No início da semana deixei Bruxelas. Os dias que antecederam a partida foram preenchidos com despedidas: pessoas, lugares, os pertences que se acumularam durante o último ano… No ônibus que me levou embora fiz o balanço dos 13 meses que fiquei na cidade. Foram muitas oficinas de culinária veganas e palestinas (também 100% vegetais) e pela primeira vez na vida trabalhei como chef particular (pra uma família de onívoros!). E no emaranhado de pessoas incríveis e projetos interessantes que cruzaram o meu caminho esse ano teve:

Uma palestra sobre a Palestina pra um grupo de catecismo, onde uma das crianças perguntou se eu tinha morrido e ressuscitado na Palestina.

Palestras sobre a questão dos refugiados palestinos pra grupos de uma escola de segundo grau, onde um terço dos adolescentes saiu da sala chorando, um terço querendo dar murros na parede de tanta revolta e outro terço balançando a cabeça em descrédito, achando que tudo que eu tinha exposto era mentira ou, no mínimo, exagero (até as fotos e mapas feitos pela ONU). Pelo menos minhas palestras não deixam ninguém indiferente.

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Uma colaboração (criação de receitas e oficinas) com dois rapazes belgas que decidiram cultivar cogumelos em borra de café.

A realização de um jantar pra comemorar a construção de um banheiro seco, parte de um projeto muito bacana em um parque da cidade. No primeiro encontro que tive com o coletivo que construiu o banheiro eles explicaram que queriam incentivar o pessoal a usar o banheiro seco do parque e fizeram o seguinte pedido: “Gostaríamos que você preparasse um jantar que desse vontade ao pessoal de usar o banheiro”. Voltei pra casa rindo muito, depois de ter explicado que o processo de digestão leva algumas horas e que a menos que eu utilizasse laxantes poderosos na comida, o que comprometeria a minha reputação de cozinheira, eu não podia fazer os convidados do jantar usar o banheiro imediatamente.

O encontro com um grupo de afegãos requerentes de asilo e a descoberta da situação revoltante das pessoas que são obrigadas a fugir de sua terra, cruzando vários países numa travessia que pode durar meses e custar a vida, e quando chegam na Europa são tratadas com desprezo total e perseguidas como fora-da-lei. Nunca a minha vontade de ver o final de fronteiras no mundo foi tão grande. Ninguém é ilegal!

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O trabalho voluntário com uma ONG que ajuda estrangeiros sem visto que foram colocados no que o governo belga chama de ‘Centro Fechado’, mas que não passa de um eufemismo pra ‘prisão’, enquanto esperam ser deportados. A dor das visitas que fiz naquela prisão, onde pessoas choravam de desespero enquanto me explicavam que se fossem deportados pros seus países de origem seriam perseguidas, torturadas e assassinadas. O sentimento esmagador de impotência diante da injustiça, que eu senti tantas vezes quando morava na Palestina. E, mais do que tudo, a revolta rachando o meu peito quando eu recebia um telefonema do advogado ou de um dos meus colegas da ONG avisando que aquela pessoa tinha acabado de ser deportada.

O envolvimento com o grupo de apoio à requerentes de asilo LGBT e as histórias assustadoras de quem escapou de países onde homossexualidade é crime. Algumas me assombraram tanto que nunca conseguirei esquecer.

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O artista e tradutor português que conheci quando trabalhei como intérprete em um seminário internacional sobre ‘Práticas de Emancipação Coletiva’ e que se tornou o meu melhor amigo na cidade. Passei muitas horas conversando com ele sobre a política no Brasil, assunto que o intriga bastante, e o ajudando a traduzir documentários sobre a luta por direitos das comunidades quilombolas no meu país, quando ele não entendia o Português brasileiro (e rindo dos nossos dialetos respectivos).

A amiga basca que me convidou pra colaborar com um dos eventos gastronômicos-culturais que ela organiza em Bruxelas e me incentivou a criar um menu de inspiração palestina, que foi acompanhado por uma exposição efêmera das fotos de Anne (que estava em Gaza naquele momento).

As atividades gastronômicas pra crianças e o baby-sitting ocasional pros amigos de uma amiga, que tinham crianças super interessantes. Tive conversas profundas com o casal de gêmeos de 4 anos sobre a construção do gênero (Eu: ‘Vocês têm certeza que sou menina? Talvez eu seja menino.’ Eles: ‘Você tem um rabo de cavalo e brincos, então é menina.’ Eu: ‘Conheço meninos que usam brincos e têm o cabelo grande. E conheço alguém que nasceu menina, mas hoje é menino.’ Eles, animadíssimos: ‘Ahhh! Como é o nome dela agora?’). A menina, que tinha os olhos dourados de uma leoa, os mais lindos que já vi, me fazia rir muito com suas observações. Um dia, já deitada, ela me chamou no quarto pra dizer: ‘Estou com saudade de Mandela’. Pois é, em algum lugar em Bruxelas tem uma menininha de 4 anos com saudade de Mandela!

Também cozinhei em um caminhão (‘food truck’), fui contratada pela Sociedade Vegetariana Belga pra fazer o meu primeiro churrasco vegano, fiz uma vídeo-conferência sobre a violação dos direitos humanos na Palestina pra funcionários brasileiros (um grupo em Recife e outro em Porto Alegre) de uma empresa de softwares americana (!!!!), recebi a visita de amigos da França, Alemanha, Jerusalém, Noruega, Itália e Espanha…

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E nem tive tempo de participar de todos os projetos que gostaria. Na minha lista ficou pendente o convite pra organizar oficinas de culinária  (vegana) pra requerentes de asilo LGBT, tentativa de criar um espaço seguro, mas ao mesmo tempo descontraído, onde essas pessoas pudessem dialogar e trocar confidências. Se tem uma coisa que o projeto no campo de Aida me ensinou foi que comida une as pessoas e cria laços poderosos. Também fui convidada, mas não tive tempo de participar, pra cozinhar pras prostitutas da ‘rua da luz vermelha’ de Bruxelas, um projeto independente que oferece uma refeição quente, manicure e cabeleireiro pras meninas algumas vezes por mês. Minha amiga basca também me chamou pra dar palestras sobre sexualidade positiva pra um grupo de mulheres, vindas de um meio conservador e opressor, que estavam aprendendo a ‘pole dance’ pra superar complexos com o próprio corpo, projeto que ela está atualmente desenvolvendo.

Não sei que tipo de CV estou tentando construir, mas minha passagem por Bruxelas o deixou ainda mais heteróclito. Então, sentada naquele ônibus, eu fiz o que faço com frequência: agradeci por ter a oportunidade de viver essa vida extravagante, mas que me convém perfeitamente e que me enche de felicidade. Às vezes a instabilidade e o medo de não conseguir me manter me paralisam por um momento, que pode durar alguns segundos ou vários dias, mas quando coloco a cabeça no travesseiro e fecho os olhos, só sobra a gratidão profunda que carrego no coração.

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A pergunta que ando escutando com mais frequência agora é: mudou pra onde? Por enquanto, pra lugar nenhum. A verdade é que serei nômade durante os próximos seis meses. Estou atualmente na França, mas daqui a alguns dias irei pra Toscana (uma semana de férias, com uma oficina de culinária no meio), depois pra Palestina (onde vai acontecer esse tour político-gastronômico-ativista), depois volto pra França (onde passarei o natal e o ano novo), depois irei ao Brasil. Vou passar os meses de janeiro e fevereiro em terras tupiniquins e já estou com várias ideias de projetos por lá. Aguardem! E se tiverem sugestões, me escrevam!

À partir de março as coisas ainda não estão totalmente definidas. Apesar da insegurança, que bate na minha porta regularmente (se engana quem acha que ela não tem o meu endereço. Mesmo na estrada, sem domicílio fixo, ela sabe onde me encontrar), mal posso esperar pra descobrir o que o próximo ano vai me oferecer. Espero que 2015 queira fazer comigo o que a primavera faz com as cerejeiras:)

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*Todas as fotos foram feitas em Bruxelas, durante os últimos 13 meses, com o meu telefone. Algumas precisam de legenda, então lá vai: a quarta é do grupo de requerentes de asilo afegãos, durante a gravação do clip de um dos rapazes do grupo (ele canta rap), a quinta foto é da prisão pra estrangeiros sem visto que mencionei no texto e a décima primeira é do menu  palestino, pintado pela minha amiga basca, que servi no evento também mencionado no texto. E pra quem ficou curioso pra saber quem escreveu o poema que aparece na primeira foto, ele é de Leonard Cohen.

