Visitei Amsterdã pela primeira vez onze ou doze anos atrás e embora a viagem tenha sido muito agradável, com exceção de um episódio extremamente embaraçoso que envolveu um baseado (prefiro não comentar), não lembrava de quase nada da cidade. Um canal, uma bicicleta vermelha alugada, um quadro de Van Gogh e uma dúvida: eu visitei ou não visitei a casa de Anne Frank? E, curiosamente, minhas memórias gastronômicas dessa viagem são completamente inexistentes. Tenho certeza que me alimentei durante os dias que estive por lá, mas tirando um enorme queijo gouda com cominho, não lembro do que passou pela minha boca (teve o infame baseado, mas já combinamos que é melhor não comentar episódios embaraçosos do passado). Na época eu ainda era onívora e meu interesse por comida, embora presente desde sempre, não era tão aguçado quando ele é hoje.

Por isso voltar à Amsterdã foi como descobrir a cidade pela primeira vez. Tenho duas amigas holandesas veganas (uma delas me hospedou) e perguntei quais eram os seus restaurantes/cafés/lanchonetes preferidos. Também dei uma olhada no site Happy Cow, fiz uma lista com as dicas das minhas amigas e tudo o mais que me pareceu interessante por lá e passei cinco dia comendo tudo que consegui colocar no estômago. Querido(a)s leitores, Amsterdã é um paraíso vegano! Tem opções pra todos os gostos e bolsos: restaurantes gastronômicos, fast-food, cafés aconchegantes, lanchonetes, squats que servem comida…

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Meu tempo, espaço no estômago e orçamento eram limitados, então muita coisa da minha lista ficou de fora. Eu sempre fico dividida entre comer somente em lugares veganos ou visitar também restaurantes vegetarianos e tradicionais. Meu coração bate pelos lugares 100% veganos por vários motivos. A alegria de abrir um cardápio e saber que você pode pedir TUDO ali não tem preço (só quem é vegano entende isso), mas também prefiro gastar meu dinheiro em lugares que oferecem uma culinária totalmente livre de crueldade. Eu vou sempre preferir apoiar projetos que estão alinhados com os meus princípios e sei que ao gastar meu dinheiro nesses lugares também estou contribuindo pra que o mercado vegano aumente (bom pro planeta, bom pros animais e bom pras papilas dos veganos!). Mas também gosto de ver o que restaurantes ‘tradicionais’ estão oferecendo aos seus clientes veganos e sei que ao pedir o (às vezes único) prato veg do menu estou mandando a seguinte mensagem pro dono do restaurante: “Algumas pessoas são veganas e elas vêm comer aqui. Você tem tudo a ganhar ao aumentar a oferta de pratos vegetais.” E, claro, às vezes saímos pra comer com pessoas onívoras, então é ótimo saber que é possível encontrar pratos que satisfaçam os gostos e respeitem as convicções de todos em um mesmo lugar.

Então esses foram os lugares que visitei durante a viagem. Pela primeira vez na série “Guias Veganos” eu usei um sistema de estrelas (de 1 à 4) pra descrever a minha satisfação com o ambiente, o serviço e a comida. Uma estrela significa ‘ruim’, duas = ‘bom’, três = ‘muito bom’ e quatro = ‘ótimo’. E uma palavrinha sobre os preços. Amsterdã não é uma cidade barata, embora seja mais acessível que outras capitais europeias (Paris e Londres, por exemplo). Mas achei que o preço da comida nos lugares que visite era relativamente razoável, com pouca diferença de um lugar pra outro. A única exceção é o restaurante-squat MKZ, que é baratíssimo, mas explico isso na descrição do lugar.

Vegabond

Leliegracht 16

Mercearia com produtos orgânicos/veganos (vende um ou outro produto vegetariano) que também funciona como café vegano. Vende sopa, sucos naturais, sanduíches (pão preto ou baguete) com tofu e queijo vegano, cupcakes, chocolates crus e, claro, bebidas quentes e geladas. O lugar é uma fofura, mas achei a comida mais ou menos. Pedi um sanduíche com tofu mexido e queijo (não sou fã de queijos veganos industrializados pois acho que a maioria tem gosto de margarina, mas estava curiosa pra experimentar), que não me deixou muito impressionada, e um brownie (gostoso, mas meio seco). Vende sorvete vegano da marca holandesa Professor Grunschnabel, feitos à base de leite de coco e com sabores bem originais (ótimos, embora um pouco doce demais pro meu paladar). O preço da comida é razoável, mas achei os produtos da mercearia um pouco caros. Como o pessoal é uma simpatia só e o lugar é lindo, aconselho ir lá pra tomar um cappuccino enquanto admira as pessoas desfilarem na rua (se, como eu, você gosta dessa atividade).

Ambiente: ****

Serviço: ****

Comida: **

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DopHert 

Spaarndammerstraat 49

Um ótimo endereço vegano pro café da manhã: tem iogurte de soja com granola e frutas, café da manhã clássico ou Inglês (com chouriço de seitan, tofu mexido, feijão branco com tomate…), bebidas quentes e geladas, sucos naturais… Também oferece sanduíches (pão integral com sementes ou branco) com ingredientes interessantes (hummus, seitan, tempeh bacon, abacate, pesto, maionese vegana…), sopas, saladas e algumas sobremesas. Tomei um suco delícia (erva-doce -o legume-, salsão, cenoura e maçã) que me fez quebrar o preconceito que eu tinha com salsão no suco (sempre achei que ficaria ruim, sem nunca ter provado). Pedi um sanduíche de chouriço de seitan (feito no local) porque a proposta era tentadora, mas não tem quem me faça gostar de seitan (acho a textura muito borrachenta). Tenho certeza que os outros sanduíches são melhores. Também provei o brownie-torta de chocolate e amendoim e ele estava tão bom que me fez esquecer o danado do seitan. Os preços são bem bacanas e as porções generosas. Você pode sentar na calçada (se o tempo permitir) ou na sala colorida que fica no primeiro andar. Eles tiveram a ótima ideia de espalhar livros de culinária vegana (alguns em Inglês!) sobre as mesas pra distrair os clientes e agora vou torcer pra que todos os restaurantes vegs façam o mesmo.

Ambiente:****

Serviço: ****

Comida: ***

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De Vegetarische Slager (“O açougueiro vegetariano”)

Rozengracht 217

Fazia tempos que eu queria visitar esse lugar. Eu tinha ouvido falar muito dos produtos que reproduzem com perfeição diferentes tipos de carne, frango e atum usando ingredientes vegetais. Quase tudo é à base de soja, mas alguns produtos são feitos só com vegetais e outros com tremoço. Apesar de tudo ser vegetariano, só alguns produtos são veganos (o frango, um tipo de carne e um tipo de bacon). A vendedora, que era uma simpatia só e que (olha que mundo pequeno!) tinha visitado a Palestina e conhecia alguns dos meus amigos, me contou a história por trás disso tudo. O holandês Jaap Korteweg, que idealizou o projeto, vem de uma família de agricultores e queria fazer uma revolução vegetariana no campo. Ela me contou também que ele é casado com Marianne Thieme, deputada e líder do Partido dos Animais (acredito que esse partido holandês seja o único do tipo no mundo) e que fez o documentário “Uma verdade mais que incoviniente” (‘Meat the truth’). Que casal arretado! Só provei o frango e a semelhança é realmente impressionante. Na verdade é tão parecido que pra mim é meio mórbido. Mas acho que esse tipo de produto é uma salvação pra quem está em transição pro vegetarianismo/veganismo ou quer deixar de comer carne, mas ainda é muito apegado ao sabor. Os produtos são vendidos no peso, congelados (tudo cozido, basta esquentar em casa). O local também funciona como restaurante e tem um menu imenso, com vários tipos de sanduíches. Eles também vendem um tipo de queijo vegano, mais humus, tapenade e baba ganush, então os sanduíches parecem suculentos. Também vendem um patê (pergunte qual, pois tem também patês vegetarianos), algumas saladas veganas, bebidas quentes (tem leite de soja pro seu cappuccino) e sucos frescos. E quase sempre tem uma sobremesa vegana pra completar a nossa felicidade.

Ambiente:***

Serviço:****

Comida:***

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Koffie ende Koeck

Haarlemmerweg 175

100% vegano e quase todo orgânico, um lugar simples, mas que oferece comida sublime. Ótimas opções de café da manhã, almoço e lanche (sanduíches, granola, iogurte de soja, sucos, bebidas quentes com quatro opções de leite vegetal…). A quiche de polenta é de cair pra trás (preciso recriar essa receita) e as misturas de sabores são super interessantes. Pedi um sanduíche com pão integral rústico, molho de pimenta fermentado feito pela chef (surpreendente), cream cheese, pimentão grelhado e rúcula que era uma loucura. E as sobremesas? Tinha brownie, torta de maçã e maracujá, cookies de aveia e lavanda, bolo com recheio de framboesa e cobertura de chocolate branco… Além de ser uma delícia, dá pra sentir todo o amor na apresentação dos pratos. Eles oferecem um ‘high tea’ (que pode ser servido a qualquer hora do dia) onde você recebe uma bandeja imensa com um pouco de tudo que tem no cardápio (doces e salgados), tão apetitoso e generoso que fiquei emocionada (cafés e restaurantes mundo afora, é assim que nós, veganos, merecemos ser tratados!). E a moça que me atendeu, metade holandesa, metade portuguesa, era uma simpatia só. De todos os lugares que visitei esse foi o meu preferido. Recomendadíssimo!

Ambiente:***

Serviço:****

Comida:****

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TerraZen

19 hs Sint Jacobstraat

Outro endereço 100% vegano, que oferece uma comida eclética (um mix entre o Caribe, Suriname e Ásia) e muito saborosa. O cardápio é imenso (contei mais de 40 pratos) e tem opções pra todos os gostos e bolsos. Sopas, currys, burguers, yakisoba, saladas, pratos à base de feijão, pratos com ‘frango’ vegano, makis e até um prato totalmente cru. Também oferece bebidas geladas (sucos, milkshakes) e quentes e algumas sobremesas. Pedi o maki com natô, porque sempre quis provar esse ingrediente tradicional japonês, e adorei. O bolo de chocolate também estava uma delícia, embora a amiga que me levou lá tenha achado amargo (eu achei doce na medida). Aqui também dá pra sentir o amor nas preparações, todas apetitosas. O ambiente é descontraído e ultra relax (reggae tocando e um ou outro fumando tudo até a última ponta). O dono e o chef são jamaicanos e extremamente atenciosos e calorosos. Gostei tanto dos dois que não sei se quero voltar lá pela comida ou pra bater papo com eles (provavelmente os dois). O único problema é que o pessoal é tão relax que se não tiver nenhum cliente eles fecham o restaurante no meio do dia e vão fazer compras ou dar um passeio. Se você for lá e o restaurante estiver fechado (como aconteceu na primeira vez que tentei comer lá), espere um pouco que logo eles voltam. Foi o meu segundo lugar preferido na cidade.

Ambiente:***

Serviço:****

Comida:****

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MKZ

Eerste Schinkelstraat 16. Tel: 020-6790712

Um dos únicos squats legalizados da cidade, que se transforma em restaurante vegano todas as noites. É preciso ligar à tarde pra reservar (eles só servem 50 pessoas por noite) e os pratos têm gostinho de comida caseira. Achei gostoso, mas nada capaz de impressionar. Conversei com alguns clientes na noite que estive lá e eles me disseram que vão sempre ali justamente por esse motivo: comida caseira e saborosa. O squat é enorme e tem um jardim extremamente agradável, com mesas por todos os lados (se o tempo estiver bonito, vá degustar o seu prato no jardim) e também uma loja grátis (roupas e objetos de segunda mão grátis, é só pegar o que você quiser). E pra deixar tudo ainda melhor, a refeição completa (entrada+prato+sobremesa, com direito a repetir) custa apenas 5 euros. E como é um squat, não um restaurante formal, cada qual lava os seus pratos depois do jantar. Uma experiência que recomendo demais.

Ambiente:****

Serviço:***

Comida:** 

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SLA

Westertraat 34

Um restaurante só de saladas, onde você monta a sua. O local oferece carne e outros produtos de origem animal, mas se esforça bastante pra agradar os clientes veganos. Na hora de montar sua salada você escolhe uma folha verde, um cereal, uma proteína animal ou vegetal (lentilha, grão de bico), legumes crus e/ou cozidos e um molho (TODOS os molhos são veganos, olha só que coisa linda!). Também vende sucos frescos. O atendimento é um pouco frio (provavelmente porque tem sempre muita gente esperando pra ser atendida) e o local não é muito aconchegante, mas é uma opção interessante pra quando seu corpo estiver cansado de sanduíches e começar a pedir vitaminas e legumes frescos.

Ambiente:**

Serviço:**

Comida:*** 

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Bagels and Beans

Raadhuisstraat 18

Uma rede de lanchonetes holandesa especializada em bagels, como o nome indica. Apesar de ser um café tradicional, oferece algumas opções interessantes pros veganos. Todos os bagels são veganos e é possível substituir o cream cheese por hummus (quem acha que todas as lanchonetes deveriam oferecer hummus no lugar do queijo como alternativa pros veganos levante a mão). Tem uma opção de bagel com hummus, tapenade e tomate semi-seco que é uma loucura! Também oferece uma opção doce (com banana, xarope de bordo e canela) e leite de soja pro seu cappuccino. Como em todo local frequentado por muita gente, o serviço não é dos mais calorosos. Vale a pena visitar se você, assim como eu, adora bagels.

Ambiente:**

Serviço:**

Comida:*** 

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Vega-Life

Singel 110

Loja de produtos 100% veganos. Tem camisetas, sapatos, bolsas, vitaminas e outros suplementos alimentares e cosméticos. Os preços são um pouco salgados, mas os produtos são lindos e de ótima qualidade. Também vende os ótimos sorvetes veganos da marca Professor Grunschnabel.

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Você pode conferir a lista completa de todos os restaurantes veganos, vegetarianos e veg-friendly de Amsterdã no site Happy Cow, o melhor lugar pra encontrar lugares veganos,vegetarianos e veg friendly em várias cidades do mundo. Tem até um mapa com todos os endereços, então é muito fácil encontrá-los.

Todo mundo me aconselhou, mas escolhi não provar os famosos falafels Maoz. Falafels, pra quem não conhece, são a fast-food por excelência no Oriente Médio e, por um feliz acaso, são 100% veganos. Eles são extremamente populares em Amsterdã e tem quem afirme que os falafels do Maoz são os melhores da cidade. Mas depois de ter morado cinco anos na Palestinia e ter comido falafel até eles começarem a sair pelos ouvidos, raramente tenho vontade de comer essas bolinhas (acho que só vou comer falafel novamente quando voltar pra Palestina).  Mas vou colocar o endereço aqui, pra quem quiser provar. Segundo uma das minha amigas holandesas os sanduíches com falafels de lá são deliciosos, baratos e as porções são generosas, então vale a pena.

Maoz Falafel Leidsestraat 85 

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Semana passada eu estava em Amsterdã, comendo toda a comida vegana que consegui colocar no estômago. Semana retrasada eu trabalhei sem parar e cozinhei em vários lugares diferentes. Fiz um churrasco 100% vegano (o meu primeiro!) e preparei um jantar em um caminhão-cozinha. E alimentei muitas, muitas bocas. Na verdade eu nunca tinha alimentado tantas bocas de uma vez só. Aqui vão algumas fotos das duas últimas semanas.

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E o próximo post será… o Guia Vegano de Amsterdã! Estou muito empolgada com as descobertas gastronômicas que fiz na cidade e ansiosa pra dividir tudo com vocês. Aguardem

No último post eu disse que apesar de não ter planejado, acabei virando a rainha do makluba (veg). Meu relacionamento com ele começou em 2007, quando cheguei na Palestina. Descobri que era o prato nacional por ali e sempre que era convidada pra comer na casa de alguém, lá estava ele na mesa. Depois fui trabalhar no projeto de mulheres no campo de refugiados de Aida e aprendi, junto com os estrangeiros que participavam das aulas de culinária, a preparar o famoso prato. A versão tradicional é feita com frango, mas como muitos dos nossos ‘alunos’ eram vegetarianos/veganos, consegui convencer Islam (a coordenadora palestina do projeto e nossa cozinheira-mor) a preparar também uma versão 100% vegetal durante as aulas.

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Minha vizinha Violet, uma palestina cristã, me contou que os palestinos (cristãos) também preparam uma versão vegana do makluba. Os cristãos ortodoxos excluem todos os alimentos de origem animal do cardápio durante a quaresma, então aprendi com eles a fazer várias receitas veganas, adaptações dos pratos tradicionais feitos com animais. Tinha até uma padaria perto de casa que se tornava 100% vegana durante a quaresma. A  maior parte da clientela, assim como os donos, eram cristãos ortodoxos, então todos os biscoitos, bolachas e pães eram veganos nessa época do ano.

Mas voltemos ao makluba. Durante os cinco anos que morei na Palestina nunca passei mais de algumas semanas sem comer esse prato, sempre preparado com talento pelas minhas amigas, todas ótimas cozinheiras. Por isso só fui preparar o meu primeiro makluba depois de ter saído do país, alguns meses atrás. Foi meu amigo Bilal, um palestino refugiado da Síria, que me pediu pra preparar um makluba pra um grupo de 25 budistas. Algum monge budista tibetano estava dando palestras aqui em Bruxelas e a moça que organizou o evento nos contratou pra preparar três almoços pro pessoal. Então fui parar na pequena cozinha de Bilal, nós dois e um palestino de Gaza, e durante três dias preparamos juntos comida palestina vegana pra um grupo de belgas budistas, mais dois monges tibetanos, enquanto ouvíamos Fairuz e tomávamos chá. E acabei tendo que explicar dezenas de vezes que a cozinheira palestina era brasileira. Mais uma das situações deliciosamente absurdas nas quais me meto regularmente.

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E foi assim que fiz o meu primeiro makluba. Bilal tinha perguntado se eu sabia preparar o prato mais popular da culinária palestina e eu respondi que depois de ter visto tanto makluba sendo preparado na minha frente, com certeza eu sabia como fazer aquilo de olhos fechados, com as mãos amarradas nas costas e pulando num pé só. Mas depois de ter colocado tudo na panela bateu uma tremenda insegurança. Será que eu ia dar conta do recado? Será que o meu makluba seria tão bom quanto os que eu comia na Palestina? Só relaxei quando os dois palestinos presentes ali provaram e aprovaram a minha preparação.

A partir de então comecei a fazer makluba por todos os lados, em oficinas de culinária em Paris e aqui em Bruxelas. E quanto mais eu faço essa receita, mais prazer ela me dá.  Esse é um prato festivo, generoso, que sempre impressiona os convidados e arranca elogios de todos. Os ingredientes são simples, mas produzem um resultado espetacular. Um cruzamento de risoto com paella, mas com temperos árabes e desenformado como uma ‘tarte tatin’. Não é o tipo de receita que você faz numa terça-feira à noite, quando chega cansada do trabalho e quer comida na mesa o mais rapidamente possível.  Eu não vou mentir pra vocês: ele é longo e trabalhoso. Se você não tem paciência pra cozinhar deve passar longe dessa receita. Esse é um prato que deve ser preparado em ocasiões especiais, quando você tem várias horas pra passar na cozinha e várias pessoas pra degustar, e apreciar, o fruto dos seus esforços.

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Mas confesso que apesar de ser delicioso e de aumentar a minha quota de popularidade com os amigos, a razão que me faz adorar preparar makluba é outra. A primeira garfada costuma me levar de volta pra Palestina e sinto o cheiro da terra seca, o gosto do chá com sálvia e as vozes dos meus amigos, me contando histórias e dando gargalhadas. E enquanto a próxima viagem à Palestina não chega, é esse prato que me faz viajar pra lá quando a saudade aperta.

*Todas as fotos desse post foram feitas por Anne Paq.

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Makluba

Tradicionalmente esse prato é feito com frango, mas essa é a versão vegetariana/vegana que é consumida durante a quaresma pelos palestinos cristãos (mais informações no texto acima). Na Palestina se usa arroz comum, mas eu gosto de fazer essa receita com arroz basmati, pois o prato fica ainda mais perfumado. Minha versão também é mais leve pois não frito os legumes mergulhados no óleo quente, como é feito por lá. Se quiser aumentar a quantidade de proteína do seu makluba (e ter uma proteína vegetal completa) junte grão de bico cozido à receita (2 xícaras, no momento em que colocar os legumes fritos na panela). Não é nem um pouco tradicional, mas vai deixar o seu prato ainda mais robusto. Na Palestina tem sempre um pratinho de hummus na mesa, então não falta proteína (vegetal e completa) na dieta deles, mesmo durante a quaresma:)

250g de arroz (comum ou basmati)

2 berinjelas médias

1 couve-flor grande

2 cenouras médias

4-6 tomates maduros

1 cebola grande

4-6 dentes de alho

1cc de cada especiaria (em pó): cominho, semente de coentro, paprica suave, cúrcuma

Sal e pimenta do reino a gosto

Azeite

Um punhado de amêndoas em lascas, tostadas, e/ou um punhado de salsinha picada (opcional)

-Deixe o arroz de molho, na água fria, durante uma hora (pode deixar mais tempo, se quiser).

-Prepare os legumes. Corte as berinjelas em fatias de espessura média, no sentido do comprimento (com a casca). Salgue generosamente e deixe descansar enquanto você prepara o resto dos ingredientes. Corte as cenouras em fatias e a couve-flor em buquês pequenos. Corte a cebola em fatias, no sentido vertical. Pique ou amasse o alho. Corte os tomates em fatias grossas (quatro fatias por tomate).

-Enxugue as fatias de berinjela com papel absorvente (o sal faz com que ela solte um pouco da própria água). Em uma frigideira grande aqueça uma camada fina de azeite e frite as fatias de berinjela, deixando dourar bem dos dois lados. Regue a couve-flor com azeite e tempere com sal. Asse em forno médio até ficar ligeiramente dourada. Depois de ter dourado toda a berinjela, faça a mesma coisa com a cenoura, juntando um pouco mais de azeite sempre que colocar uma nova camada de legumes na frigideira. Reserve os legumes fritos/assados separadamente.

-Por último doure a cebola em mais um pouco de azeite, junte o alho e deixe cozinhar mais alguns segundos. Acrescente todas as especiarias e uma pitada generosa de sal. Quando o perfume das especiarias ficar mais intenso desligue o fogo.

-Escorra o arroz e tempere com 1/2 cc de sal (ou a gosto).

-Agora chegou a hora de montar o makluba. Use uma panela grande o suficiente pra caber todos os ingredientes com sobra (lembre-se que o arroz aumenta de volume depois de cozido), de preferência com o fundo grosso. Cubra o fundo e metade das laterais da panela com as fatias de tomate e tempere com uma pitada de sal. Distribua os legumes sobre os tomates, nessa ordem: mistura de cebola/alho/especiarias, berinjela, couve flor e, por último, a cenoura. Tempere os legumes com sal à medida que for distribuindo as camadas. Cubra os legumes com o arroz escorrido e compacte ligeiramente com as costas de uma colher.

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-Acrescente água suficiente na panela pra cobrir tudo e passar aproximadamente 1,5 cm do nível do arroz. Leve ao fogo alto até começar a ferver, tampe e deixe cozinhar em fogo baixo. O makluba está pronto quando o arroz estiver bem macio e quase todo o líquido tiver evaporado (use uma colher pra empurrar um cantinho do makluba pro lado e checar o nível de líquido). É importante que ainda tenha uma certa quantidade de caldo no fundo da panela, pro prato ficar suculento. Mas se o arroz estiver totalmente cozido e ainda tiver líquido demais na panela, aumente o fogo e deixe cozinhar descoberto por alguns minutos.

-Depois de pronto, deixe o makluba descancar, tampado, por 5 minutos. Em seguida cubra a panela com uma travessa ligeiramente maior e vire o makluba de cabeça pra baixo. O chef palestino Sami Tamimi jura que se na hora de virar a panela todos os membros da família colocarem a mão sobre ela, como estamos fazendo numa das fotos acima, e esperar 3 minutos, ele desenforma perfeitamente. Não custa nada tentar e é divertido . Se o seu makluba não desenformar direitinho, nada tema. Use uma colher pra ‘descolar’ o que ficou grudado no fundo da panela. Ele ficará menos atraente, mas o sabor será o mesmo.

-Sirva imediatamente, decorado com amêndoas tostadas e/ou salsinha picada (optional) e acompanhado de uma salada crua (tomate+pepino+salsinha+hortelã, tudo bem picadinho, como nas fotos) ou, melhor ainda, com uma salada árabe. Rende 4-6 porções. 

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Acabo de voltar de quatro dias em Paris. Uma das melhores coisas de ter voltado a morar na Europa é poder pegar um ônibus ou um trem e em duas horas estar em outro país. Dessa vez fui dar aulas de culinária palestina e preparar um jantar pra acompanhar a exposição de uma noite que Anne fez por lá. Eu sei, não faz muito sentido ter aulas de culinária palestina com uma brasileira, mas acabei virando a rainha do hummus e do makluba. Claro que todas as minhas aulas são veganas, mas isso nunca foi um problema. A culinária palestina é extremamente vegan-friendly e é fácil veganizar os pratos que geralmente usam animais. Quando eu morava em Belém minha vizinha, Violete, era uma palestina cristã ortodoxa e durante a quaresma ela seguia (como os outros cristãos ortodoxos) um regime completamente vegano. Violete e outros amigos palestinos cristãos me ensinaram as versões veganas dos pratos mais tradicionais e como passei anos trabalhando num projeto de culinária no campo de refugiados de Aida pude acumular bastante conhecimento sobre o assunto. Mas se alguém tivesse me dito alguns anos atrás, quando fui morar na terra santa, que um dia eu daria aulas de culinária palestina eu teria dado uma gargalhada. Pois é, a vida é cheia de surpresas (felizmente).

Estou planejando dividir com vocês uma das receitas palestinas mais famosas, mas vai ficar pro próximo post. Hoje deixo vocês com algumas fotos da viagem. Mesmo depois de ter ido à Paris tantas vezes e de ter morado seis anos lá, a beleza dessa cidade sempre me tira o fôlego.

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Ah, os banheiros dos parisienses… Sentar no trono acompanhada de dezenas de escritores ilustres é um imenso prazer.

Vocês, pessoas, vocês… Eu tenho os leitores mais maravilhosos dessa internet. Nem sei como agradecer os comentários que vocês deixaram no meu último post. Eu li todos (duas vezes), me emocionei, chorei, fiquei profundamente tocada, me senti uma rockstar e agradeci as estrelas por ter tanta gente boa na minha vida. Recebam meus agradecimentos sinceros e meus abraços virtuais (estou abraçando cada um de vocês mentalmente agora. Sentiu um calorzinho ao redor dos ombros? Sou eu.)

Mas acho que a melhor maneira de agradecer tanto carinho é continuar postando minhas histórias e receitas por aqui. E o post de hoje é muito especial pra mim. Faz meses que carrego a ideia desse texto na cabeça e acho que chegou a hora de transferi-la pro computador e dividir o resultado com vocês.

Jo

 Lembram da minha amiga Johanna? Mês passado foi o aniversário dela e como eu não pude estar lá nesse dia especial e nem sequer mandei presente, resolvi fazer o que sempre faço nessas situações: escrever um post. (Acho que nesse momento todas as pessoas que fazem parte da minha vida sabem que mais cedo ou mais tarde vão virar post).

 Ela mora em Tel Aviv e faz um ano (desde que fui embora da Palestina) que não nos vemos, mas é difícil passar um dia sem que eu pense nela. Johanna é a minha alma gêmea e me entende tão profundamente que tenho certeza que pra ela minha carne é transparente: ela consegue ler diretamente na minha alma. Querem saber como conheci Johanna? Ela foi a primeira amiga que fiz na Palestina e a primeiríssima pessoa vegana que conheci na vida! Eu fiz um desenho pra explicar nosso primeiro encontro. Eu desenho como uma criança de três anos que não tem talento nenhum pra coisa, mas Johanna adora meus bonequinhos (eu até desenhei um livrinho de receitas e histórias pra ela), então peço desculpa pelos desenhos toscos, mas é assim que vou contar nosso primeiro encontro. E já vou me desculpando pros leitores que não falam Inglês, mas o desenho é um presente pra Johanna e como ela não fala Português…

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Agora que vocês conhecem esse meu talento até então secreto (se cuida, Joe Sacco!) eu queria dividir mais uma coisa super pessoal e embaraçosa. Tempos atrás eu pedi pra Johanna responder um questionário sobre… eu mesma. Copiei a ideia da minha guru Danielle LaPorte (o trabalho dessa mulher me inspira imensamente), que criou um questionário chamado ‘ask a friend’, que te ajuda a descobrir o que seu amigo mais próximo pensa de você. A experiência é intensa, mas só funciona se você perguntar a alguém que te conhece pelo avesso e te ama profundamente. Johanna pediu pra eu fazer a mesma coisa pra ela e nós duas ficamos pra lá de emocionadas com as respostas. Perguntei se podia publicar algumas aqui no blog e ela aceitou. Com vocês, eu e a minha melhor amiga emocionalmente peladas.

 A conversa começou assim.

Sandra- Então você topa responder essas perguntas pra mim? Prometo que farei a mesma coisa pra você.

Johanna- Então tá. Mas você é uma das pessoas mais conscientes de si mesma que eu conheço. Não sei se você vai descobrir muita coisa com as minhas respostas… Mais prometo me esforçar pra te dar respostas mais complexas do que ‘Eu te amo, eu te amo, você é maravilhosa” ;)

Sandra- Então aqui vão as perguntas.

 O que você mais ama em mim?

J- A maneira como você vê a vida e o mundo… e a maneira que você se expressa, usando as impressões que você tem dentro de você. Ou seja, a maneira como você transforma suas experiências e conhecimentos em histórias, receitas, prazer e empatia.

S- O quão imensamente sábia você é e como você aceita as pessoas exatamente como elas são.

Eu sou a melhor do mundo em… 

J- …amar algo ou alguém da maneira mais completa e doce possível.

S-…dar conselhos incrivelmente precisos e úteis aos amigos. Ler a minha alma e saber exatamente como eu me sinto e o que eu devo fazer quando eu mesma não consigo.

Jo and Ju

Se eu não existisse… 

J- Acho que um punhado de gente seria menos feliz e menos iluminada se você não existisse. Veganismo seria apenas uma baboseira hipster e não uma filosofia completa. O Brasil seria um lugar menos vegano. O sol brilharia um pouco menos… Minha vida seria diferente. Você me fez ver e sentir coisas de uma maneira diferente. Eu sempre adorei comida, mas você fez com que eu me apaixonasse pelo fato de pensar e falar sobre o assunto. Eu sempre amei pessoas, mas você me deu palavras pra descrever beleza e atração. Você me mostrou beleza que eu nunca tinha visto antes. Eu acho que eu me sentiria menos amável e bonita se você não existisse.

S-  Eu ainda estaria me negando as fagulhas e o brilho inesperado que a vida traz (você sabe do que estou falando:) Eu aceitaria menos a pessoa que sou. Eu ainda estaria pensando que não se depilar não é sexy. Tel Aviv seria um lugar que não valeria a pena ser visitado. Eu não teria descoberto o meu patê preferido e os leitores do blog não teriam experimentado seu maravilhoso mutabbal. O mundo, o meu mundo, seria muito menos saboroso e bonito.

 O mundo precisa saber que eu… 

J- …é uma cozinheira maravilhosa. Jesus! Você é simplesmente maravilhosa! Mas não só uma boa cozinheira, você é uma expert em comida, inteligente e cheia de sabedoria. Você se preocupa com cada detalhe do seu trabalho. Você é uma professora fantástica e uma amiga única. Receber um pouco do seu conhecimento, habilidades e sabedoria é um presente pra qualquer pessoa que te conhece. Eu vou pagar dez tradutores pro seu blog ser famoso no mundo inteiro!

S- …é uma verdadeira guru. As pessoas que são sortudas o suficiente pra fazer parte do seu círculo de amizades devem sempre falar com você quando precisarem de um ouvido sensível, compaixão e os melhores conselhos do mundo.

 Na sua opinião, qual é a minha maior força?

J- Sobreviver mentalmente nas situações mais loucas.

S- Compaixão. Você é a pessoa com mais compaixão que conheço. A vida pode te esmagar e você vai sempre sair da situação com sua habilidade de sentir compaixão intacta. E também seu dom de analisar sem julgar. Isso é algo enorme e eu conheço pouquíssimas pessoas assim. Você é extremamente iluminada e evoluída.

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 Como você descreveria o meu estilo de vida?

J- Corajoso, autêntico, segue o seu coração, aventureiro… Você encontra satisfação em qualquer circunstância, mas nunca deixa de ter curiosidade com relação à vida, nem de fazer planos.

S- Tolerante, cheio de compaixão e verdadeiro. Você vive de braços abertos, aceitando as lições e tudo o mais que a vida traz pra você.

Eu deveria parar de…

J-…pensar que você sabe o que a outra pessoas está pensando/sentindo sem ter falado com ela sobre o assunto. Dar uma chance às pessoas e situações de serem diferentes do que você esperava. Eu sei que você já faz isso e que você se tornou mais consciente com relação a isso, mas ainda precisar trabalhar mais pra parar de repetir esse comportamento.

S-…comer açúcar e comida porcaria em geral.

Pro meu próprio bem, você gostaria que eu fosse menos…

J- Eu gostaria que você esquecesse menos de si mesma e deixasse de minimizar os seus problemas. Não seja uma heroína solitária!

S- Eu gostaria que às vezes você deixasse de se forçar a fazer tantas coisas ao mesmo tempo. Quando você trabalha muito, encontra várias pessoas, vai a vários lugares diferentes…tudo na mesma semana. E ainda assim se força a trabalhar mais, ir pra mais um lugar, encontrar mais uma pessoa. Aí você colapsa ou acaba adoecendo.

 Quando é que você me viu brilhar com toda a intensidade?

J- Quando você fala do seu irmão caçula e quando me conta histórias sobre a sua família. Sempre que você abre a porta pra mim e me faz brilhar também.

S- Quando você toca violino.

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 Eu posso comemorar mais/me orgulhar de…

J-…das coisas maravilhosas que você recebeu até hoje. Não se preocupe com isso de estar envelhecendo, de não ter um emprego… A vida que você viveu até aqui é uma verdadeira obra prima! Colha os frutos do seu trabalho, continue no seu caminho, continue compartilhando os seus pensamentos, ideias, amor e comida com o mundo. Não tem um só motivo pra te fazer duvidar das decisões que você tomou na vida.

S- O rumo que você deu à sua vida, as coisas que você conquistou até hoje, incluindo ter criado uma vida cheia de poesia e emoção nesse lugar louco e hostil, e seu incrível talento pra aprender línguas.

Por que dividir coisas tão íntimas aqui? Sinceramente, ainda estou procurando a resposta. Mas depois dos comentários de vocês no último post, fiquei com vontade de ficar emocionalmente pelada por aqui. Espero que ninguém se importe. E também porque queria apresentar uma das pessoas mais importantes na minha vida. A gente sempre quer dividir o melhor que tem com os amigos, virtuais ou não.

E pra ajudar a minha amiga Johanna e todos os leitores que adoram doces, mas que gostariam de comer menos açúcar, termino esse post com a receita mais popular nas oficinas de culinária que dei nos últimos tempos. Criei essa receita uns dois anos atrás, inspirada por algumas receitas de barrinhas de castanhas e frutas secas que vi na net. Com o tempo fui adaptando isso, incluindo aquilo e hoje faço bolinhas com a ‘massa’ ao invés de barras. Você também pode fazer um salame doce (um upgrade dessa receita aqui) e agradar os pequenos. Aliás, independente da forma, essa receita faz muito sucesso com as crianças. E com os adultos também, claro.

Essa é mais uma receita que prova que a vida sem açúcar (o pó branco ou marrom) pode ser deliciosamente doce. Ninguém precisa se privar de prazer nem punir as papilas pra se alimentar bem. E antes de apresentar a receita, uma última coisinha. Tem uma leitora que viu essas bolinhas no meu Instagram meses atrás e desde então espera ansiosamente pela receita. Clara, aqui estão as famosas ‘bolinhas casamenteiras’. 

PS Fiz quase todas as fotos na casa de Johanna, em Tel Aviv, mas a foto em que ela segura a cachorrinha foi na casa onde moramos anos atrás, em Belém.

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Bolinhas de chocolate e coco (vegana, crua, sem glúten)

Essas bolinhas são simplérrimas de fazer se você tiver um multi-processador, daqueles com uma lâmina ‘S’. É possível fazer a receita no liquidificador (é o que faço em casa), você só vai precisar usar os músculos e ter um pouco de paciência. A receita produz bolinhas doces na medida (menos doces que os doces tradicionais, mas várias crianças acostumadas com biscoitos e chocolates industrializados aprovaram essa receita), mas se quiser uma versão mais intensa e amarga, aumente a quantidade de cacau. E falando nele, a qualidade de cacau utilizado aqui faz toda a diferença. Sei que tâmaras são difíceis de encontrar no Brasil, então vou logo respondendo a pergunta que sei que vai aparecer nos comentários: é possível usar passas no lugar das tâmaras. Mas preciso avisar que o saber muda, claro, e que a versão com tâmaras é melhor.

1 x de coco ralado desidratado

1 x de castanha de caju

1 x (bem compactada) de tâmaras macias, sem caroço (as do tipo ‘medjoul’ são as melhores)

2 cs de cacao em pó puro, sem açúcar, de ótima qualidade (ou mais, se quiser um sabor de chocolate mais intenso e amargo)

1/2 cc de extrato de baunilha (opcional, mas recomendado)

Uma pitada generosa de sal marinho

Se suas tâmaras estiverem secas demais, deixe de molho em água quente (só o suficiente pra cobri-las) por meia hora. Escorra e reserve a água do molho.

 No multi-processador:

Triture as castanhas até obter uma farinha grosseira (tudo bem se tiver alguns pedacinhos maiores). Junte o coco ralado, o cacau e o sal e triture alguns segundo, pra que tudo fique bem misturado. Com o motor ligado vá adicionando as tâmaras escorridas (sem o caroço!!!) aos poucos. Junte o extrato de baunilha, se estiver usando, e uma colher de sopa de água (aquela que você reservou depois de ter deixado as tâmaras de molho) e bata mais um pouco. Nesse ponto a massa deve estar úmida o suficiente pra formar bolinhas quando pressionada. Teste pegando um pouco de massa e pressionando entre os dedos. Se ela ainda estiver muito seca e se quebrando, junte mais uma colher de sopa de água e bata mais um pouco. Se por acaso você acrescentar água demais e sua massa estiver muito grudenta, junte mais um pouquinho de coco ralado.

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No liquidificador:

Triture as castanhas até obter uma farinha grosseira (tudo bem se tiver alguns pedacinhos maiores). Despeje as castanhas em um recipiente grande e reserve. Coloque o coco ralado no fundo do liquidificador seguido das tâmaras escorridas e por último o cacau. Acrescente o sal e o extrato de baunilha, se estiver usando. Triture tudo até que as tâmaras estejam em pedaços bem miúdos (você provavelmente vai precisar parar o motor algumas vezes e mexer tudo com uma colher de pau). Despeje a mistura sobre as castanhas trituradas, junte uma colher de sopa de água (aquela que você reservou depois de ter deixado as tâmaras de molho) e misture tudo com as mãos. Se prepare pra malhar o braço aqui, pois a massa é densa e vai precisar de um certo esforço da sua parte pra chegar na consistência ideal. Se sentir que a massa não está ficando unida, junte mais uma colher de sopa de água. Se estiver muito grudenta, junte mais um pouquinho de coco ralado.

Quando a massa estiver bem unida e você for capaz de enrolar bolinhas com ela…faça bolinhas com ela (como você enrolaria brigadeiros, só que não precisa untar as mãos). Deguste imediatamente ou guarde em um recipiente bem fechado pra não ressecar. Elas ficam mais firmes no dia seguinte, mas o sabor fica ainda mais intenso. Essas bolinhas se conservam por vários dias (fora da geladeira, pois o frio faz com que elas fiquem bem duras). Rende 34 bolinhas pequenas (essa quantidade varia de acordo com o tamanho das suas bolinhas, obviamente).

Sou dessas pessoas que adoram dividir os momentos felizes, mas que preferem sofrer quietinhas num canto, sem testemunhas por perto. Sempre pensei que a razão desse meu comportamento era poupar os outros de preocupações desnecessárias, mas depois de muito meditar sobre a questão percebi que tem uma parte de orgulho também. Prefiro segurar as pontas sozinha porque se o frio dado é sempre proporcional à espessura do cobertor, eu não tenho razão pra reclamar. Continuo sem vocação pra reclamar, mas decidi parar de fingir que esse negócio de sofrer não é pra mim.

Se você acompanha o blog há algum tempo deve ter notado que ando ausente. Antigamente postava duas, três vezes por semana. Ultimamente passei a postar com uma frequência muito menor e já faz algumas semanas que minha sala de estar/cozinha virtual, que é como vejo esse espaço, está vazia. Hesitei em explicar a razão do meu sumiço, tem uma voz me dizendo que provavelmente estão todos ocupados e que nem notaram a minha ausência, que não tem ninguém sentando do outro lado da tela esperando um post novo… Mas a presença de vocês aqui no blog, vocês que deixam comentários tão emocionantes e que fazem parte da minha vida (e não só a virtual) é tão importante pra mim que me sinto na obrigação de dar explicações.

As coisas não andam fáceis do lado de cá da tela. Sem entrar muito nos detalhes, minha vida nunca esteve tão instável. Estou assim sem ponto de referência, sem chão, sem saber bem quem eu sou nem pra onde vou. Tenho a absoluta certeza que a situação vai se resolver e que no final vai dar tudo certo. Tenho essa fé cega na vida, o que nunca me fez perder as esperanças. Então ninguém precisa se preocupar, pois estou no casulo cósmico-emocional onde a gente repousa antes de virar borboleta. Vim aqui explicar a situação pra me desculpar pela ausência.

Mas daqui a pouco eu volto. E sinto que tem muita coisa boa pela frente.

Poucos dias depois de ter chegado em Bruxelas aconteceu um evento de alimentação orgânica-alternativa-ecológica na cidade. No panfleto que explicava quais projetos e organizações estariam presentes, descobri que tinha um grupo de jovens belgas produzindo cogumelo em borra de café. Achei a ideia inusitada e imediatamente fiquei com vontade de saber mais sobre o projeto, que se chama Permafungi. Mas no meio da multidão que apareceu pra participar do evento acabei não encontrando o stand deles e nunca mais pensei no assunto.

Até que algumas semanas atrás, procurando endereços de hortas urbanas por aqui, lembrei do projeto. Bastou digitar as palavras ‘cogumelo’, ‘borra de café’ e ‘Bruxelas’ no Google pra achar o site deles. A proposta do projeto é produzir cogumelo do tipo ‘pleurote’ (uma alternativa interessante aos produtos de origem animal, como eles dizem) de maneira ecológica e local, usando a borra de café dos bares da cidade como substrato. Eu precisava conhecer esse pessoal e ver isso tudo de perto, então fiz algo ousado. Enviei um email dizendo: “Adorei a proposta do projeto e gostaria de saber mais sobre a produção de cogumelos em borra de café. Sou criadora de receitas vegetais e posso criar receitas exclusivas pra vocês em troca de conhecimentos. Também aceito postar suas cartas e fazer café. Faço qualquer negócio pra descobrir tudo sobre seus cogumelos.”

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Cara de pau é algo que realmente não tenho, mas eu não tinha nada a perder, então enviei o email e fui cuidar da vida. Qual não foi a minha surpresa quando na manhã seguinte vi que eles tinham respondido me convidando pra bater um papinho e visitar o lugar onde os cogumelos são produzidos! Desde então estou colaborando com esse super projeto, criando receitas e fazendo degustações, tudo à base de cogumelos. O que me fez pensar em todas as oportunidades que perdi justamente por morrer de vergonha de fazer proposições às pessoas. Então tive a seguinte revelação (que não poderia ser mais óbvia): quando a pior coisa que pode acontecer é a outra pessoa dizer ‘não’, você tem muito mais a perder se não fizer a pergunta/proposta. Mas voltemos ao cogumelos.

Esse é um dos meus alimentos preferidos e em matéria de sabor e textura é um substituto natural da carne animal (atenção: em termos de proteína e ferro os melhores substitutos da carne animal são as leguminosas). Um amigo vegetariano me disse um dia: ‘Cogumelos são os bifes da natureza’ e ele está certo. Por ser repleto de ‘umami’ ele oferece a satisfação gustativa que muitas vezes fica de fora nas receitas vegetais. E como o pessoal do projeto me fornece cogumelos fresquinhos pros meus testes, estou deixando minha criatividade correr solta e descobri que eles são ainda mais versáteis do que imaginei. Espero dividir algumas dessas receitas com vocês em breve, mas por hora está tudo em fase de experimentação.

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Alguns dias atrás organizamos uma degustação pra convidar um grupo de dez pessoas a descobrir o sabor desse vegetal (que, biologicamente falando, não é um vegetal, mas passemos). Minha missão era a seguinte: criar uma receita onde o sabor do cogumelo brilhasse intensamente, mas que fosse ao mesmo tempo simples e original. Mas tinha um pequeno problema. A próxima colheita ainda não estava pronta e tudo que eles podiam oferecer era um pacotinho com os cogumelos de algumas semanas atrás, desidratados. Como o objetivo dessas degustações é mostrar a superioridade do sabor dos cogumelos do projeto, não fazia sentido comprar cogumelos frescos em outro lugar, então eu teria que criar uma receita com os cogumelos desidratados da casa. E isso limita bastante o tipo de receita que eu posso criar, já que mesmo depois de hidratados, cogumelos secos nunca voltam a ter a textura de cogumelos frescos.

Então falei pros rapazes que faria um risoto, que é o que geralmente faço quando tenho cogumelos desidratados. A receita não seria original, mas era tudo o que eu podia fazer com os ingredientes que tinha. Só que durante dias fiquei pensando se eu não poderia fazer algo mais criativo. A degustação aconteceria no domingo ao meio dia e no sábado à noite, depois de ter comprado todos os ingredientes pro tal risoto, eu ainda estava incomodada com a perspectiva de servir algo tão pouco original. Então as 22h30 fui pra cozinha e preparei um velouté de cogumelos. Valeu a pena ter mudado os planos de última hora. O velouté ficou extremamente delicioso e no dia seguinte fui pra degustação um pouco cansada, culpa do trabalho noturno, mas radiante, pois sabia que a receita seria um sucesso (e foi!). Lição número dois: a ousadia e a coragem de fazer mudanças de ultima hora também compensam

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Preciso confessar que essa maravilha de sopa não foi uma criação minha. Fazia tempos que queria provar provar essa receita, de um chef americano que eu admiro intensamente (algum dia explicarei minhas razões). Tudo que eu fiz foi adapta-la ligeiramente, usando os ingredientes que eu tinha à disposição e deixando um ou outro de fora. A engenhosidade dessa sopa é que o ‘creme’ é feito com pão e azeite, um truque que já apareceu por aqui nessa outra receita maravilhosa (se você ainda não experimentou, não perca tempo). A consistência fica perfeita e quem prova jura que tem creme de leite ali. A criatividade da culinária vegetal nunca vai parar de me surpreender. E nessa receita, como o chef que a criou explicou (um onívoro, diga-se de passagem), o fato do ‘creme’ ter um sabor neutro, diferente de laticínios, que têm um sabor mais pronunciado, faz com que o cogumelo acaricie suas papilas ainda mais intensamente. Amantes de cogumelos, eu vos apresento o nirvana.

Pleurote (Pleurotus ostreatus),  o tipo de cogumelo cultivado pelo pessoal do projeto, tem um sabor delicado e textura suculenta. Ele fica perfeito grelhado ou em pratos com molhos cremosos. Eu provei pela primeira vez aqui na Bélgica e virei fã. Embora eu tenha usado esse cogumelo pra fazer o velouté, você pode usar outros tipos também. Fiz da primeira vez com pleurotes secos e na segunda com pleurotes frescos e a textura fica mais cremosa com cogumelos frescos. Ou, melhor ainda, use uma mistura de cogumelos frescos e secos (marrons frescos e shiitake secos, por exemplo), pois o sabor será ainda mais intenso. Aliás é isso que a receita original aconselha.

PS: algumas das fotos acima foram feitas durante uma degustação no Salão Slow Food Bruxelas (fotos de Anne Paq), com Martin (um dos fundadores do projeto) e a irmã dele. