse um patê.

Se você ainda está lendo esse post é porque provavelmente é um amante de brócolis. Você fez muito bem em ter ficado aqui, pois essa receita ultra simples é incrível. Eu poderia chamá-la de ‘patê de brócolis’, mas as pessoas associariam imediatamente esse prato a algo natureba e saudável. E isso seria uma erro rude. O nome Francês soa sofisticado e é exatamente isso que essa receita é. Deliciosamente sofisticada. O brócolis derrete na boca, envolvendo suas papilas com um sabor intenso. É um brócolis elevado ao quadrado e se você gosta desse legume, vai adorar essa receita.

Eu fiz pela primeira vez no trabalho, sem muitas expectativas. Aí provei e quase caí pra trás. Eu não consegui parar de comer colheradas desse brócolis, primeiro espalhado sobre fatias de pão, depois, quando o pão acabou, puro. Quase que não sobrava nada pros meus clientes. Eu não sou de falar palavrão, mas o negócio era tão bom que na hora baixou um marinheiro em mim. Felizmente a única testemunha do ocorrido é a cachorra dos meus clientes, que embora tenha se chocado profundamente com o meu comportamento, jurou que não contará nada pra ninguém.

brócolis confit2

Achei essa pérola aqui e o nome em Inglês é ótimo: ‘broccoli cooked forever’ (que sempre me faz sorrir, pois penso em ‘strawberry fields forever’). Veganisei a receita (que tinha anchovas), deixei um ingrediente de fora (pimenta) e mudei um pouco o método de preparação, pra deixá-lo mais simples. A receita original usa uma xícara inteira de azeite, mas ainda não consegui aceitar essa extravagância. Uso metade e estou muito satisfeita com o resultado. Se alguém usar a xícara inteira, me conte como ficou. Também diminuí o tempo de cozimento, pois nunca consegui deixar meu brócolis cozinhar duas horas inteiras. Depois de uma hora ele começa a querer queimar um pouco no fundo da panela, por mais baixo que esteja o fogo. Me pergunto se esse problema apareceu porque reduzi a quantidade de azeite… Mais uma vez, se alguém seguir a receita original, divida o resultado conosco nos comentários.

Se você está pensando que cozinhar o brócolis durante mais de uma hora vai acabar com todas as vitaminas dele, você está coberta(o) de razão. Esse brócolis é pra ser comido unicamente pelo prazer. Outro dia você faz ele no vapor, al dente, pra aproveitar as vitaminas. Hoje você vai espalhar essa maravilha sobre um bom pão, ligeiramente tostado, e vai se deliciar (falando palavrão ou não) enquanto manda os nutrientes pras cucuias. E isso, amiga(o), é um ato altamente subversivo que eu encorajo vivamente.

 brocolis confit3

Brócolis confit

É essencial usar uma frigideira ou panela grande, com o fundo grosso e com tampa pra fazer essa receita. Se você usar algo feito com um material fino, o brócolis vai queimar. Esse prato exige uma certa dose de paciência, mas que não precisa de quase nenhum trabalho da sua parte. Basta ficar por perto e dar uma olhadinha de vez em quando pra ter certeza que não está queimando.

2 buquês (médios) de brócolis

4-6 dentes de alho, em fatias

1/2x de azeite (ou 1x, se você for extravagante)

Sal e pimenta do reino

Corte o brócolis em pedaços grandes (incluindo o caule). Em uma frigideira grande e com o fundo grosso aqueça o equivalente à 2cs de azeite e doure o alho. Junte o brócolis e regue com 1/2 xícara de água. Cubra, baixe o fogo e deixe cozinhar no vapor. Quando toda a água tiver evaporado despeje o resto de azeite sobre o brócolis, tempere com sal, cubra e deixe cozinhar, em fogo baixíssimo. Mexa uma ou duas vezes durante o cozimento, mas cuidado pra não amassar demais os pedaços. Cozinhe por pelo menos uma hora (duas, se você conseguir). O brócolis pronto vai manter a forma original, mas se desfaz quando você tocar nele. Se uma parte do seu brócolis virar purê, não se desespere: ele vai ficar menos bonito, mais o sabor será o mesmo. Prove e corrija o sal. Sirva quente ou em temperatura ambiente, polvilhado com pimenta do reino (melhor se for moída na hora), acompanhado de pão ligeiramente tostado (não esqueça de regar com o azeite que ficou no fundo da frigideira). Rende 6 porções como entrada ou aperitivo. Se conserva alguns dias na geladeira.

Já abriu a geladeira e encontrou vários restos de comida, mas nenhum em quantidade suficiente pra se transformar em uma refeição? Se isso nunca aconteceu na sua cozinha, provavelmente você é do tipo que joga restos de almoço e jantar fora (ou do tipo que nunca cozinha em casa). Pare com isso imediatamente! Aquilo que sobrou na panela não é o resto da sua última refeição, é o começo da próxima.

Esse é um dos talentos mais valiosos na cozinha: saber transformar restos de comida em uma nova refeição. Os pontos positivos dessa prática são: economia de comida, já que nada vai parar no lixo, e de tempo, já que uma parte da sua próxima refeição já está pronta.  Porém quem não tiver criatividade pra fazer esse tipo de transformação pode até decidir nunca mais jogar os restos fora, mas eles correm o risco de acabar no lixo do mesmo jeito, só que alguns dias mais tarde. Sabe quando guardamos na geladeira duas colheres de feijão, uma xícara de arroz, meia porção de macarrão etc. e só lembramos dos ditos cujos quando o aroma ficou esquisito e o bom senso manda você não ingerir mais aquilo? Pois é, aconteceu muito comigo.

Mas eu trago boas novas. Aliás eu nunca escreveria sobre um assunto se eu não tivesse boas novas pra vocês. Ninguém precisa ser um mestre da criatividade pra transformar o resto de ontem (que na minha terra a gente chama de R O) na refeição de hoje.

Restos de macarrão cozido sem molho podem entrar em sopas, como essa daqui. Mas lembre de colocar o macarrão na panela quando a sopa já estiver pronta, pois ficar nadando no líquido fervente vai fazer com que ele se desintegre (ele já está cozido, lembra?).

Restos de macarrão curto (parafuso, penne) cozido, com ou sem molho, podem se transformar em uma salada fria de macarrão. Basta juntar legumes crus (tomate, cebola, pimentão vermelho, rúcula, azeitonas, cenoura ralada…) ou cozidos (brócolis, couve-flor, abobrinha…) e regar tudo com uma vinagrete (1 parte de vinagre balsâmico ou de sidra + 3 partes de azeite + sal, pimenta do reino, ervas e, se gostar, um pouquinho de mostarda de Dijon). Pense em uma combinação de legumes harmoniosa e use uma quantidade equivalente ou pouco maior do que a porção de macarrão. Isso significa que se você só tiver um restinho, provavelmente não vai conseguir transforma-lo em uma refeição pra quatro pessoas, mas você tem a opção de cozinhar mais macarrão pra fazer a quantidade desejada de salada.

Sobrou feijão e/ou legumes cozidos? Faça sopa! Restos de arroz e outros cereais podem se transformar em salada fria (como no exemplo da salada de macarrão acima), entrar na composição de sopas ou serem degustados como acompanhamento.

Os restos difíceis de reciclar (espaguete,ou qualquer macarrão longo, com molho, lasanhas, gratinados, saladas cruas temperadas) podem ser consumidos assim mesmo. As porções são microscópicas? Coma no lanche ou como entrada/acompanhamento. Às vezes na sexta-feira minha geladeira está cheia de restinhos sem muitas afinidades entre si pra se transformarem em um prato só, então esquento tudo (separado) e decreto que o jantar será estilo ‘tapas’ (se for durante o dia digo que será um piquenique:). É uma delícia encher o prato com uma colherada disso, outra daquilo, mais um tiquinho daquilo outro… E eu me livro de uma vez de todos os potinhos com restos de comida que repousam na geladeira antes de preenche-la com as compras do sábado.

Aviso importante: nunca transforme restos em restos. Ou seja, se juntou um resto de ontem no prato de hoje, coma tudo de uma vez pra não ter restos. Lembre-se que aquele resto já passou umas férias na geladeira e se ele for novamente pra lá depois de ser requentado as chances da comida se estragar são grandes. E nunca recongele algo que estava congelado. Eu tenho o hábito de congelar legumes (crus) quando compro quantidades grandes. Mas se usei legumes congelados pra fazer uma sopa, nunca congelo a sopa pronta.

repolho, cenoura, cebola

Ter restos na geladeira é tão prático que eu cozinho mais do que preciso de propósito. Quando preparo cereais e leguminosas sempre cozinho porções extras e com esses dois ingredientes prontos, posso fazer um almoço ou jantar completo e nutritivo em 15 minutos. Eu adoro pratos únicos (são mais práticos, ficam prontos em menos tempo, sujam menos louça), então gosto de misturar as porções extras (ou os restos) com legumes e transformar tudo em algo que lembra uma paella vegana, mas só na aparência. Se você precisa de uma ajudinha extra na cozinha (tradução: medidas e instruções mais precisas), eu preparei uma fórmula pra simplificar esse processo.

1 parte de cereal cozido (arroz -integral ou branco-, quinoa, cevada)

1 parte de leguminosas (lentilha, feijões, grão de bico, ervilhas)

3 partes de vegetais (cortados fininhos, pra cozinhar mais rápido, ou então já cozidos)

+ cebola, alho, ervas (frescas ou desidratadas)

+ outros realçadores naturais de sabor, como azeitonas, shoyu, tomates secos, palmito, cogumelos (opcional)

A receita abaixo mostra como colocar essa fórmula em prática, mas ela está aqui pra servir de guia. Adapte os ingredientes de acordo com o que você tiver na geladeira (respeitando as categorias) e as possibilidades são quase infinitas. Fórmulas desse tipo são extremamente úteis pra quem está aprendendo a cozinhar, ou quer aprender a preparar refeições veganas completas, então recomendo que você também dê uma olhada na fórmula da sopa e na fórmula da salada-refeição.

Arroz com lentilha e legumes (que sonhou em ser paella)

Essa fórmula dá certo com cereais e leguminosas cozidos só na água e sal, mas também com restos que já foram temperados. No dia que preparei esse prato não tinha nenhuma erva fresca em casa, mas um punhado de coentro ou salsinha picados cai muito bem aqui, por isso coloquei na lista de ingredientes. Você também pode usar restos de legumes cozidos aqui, mas nessa caso coloque-os na frigideira ao mesmo tempo que o arroz e a lentilha e aqueça tudo junto. Último lembrete: se estiver usando restos que já foram temperados, adapte a quantidade de shoyo pro seu prato não ficar salgado demais.

1x de arroz integral cozido

1x de lentilha cozida

2x de repolho branco picado bem fino

1x de cenoura ralada no ralo grosso (ou cortada em lascas com o descascador de legumes, como na foto)

1 cebola média, cortada em meias-luas ou picadas

2-4 dentes de alho, picados/amassados

2cs de azeite

Molho de soja (shoyu) e pimenta do reino a gosto

Suco de limão pra servir (opcional)

Um punhado de coentro ou salsinha, picado

Em uma frigideira grande e funda aqueça 1cs de azeite e doure a cebola. Junte o alho e deixe cozinhar mais 30 segundos. Acrescente o repolho e a cenoura, cubra e deixe cozinhar em fogo baixo, mexendo de vez em quando, até os legumes amolecerem (não precisa juntar água). Junte a lentilha e o arroz cozidos, tempere com shoyu a gosto e misture delicadamente pra não quebrar demais a lentilha. Deixe aquecer, coberto e ainda em fogo baixo, por alguns minutos. Quando estiver bem quente desligue o fogo, junte o coentro (ou salsinha), tempere com pimenta do reino a gosto e regue com mais uma 1cs de azeite. Prove e corrija o sal (pode juntar mais shoyu, se quiser). Eu gosto de espremer um pouco de suco de limão diretamente sobre o meu prato, pois além de realçar o sabor, a vitamina C ajuda o corpo a assimilar o ferro das lentilhas. Rende 2 porções como prato único.

Mês passado fez seis anos que cheguei na Palestina de mala e cuia, decidida a morar na terra santa. Ainda lembro perfeitamente desse dia. Na verdade lembro perfeitamente, com minúcia de detalhes, dos dias que antecederam minha chegada também. E Jerusalém está no coração desses eventos. Já contei pra vocês como fui parar na Palestina? Então procurem um assento confortável e uma caneca de chá que lá vem história.

A primeira vez que coloquei os pés em Jerusalém foi no final de 2007. Fazia alguns anos que a vontade de visitar a Palestina me acompanhava. Culpa de um episódio aparentemente banal. Um dia eu estava no aeroporto, indo de Paris pra Budapeste, e percebi que não tinha trazido nada pra ler durante a viagem. Passei pelo quiosque de livros e encontrei uma revista de antropologia que tinha dedicado uma edição inteira à Palestina. História, política, conflito, muro, ocupação, tudo o que eu sempre quis saber sobre o assunto estava ali. Até hoje penso onde estaria e como seria minha vida se eu não tivesse encontrado aquela revista. Tudo que eu não teria vivido, todas as pessoas que eu não teria conhecido… Nunca se sabe qual pequeno detalhe vai mudar a trajetória da sua existência.

IMG_0464

A leitura daquela revista me deixou em estado de choque durante meses. Eu perdi noites e mais noites de sono pensando nos palestinos, na ocupação israelense e em como a ignorância nos faz ser cúmplices de tantas injustiças mundo afora. E uma vontade irresistível de visitar a Palestina se instalou no meu peito.

Anos depois estava eu mais uma vez no aeroporto em Paris, dessa vez indo passar três semanas na Palestina e em Israel. Estava indo fazer um trabalho voluntário de duas semanas em Belém, depois passaria uma semana visitando algumas cidades israelenses, porque eu queria conhecer os dois lados do muro. Na fila do check in conversei com um senhor palestino de Nazaré. Ele contou que estava indo visitar a família, eu expliquei que estava indo fazer um trabalho voluntário na Palestina. O senhor arregalou os olhos e disse: “Minha filha, não diga isso no aeroporto, senão você terá problemas com a imigração israelense”. Eu tinha lido depoimentos de pessoas que tinham tido dificuldades pra sair do aeroporto porque disseram que iam visitar a Palestina, mas tinha decidido não mentir. Culpa da minha mãe.

Quando eu era pequena minha mãe contou uma história que aconteceu ali mesmo, na terra santa. Ela disse que depois do nascimento de Jesus, Maria, José e o filho recém nascido precisaram fugir de Belém porque o rei malvado (Herodes) tinha ordenado que todos os meninos da região fossem assassinados. Ele estava com medo de perder o trono pro bebê que tinha acabado de nascer. Maria escondeu Jesus num pote (seco!) e subiram os três na carroça rumo à Nazaré. No caminho uma patrulha romana parou a carroça e perguntou à Maria: “O que tem dentro desse pote?”. Maria sabia que se o filho fosse descoberto seria imediatamente assassinado, então perguntou a Deus o que fazer. Deus falou no ouvido dela: “Passe com a verdade.” Então Maria obedeceu e disse: “Dentro do pote tem um menino”. Os soldados romanos caíram na risada e disseram: “Se tivesse um menino aí você nunca nos contaria, pois sabe muito bem que estamos matando todos os meninos da região.” E eles passaram sem problemas.

Eu sabia perfeitamente que minha mãe contava aquilo pra que eu nunca mentisse pra ela, mas não sei por que cargas d’água me senti toda iluminada naquele dia e decidi que já que eu estava indo pra Belém, eu ia passar com a verdade no aeroporto. Acontece que a moça da imigração israelense não reagiu como os soldados romanos da história da minha mãe. Quando eu disse que estava indo visitar Belém ela fechou a cara e declarou: ‘Eu não quero você em Israel’. E antes que eu pudesse responder que depois de ter sido acolhida com tanta hostilidade eu é que não queria mais e que por favor me deixasse passar que eu trataria de ficar só na Palestina, policiais tomaram meu passaporte e me levaram pra uma salinha onde fui interrogada por várias pessoas, durante duas horas. Entre uma pergunta e outra (perguntaram o nome do meu pai mais de vinte vezes e como eles nunca pareciam convencidos, eu também comecei a duvidar. Será que era esse mesmo o nome do meu pai?) minha mente ia de ‘nem cheguei e já vão me deportar?’ pra ‘mas que crime eu cometi, gente?’ pra ‘vão me deportar agora’ pra ‘mas eu não fiz nada de errado’ etc. Parece que o nome disso é tortura psicológica.

Essa foi a primeira de muitas experiências traumáticas naquele aeroporto (eu ainda não sabia, mas aquela estava longe de ser a pior). Hoje eu sei que tem situações onde passar com a verdade NÃO é uma boa ideia e se o próprio Jesus tentasse cruzar o checkpoint de Belém hoje ele seria impedido (um palestino barbudo disposto a morrer como mártir?! HÁ!). Fui procurar minha mala e qual não foi a minha surpresa quando vi o senhor palestino sentadinho do lado da esteira. Ele tinha ficado me esperando aquele tempo todo. Quando me viu falou: “Minha filha, fiquei com medo de não te deixarem passar. Já estava perdendo a esperança.” Ele me mostrou onde pegar a van que me levaria pra Jerusalém e me deu o telefone da família em Nazaré, caso eu precisasse de alguma coisa. Nas horas mais difíceis da minha vida sempre apareceu uma alma boa pra oferecer reconforto.

IMG_5304

Desci da van uma hora depois, em frente ao portão de Damasco, uma das entradas da cidade antiga de Jerusalém. A combinação avião + experiência traumática no aeroporto + van tinha me deixado tonta, mas quando olhei pra muralha que cerca a cidade antiga e me vi no meio da agitação que é essa parte da cidade meu coração disparou. Dois segundos depois eu estava apaixonada pela cidade. Eu tinha ido parar ali pra descobrir outra realidade e pra mostrar solidariedade a um povo. Me apaixonar não estava nos meus planos.

Três semanas depois, pouco antes de voltar pra Paris, eu sentei naquela muralha e, com a cidade antiga aos meus pés, descobri que a partir daquele momento a vida na França não fazia mais sentido. Jerusalém foi a cidade que me fez ficar na Palestina. Apesar de sempre ter morado em Belém, que fica a poucos quilômetros ao sul, os momentos mais felizes e mais difíceis dos cinco anos que morei lá aconteceram em Jerusalém. Pensei em deixar a Palestina algumas vezes e, coincidentemente (ou não), sempre mudei de ideia em Jerusalém.

Os ativistas estrangeiros que conheci na Palestina escapavam pra Tel Aviv quando queriam férias da loucura que é viver sob ocupação militar. Bares, festas, praia e o clima mais livre e menos religioso da cidade atraem muita gente. Eu nunca gostei de Tel Aviv e quando queria respirar outros ares atravessava o checkpoint de Belém e subia no ônibus que me levava de volta ao portão de Damasco, onde tudo começou. Estranhamente a atmosfera carregada de religião (ou melhor, de religiões, no plural) nunca me oprimiu. Preciso dizer que nunca me aventurei no bairro ultra ortodoxo da cidade e minhas andanças se resumiam à cidade antiga, Salahadim Street e, mais raramente, Jaffa Street (na parte ocidental). A parte ocidental da cidade é, pra mim, menos charmosa, sem falar que ela abriga o Ministério do Interior (onde eu ia renovar o visto todos os anos e onde me ofereceram algumas das piores horas da minha estada na região), por isso eu sentia vibrações negativas sempre que passava pela área. O meu coração estava no caos e na overdose de cores e sabores da cidade antiga.

Lá fiz alguns dos amigos mais queridos que tenho hoje e tive a honra de desfrutar da imensa generosidade deles (o que salvou a minha vida uma vez). Lá eu provei comidas memoráveis, incluindo o melhor hummus do mundo (tem muita controvérsia sobre esse assunto). Lá eu abri meu coração várias vezes e deixei a camada mais profunda do meu ser respirar o ar fresco. As pedras da cidade são sedosas, desgastadas pelo tempo e eu gostava de andar pelas ruas com o braço levemente esticado, acariciando-as com as pontas dos dedos. Jerusalém pra mim é dourada, tem cheiro de terra seca, pedra e alecrim e tem gosto de suco fresco de romã e kayek (o pão típico da cidade, salpicado de gergelim).

IMG_9166

Na Via Dolorosa tem um prédio que funciona como pousada pra peregrinos e onde o teto abriga um terraço. De lá dá pra ver o Santo Sepulcro, a mesquita Al-Aqsa e boa parte da cidade antiga. Fui lá pela primeira vez em 2007, guiada por uma amiga alemã. Voltei inúmeras vezes, sozinha e acompanhada, mas sempre que me deparava com aquela vista meu coração disparava. Exatamente como na primeira vez que coloquei os pés na cidade. E cada vez que eu ia lá me apaixonava novamente por aquele lugar. Apesar de abrigar tanta loucura e injustiças, Jerusalém continua sendo a minha cidade preferida no mundo e ainda penso nela quase todos os dias.

*Veja mais fotos de Jerusalém (incluindo alguns dos lugares que citei nesse texto) e descubra as maravilhas gastronômicas no Guia Vegano da cidade.

Você se tornou veg(etari)ano e desde que fez a transição de regime passou a ter fome o tempo todo?  Você gostaria de comer mais refeições veganas/vegetarianas, mas tem a impressão que só proteína animal consegue saciar a sua fome? Quando você come um prato vegetariano/vegano seu estômago começa a roncar pouco tempo depois? Escutei essas reclamações inúmeras vezes, então resolvi (enfim! enfim!) escrever sobre o assunto. Leitores famintos, seus problemas estão prestes a acabar.

É possível se sentir saciado com um alimentação 100% vegetal?

Absolutamente, totalmente, 100% possível. Eu nunca tive problemas de saciedade, nem mesmo no início do meu veganismo, por isso levei algum tempo pra entender porque tantas pessoas estavam reclamando da fome de ogro que as acompanham desde que elas disseram adeus aos produtos de origem animal. Mas quando comecei a perguntar o que essas pessoas estavam comendo no dia-a-dia, o mistério se resolveu.

Antes de declarar que só produtos de origem animal são capazes de matar a sua fome, é bom dar uma olhada na maneira como você se alimenta. Percebi que pessoas que adotaram uma dieta vegetariana/vegana e que reclamam da fome constante estão fazendo os mesmos erros. As razões mais comuns pra fome de ogro dos vegs são as seguintes:

1- Não ingerir nutrientes suficiente.

Se você não está ingerindo todos os nutrientes que o seu corpo precisa, ele vai interpretar isso como fome. A explicação é simples. O corpo precisa de nutrientes pra funcionar corretamente e ele tem acesso a esses nutrientes através da comida. Se a comida que você está ingerindo é pobre em nutrientes seu corpo continuará enviando o sinal de fome, pois ele ainda não conseguiu o que queria (nutrientes). Se você continuar comendo alimentos nutricionalmente pobres, seu estômago vai ficar cheio, mas isso não saciará sua fome, pois suas reservas de nutrientes continuarão vazias. É fácil exagerar na pizza e continuar com a sensação de que poderíamos comer mais, mesmo depois de sentir o estômago cheio. Essa é provavelmente a causa da epidemia de obesidade que vemos no mundo hoje: ao escolher alimentos nutricionalmente pobres acabamos comendo muito mais do que deveríamos. Já quando como uma salada com leguminosas (como essa aqui), me sinto satisfeita e a ideia de continuar comendo depois de ter preenchido o meu estômago se torna totalmente absurda. Comida nutritiva faz toda a diferença na hora de saciar a fome.

2- Se tornar ‘massatariano’.

Isso é um exemplo do erro número 1, mas é tão comum que senti que precisava tratar dele separadamente. Todo mundo conhece (ou já foi) um vegetariano que come poucos vegetais e muita massa: pão, macarrão, pizza… E como massas, mesmo as integrais, são nutricionalmente pobres quando comparadas à verduras e frutas, seu organismo vai continuar com fome de nutrientes, independente da quantidade de carboidrato que entrar no seu estômago. Às vezes a razão do ‘massatarianismo’ é porque as pessoas não sabem o que comer além de carboidratos. Se esse for o seu problema,  a seção de receitas aqui do blog está recheada de pratos à base de leguminosas e verduras. Às vezes as pessoas exageram no carboidrato porque ele é a única opção veg disponível quando comemos fora de casa. Prefira restaurantes self-service, onde você vai encontrar pelo menos algum prato com feijão e verduras cruas e cozidas. E tem também aquele caso mais raro de vegetarianos que simplesmente não gostam de verduras. Se você respondeu ‘presente’, não se desespere. Conheci uma moça que era vegetariana e que não gostava de fruta (só de suco de maracujá) nem de verduras (além de tomate, que também é uma fruta, mas passemos). Quando soube que ela tinha se tornado vegana e que não ia mais contar com os sanduíches de queijo pra preencher o estômago fiquei preocupada. Felizmente depois que o veganismo entrou na vida dela o seu paladar expandiu de maneira surpreendente e hoje ela gosta de quase todas as verduras e frutas. Milagre? Não, isso só prova mais uma vez que nosso paladar pode ser educado e que gosto é altamente modelável.

3-Limitar as porções de comida (vegetal) que aparece no prato.

Esse erro é comum entre pessoas que querem perder peso e que se acostumaram a seguir dietas de restrição calórica. Passamos a vida inteira ouvindo nutricionistas falar que é preciso limitar a quantidade de comida que entra no nosso estômago se quisermos perder peso e embora isso seja verdade quando se trata de alimentos de origem animal, a história muda quando se trata de alimentos de origem vegetal. É praticamente impossível engordar comendo comida vegetal e integral (integral aqui significa ‘comida não refinada/transformada’, não alimentos feitos com farinha de trigo integral!). Verduras, frutas, leguminosas e cereais integrais são cheios de nutrientes e fibras e pobres em gorduras, ou seja, é a combinação perfeita pra saciar o seu apetite e encher o seu organismo de nutrientes com poucas calorias. A única exceção aqui são as oleaginosas (castanhas, nozes, amêndoas e sementes), que são mais calóricas e ricas em gorduras (boas) e por isso devem ser consumidas em quantidades menores.

Comida de origem animal tem muito mais calorias e gorduras (muitas vezes gorduras ruins), então ao eliminar esses alimentos do seu prato você ganhará o direito de caprichar na quantidade de vegetais, sem no entanto aumentar a quantidade de calorias da sua dieta. Aqui vão alguns exemplos que provam o que acabei de falar.

100g de queijo prato = 392 calorias

100g de brócolis (cozido) = 35 calorias

Ou seja, pra atingir as quase 400 calorias dos 100g de queijo você vai precisar comer mais de 1kg de brócolis cozido!

185g de carne vermelha magra (1 bife, sem gordura visível, pesado depois de cozido) = 413 calorias

185g de lentilha cozida = 198 calorias

Ou seja, você precisa de uma porção duas vezes maior de lentilhas pra chegar nas 413 calorias do bife magro.

Entendeu agora porque quem se alimenta de maneira exclusivamente vegetal NÂO precisa limitar porções, mesmo se quiser perder peso? Mas antes que alguém saia por aí enchendo a barriga de batata frita com o pretexto de que ‘é vegetal, então posso comer à vontade’, preciso relembrar que essa regra só se aplica a vegetais integrais (refrigerante e biscoito recheado podem até ser veganos, mas NÃO entram nessa lista) e sem gordura acrescentada, principalmente gordura ruim (ou seja, frituras estão fora).

Veganos, não limitem suas porções. Lembrem-se que 400 calorias de vegetais é uma porção muito maior do que 400 calorias de carne ou de queijo. Não estou dizendo que você precisa comer 1kg de brócolis no almoço se quiser matar a fome e sim que você pode aumentar a quantidade de vegetais do seu prato sem se preocupar com as calorias. Coma até se sentir satisfeito, mesmo se isso significa encher o prato e repetir. Se o conteúdo do seu prato for vegetais integrais (e que não foram fritos), você não vai correr o risco de engordar. Esse é um dos maiores luxos de ter uma alimentação vegana natural (não industrializada) e integral: você nunca mais vai precisar contar calorias!

4- Ter medo de gordura (e não saber a diferença entre gordura boa e gordura ruim).

O oposto de quem exagera nos alimentos gordurosos pensando que o fato de ser vegana torna a comida automaticamente saudável é evitar todo tipo de gordura com medo de engordar. Abaixo a gordura-fobia! Precisamos de gordura pra ter um sistema nervoso e endócrino saudável. E você sabia que algumas vitaminas só são assimiladas na presença de gorduras? E, o mais importante pro assunto desse post: gordura é essencial pra nos dar a sensação de saciedade.

Mas existe uma diferença gigantesca entre comida naturalmente rica em gordura boa (abacate, castanhas e sementes) e comida feita com gordura, geralmente gordura ruim (frituras, maionese, tortas cheias de margarina, óleo de soja e milho etc.). O exemplo da batata frita ilustra bem isso. Batatas são naturalmente pobres em gorduras, mas depois de nadar no óleo quente se tornam extremamente gordurosas. Esse é o tipo de gordura que você deve evitar. Conselho pros vegetarianos: queijos e laticínios em geral são as maiores fontes de gordura saturada da alimentação ocidental, então não exagere. Por outro lado sementes, castanhas e abacate são ricos em gordura BOA e além disso brindam o seu organismo com minerais, vitaminas e fibras. Isso batata frita nenhuma vai fazer por você!

Cada organismo é único e algumas pessoas precisam de mais gordura do que outras pra se sentirem saciadas. Se você evita todo tipo de gordura, ou se a quantidade de gordura boa da sua alimentação é muito pequena, talvez sua fome venha daí. Acrescente uma fonte de gordura boa (abacate, castanhas, sementes, óleo de linhaça, azeite e óleo de coco virgem) em cada uma das suas refeições e com certeza você se sentirá mais saciado.

5- Confundir o peso no estômago causado por refeições ricas em alimentos de origem animal com estômago satisfeito.

Sabe aquele peso que você sente na barriga depois de ingerir uma refeição rica em carne e laticínios? É pouco provável que você se sinta da mesma maneira depois de comer uma refeição vegana. Estamos tão acostumados a comer até sentir desconforto que muita gente acaba acreditando que isso é se sentir satisfeito. E como comida de origem animal precisa de mais energia pra ser digerida, é normal se sentir mais lento depois de uma refeição com carne. Quando você come uma refeição 100% vegetal e feita com alimentos naturais e integrais, a sensação de ‘estômago cheio’ é bem diferente. Plantas são mais fáceis de serem digeridas e raramente sentimos peso no estômago ou aquela moleza que nos convida a tirar um cochilo depois da refeição. Pra quem não tem o hábito de se alimentar dessa maneira, isso pode ser interpretado como ‘minha fome não foi saciada’.

Tempos atrás uma leitora onívora me escreveu pra contar que tinha feito minha lasanha preferida. Ela disse que tinha adorado a receita porque ela era tão leve e saborosa! Fiquei muito surpresa, pois essa é uma das receitas mais pesadas do meu repertório (talvez A receita mais pesada). Foi então que percebi o quanto comida de origem animal pesa no estômago. Mesmo o prato vegetal mais pesado pra mim parece leve no estômago de um onívoro.

Saiba que seu organismo precisará de algumas semanas antes de se adaptar completamente ao novo regime. E depois do período de adaptação, você vai perceber que essa ‘leveza post-refeição’, que era confundida com fome, é mais uma grande vantagem de ter uma alimentação natural e vegetal.

 almoço feijão quinoa salada

Como expliquei no início do texto, quando um veg(etari)ano reclama de ter fome o tempo todo é por causa de uma das razões (ou várias) que expliquei acima. Mas tem mais alguns motivos que podem estar causando a fome desmesurada de alguns vegs e de onívoros também:

-Não beber água suficiente.

Conheço muita gente que bebe menos água do que deveria. E pode parecer loucura, mas é muito fácil confundir sede com fome. Pra saber se a sua fome é real ou se é só desidratação, beba um copo de água (um copo, não dois goles!) e espere alguns minutos. Sua fome foi embora? Então seu corpo só estava precisando de água.

-Não se sentir satisfeito porque a comida nunca é gostosa.

Essa é pro pessoal veg que tem sempre que se contentar com um prato inferior ao que o onívoro do lado está comendo. Já percebeu que quando comemos comida sem graça sempre aparece a vontade de comer algo gostoso depois? Eu sinto muito isso quando estou viajando e sou obrigada a comer comida sem sabor porque é a única opção vegana do cardápio. Comer é muito mais do que levar nutrientes pra dentro do corpo, é também uma fonte de prazer. E sem prazer fica difícil se sentir satisfeito. A boa notícia é que ninguém precisa abrir mão do prazer gastronômico pra ter uma alimentação vegetal. Aprenda a preparar pratos vegetais deliciosos (ou case com alguém que saiba) e isso deixará de ser um problema.

-Sua fome pode ser de origem emocional.

Comida traz reconforto pra maioria das pessoas. Sentimos vontade de comer quando estamos entediados, tristes, felizes, passando por dificuldades… Mas existe uma maneira simples de saber se a sua fome é física ou emocional. Tente imaginar um prato cheio de salada crua na sua frente. Ficou com vontade de devora-lo? Então é fome, mesmo. Vegetais crus são provavelmente os alimentos menos ‘viciantes’, ou seja, ninguém come salada por pura gula nem pra preencher uma carência emocional. Se o prato de salada não te atrair nem um pouco e você tiver pensamentos do tipo “Hum… o eu queria mesmo era uma torta de chocolate”, então pode ter certeza que a fome não é real. Quando estamos com fome aceitamos qualquer comida que aparecer pela frente (conhece o ditado que diz “O melhor tempero é a fome”?). Fome emocional só se satisfaz com determinados alimentos, geralmente extremamente calóricos (bolo, salgadinhos, frituras, doces…).

-Algum problema de saúde.

Se você leu até aqui e achou que sua fome não pode ser explicada por nenhuma das razões acima (sua alimentação é composta por alimentos integrais e nutritivos, você não tem medo de gorduras boas, não limita suas porções, bebe bastante água, não tem fome emocional…) então talvez o problema seja mais complexo. Dificuldade em assimilar nutrientes (causada pelo acúmulo de toxinas no estômago, consequência de muitos anos de alimentação industrializada, ou por outra razão) e desequilíbrio hormonal podem estar causando a sua fome exagerada. Mas isso só um médico será capaz de detectar.

A fórmula mágica da saciedade 

Agora que você identificou a origem da sua fome colossal e descobriu como remediar o problema, gostaria de ensinar algo extremamente útil pra qualquer pessoa que queira ter uma alimentação equilibrada. A fórmula mágica pra criar refeições completas e que saciam é : fibra + proteína + gordura boa. Você precisa desses três elementos pra se sentir saciado e se faltar algum deles no prato as chances de escutar o estômago roncar pouco tempo depois da refeição são grandes. Se você não sabe quais alimentos vegetais são ricos em fibras, proteínas e gorduras boas, aqui vão algumas explicações simplificadas, mas úteis na hora de compor o cardápio.

Feijões, lentilhas e grão de bico (leguminosas) são ricos em proteínas e fibras.

Verduras e frutas são ricas em fibras.

Abacate é rico em fibras e gorduras boas.

Castanhas, nozes, amêndoas, sementes de girassol, de gergelim e de linhaça (oleaginosas) são ricas em proteínas, gorduras boas e fibras.

Azeite, óleo de linhaça e óleo de coco virgem são ricos em gorduras boas.

Como o mundo vegetal é rico em fibras (fibras SÓ existem em alimentos de origem vegetal), na hora de planejar minhas refeições me concentro mais na proteína e na gordura boa. Meu café da manhã sempre tem aveia (rica em proteína e fibras), frutas frescas e/ou secas (fibras) e castanhas, sementes (gordura boa e proteína) e óleo de coco virgem (gordura boa). No almoço e no jantar tem sempre uma leguminosa (proteína e fibras), verduras cruas e/ou cozidas (fibras) e uma fonte de gordura boa (acrescento sementes ou abacate na salada, rego meus pratos com azeite ou com tahina…). Como castanhas e sementes são ricas em gorduras E em proteína, elas também aumentam a quantidade de proteína da refeição. Se eu estiver com muita fome também como um cereal integral, geralmente arroz ou quinoa (que também é rica em proteína).

E não esqueça que você NÃO precisa limitar as porções das refeições que citei acima, pode comer o quanto for necessário pra satisfazer o seu apetite. Eu como quantidades obscenas de feijão e verduras (podem perguntar à minha família), além de ingerir um punhado de castanhas e sementes, mais um pouco de azeite, óleo de linhaça e óleo de coco virgem TODOS OS DIAS e continuo com o mesmo peso de sempre. Siga as dicas acima e pode se preparar pra dizer adeus à fome de ogro sem colocar em risco o seu peso.

 

Tive mais uma dessas semanas intensas, com emoções fortes, maratonas no trabalho e inúmeras coisas acontecendo ao mesmo tempo. Vi documentários extremamente interessantes sobre o controle dos EUA na América do Sul (vou colocar os links aqui porque acho que todos deveriam ver: “A revolução não será televisionada” e “The war on democracy“), me emocionei com o discurso de coming out de Ellen Page, quase tenho um infarto quando vi que Bolsonaro podia ser o novo presidente da Comissão dos Direitos Humanos, passei três dias cozinhando pra algum monge tibetano famoso (que eu não conhecia) e seus discípulos (30!), fiz uma oficina de culinária pra um grupo de dez pessoas e meia (uma das alunas tinha 3 anos) que terminou à meia noite, preparei dezenas de refeições no meu trabalho de ‘chef a domicílio’, almocei com um amigo português que acha o meu dialeto hilário (a recíproca é verdadeira:) …

Então ontem, quando pude enfim parar de correr de um lado pro outro, fiz uma das coisas que mais gosto de fazer quando tenho tempo livre e que estou sozinha em casa: vi TED talks durante horas, até a tela do computador começar a dançar na frente dos meus olhos cansados (suspeito que preciso de óculos).

Mas ontem também fiz um prato que criei recentemente e que conquistou meu coração. Ele é rústico, saboroso, simples de preparar, nutritivo e reconforta. Adoro alho-poró e só não tem mais receitas com esse legume aqui no blog (até agora só postei essa torta salgada) porque lá na Palestina era quase impossível encontrá-lo. Felizmente aqui na Bélgica esse é um dos vegetais mais populares e estou aproveitando pra aumentar o meu repertório de receitas com ele.

 Agora vou esquentar o resto do ensopado de ontem (fica ainda melhor no dia seguinte) e assistir a mais uns TED talks antes que outra uma semana de correria comece.

*Aviso nada importante: agora vocês podem ver o que acontece por essas bandas quando não estou postando receitas. Seguindo a sugestão de uma leitora, criei uma conta no Instagram.

Ensopado de alho-poró, tomate e feijão branco

Como é inverno aqui na Europa, eu uso tomates orgânicos em lata (100% tomates, sem temperos nem conservantes), mas se você tiver acesso à tomates frescos, melhor ainda. Nessa receita gosto de usar esse sal com salsão, mas você também pode usar sal comum e juntar umas folhinhas de salsão fresco, ou só sal, se salsão não for a sua praia.

2 alhos-porós grandes

2-4 dentes de alho, picados

1 1/2x de feijão branco cozido (na água com sal e algumas folhas de louro)

5 tomates maduros, picados

3cs de azeite

1/3cc de tomilho seco

Sal com salsão (ou sal comum) e pimenta do reino à gosto

Alho poró gosta de esconder areia entre as camadas, então é importante limpa-lo bem antes de cortar. Faça isso da seguinte maneira: corte a parte folhosa, deixando somente a parte branca e onde o verde é mais claro. Em seguida corte o alho poró no sentido do comprimento, mas sem separar a raíz (formando um V). Lave o alho poró embaixo da torneira, afastando as camadas com os dedos pra se livrar de toda a areia que possa se esconder entre elas. Em seguida esprema com as mãos pra retirar o excesso de água, corte a base (a raíz), separando as duas metades do V e corte o alho poró em fatias finas (que terão o formato de meia lua). Você também pode partir o alho poró ao meio até a raíz e lavar separando as camadas, mas é mais fácil picar o legume quando as camadas ainda estão juntinhas.

Em uma frigideira grande e funda (ou uma panela média) aqueça 1cs de azeite e doure o alho. Fique de olho, pois alho queima fácil. Assim que começar a dourar junte o alho-poró picado. Refogue durante alguns segundos, tempere com sal (com salsão ou comum), cubra e deixe cozinhar em fogo baixíssimo (sem acrescentar água!) até o legume começar a se desfazer. Você vai precisar mexer algumas vezes, pois quando a água do legume evaporar ele vai começar a grudar no fundo da panela. Quando o alho-poró estiver se desintegrando (acredite, ele é uma delícia assim) e tiver ganhado uma corzinha, junte os tomates picados, o feijão branco cozido, o tomilho seco e mais uma pitada de sal. Cubra mais uma vez e deixe cozinhar, em fogo baixo, até os tomates se transformarem em molho. Tempere com pimenta do reino, prove e corrija o sal, se necessário. Desligue o fogo e regue com o resto do azeite. Sirva com arroz ou outro cereal. Rende 2 porções.

A última entrevista da série de alimentação saudável pra crianças é com a minha amiga Bárbara, que assim como Ingrid, a primeira mãe que compartilhou dicas aqui com a gente, entrou na minha vida através do blog. Bárbara Bastos é professora universitária e doutoranda e mora em Recife com o marido e o filho de 4 anos. Fiquei hospedada duas vezes na casa deles (na segunda vez levei minha irmã, que durante uma tarde se transformou na melhor amiga do pequeno Mateus) e pude ver pela primeira vez uma família vegana de perto. Juro que me senti como se tivesse vendo unicórnios!

Bárbara tem muitas coisas interessantes pra compartilhar com pais que buscam uma alimentação saudável pra crianças, mas também pra quem gostaria de oferecer um regime 100% vegetal pros filhos e todos aqueles que ainda têm dúvidas de que isso é possível (ou saudável, responsável etc.). E além de dividir um pouco da sua sabedoria e compaixão conosco, ela cita Krishnamurti, que é um dos meus heróis, o que fez com que ela ganhasse muitos pontos com a dona desse blog.

Como é a alimentação na sua casa e, mais especificamente, do seu filho? Descreva o que o seu filho come no dia a dia e o que ele não come nunca.

No dia-a-dia fazemos quase todas as refeições em casa. Eu e meu marido somos professores/doutorandos, então quando não estamos em sala de aula geralmente estamos trabalhando em casa, pesquisando, escrevendo e preparando aulas. Isso torna tudo mais fácil, já que assim podemos comer boa parte das refeições com ingredientes orgânicos, integrais, preparadas no mesmo dia, de forma equilibrada e de acordo com nosso gosto.

Meu filho tem uma clara preferência pelo almoço e o jantar, quando ele costuma comer um cereal + leguminosa + hortaliças. Como bom nordestino, adora uma farofa, mas às vezes parece ser a reencarnação de um palestino, pois adora tabule, homus, babaghanoush, pão com azeite e zaatar, falafel… Tanto a convivência com João Asfora quanto seu blog acabaram nos deixando todos apaixonados por essa deliciosa culinária. No café da manhã ele geralmente come algo como uma tapioca com azeite, ou pão com zaatar ou geléia, ou aveia dormida… Nos lanches ele come frutas variadas e algum carboidrato, como inhame, macaxeira, milho cozido, tapioca, etc.

Ele, assim como toda a família, não come nunca carnes (ele nunca comeu), e derivados estamos no processo de eliminar 100%. Ainda acontece ocasionalmente de darem pra ele algum bolo ou biscoito com ingrediente de origem animal, mas estamos conversando pra zerar. Da minha mão ele só recebe alimentos veganos há quase 2 anos (desde que eu virei vegana). Quando virei vegana ainda não sabia se conseguiria que meu filho acompanhasse minha alimentação, já que festinhas de aniversário são um grande desafio (vê-lo recusar o bolo do parabéns é de doer), mas aos poucos estamos encontrando formas de lidar com essas situações. Ele já conhece o problema dos ovos e leites, e quando vê um prato que costuma contê-los, ele mesmo pergunta se tem e quando ouve um sim ele recusa. Ele ainda não sabe o que é carne, semana passada descobri que ele sabe apenas que é algo que outras pessoas comem mas nós não, mas estou preferindo não contar toda a história pra ele agora.

Quando e como você decidiu dar uma alimentação saudável pro seu filho? Conte um pouco da sua história com a alimentação: quem ou o que te inspirou no início, como foi a transição (de alimentação convencional pra alimentação natural/vegana)…

Eu sempre tive uma alimentação razoável, com mais refeições feitas em casa, poucos industrializados, pouca fritura, poucos refrigerantes, etc., mas comendo todo tipo de carnes e derivados. Há cerca de 10 anos, num exame periódico do trabalho,  descobri que meu colesterol estava alto, e a partir daí passei a me preocupar mais com minha alimentação. Passei a lanchar entre as refeições, comer mais no café da manhã, comer mais frutas, menos açúcar, etc.

A questão dos animais na alimentação só chamou minha atenção quando comecei a tomar conhecimento dos impactos ambientais da pecuária, eu era sócia do Greenpeace na época (2007), e embora a ONG não enfatizasse isso, em fóruns de internet muitas pessoas questionavam esse ambientalismo que não falava do consumo de carnes. Na mesma época algumas pessoas me falaram do filme “A carne é fraca”, do Instituto Nina Rosa, e quando eu terminei de assistir, decidi “tentar” parar de comer carne. Durante um ano fiquei sem comer nenhuma carne exceto peixe, que na época me parecia menos danoso para o meio ambiente e pra minha saúde. O problema do sofrimento dos animais ainda não tinha me tocado de verdade, embora eu reconhecesse toda a violência inerente ao processo. Com o tempo fui ficando com aversão a peixe, e no final de 2008 decidi parar também.

Alguns meses depois, fiquei grávida, e comecei a sentir vontade de deixar de comer derivados de animais. Depois de ser desencorajada por todos (inclusive uma nutricionista “vegetariana”) adiei essa mudança. Depois que meu filho nasceu, ao amamentá-lo, passei a ver o leite com outros olhos, não mais como um alimento qualquer, mas como um alimento que cada mamífera produz para seu próprio filhote, e que não temos o direito de roubá-lo e transformá-lo em um produto. Fui reduzindo cada vez mais meu consumo de leite e queijo, esse último com mais dificuldade, tanto pela praticidade de ter muitas opções de lanche pra comer fora de casa, quanto pelo vício mesmo.

No final de 2010 foi criado o Grupo de Recife da SVB e eu fui assistir à 1ª palestra que foi realizada. Conheci algumas pessoas do grupo, e resolvi me engajar no ativismo vegetariano. Alguns meses depois a fundadora e coordenadora do grupo se mudou para sua cidade de origem, e eu fui eleita coordenadora. Uma coisa interessante do ativismo é que ele funciona pra quem o pratica também, pois eu fui me conscientizando cada vez mais sobre a relação dos humanos com os outros animais, até que um dia, depois de exibir o filme “Terráqueos” num evento, decidi que a partir daquele dia assumiria o veganismo em minha vida. Ter conhecido outros veganos foi fundamental para eu me sentir segura nessa mudança, pois decidir viver de forma diferente de todo mundo não é fácil.

Apesar de não ser ainda vegana na época que meu filho nasceu, meu plano era dar uma alimentação vegetariana estrita pra ele. Eu o amamentei exclusivamente até os 6 meses de idade, e comecei a introdução de alimentos sem nada de origem animal, mantendo a amamentação até mais de 2 anos. Mas aprendi que se não quisermos que o filho coma algum alimento, não podemos comê-lo também, ao menos não na presença dele. Foi assim que ele comeu queijo pela primeira vez, viu alguém comendo, pediu, e em pouco tempo já estava viciado. Sim, assustadoramente viciado, e com pouco mais de 1 ano já descobriu onde ficava na geladeira e ia lá procurar, em alguns momentos recusando outros alimentos porque queria comer só isso, mesmo com a gente restringindo o consumo, sem nem mesmo oferecer a ele… Após alguns meses e alguns episódios de alergia respiratória, a pediatra nos disse que o consumo de queijo poderia ser um dos fatores que estava piorando o quadro, então resolvemos limitar mais esse consumo, até que alguns meses depois paramos de comprar queijo. Ele nunca mais teve nenhuma crise de alergia…

Eu pesquisei muito sobre a introdução de alimentos e tive como principais fontes o guia de alimentação para crianças até 2 anos, do Ministério da Saúde, e os artigos do Dr. Eric Slywitch sobre nutrição infantil. Foi um período muito divertido, Mateus sempre adorou comer, e era muito bom ver ele curtindo cada comida nova que conhecia. O “grupo virtual de amamentação” também me ajudou muito (na época no Orkut, atualmente estão no facebook), lá há muitas dicas sobre como conduzir uma gradual substituição da amamentação por alimentos sólidos, sem desmamar completamente até depois dos 2 anos (que é a recomendação da OMS e do MS). Eu fiz muita coisa diferente da maioria das pessoas com quem convivo, como introduzir primeiro cereais e legumes cozidos (ao invés de frutas), não dar suco de fruta antes de 1 ano de idade (até hoje ele toma pouco suco e muita água), não introduzi nenhum tipo de leite (nem vegetal), além de ter evitado ou adiado ao máximo a introdução de quaisquer alimentos industrializados na dieta dele. Nesse período procuramos mudar algumas coisas na alimentação de toda a família, passamos a comprar hortaliças na feira orgânica, reduzimos muito o consumo de açúcar e de industrializados de maneira geral.

1655380_10152180672928617_1410202355_o

Você vê os benefícios dessa alimentação na saúde do seu filho? 

Sim, ele tem uma imunidade incrível, adoece pouco e quando adoece fica bom muito rápido, costuma ter sintomas menos fortes que outras pessoas ao redor que pegam as mesmas viroses. As taxas dele são todas normais pra uma criança da idade dele, e o crescimento dele está absolutamente normal também. Sei que muitos problemas de saúde apresentados por crianças dessa idade são relacionados ao consumo de leite de vaca (problemas respiratórios, gases, diarreias, etc.), que as pessoas tratam como essencial para crianças, quando além de não ser, ainda é muito nocivo.

Quais os maiores obstáculos/críticas que você enfrentou, e ainda enfrenta, nessa jornada? 

A minha maior dificuldade é lidar com a incompreensão de algumas pessoas. Eu fico impressionada como mesmo quem conhece muito pouco sobre nutrição fica defendendo como lei os hábitos adquiridos pelo senso comum. Incomoda-me bastante também ver como é difícil para muitos entenderem que para os vegetarianos, mesmo se os alimentos de origem animal oferecessem a melhor nutrição possível, ainda assim eles não seriam uma opção para nós, por consideramos os direitos dos animais como fator inviolável na escolha alimentar (e outras). A pior crítica que já recebi foi que meu filho ia ter sérias deficiências nutricionais, e não adiantou eu dizer que tinha pesquisado, que tinha acompanhamento médico e nutricional, eu estava errada e ponto final.

Como você lida com situações sociais em que tem menos controle sobre o que o seu filho come?

Temos sorte de termos encontrado uma escola maravilhosa, que segue a Pedagogia Waldorf e incentiva e privilegia o uso de alimentos orgânicos, naturais e integrais. O lanche é coletivo, então não há crianças levando guloseimas para lanchar.

Quando vamos a festas varia muito como fazemos com a alimentação. Alguns amigos e parentes muito gentis se preocupam em oferecer alguns pratos veganos para que possamos participar da refeição, mas quando não tem nada, ou comemos antes de ir, ou depois de voltar, ou levamos algum prato. A regra de ouro é nunca chegar com fome nas festas. Em viagens é mais complicado, meu filho dificilmente aceita um prato que ele nunca comeu antes, principalmente num lugar estranho, então procuramos lugares que tenham opções mais familiares pra ele. Acabamos comendo mais lanches industrializados (como cookies e bolachas), mas como é um período limitado não vejo muito problema.

O que mais te ajudou (e ainda ajuda) a superar as dificuldades? 

Os amigos da SVB (Recife e nacional) sempre foram minha maior ajuda, tanto afetiva quanto com informações também. Os livros e o site do Dr. Eric sempre foram uma referência fundamental pra mim e por participar da SVB tive o enorme privilégio de conhecê-lo pessoalmente e assistir várias aulas, em que pude tirar dúvidas e aprofundar conhecimentos sobre nutrição vegetariana.

A pediatra de Mateus é também homeopata e antroposófica, com uma mente super aberta e sempre me apoiou nas escolhas alimentares dele.

E claro, seu blog foi e é minha maior fonte de informações sobre culinária vegana, além de ser um grande exemplo de como conviver harmoniosamente nesse mundo onívoro.

Qual a sua motivação pra continuar nesse caminho? O que faz com que você continue longe da facilidade que a alimentação convencional e onívora oferece? 

Atualmente considero o veganismo não como uma opção, mas como uma obrigação moral perante os animais não-humanos, assim como nossa obrigação moral de não praticar outras modalidades de discriminação, de raça, gênero, ou credo. Quando passo por situações em que tenho me sinto mais deslocada, repito como um mantra a frase de Krishnamurti: “Não é sinal de saúde estar bem adaptado a uma sociedade doente”…

Que dicas você daria pros pais que gostariam de oferecer uma alimentação natural e saudável pros filhos, mas têm medo de ser trabalhoso demais, caro demais, inviável, ou simplesmente da criança rejeitar?

A comida mais barata e mais saudável é sem dúvida a feita em casa (ao menos onde moro). É mais barata também porque quando é bem planejada, ajuda a evitar doenças e se economiza na farmácia. Claro que é mais trabalhoso preparar o que se come, mas deveríamos repensar esse modelo de vida em que não temos tempo quase nenhum para ficar em casa, curtindo a companhia dos nossos familiares em atividades básicas do dia-a-dia como cozinhar. É muito mais saudável “perder tempo” cozinhando do que comer qualquer coisa e ir perder tempo passeando num shopping.

Participar do preparo das refeições é a melhor forma das crianças se interessarem pelos alimentos. Mateus tem muito mais vontade de comer algo que ele ajudou a preparar do que algo que apareceu pronto na frente dele. Isso faz com que o ato de comer deixe de ser uma obrigação e seja o ápice de uma grande brincadeira. E cozinhar não precisa ser muito trabalhoso, com um pouco de planejamento pode se ter alguns ingredientes congelados (como feijões, grão-de-bico, ervilha, etc.) que agilizam muito o preparo de uma refeição. Um macarrão integral com grão-de-bico, molho de tomate e legumes assados no forno podem formar um almoço rápido, nutritivo e delicioso. Pratos únicos com leguminosa+cereal+verduras são bem práticos, como risotos e saladas. Algumas noções básicas sobre preparo e temperos fazem toda a diferença, transformando pratos aparentemente sem graça.

Eu acredito que o que mais atrapalha a aceitação de alimentos saudáveis são as comidas industrializadas, cheias de aromatizantes, açúcar e sal. O excesso de estímulos gustativos faz a comida mais natural parecer sem gosto, logo é importantíssimo evitar ao máximo esses “produtos comestíveis”, principalmente até o 2 anos, que é uma fase muito importante na formação das preferências.

Outro ponto fundamental é que as crianças aprendem primeiro pelo exemplo, logo não adianta querer que elas tenham uma alimentação saudável se os adultos se alimentam mal. Foi depois de me ver me deliciando com sua receita de couve-flor assada que Mateus resolveu experimentar, e isso abriu caminho para ele experimentar e começar a comer várias outras verduras. E é necessário persistir, oferecer sempre, ressaltar características que a criança aprecia (se é adocicado, crocante, se parece com algo que a criança já conhece e gosta, etc.).

Quais são os desafios de criar uma criança vegana? 

Eu tenho muita sorte de ter um filho que gosta de comer e tem um ótimo apetite. Eu vejo como tantas mães e pais sofrem com isso e embora não seja sempre fácil, não tenho do que reclamar.

Sem dúvida nenhuma o maior desafio é como manter um bom relacionamento com quem não entende nossas escolhas. E muitas vezes, quando tentamos explicar, as pessoas não querem escutar e não querem entender. Muitas vezes é difícil aceitar que tantas pessoas escolhem deliberadamente não pensar sobre a consequência de seus atos e para se legitimarem nesse comportamento, optam por ridicularizar ou criticar quem decidiu fazer diferente. E quando temos filhos os questionamentos aumentam muito, é como se o veganismo fosse uma “loucura” que não deveríamos “impor” aos filhos…

O jeito é redobrar a paciência e ter muita sensibilidade para saber quando argumentar, quando mudar de assunto ou quando simplesmente se calar. O que não adianta é querer brigar com o mundo, afinal dependemos das outras pessoas para que a situação dos animais mude. Mas isso não é um desafio apenas para veganos, mas para qualquer ativista. As pessoas gostam de desqualificar uma causa se os ativistas dela não tiverem um comportamento exemplar, mas nós somos tão humanos e imperfeitos como qualquer um. Ter assumido uma postura mais ética em algum comportamento não nos transforma em santos, somos apenas pessoas comuns tentando causar menos sofrimento a outros seres.

 1780166_10152180676098617_2015413173_o

Espero que vocês tenham gostado dessa mini série de posts tanto quanto eu. Me sinto privilegiada por conhecer pessoas tão incríveis como Ingrid, Suzy e Bárbara e tenho certeza que elas vão continuar inspirando muita gente.

 *As fotos que ilustram esse artigo são de Lamartiny Santos. Elas foram feitas durante o aniversário de 4 anos de Mateus. Bárbara contou que foi o segundo aniversário com comida totalmente vegana dele e que foi um sucesso total (aprovada por vegs e onívoros!).

Muitas luas atrás escrevi um post explicando porque NÃO é mais caro ser vegetariano/vegano. No texto chamei a atenção pro fato das pessoas que acusam o vegetarianismo de ser uma opção mais cara confundirem comida vegetariana com comida orgânica e compararem coisas que não são comparáveis. Explico. Não faz sentido comparar o custo da alimentação de um onívoro que compra verduras não-orgânicas e escolhe sempre as marcas mais baratas no supermercado com o custo da alimentação de um vegano que compra verduras orgânicas e marcas especiais em lojas de produtos naturais. Na época em que eu fazia pesquisas na faculdade aprendi que pra comparar duas coisas temos que ter apenas uma variante. Na comparação que descrevi acima, que é o que  a maioria das pessoa faz, tem duas variantes:

1-alimentação COM carne/produtos de origem animal X SEM carne/produtos de origem animal

2- alimentação orgânica X não orgânica

E naquele post (leitura altamente recomendada!) mostro que levando as duas variantes em consideração, ou seja, uma alimentação onívora orgânica e uma alimentação vegetal orgânica, ainda assim o vegetariano e principalmente o vegano gastam muito menos pra se alimentar do que o onívoro (pense no preço de carnes, ovos, queijos e iogurtes orgânicos). Mas é essencial entender que não é preciso comprar comida orgânica pra ser vegetariano/vegano. Até seis meses atrás as verduras, frutas, leguminosas e cereais que apareciam na minha mesa não eram orgânicos.

Muita coisa mudou na minha alimentação desde que voltei a morar na Europa e pela primeira vez na vida quase toda a comida que entra aqui em casa é orgânica. Então depois de anos tendo ter uma alimentação vegetal não orgânica, agora posso falar dos custos de ter uma alimentação vegetal orgânica. O veredicto? Continuo gastando menos do que os amigos onívoros que compram uma parte da sua comida orgânica e outra parte não orgânica e muito, muito menos do que os amigos onívoros que compram tudo orgânico.

Não vou falar de números aqui porque seria inútil, já que moro na Bélgica e a maioria dos meus leitores mora no Brasil e o custo de vida nesses dois países é diferente. Mas gostaria de dividir com vocês o que aprendi em matéria de economia do lar e dar dicas de como melhorar a qualidade do que você come, sem precisar esvaziar a conta.

 acelga verde rosa

 Evite vegetais orgânicos de supermercados

No Brasil eles são muito mais caros. Aqui na Europa eles são mais acessíveis, mas ainda assim são mais caros do que os vegetais orgânicos de algumas feiras de produtores.

 Prefira comprar verduras em feiras orgânicas

Vegetais em feiras orgânicas são mais baratos do que os produtos orgânicos de supermercado, principalmente quando os feirantes são os próprios produtores. E algumas vezes encontrei vegetais orgânicos em feiras que custavam menos do que a versão não orgânica em supermercados (tanto na Bélgica quanto no Brasil).

Escolha vegetais de estação

Aqui na Europa é possível encontrar morangos e melancia o ano inteiro, mesmo quando a temperatura lá fora está abaixo de zero. Além de não fazer sentido comer melancia em dezembro (aqui no Hemisfério Norte), frutas fora da estação são mais caras, têm uma pegada ecológica muito maior (pense em toda a energia usada pra manter essas frutas quentinhas em pleno inverno) e o sabor deixa muito a desejar. Já vegetais de estação são mais saborosos, mais nutritivos e mais baratos. Se você não souber o que está na época na sua região, basta passear por uma feira livre: os vegetais mais abundantes e baratos são sempre os da estação. Desde setembro não como tomates frescos (nem berinjela, abobrinha, pimentão…), mas sei que no verão, quando eles voltarem a aparecer nas feiras, o prazer de degusta-los será ainda maior.

 Escolha vegetais que foram produzidos localmente

Sabemos que a partir do momento em que um vegetal é colhido a carga de nutrientes começa a diminuir. Aquela maçã que viajou milhares de quilômetros pra chegar na sua mesa além de ser mais cara e menos ecológica (mais uma vez, pense na energia utilizada na produção/transporte), já perdeu uma parte dos nutrientes. Então tente consumir principalmente alimentos produzidos na sua região. Atualmente 60% dos vegetais que entram na minha cozinha são produzidos na Bélgica e 40% nos países vizinhos, como a França, Holanda, Espanha e Itália. (A Bélgica é minúscula, um pouco maior do que o Alagoas, então as distâncias entre esses países é pequena.)  Por mais que eu sinta falta de banana, só compro essa fruta em ocasiões especiais, pois sei que ela vem de muito longe. Isso significa que a variedade de legumes que compõem a minha dieta diminuiu consideravelmente desde que saí da Palestina, mas ao mesmo tempo isso me força a ser mais criativa na cozinha e a usar o mesmo vegetal de várias maneiras diferentes.

 Passe a ver frutas como guloseimas saudáveis

Quem frequenta feiras orgânicas sabe que frutas são geralmente os itens mais caros. Encha a sacola de legumes e folhas e invista em uma ou outra fruta que será degustada como uma guloseima saudável. Frutas são legumes docinhos e todos os minerais e vitaminas que o nosso organismo precisa podem ser encontrados em legumes e folhas. Então sua saúde não vai sair perdendo se você diminuir a quantidade de frutas da dieta e aumentar a de legumes e folhas. Claro que se eu pudesse escolher comeria muitas frutas orgânicas, porque adoro frutas em geral e as orgânicas são ainda mais saborosas, mas meu orçamento é pequeno e preciso fazer escolhas inteligentes. Compre mais legumes e folhas do que frutas e pode ter certeza que você sempre vai voltar da feira com a sacola cheia, sem ter precisado quebrar o porquinho pra pagar a conta.

 Privilegie os vegetais humildes  

Claro que adoro variar e degustar vegetais especiais e exóticos, mas meu foco é sempre nos vegetais mais humildes. E além de serem mais baratos, alguns dos vegetais mais humildes são os que mais rendem, fazendo com que a economia seja ainda maior. Já reparou como um repolho cortado se transforma em uma quantidade enorme de comida? Na categoria dos vegetais humildes entra também jerimum (abóbora), batata, batata-doce, cenoura, beterraba, chuchu… Dependendo da região onde você mora a lista de vegetais humildes pode variar.

 Aproveite as folhas, talos e cascas dos legumes orgânicos

Uma das grandes vantagens de comprar legumes orgânicos é que frequentemente eles são vendidos inteiros, com os talos e as folhas. A primeira vez que vi uma couve-flor em uma feira orgânica fiquei impressionada com a quantidade de folhas ao redor da cabeça. Geralmente esses legumes são vendidos por unidade, não no peso, o que faz com que você volte pra casa com dois legumes pelo preço de um! Folhas de cenoura, couve-flor e beterraba são comestíveis e deliciosas. Aproveite também os talos dos legumes (brócolis, couve-flor) e das folhas (couve, acelga verde…). Pique tudo miúdo e coloque na sopa, feijão, refogados… Se seu feirante corta as folhas dos legumes antes de levá-los pra feira, converse com ele e peça pra que na semana seguinte ele traga os seus legumes inteiros, com as folhas. E tem mais! Alguns legumes nem precisam ser descascados (cenoura, pepino, nabo, rabanete…).

Fuja do desperdício

Deixar legumes se estragar me dá uma dó no peito… E quando os legumes em questão são orgânicos, me dói o peito e o bolso. Não deixe seus vegetais se estragarem no chão da cozinha (transfira tudo que precisa ser refrigerado pra geladeira assim que voltar da feira) nem no fundo da geladeira. Um legume está quase passando do ponto de ser consumido? Você tem duas opções: prepare no mesmo dia ou congele imediatamente (devidamente lavado e cortado). Se encontro promoções na feira, ou se volto pra casa com um jerimum enorme, lavo, corto em pedaços médios e congelo. Essa dica também é válida pra quem preparou uma quantidade muito grande de um prato. Não vai comer aquilo tudo nos próximos dias, ou não gosta de comer o mesmo prato várias vezes seguidas? Congele em porções proporcionais ao número de habitantes da sua casa e você economizará tempo e dinheiro.

Se não puder comprar todos os vegetais orgânicos…

Sabe quais são os 12 vegetais mais contaminados com agrotóxicos? Maçã, pimentão, morango, uva, salsão, pêssego, espinafre, nectarina, pepino, batata, tomate cereja e pimentas. Se você não puder comprar tudo orgânico, pelo menos escolha comprar a versão orgânica dos produtos dessa lista. E na hora de consumir vegetais não orgânicos, lavar bem e retirar a casca antes do consumo é uma maneira de se livrar de uma parte dos agrotóxicos.

E falando em economia, queria dividir com vocês uma receita baratinha e nutritiva que vem aparecendo com frequência na minha mesa. Repolho é um dos poucos legumes produzidos na minha região e que aparece na feira durante todo o inverno, então há meses que aqui em casa é repolho refogado pra cá, sopa de repolho pra lá, salada de repolho por aqui… Felizmente eu adoro repolho, principalmente repolho verde, que é quase um cruzamento entre repolho branco e couve folha (tem um na primeira foto desse artigo, do lado do alho poró). Então preparo um prato de repolho com feijão, que degusto com arroz integral, e a refeição inteira (com o arroz e pra duas pessoas) sai por míseros 2 euros. E com todos os ingredientes orgânicos! Quando penso que ainda tem gente tentando me convencer que se eu comesse carne/ovo/queijo minha alimentação seria mais barata…

 repolho com feijão

Repolho com feijão

Imagino que encontrar repolho verde no Brasil não seja uma tarefa das mais fáceis (nunca vi esse vegetal em Natal), então você pode usar repolho branco. Uso qualquer tipo de feijão, mas feijão carioquinha e vermelho (como o da foto) são os meus preferidos nessa receita. Quem não gosta de coentro pode usar salsinha.

2cs de azeite

1 cebola, picada

2-4 dentes de alho, picados

4x de repolho verde (ou branco), em tiras finíssimas

1 1/2x de feijão cozido (na água e sal)

Um punhado de coentro, picado

Um punhado de cebolinha verde, picada (opcional)

Sal, pimenta do reino e limão a gosto

Em uma frigideira grande e funda aqueça 1cs de azeite e doure a cebola. Junte o alho, deixe cozinhar mais 30 segundos e acrescente o repolho. Tempere com sal, refogue durante alguns segundos, cubra e deixe cozinhar em fogo baixíssimo até o repolho ficar macio. Não precisa acrescentar água, o repolho vai liberar um pouco de água e cozinhar no vapor. Quando o repolho estiver bem macio, retire a tampa e deixe toda a umidade evaporar, mexendo de vez em quando. Quando os pedaços de repolho que estiverem em contato com a frigideira começarem a ganhar uma cor mais escura junte o feijão cozido (sem o caldo) e deixe aquecer. Desligue o fogo e junte o coentro e a cebolinha (se estiver usando). Tempere com pimenta do reino, prove e corrija o sal, se necessário. Sirva regado com suco de limão e com o resto do azeite, acompanhado de arroz integral. Eu gosto de servir esse prato com bastante molho de pimenta, como esse aqui. Rende duas porções generosas.