Sabiam que é possível fazer sopas cremosas sem nenhum tipo de creme (animal ou vegetal)? Uns tempos atrás aprendi esse truque e desde então utilizo regularmente nas sopas aqui em casa ou no trabalho. É bem simples, mas engenhoso. Essa técnica culinária tradicional usa manteiga, mas quando li sobre ela pensei imediatamente que talvez funcionasse com uma gordura de origem vegetal. E eu estava certa. Se você colocar sua sopa dentro do liquidificador, ligar o motor e acrescentar azeite (gordura) aos pouquinhos, ele vai se misturar com a sopa (água) e com o ar incorporado pelas hélices e isso vai criar uma emulsão. Voilà! Sopa cremosa (até a cor fica mais clara, como se você tivesse acrescentado creme) e com o delicioso e delicado sabor de azeite.

Claro que essa técnica exige que você triture sua sopa. Mas se você gostar de sopa com pedaços inteiros, triture somente uma parte da sopa, junto com o azeite, depois despeje de volta na panela onde ficaram pedaços de legumes intactos. Eu gosto de usar esse truque com praticamente todas as sopas de legumes, mas acho que o resultado é particularmente saboroso se a base da sopa for tomates. O que não é surpreendente, já que eles se dão muitíssimo bem com azeite.

E já que estou falando de sopas, aqui vai mais uma dica.  Eu adoro sopas de legumes, mas sozinhas elas não me deixam saciadas por muito tempo. Então quando quero transformar uma sopa de legumes humilde em um prato completo e nutritivo, acrescento lentilhas cozidas. Essa é a maneira mais fácil de aumentar drasticamente a quantidade de proteínas da sua sopa e transformá-la em refeição completa. Lembram que proteína é um dos componentes chaves de uma refeição capaz de saciar qualquer apetite?

Eu sempre tenho restos de lentilhas cozidas na geladeira ou no congelador e isso facilita e muito a vida na hora de preparar refeições. Mas se esse não for o seu caso, você pode cozinhar lentilhas à parte pra acrescentar à sua sopa. Comparadas com outras leguminosas (feijões, grão de bico) lentilhas não demoram muito pra cozinhar. E a mistura de lentilha verde com essa sopa de tomate e cenoura é uma das minhas preferidas. Adoro sopa de tomate (como essa), mas junto com cenoura e aipo o resultado é ainda melhor. A cenoura suaviza a acidez do tomate e deixa a sopa mais espessa e o aipo (opcional, mas recomendado) realça ainda mais o sabor.

Por que não despejar as lentilhas cruas diretamente na panela com os legumes e deixar cozinhar tudo junto? Primeiro porque sua sopa vai demorar mais pra ficar pronta. Lentilhas levam entre 20 e 30 minutos pra cozinhar, então se elas estiverem cozinhando (à parte, na água com sal e uma folha de louro) antes mesmo de você começar a preparar o resto da sopa, você economizará tempo. Se for esperar que todos os legumes tenham sido cortados, que a cebola e o alho tenham sido refogados e só então você começar a cozinhar a lentilha, junto com os outros ingredientes, sua sopa vai levar o dobro de tempo pra ficar pronta. O segundo motivo é mais subjetivo. Eu gosto de sopa cremosas, mas com alguns pedacinhos inteiros pra mastigar. Então trituro minha sopa, deixando-a bem cremosa, e só depois junto as lentilhas, pra criar um contraste de texturas. Acho uma delícia sentir na boca essas bolinhas macias junto com cremosidade dos legumes.

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A foto acima é do meu creme de brócolis, com o acréscimo de lentilhas. Eu coloco lentilha em quase todas as sopas de legumes que faço, pra fazer um upgrade de ‘entrada’ pra ‘prato principal’. E antes de passar à receita, gostaria de contar que fiquei surpresa com o número de pessoas que me escreveram interessadas no tour político/gastronômico na Palestina. O grupo já está completo, mas o interesse foi tão grande e tantas pessoas me escreveram pedindo pra fazer outro tour no ano que vem que provavelmente outras viagens virão. Podem deixar que farei o anúncio aqui no blog quando tudo se confirmar. E tem mais! Vou dividir fotos e histórias desse tour aqui no blog, pra vocês acompanharem virtualmente nossa aventura. E vai ser uma tremenda aventura, podem apostar!

 Sopa de tomate, cenoura e lentilha

Você pode usar um resto de lentilhas que está sobrando na geladeira ou cozinhar lentilhas especialmente pra essa sopa. Eu gosto de cozinhar minhas lentilhas na água com sal e uma folha de louro. Não aconselho usar lentilha coral aqui. Elas devem sempre ser usadas junto com os outros ingredientes da sopa, pois se desfazem completamente durante o cozimento. Se quiser uma sopa com lentilha coral, sugiro essa ou essa aqui.

1 cebola grande, picada

4 dentes de alho, picados/amassados

4 cenouras médias, em rodelas finas

8-10 tomates maduros, em pedaços médios

1 galho de salsão (com as folhas), picado – opcional

5 cs de azeite (escolha um azeite de sabor suave)

2x de lentilhas verdes cozidas (ler acima)

Sal e pimenta do reino a gosto

Em uma panela grande aqueça 1cs de azeite e doure a cebola. Junte o alho e deixe cozinhar mais 30 segundos. Acrescente as cenouras, baixe o fogo e deixe cozinhar coberto até elas amolecerem, mexendo de vez em quando. Se o fogo estiver bem baixo e a panela coberta, não precisa acrescentar água: a cenoura vai cozinhar no próprio vapor. Mas se começar a grudar no fundo da panela você pode juntar um pouquinho de água (e verifique se o fogo está baixo, mesmo). Quando a cenoura estiver macia junte os tomates e o salsão, se estiver usando. Tempere com sal e pimenta do reino a gosto, cubra e deixe cozinhar até os tomates se desintegrarem completamente. Depois que a sopa estiver esfriado um pouco, passe tudo no liquidificador até que fique homogêneo. Com o motor ligado, despeje aos pouquinhos 4 cs bem cheias de azeite. Talvez você precise de um pouco mais, então continue juntando o azeite aos pouquinhos até que a sopa adquira uma cor mais clara, como se você tivesse acrescentado creme. Coloque a sopa de volta na panela, junte a lentilha cozida (e escorrida), prove e corrija o tempero. Se achar a sopa espessa demais, junte um pouco d’água até atingir a consistência desejada. E não esqueça de aquecer a sopa antes de servir. Rende 4 porções como prato principal.

UPDATE: O grupo está completo. Estava! Uma pessoa desistiu e agora tem uma vaga que pode ser sua :) A viagem acontecerá do dia 4 ao 18 de novembro, então quem estiver interessado deve me escrever o mais rapidamente possível. 

Queridos leitores,

Tenho um anúncio e tanto pra fazer hoje! Estão preparados? Lá vai. Estou planejando uma visita à Palestina do 4 ao 18 de Novembro e vou aproveitar pra fazer algo que sempre sonhei: guiar um pequeno grupo de brasileiros numa viagem política/ativista/gastronômica(vegana). Os objetivos dessa viagem são: encontrar palestinos e conferir as iniciativas de resistência não-violenta à ocupação israelense, mostrar solidariedade ao povo palestino, descobrir as belezas naturais dessa terra (que pouca gente conhece), a cultura e a deliciosa culinária palestina, que é altamente vegan-friendly. E, ao decidir visitar a Palestina, também vamos apoiar a economia local que sofre imensamente por causa da ocupação. Essa viagem será extremamente enriquecedora, algo realmente inesquecível e que tenho certeza que terá um impacto profundo na vida dos viajantes.

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A duração da viagem é de 14 dias (10 dias de tour + 4 dias livres) e visitaremos Belém, Hebron, Ramala, Jericó e Jerusalém. A hospedagem será no campo de refugiados de Aida, na cidade de Belém (a poucos quilômetros de Jerusalém). Lembra do projeto que ajudei a criar nesse campo? Ficaremos hospedados na casa de uma das famílias do projeto, que além de alugar parte da sua residência, também oferece alimentação tradicional (e vegana!) aos hóspedes. A experiência será ainda mais rica, já que seremos ’adotados’ por uma família palestina. E o invés de dar dinheiro pra um hotel, patrocinaremos um pequeno projeto de mulheres refugiadas. E apoiar a economia palestina, como expliquei, é um dos objetivos dessa viagem.

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Quer saber o que vamos fazer durante a viagem? Aqui vão algumas das atividades que estou planejando: encontro com um Comitê de Resistência Popular, visita guiada de campos de refugiados, tour político de Jerusalém Oriental, piquenique no deserto, caminhada em um oásis no caminho de Jericó, excursões gastronômicas pra provar o melhor hummus do mundo e outras delícias típicas, aula de culinária tradicional (vegana) com as mulheres do projeto no campo de refugiados de Aida, visita da feira de Belém e muito mais. Estarei com o grupo o tempo todo e partilharei as informações que acumulei durante os cinco anos que morei na Palestina, responderei suas perguntas e tirarei qualquer dúvida político-gastronômica que você tiver. E ainda vou levar vocês pra descobrir meus lugares preferidos e as pessoas mais especiais que conheci por lá.

Os interessados devem entrar em contato comigo por email o mais rapidamente possível, pois o grupo terá somente 6 pessoas e alguns lugares já estão reservados. Pra reservar o seu lugar, esclarecer suas dúvidas (datas, preços etc.) e ver o programa completo escreva pra papacapimveg@gmail.com (coloquem no título do email ‘Viagem Palestina’).

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Nos encontramos na sombra das oliveiras, degustando hummus e chá com menta.

Voltei uns dias atrás de mini férias no interior da França. É sempre uma delícia passear por lá, especialmente nessa época do ano, quando o verde está mais verde do que nunca. E as belezas do campo me fazem inevitavelmente querer morar no mato, plantar legumes e frutas, comer embaixo das árvores e ter um ritmo de vida mais tranquilo (mas com acesso à internet). Sei que tenho aquela imagem bucólica da vida no campo que só quem nasceu e cresceu em uma cidade grande (e depois foi morar em uma maior ainda) tem e que nem sempre corresponde à realidade. Mas de vez em quando gosto de sonhar com hortas, galinhas de estimação, casas rústicas e ouvir grilos depois do pôr do sol. Então queria dividir algumas fotos da viagem com vocês. Pra vocês sonharem comigo.

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Eu sei que vocês adivinharam, mas já que ela faz questão… As fotos onde estou segurando uma beterraba (imensa!), fazendo ioga e a foto onde aparecem meus pés (e os de Annie)  foram feitas por Anne Paq.  Todas as outras são minhas.

Semana passada eu estava no interior da França, descansando e visitando a família francesa. Cozinhei coisas simples, porque nessa época do ano os vegetais são tão suculentos que eles não precisam de preparações nem temperos elaborados. E também porque estou aprendendo (finalmente!) que durante as férias é melhor passar menos tempo na cozinha e mais tempo com as pessoas que importam. Então fui visitar entes queridos e seus jardins luxuriantes. E numa dessas visitas me deparei com um imenso canteiro de urtigas. Fazia muito tempo que eu queria cozinhar urtigas (até então eu só tinha bebido o chá feito com a planta desidratada), então não hesitei um segundo: pedi luvas de jardinagem e um cesto à dona do jardim e comecei imediatamente a colheita. E porque gosto de viver perigosamente, eu estava calçada com minhas fieis Havaianas (escapei ilesa, mas não tentem fazer isso em casa).

Se você está com as duas sobrancelhas levantadas e a boca aberta desde que leu ‘cozinhar urtigas’, você não está sozinho/a. Postei a foto do meu cesto repleto de urtigas recém colhidas no Instagram do blog e as reações foram parecidas. Embora seja um ingrediente tradicional da culinária de alguns lugares do mundo (mas mesmo nesses países o uso desse ingrediente tem se tornado cada vez mais raro), nunca ouvi falar de pratos com urtiga quando morava no Brasil e só vim descobrir que elas são comestíveis uns anos atrás.  Acontece que depois de cozidas a malvadeza desaparece completamente. E nem precisa cozinhar muito: entre 30 segundos e 1 minuto na água fervente e voilà! Sua urtiga se torna tão inofensiva quanto uma folha de alface. Quem diria, não é?

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Se vocês forem como o meu pai vão querer me perguntar: “Minha filha, tem retorno comer urtiga?” Por que cargas d’água comer uma planta tão perigosa quando podemos comer, por exemplo, couve, agrião ou espinafre sem correr o risco de nos machucarmos? Não vou detalhar as propriedades medicinais da urtiga (que são várias, mas esse blog é sobre comida), mas duas coisas me interessam aqui. Primeiro: urtigas têm uma quantidade pra lá de interessante de ferro. Segundo (e, pra mim, mais importante): urtigas são uma delícia. E ainda tem uma razão bônus: vocês vão se sentir o máximo comendo algo que até então consideravam perigoso. (“Mãe, pai, olha eu comendo urtiga!”)

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Agora imagino que vocês estejam curiosos pra saber que gosto tem as danadas. Urtiga têm um sabor intenso, verde e marcante. Se você não é fã de folhas verdes e prefere vegetais de sabor suave, com certeza não vai gostar dela.  Mas se suas papilas, assim como as minhas, adoram uma aventura, pode procurar o canteiro de urtigas mais próximo (não esqueça as luvas!) pois você precisa experimentar essa receita. Nesse pesto a intensidade das urtigas é suavizada pelas castanhas de caju e o azeite e o resultado é um molho muito saboroso e bem mais comportado do que o gosto da planta sozinha. Servi esse pesto pra vários onívoros, com paladares mais ou menos aventureiros, e todos aprovaram. Sucesso garantido!

E antes que vocês saiam catando urtigas (imagino que vocês estão doidos pra fazer isso agora), duas dicas importantes. Escolham urtigas jovens, pois os caules são mais tenros (escolham as menores e sem flores). E ao invés de levar pra casa plantas que crescem na rua, perto da poluição de carros (e xixis de animais quadrúpedes e/ou bípedes), façam sua colheita em jardins domésticos. Suas plantas serão mais limpinhas e o dono do jardim vai provavelmente agradecer o serviço (e achar você pirado/a quando descobrir seus planos de comer as urtigas dele).

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Pesto de urtiga

Nada tema, urtigas se tornam totalmente inofensivas depois de passarem por uma panela de água fervente. Se você nunca cozinhou com urtigas, pode confiar: basta tomar alguns cuidados básicos quando estiver manipulando as folhas cruas (SEMPRE use luvas) e você será recompensado/a com um vegetal pra lá de original e muito nutritivo. O missô é minha arma secreta pra realçar o sabor de pestos (ele cumpre a mesma função do parmesão), então não deixe de fora.

Urtigas do jardim (o equivalente a um escorredor de macarrão de urtigas frescas, aproximadamente 2x depois de cozidas)

1/2x de castanha de caju

1 dente de alho pequeno, ou a gosto

1cc de missô escuro

1cs de suco de limão espremido na hora

1/3x de azeite

Pimenta do reino a gosto

Aviso importante: ao manipular urtigas cruas use luvas (de jardinagem ou dessas pra lavar louça). E tome cuidado pras folhas não entrarem em contato com a pele que estiver exposta (braços).

Despeje as urtigas em um escorredor de macarrão e lave bem (basta passar algumas vezes embaixo da torneira ligada). Encha uma panela grande com água e leve ao fogo. Quando começar a ferver despeje as urtigas, cubra a panela e deixe ferver por um minuto. Pronto, agora os super poderes malignos da urtiga foram suprimidos e elas se tornaram inofensivas. Pode manipular com as mãos nuas e transformar esse vegetal em pesto. Não deixe de colocar uma folhinha cozida na boca pra descobrir o sabor que ela tem e se sentir super durona/durão (HÁ! Tô comendo urtiga!!!). E não esqueça de chamar testemunhas pra ver a proeza.

Escorra a urtiga cozida e esprema bem entre as mãos pra retirar o excesso de água. Triture a urtiga cozida/escorrida com todos os outros ingredientes no liquidificador (ou multiprocessador) até obter uma pasta densa. Não precisa triturar totalmente as castanhas, alguns pedacinhos inteiros são bem-vindos e deixam a textura mais interessante. Prove e ajuste o tempero de acordo com o seu gosto (talvez você queira mais limão, ou mais alho…). Geralmente missô é bem salgado, mas talvez você ache necessário acrescentar uma pitada de sal ao seu pesto. Sirva com macarrão, batatas (cozidas ou assadas) ou com pão. Rende aproximadamente 1 1/2 x. Conserve na geladeira, em um recipiente bem fechado, por alguns dias.

Estou atualmente no interior da França, passando alguns dias de férias com a família francesa. Quem me procurar essa semana vai me encontrar entre a cozinha e o imenso e delicioso jardim do meu sogro. Mas vou deixar vocês em boa companhia: tenho mais uma entrevista da série ‘Porque me tornei vegano’ pra dividir com vocês. Samira Menezes faz parte do meu grupo de ‘amigos virtuais’ e é uma flor. Ela é paulistana mas mora em Milão e ando torcendo pros nossos caminhos se cruzarem aqui no velho mundo. Samira é jornalista e tem um blog, o Miscelânea Milanesa, onde ela divide suas descobertas “culinárias, animalistas e mundanas”. Fiquei super feliz quando ela aceitou ser entrevistada aqui no blog, pois ela tem coisas interessantíssimas pra dividir conosco.

Quando você se tornou vegana e o que te levou a adotar esse estilo de vida?

Me tornei vegetariana em 2006 e vegana em 2008. O empurrão inicial veio da Revista dos Vegetarianos. Em novembro de 2006 comecei a trabalhar nesta publicação e me pareceu sensato praticar o vegetarianismo, já que dali em diante eu deveria escrever sobre esse estilo de vida. Então, em dezembro daquele ano parei de comer carnes por pura curiosidade. Queria ver como meu corpo reagiria, quais situações eu vivenciaria sendo uma vegetariana, mas, principalmente, o que eu poderia comer de diferente praticando o vegetarianismo. O fato é que sempre fui muito gulosa e até hoje adoro saborear bem os alimentos e os temperos. Na verdade eu estava mais interessada nisso do que em outra coisa.

Com o tempo, percebi que não só o vegetarianismo era muito gostoso, como também me ajudou a “curar” alguns probleminhas chatos de saúde, como intestino preso e acne leve, que me atormentavam bastante. Nesse meio tempo, a curiosidade se transformou em convicção graças ao acesso à informação, pois todo mês eu precisava buscar notícias, entrevistar ativistas, conversar com nutricionistas… Então, saber como os animais vivem e morrem para chegar até o prato de alguém e entender melhor sobre nutrição vegetariana foram dois fatores essenciais para o passo seguinte, ou seja, o veganismo.

Quais foram as maiores dificuldades que você enfrentou durante a transição?

Não tive uma fase de transição propriamente dita, porque acordei um dia e falei “agora não como mais carne”. A maior dificuldade foi ser paciente com gente pentelha que teimava em meter o bedelho no meu prato, depois que anunciei publicamente meu vegetarianismo. Ouvi um monte de previsão furada: de que eu ficaria doente, que depois de dois meses eu voltaria a comer carne e outras. Certo, pelo tempo que demorei para me tornar vegana, dá pra deduzir que a maior dificuldade, para uma gulosa como eu, foi tirar o queijo e o ovo do cardápio. Mas, considerando que queijo brasileiro é ruim demais e que ninguém em sã consciência come ovo todo dia, nem sei por que eu demorei tanto pra tirar aquele horroroso queijo minas da minha vida, por exemplo.

Se pudesse voltar no tempo em que você ainda estava engatinhando no veganismo, que conselho daria a si mesma? Quais foram os erros que você cometeu e que poderiam ter sido evitados?

Não me daria nenhum conselho porque acho que não errei em nada. Levei o tempo que achei necessário para me tornar vegana e, mesmo depois de ter me tornado uma, já comi queijo porque não queria deixar meu anfitrião desapontado. Nem isso eu considero errado. A anfitriã era uma pessoa muito especial, muito anciã, viveu a Segunda Guerra Mundial – período em que a fome estava sempre à sua espreita – e tinha preparado uma receita com queijo e tomate porque sabia que eu não comia carne. Não gosto de inflexibilidade na vida. Sem maleabilidade, objetos, ideias e relações podem se romper com muito mais facilidade. Então, eu vejo esse episódio específico assim: a anfitriã foi maleável e fez uma receita sem carne só para mim e cabia a mim, naquele momento, também ser maleável e receber aquele agrado. Comi, elogiei sinceramente o prato, porque estava bom mesmo, e vi o quanto ela ficou satisfeita por ter conseguido agradar uma vegetariana. Hoje, infelizmente, essa pessoa já faleceu e aquele dia que passei com ela é uma boa lembrança.

Qual a parte mais difícil do veganismo pra você (equilibrar dieta, comer fora, eventos sociais…)? 

Sem dúvida os eventos sociais. Às vezes não dá para avisar que sou vegana ou até dá, mas a pessoa não tem noção nenhuma do que isso quer dizer. Então, ou eu como antes ou me viro com um pão e uma salada na ocasião. Mas acho que ninguém vai morrer por passar algumas horas sem comer algo mais substancioso. O máximo que pode acontecer é você ficar de mau humor, como eu fico quando estou com fome.

O que te inspira (pessoas/organizações/ações/movimentos) no terreno do veganismo/direitos dos animais?

O que me inspira é comida boa, saúde, amor e cultura. Por isso, e sem querer ficar puxando a salsinha pro seu lado, digo publicamente que você é um dos veganos que me inspira. Sei que a gente não se conhece pessoalmente, mas tenho a sensação de que o Papacapim é uma Sandra em palavras. Seus textos são bem escritos, coerentes, interessantes e sempre trazem uma mensagem positiva embutida. Além, é claro, de receitas apetitosas e dicas valiosas.  (Prometi um jantar à Samira caso ela aceitasse participar dessa série e dissesse coisas legais sobre a minha pessoa. Eu compro os meus entrevistados :)  

Desde que você se tornou vegana, teve algum momento (ou vários) em que você duvidou da pertinência do veganismo? Algum tipo de pensamento ou experiência que te deu vontade de jogar a toalha? Se sim, o que fez com que você continuasse achando o veganismo o melhor caminho pra você?

O veganismo é sempre pertinente e talvez seja a alimentação do futuro, caso as pessoas queiram realmente ter um futuro decente. Eu particularmente nunca duvidei disso. Se alguém duvida, sugiro que leia mais e busque os fatos. O meio ambiente está sendo destruído, principalmente por essa gula que as pessoas têm por carne. Os oceanos estão virando um deserto azul por essa mania de comer peixe. E muita gente está morrendo por causa de doenças provocadas pelo excesso de gordura saturada, proveniente de produtos de origem animal, como ovos e laticínios. Um livro que achei bem interessante e que já está traduzido para o português é Comer Animais, do Jonathan Safran Foer. Para quem lê inglês, Beyond beef, do Jeremy Rifkin, e The China Study, do Dr. T. Collin Campbell também foram muito esclarecedores e só fortaleceram meu ideal vegano.

Qual a sua opinião sobre laticínios orgânicos, happy meat, matar animais de maneira ‘humana’ e ovos de galinhas criadas em liberdade?

Uma maneira de as empresas cobrarem mais caro dos consumidores e, consequentemente, ganharem mais dinheiro. Quanto ao conceito de matar animais de maneira humana, eu, sinceramente, gostaria que alguém me explicasse isso direito, porque para mim as palavras “matar” e “humana” na mesma frase não faz muito sentido. Quer ver um exemplo? Ele matou o amigo de maneira humana, pois deu à vítima o direito a um banho relaxante e a massageou antes de cortar sua garganta. Esse assassinato é menos cruel porque o assassino se preocupou com o bem-estar da sua vítima? Eu acho que não. Mas, como estamos falando de animais coisificados pela cadeia de alimentação industrializada, é muito cômodo usar isso para permanecer naquela zona de conforto, alienada e preguiçosa.

Quais os conselhos que você daria pra quem está pensando em se tornar vegano?
Comece hoje.

Como você lida com o fato ter um marido onívoro? Como você se sente, como organiza o dia-a-dia (compras, refeições)? Uma dica pra quem está em um relacionamento com um não vegano/a?

Uma dica pra um vegano que está num relacionamento com um não-vegano é: ame sem preconceitos. Se a coisa estiver ruim demais ou insuportável para você, significa uma coisa só: o amor acabou ou nunca existiu. Se de um lado o amor me inspira, do outro a flexibilidade me ajuda a ter uma convivência pacífica com onívoros que amo, como meu marido e toda a minha família. Então, acho que lido com o fato de o meu marido ser onívoro de maneira normal. Eu não como carne, ele sim e é assim que é. Claro, tem dias em que os nervos estão à flor da pele e daí ele reclama do cheiro de pum que o brócolis solta quando vai para a panela e eu reclamo de ele não se importar com os bichos e da grelha suja de carne. Mas não é todo dia que faço brócolis e também não é todo dia que ele come carne. Aliás, recentemente fizemos uma espécie de lua-de-mel na Sicília e ele não comeu carne durante os 12 dias que ficamos por lá. Não por minha causa, mas porque não estava com vontade. Isso, porém, não mudou o amor que sinto por ele.

Em casa, acho que somos bem civilizados e respeitamos algumas regrinhas: eu faço a feira e preparo os pratos vegetarianos. Aliás, graças aos vegetais, que ele aprendeu a gostar depois de me conhecer, em 2008, ele ganhou mais saúde. Duas amigas nossas (onívoras) já mencionaram que de uns tempos pra cá a aparência dele está mais saudável e rejuvenescida. Na cabeça dele o crédito disso é meu, porque eu preparo muitos legumes e verduras pra nós. Se ele está com vontade de comer carne, é ele que deve ir ao açougue, comprar o produto, preparar e lavar o que estiver sujo por causa do preparo, inclusive o fogão. Até agora tem funcionado dessa maneira, mas acredito que casais com pontos de vista muito diferentes podem colocar o amor à prova com a chegada dos filhos. Como eu não tenho nenhum filho e, no momento, não morro de amores pela ideia de ser mãe, prefiro não pensar nisso. Só sei que se eu engravidar, enquanto o bebê estiver na barriga, ele será vegano.

Se eu pudesse passar um dia na sua cozinha o que encontraria no seu prato (da hora que você acorda até a hora de ir pra cama)?

De manhã você ia encontrar alguma fruta (hoje foi pêssego), pão integral tostado com húmus ou tahine e uma xícara de café preto adoçado com açúcar mascavo, mas sei que tomaria o café sozinha, porque sei que você odeia essa bebida e açúcar. (Samira, habibti, eu adoro café com todas as minhas forças. A única diferença é que café com açúcar é pra mim tão intragável quanto café com sal.) Umas duas horas depois você ia me ver comendo castanhas e frutas secas, acompanhadas de meio litro de água ou de suco de laranja. Na hora do almoço eu te ofereceria arroz integral feito com cenoura ralada, gergelim, curry e salsinha; tempeh feito com patê de azeitona e cebola roxa; uma saladinha de alface e rúcula temperada com azeite extra virgem, ervas de Provence e limão siciliano. Para beber, água à vontade. No meio da tarde eu te convidaria pra tomar um shake feito com leite de aveia enriquecido com cálcio, semente de linhaça, banana, morango e canela. E, à noite, exigiria que você deixasse de ser tão saudável e saísse comigo para comer uma pizza vegetariana ou que ficássemos em casa mesmo, para você saborear minha massa ao sugo, acompanhada de vinho Nero D´Avola e de berinjela ou abobrinha grelhada, regada com azeite de oliva extra virgem. (Quem te disse que eu não como pizza, menina? Pode ter certeza que o cardápio da sua casa me agradaria por demais!) 

Você está no corredor da morte. Qual a sua última refeição (pode ser vegana ou não. Você vai morrer, então a polícia vegana te perdoa:)? 

Que pergunta macabra! Por que eu estaria no corredor da morte? Mas enfim, se eu soubesse que teria direito a uma última refeição, pediria um prato generoso de aspargos frescos (cozidos obviamente), acompanhados de coração de alcachofra, de couve refogada com alho, de berinjela grelhada e de um punhado de azeitonas doces – um tipo de azeitona que tem aqui na Itália. Ela se chama “doce” não porque tem açúcar, mas porque tem bem menos sal do que as outras azeitonas. Para beber, eu ia querer um vinho tinto de altíssima qualidade e uma garrafa de água fresquinha.

Alguma receita simples e saborosa pra dividir com os meus leitores?

Aquela do shake que a gente tomaria a tarde se você passasse um dia comigo. Bata no liquidificador um copo de leite de aveia gelado, uma banana madura, seis a dez morangos, uma colher de sopa de linhaça e canela em pó a gosto. Bata bem e beba em seguida.

 

Alguns meses depois de ter criado o Papacapim um blogueiro brasileiro deixou um comentário aqui dizendo que tinha achado o meu blog muito bom e que tinha linkado do dele. Fui conferir o blog dele e a mesma coisa aconteceu: gostei do blog dele e linkei do meu. O blog, de direitos animais, se chama ‘Lobo Repórter’ (adoro esse nome) e o blogueiro em questão é Lobo Pasolini. Isso foi em 2010 e desde então acompanho o trabalho dele e vez ou outra trocamos mensagens. Apesar de nunca tê-lo encontrado pessoalmente, gosto de pensar que ele é um amigo virtual. Criei até uma receita especialmente pro aniversário dele em 2012. Nós temos várias coisas em comum (como ser ‘homus-sexuais’, por exemplo:) e fiquei muito feliz quando ele aceitou fazer parte da série ‘Porque me tornei vegano”. É uma honra imensa pra mim receber Lobo Pasolini aqui.

 

Quando você se tornou vegano e o que te levou a adotar esse estilo de vida?

Eu me tornei vegano em 2008, literalmente da noite para o dia após assistir o vídeo Meet Your Meat, produzido pela PETA. Hoje em dia eu até discordo dos métodos da ONG em alguns casos, e não assisto mais esse tipo de material, mas devo a eles esse tratamento de choque que, no meu caso, funcionou.

Quais foram as maiores dificuldades que você enfrentou durante a transição?

Não posso dizer que tive alguma. Talvez a administração da turbulência emocional que essa tomada de consciência ocasione tenha sido o mais difícil e, de certa forma, continua sendo. Como todo ativista por justiça, manter a serenidade diante de tanta crueldade e indiferença é um desafio. Mas é necessário para que sejamos felizes, conscientes e eficientes ao mesmo tempo.

Qual a parte mais difícil do veganismo pra você (equilibrar dieta, comer fora, eventos sociais…)? 

Eventos sociais são os mais difíceis, pois raramente eles têm comida vegana. Eu sempre como antes ou carrego algum tipo de castanha para lidar com a possível falta de comida em uma hora que provavelmente sentirei fome. Faltando isso, tomo muita água.

O que te inspira (pessoas/organizações/ações/movimentos) no terreno do veganismo/direitos dos animais?

Eu admiro muito o trabalho do Rancho dos Gnomos, da Anda, que eu participo, do Veddas, o Papacapim pelo ativismo lindo na área de culinária vegana. Gosto muito do trabalho da Friends of Animals nos Estados Unidos, dos santuários que acolhem animais refugiados de alguma situação de abuso e todos os veganos anônimos que juntos formam essa nova consciência civilizatória. O veganismo me inspira como ser humano e adoro a sensação de estar na vanguarda de um novo pensamento.

Desde que você se tornou vegano, teve algum momento (ou vários) em que você duvidou da pertinência do veganismo? Algum tipo de pensamento ou experiência que te deu vontade de jogar a toalha? Se sim, o que fez com que você continuasse achando o veganismo o melhor caminho pra você?

Nunca. Pelo contrário, minha convicção de que o veganismo é o caminho para um futuro harmônico fica cada vez mais forte.

Qual a sua opinião sobre laticínios orgânicos, happy meat, matar animais de maneira ‘humana’ e ovos de galinhas criadas em liberdade? 

Sou contra. Eles são o equivalente do greenwash no ambientalismo, a fachada falsa de sustentabilidade. É marketing puro e uma traição dos animais. Não existe exploração gentil.

Quais os conselhos que você daria pra quem está pensando em se tornar vegano?

Não perca tempo – faça isso agora! Leia bastante teoria vegana, informe-se sobre nutrição para dominar o básico e abra sua mente para novos sabores e combinações de comida. Comida vegana é deliciosa e variada, abrace a aventura gastronômica. Seja curioso e pense com a sua própria cabeça. Foque na ética.

 

Como você se relaciona com pessoas onívoras? Você evita falar de veganismo, ou, pelo contrário, leva o ativismo pra todos os lugares e não perde a oportunidade de sacudir o carnismo do pessoal?

Eu raramente toco no assunto. Em geral as pessoas me perguntam e daí eu falo da forma mais acessível e sofisticada possível. Eu reservo meu blog e as redes sociais para o discurso ativista. A gente tem que ser estratégico e evitar proselitizar. Quanto mais atraente e interessante formos, mais atraente e interessante o veganismo parecerá. Eu me preocupo muito com esse branding do veganismo através da minha inserção social.

Se eu pudesse passar um dia na sua cozinha, o que encontraria no seu prato (da hora que você acorda até a hora de ir pra cama)?

Eu começo o dia com aveia, que me dá muita energia. Consumo com algum tipo de leite vegetal, em geral soja ou amendoim. Como muita couve, abobrinha, abóbora, quiabo, vagens, verduras em geral e frutas. Cresci na roça, catando frutas em árvores e isso ficou comigo. Adoro grãos e sementes como quinoa, arroz integral, gergelim, linhaça e castanhas em geral. E, principalmente, sou um homus-sexual assumido. Não vivo sem, adoro o gosto, adoro a energia que me dá e sua versatilidade. O homus é, a meu ver, um dos melhores amigos nutricionais do vegano.

 

Você está no corredor da morte. Qual a sua última refeição (pode ser vegana ou não. Você vai morrer, então a polícia vegana te perdoa:)? 

Arroz integral e feijão preto. Nada bate essa combinação. Ou um bom suco verde com uma sobremesa crudívora a base de fruta. Ou ainda pão árabe com homus e uma rodela de limão.

Alguma receita simples e saborosa pra dividir com os meus leitores?

Como não poderia deixar de ser, vou dar uma receita básica de homus.

Ingredientes:

250g de grão de bico

2 dentes de alho

Água em que o grão de bico foi cozido

Limão

Tahine (que pode ser comprado pronto no supermercado)

3 colheres de sopa de tahine (pasta de gergelim)

Coentro

Sal

Azeite

Como fazer

Amacie o grão de bico deixando-o de molho em água na véspera da preparação. No dia seguinte cozinhe-o em panela de pressão por cerca de 20 minutos. Escorra-o e depois bata no liquidificador com um pouco da água em que foi cozido. A textura que buscamos é a de um patê. A partir daí vá experimentando com textura e sabor, acrescentando alho, azeite, tahine, gotas de limão, coentro e qualquer outro condimento que desejar (pimenta picada, por exemplo). Continue batendo no liquidificador e testando até atingir a consistência desejada. Tire do liquidificador e coloque em um recipiente adequado. Guarde na geladeira e consuma em até três dias. Pode acompanhar saladas, pão sírio, torradas etc.

 Aviso: vicia e impressiona visitas – ótimo para reuniões de amigos.

Acompanhem o trabalho de Lobo no blog Lobo Repórter, no Facebook ou Twitter.

 

Visitei Amsterdã pela primeira vez onze ou doze anos atrás e embora a viagem tenha sido muito agradável, com exceção de um episódio extremamente embaraçoso que envolveu um baseado (prefiro não comentar), não lembrava de quase nada da cidade. Um canal, uma bicicleta vermelha alugada, um quadro de Van Gogh e uma dúvida: eu visitei ou não visitei a casa de Anne Frank? E, curiosamente, minhas memórias gastronômicas dessa viagem são completamente inexistentes. Tenho certeza que me alimentei durante os dias que estive por lá, mas tirando um enorme queijo gouda com cominho, não lembro do que passou pela minha boca (teve o infame baseado, mas já combinamos que é melhor não comentar episódios embaraçosos do passado). Na época eu ainda era onívora e meu interesse por comida, embora presente desde sempre, não era tão aguçado quando ele é hoje.

Por isso voltar à Amsterdã foi como descobrir a cidade pela primeira vez. Tenho duas amigas holandesas veganas (uma delas me hospedou) e perguntei quais eram os seus restaurantes/cafés/lanchonetes preferidos. Também dei uma olhada no site Happy Cow, fiz uma lista com as dicas das minhas amigas e tudo o mais que me pareceu interessante por lá e passei cinco dia comendo tudo que consegui colocar no estômago. Querido(a)s leitores, Amsterdã é um paraíso vegano! Tem opções pra todos os gostos e bolsos: restaurantes gastronômicos, fast-food, cafés aconchegantes, lanchonetes, squats que servem comida…

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Meu tempo, espaço no estômago e orçamento eram limitados, então muita coisa da minha lista ficou de fora. Eu sempre fico dividida entre comer somente em lugares veganos ou visitar também restaurantes vegetarianos e tradicionais. Meu coração bate pelos lugares 100% veganos por vários motivos. A alegria de abrir um cardápio e saber que você pode pedir TUDO ali não tem preço (só quem é vegano entende isso), mas também prefiro gastar meu dinheiro em lugares que oferecem uma culinária totalmente livre de crueldade. Eu vou sempre preferir apoiar projetos que estão alinhados com os meus princípios e sei que ao gastar meu dinheiro nesses lugares também estou contribuindo pra que o mercado vegano aumente (bom pro planeta, bom pros animais e bom pras papilas dos veganos!). Mas também gosto de ver o que restaurantes ‘tradicionais’ estão oferecendo aos seus clientes veganos e sei que ao pedir o (às vezes único) prato veg do menu estou mandando a seguinte mensagem pro dono do restaurante: “Algumas pessoas são veganas e elas vêm comer aqui. Você tem tudo a ganhar ao aumentar a oferta de pratos vegetais.” E, claro, às vezes saímos pra comer com pessoas onívoras, então é ótimo saber que é possível encontrar pratos que satisfaçam os gostos e respeitem as convicções de todos em um mesmo lugar.

Então esses foram os lugares que visitei durante a viagem. Pela primeira vez na série “Guias Veganos” eu usei um sistema de estrelas (de 1 à 4) pra descrever a minha satisfação com o ambiente, o serviço e a comida. Uma estrela significa ‘ruim’, duas = ‘bom’, três = ‘muito bom’ e quatro = ‘ótimo’. E uma palavrinha sobre os preços. Amsterdã não é uma cidade barata, embora seja mais acessível que outras capitais europeias (Paris e Londres, por exemplo). Mas achei que o preço da comida nos lugares que visite era relativamente razoável, com pouca diferença de um lugar pra outro. A única exceção é o restaurante-squat MKZ, que é baratíssimo, mas explico isso na descrição do lugar.

Vegabond

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Mercearia com produtos orgânicos/veganos (vende um ou outro produto vegetariano) que também funciona como café vegano. Vende sopa, sucos naturais, sanduíches (pão preto ou baguete) com tofu e queijo vegano, cupcakes, chocolates crus e, claro, bebidas quentes e geladas. O lugar é uma fofura, mas achei a comida mais ou menos. Pedi um sanduíche com tofu mexido e queijo (não sou fã de queijos veganos industrializados pois acho que a maioria tem gosto de margarina, mas estava curiosa pra experimentar), que não me deixou muito impressionada, e um brownie (gostoso, mas meio seco). Vende sorvete vegano da marca holandesa Professor Grunschnabel, feitos à base de leite de coco e com sabores bem originais (ótimos, embora um pouco doce demais pro meu paladar). O preço da comida é razoável, mas achei os produtos da mercearia um pouco caros. Como o pessoal é uma simpatia só e o lugar é lindo, aconselho ir lá pra tomar um cappuccino enquanto admira as pessoas desfilarem na rua (se, como eu, você gosta dessa atividade).

Ambiente: ****

Serviço: ****

Comida: **

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DopHert 

Spaarndammerstraat 49

Um ótimo endereço vegano pro café da manhã: tem iogurte de soja com granola e frutas, café da manhã clássico ou Inglês (com chouriço de seitan, tofu mexido, feijão branco com tomate…), bebidas quentes e geladas, sucos naturais… Também oferece sanduíches (pão integral com sementes ou branco) com ingredientes interessantes (hummus, seitan, tempeh bacon, abacate, pesto, maionese vegana…), sopas, saladas e algumas sobremesas. Tomei um suco delícia (erva-doce -o legume-, salsão, cenoura e maçã) que me fez quebrar o preconceito que eu tinha com salsão no suco (sempre achei que ficaria ruim, sem nunca ter provado). Pedi um sanduíche de chouriço de seitan (feito no local) porque a proposta era tentadora, mas não tem quem me faça gostar de seitan (acho a textura muito borrachenta). Tenho certeza que os outros sanduíches são melhores. Também provei o brownie-torta de chocolate e amendoim e ele estava tão bom que me fez esquecer o danado do seitan. Os preços são bem bacanas e as porções generosas. Você pode sentar na calçada (se o tempo permitir) ou na sala colorida que fica no primeiro andar. Eles tiveram a ótima ideia de espalhar livros de culinária vegana (alguns em Inglês!) sobre as mesas pra distrair os clientes e agora vou torcer pra que todos os restaurantes vegs façam o mesmo.

Ambiente:****

Serviço: ****

Comida: ***

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De Vegetarische Slager (“O açougueiro vegetariano”)

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Fazia tempos que eu queria visitar esse lugar. Eu tinha ouvido falar muito dos produtos que reproduzem com perfeição diferentes tipos de carne, frango e atum usando ingredientes vegetais. Quase tudo é à base de soja, mas alguns produtos são feitos só com vegetais e outros com tremoço. Apesar de tudo ser vegetariano, só alguns produtos são veganos (o frango, um tipo de carne e um tipo de bacon). A vendedora, que era uma simpatia só e que (olha que mundo pequeno!) tinha visitado a Palestina e conhecia alguns dos meus amigos, me contou a história por trás disso tudo. O holandês Jaap Korteweg, que idealizou o projeto, vem de uma família de agricultores e queria fazer uma revolução vegetariana no campo. Ela me contou também que ele é casado com Marianne Thieme, deputada e líder do Partido dos Animais (acredito que esse partido holandês seja o único do tipo no mundo) e que fez o documentário “Uma verdade mais que incoviniente” (‘Meat the truth’). Que casal arretado! Só provei o frango e a semelhança é realmente impressionante. Na verdade é tão parecido que pra mim é meio mórbido. Mas acho que esse tipo de produto é uma salvação pra quem está em transição pro vegetarianismo/veganismo ou quer deixar de comer carne, mas ainda é muito apegado ao sabor. Os produtos são vendidos no peso, congelados (tudo cozido, basta esquentar em casa). O local também funciona como restaurante e tem um menu imenso, com vários tipos de sanduíches. Eles também vendem um tipo de queijo vegano, mais humus, tapenade e baba ganush, então os sanduíches parecem suculentos. Também vendem um patê (pergunte qual, pois tem também patês vegetarianos), algumas saladas veganas, bebidas quentes (tem leite de soja pro seu cappuccino) e sucos frescos. E quase sempre tem uma sobremesa vegana pra completar a nossa felicidade.

Ambiente:***

Serviço:****

Comida:***

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Koffie ende Koeck

Haarlemmerweg 175

100% vegano e quase todo orgânico, um lugar simples, mas que oferece comida sublime. Ótimas opções de café da manhã, almoço e lanche (sanduíches, granola, iogurte de soja, sucos, bebidas quentes com quatro opções de leite vegetal…). A quiche de polenta é de cair pra trás (preciso recriar essa receita) e as misturas de sabores são super interessantes. Pedi um sanduíche com pão integral rústico, molho de pimenta fermentado feito pela chef (surpreendente), cream cheese, pimentão grelhado e rúcula que era uma loucura. E as sobremesas? Tinha brownie, torta de maçã e maracujá, cookies de aveia e lavanda, bolo com recheio de framboesa e cobertura de chocolate branco… Além de ser uma delícia, dá pra sentir todo o amor na apresentação dos pratos. Eles oferecem um ‘high tea’ (que pode ser servido a qualquer hora do dia) onde você recebe uma bandeja imensa com um pouco de tudo que tem no cardápio (doces e salgados), tão apetitoso e generoso que fiquei emocionada (cafés e restaurantes mundo afora, é assim que nós, veganos, merecemos ser tratados!). E a moça que me atendeu, metade holandesa, metade portuguesa, era uma simpatia só. De todos os lugares que visitei esse foi o meu preferido. Recomendadíssimo!

Ambiente:***

Serviço:****

Comida:****

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TerraZen

19 hs Sint Jacobstraat

Outro endereço 100% vegano, que oferece uma comida eclética (um mix entre o Caribe, Suriname e Ásia) e muito saborosa. O cardápio é imenso (contei mais de 40 pratos) e tem opções pra todos os gostos e bolsos. Sopas, currys, burguers, yakisoba, saladas, pratos à base de feijão, pratos com ‘frango’ vegano, makis e até um prato totalmente cru. Também oferece bebidas geladas (sucos, milkshakes) e quentes e algumas sobremesas. Pedi o maki com natô, porque sempre quis provar esse ingrediente tradicional japonês, e adorei. O bolo de chocolate também estava uma delícia, embora a amiga que me levou lá tenha achado amargo (eu achei doce na medida). Aqui também dá pra sentir o amor nas preparações, todas apetitosas. O ambiente é descontraído e ultra relax (reggae tocando e um ou outro fumando tudo até a última ponta). O dono e o chef são jamaicanos e extremamente atenciosos e calorosos. Gostei tanto dos dois que não sei se quero voltar lá pela comida ou pra bater papo com eles (provavelmente os dois). O único problema é que o pessoal é tão relax que se não tiver nenhum cliente eles fecham o restaurante no meio do dia e vão fazer compras ou dar um passeio. Se você for lá e o restaurante estiver fechado (como aconteceu na primeira vez que tentei comer lá), espere um pouco que logo eles voltam. Foi o meu segundo lugar preferido na cidade.

Ambiente:***

Serviço:****

Comida:****

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MKZ

Eerste Schinkelstraat 16. Tel: 020-6790712

Um dos únicos squats legalizados da cidade, que se transforma em restaurante vegano todas as noites. É preciso ligar à tarde pra reservar (eles só servem 50 pessoas por noite) e os pratos têm gostinho de comida caseira. Achei gostoso, mas nada capaz de impressionar. Conversei com alguns clientes na noite que estive lá e eles me disseram que vão sempre ali justamente por esse motivo: comida caseira e saborosa. O squat é enorme e tem um jardim extremamente agradável, com mesas por todos os lados (se o tempo estiver bonito, vá degustar o seu prato no jardim) e também uma loja grátis (roupas e objetos de segunda mão grátis, é só pegar o que você quiser). E pra deixar tudo ainda melhor, a refeição completa (entrada+prato+sobremesa, com direito a repetir) custa apenas 5 euros. E como é um squat, não um restaurante formal, cada qual lava os seus pratos depois do jantar. Uma experiência que recomendo demais.

Ambiente:****

Serviço:***

Comida:** 

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SLA

Westertraat 34

Um restaurante só de saladas, onde você monta a sua. O local oferece carne e outros produtos de origem animal, mas se esforça bastante pra agradar os clientes veganos. Na hora de montar sua salada você escolhe uma folha verde, um cereal, uma proteína animal ou vegetal (lentilha, grão de bico), legumes crus e/ou cozidos e um molho (TODOS os molhos são veganos, olha só que coisa linda!). Também vende sucos frescos. O atendimento é um pouco frio (provavelmente porque tem sempre muita gente esperando pra ser atendida) e o local não é muito aconchegante, mas é uma opção interessante pra quando seu corpo estiver cansado de sanduíches e começar a pedir vitaminas e legumes frescos.

Ambiente:**

Serviço:**

Comida:*** 

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Bagels and Beans

Raadhuisstraat 18

Uma rede de lanchonetes holandesa especializada em bagels, como o nome indica. Apesar de ser um café tradicional, oferece algumas opções interessantes pros veganos. Todos os bagels são veganos e é possível substituir o cream cheese por hummus (quem acha que todas as lanchonetes deveriam oferecer hummus no lugar do queijo como alternativa pros veganos levante a mão). Tem uma opção de bagel com hummus, tapenade e tomate semi-seco que é uma loucura! Também oferece uma opção doce (com banana, xarope de bordo e canela) e leite de soja pro seu cappuccino. Como em todo local frequentado por muita gente, o serviço não é dos mais calorosos. Vale a pena visitar se você, assim como eu, adora bagels.

Ambiente:**

Serviço:**

Comida:*** 

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Vega-Life

Singel 110

Loja de produtos 100% veganos. Tem camisetas, sapatos, bolsas, vitaminas e outros suplementos alimentares e cosméticos. Os preços são um pouco salgados, mas os produtos são lindos e de ótima qualidade. Também vende os ótimos sorvetes veganos da marca Professor Grunschnabel.

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Você pode conferir a lista completa de todos os restaurantes veganos, vegetarianos e veg-friendly de Amsterdã no site Happy Cow, o melhor lugar pra encontrar lugares veganos,vegetarianos e veg friendly em várias cidades do mundo. Tem até um mapa com todos os endereços, então é muito fácil encontrá-los.

Todo mundo me aconselhou, mas escolhi não provar os famosos falafels Maoz. Falafels, pra quem não conhece, são a fast-food por excelência no Oriente Médio e, por um feliz acaso, são 100% veganos. Eles são extremamente populares em Amsterdã e tem quem afirme que os falafels do Maoz são os melhores da cidade. Mas depois de ter morado cinco anos na Palestinia e ter comido falafel até eles começarem a sair pelos ouvidos, raramente tenho vontade de comer essas bolinhas (acho que só vou comer falafel novamente quando voltar pra Palestina).  Mas vou colocar o endereço aqui, pra quem quiser provar. Segundo uma das minha amigas holandesas os sanduíches com falafels de lá são deliciosos, baratos e as porções são generosas, então vale a pena.

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Semana passada eu estava em Amsterdã, comendo toda a comida vegana que consegui colocar no estômago. Semana retrasada eu trabalhei sem parar e cozinhei em vários lugares diferentes. Fiz um churrasco 100% vegano (o meu primeiro!) e preparei um jantar em um caminhão-cozinha. E alimentei muitas, muitas bocas. Na verdade eu nunca tinha alimentado tantas bocas de uma vez só. Aqui vão algumas fotos das duas últimas semanas.

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E o próximo post será… o Guia Vegano de Amsterdã! Estou muito empolgada com as descobertas gastronômicas que fiz na cidade e ansiosa pra dividir tudo com vocês. Aguardem

No último post eu disse que apesar de não ter planejado, acabei virando a rainha do makluba (veg). Meu relacionamento com ele começou em 2007, quando cheguei na Palestina. Descobri que era o prato nacional por ali e sempre que era convidada pra comer na casa de alguém, lá estava ele na mesa. Depois fui trabalhar no projeto de mulheres no campo de refugiados de Aida e aprendi, junto com os estrangeiros que participavam das aulas de culinária, a preparar o famoso prato. A versão tradicional é feita com frango, mas como muitos dos nossos ‘alunos’ eram vegetarianos/veganos, consegui convencer Islam (a coordenadora palestina do projeto e nossa cozinheira-mor) a preparar também uma versão 100% vegetal durante as aulas.

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Minha vizinha Violet, uma palestina cristã, me contou que os palestinos (cristãos) também preparam uma versão vegana do makluba. Os cristãos ortodoxos excluem todos os alimentos de origem animal do cardápio durante a quaresma, então aprendi com eles a fazer várias receitas veganas, adaptações dos pratos tradicionais feitos com animais. Tinha até uma padaria perto de casa que se tornava 100% vegana durante a quaresma. A  maior parte da clientela, assim como os donos, eram cristãos ortodoxos, então todos os biscoitos, bolachas e pães eram veganos nessa época do ano.

Mas voltemos ao makluba. Durante os cinco anos que morei na Palestina nunca passei mais de algumas semanas sem comer esse prato, sempre preparado com talento pelas minhas amigas, todas ótimas cozinheiras. Por isso só fui preparar o meu primeiro makluba depois de ter saído do país, alguns meses atrás. Foi meu amigo Bilal, um palestino refugiado da Síria, que me pediu pra preparar um makluba pra um grupo de 25 budistas. Algum monge budista tibetano estava dando palestras aqui em Bruxelas e a moça que organizou o evento nos contratou pra preparar três almoços pro pessoal. Então fui parar na pequena cozinha de Bilal, nós dois e um palestino de Gaza, e durante três dias preparamos juntos comida palestina vegana pra um grupo de belgas budistas, mais dois monges tibetanos, enquanto ouvíamos Fairuz e tomávamos chá. E acabei tendo que explicar dezenas de vezes que a cozinheira palestina era brasileira. Mais uma das situações deliciosamente absurdas nas quais me meto regularmente.

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E foi assim que fiz o meu primeiro makluba. Bilal tinha perguntado se eu sabia preparar o prato mais popular da culinária palestina e eu respondi que depois de ter visto tanto makluba sendo preparado na minha frente, com certeza eu sabia como fazer aquilo de olhos fechados, com as mãos amarradas nas costas e pulando num pé só. Mas depois de ter colocado tudo na panela bateu uma tremenda insegurança. Será que eu ia dar conta do recado? Será que o meu makluba seria tão bom quanto os que eu comia na Palestina? Só relaxei quando os dois palestinos presentes ali provaram e aprovaram a minha preparação.

A partir de então comecei a fazer makluba por todos os lados, em oficinas de culinária em Paris e aqui em Bruxelas. E quanto mais eu faço essa receita, mais prazer ela me dá.  Esse é um prato festivo, generoso, que sempre impressiona os convidados e arranca elogios de todos. Os ingredientes são simples, mas produzem um resultado espetacular. Um cruzamento de risoto com paella, mas com temperos árabes e desenformado como uma ‘tarte tatin’. Não é o tipo de receita que você faz numa terça-feira à noite, quando chega cansada do trabalho e quer comida na mesa o mais rapidamente possível.  Eu não vou mentir pra vocês: ele é longo e trabalhoso. Se você não tem paciência pra cozinhar deve passar longe dessa receita. Esse é um prato que deve ser preparado em ocasiões especiais, quando você tem várias horas pra passar na cozinha e várias pessoas pra degustar, e apreciar, o fruto dos seus esforços.

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Mas confesso que apesar de ser delicioso e de aumentar a minha quota de popularidade com os amigos, a razão que me faz adorar preparar makluba é outra. A primeira garfada costuma me levar de volta pra Palestina e sinto o cheiro da terra seca, o gosto do chá com sálvia e as vozes dos meus amigos, me contando histórias e dando gargalhadas. E enquanto a próxima viagem à Palestina não chega, é esse prato que me faz viajar pra lá quando a saudade aperta.

*Todas as fotos desse post foram feitas por Anne Paq.

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Makluba

Tradicionalmente esse prato é feito com frango, mas essa é a versão vegetariana/vegana que é consumida durante a quaresma pelos palestinos cristãos (mais informações no texto acima). Na Palestina se usa arroz comum, mas eu gosto de fazer essa receita com arroz basmati, pois o prato fica ainda mais perfumado. Minha versão também é mais leve pois não frito os legumes mergulhados no óleo quente, como é feito por lá. Se quiser aumentar a quantidade de proteína do seu makluba (e ter uma proteína vegetal completa) junte grão de bico cozido à receita (2 xícaras, no momento em que colocar os legumes fritos na panela). Não é nem um pouco tradicional, mas vai deixar o seu prato ainda mais robusto. Na Palestina tem sempre um pratinho de hummus na mesa, então não falta proteína (vegetal e completa) na dieta deles, mesmo durante a quaresma:)

250g de arroz (comum ou basmati)

2 berinjelas médias

1 couve-flor grande

2 cenouras médias

4-6 tomates maduros

1 cebola grande

4-6 dentes de alho

1cc de cada especiaria (em pó): cominho, semente de coentro, paprica suave, cúrcuma

Sal e pimenta do reino a gosto

Azeite

Um punhado de amêndoas em lascas, tostadas, e/ou um punhado de salsinha picada (opcional)

-Deixe o arroz de molho, na água fria, durante uma hora (pode deixar mais tempo, se quiser).

-Prepare os legumes. Corte as berinjelas em fatias de espessura média, no sentido do comprimento (com a casca). Salgue generosamente e deixe descansar enquanto você prepara o resto dos ingredientes. Corte as cenouras em fatias e a couve-flor em buquês pequenos. Corte a cebola em fatias, no sentido vertical. Pique ou amasse o alho. Corte os tomates em fatias grossas (quatro fatias por tomate).

-Enxugue as fatias de berinjela com papel absorvente (o sal faz com que ela solte um pouco da própria água). Em uma frigideira grande aqueça uma camada fina de azeite e frite as fatias de berinjela, deixando dourar bem dos dois lados. Regue a couve-flor com azeite e tempere com sal. Asse em forno médio até ficar ligeiramente dourada. Depois de ter dourado toda a berinjela, faça a mesma coisa com a cenoura, juntando um pouco mais de azeite sempre que colocar uma nova camada de legumes na frigideira. Reserve os legumes fritos/assados separadamente.

-Por último doure a cebola em mais um pouco de azeite, junte o alho e deixe cozinhar mais alguns segundos. Acrescente todas as especiarias e uma pitada generosa de sal. Quando o perfume das especiarias ficar mais intenso desligue o fogo.

-Escorra o arroz e tempere com 1/2 cc de sal (ou a gosto).

-Agora chegou a hora de montar o makluba. Use uma panela grande o suficiente pra caber todos os ingredientes com sobra (lembre-se que o arroz aumenta de volume depois de cozido), de preferência com o fundo grosso. Cubra o fundo e metade das laterais da panela com as fatias de tomate e tempere com uma pitada de sal. Distribua os legumes sobre os tomates, nessa ordem: mistura de cebola/alho/especiarias, berinjela, couve flor e, por último, a cenoura. Tempere os legumes com sal à medida que for distribuindo as camadas. Cubra os legumes com o arroz escorrido e compacte ligeiramente com as costas de uma colher.

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-Acrescente água suficiente na panela pra cobrir tudo e passar aproximadamente 1,5 cm do nível do arroz. Leve ao fogo alto até começar a ferver, tampe e deixe cozinhar em fogo baixo. O makluba está pronto quando o arroz estiver bem macio e quase todo o líquido tiver evaporado (use uma colher pra empurrar um cantinho do makluba pro lado e checar o nível de líquido). É importante que ainda tenha uma certa quantidade de caldo no fundo da panela, pro prato ficar suculento. Mas se o arroz estiver totalmente cozido e ainda tiver líquido demais na panela, aumente o fogo e deixe cozinhar descoberto por alguns minutos.

-Depois de pronto, deixe o makluba descancar, tampado, por 5 minutos. Em seguida cubra a panela com uma travessa ligeiramente maior e vire o makluba de cabeça pra baixo. O chef palestino Sami Tamimi jura que se na hora de virar a panela todos os membros da família colocarem a mão sobre ela, como estamos fazendo numa das fotos acima, e esperar 3 minutos, ele desenforma perfeitamente. Não custa nada tentar e é divertido . Se o seu makluba não desenformar direitinho, nada tema. Use uma colher pra ‘descolar’ o que ficou grudado no fundo da panela. Ele ficará menos atraente, mas o sabor será o mesmo.

-Sirva imediatamente, decorado com amêndoas tostadas e/ou salsinha picada (optional) e acompanhado de uma salada crua (tomate+pepino+salsinha+hortelã, tudo bem picadinho, como nas fotos) ou, melhor ainda, com uma salada árabe. Rende 4-6 porções. 

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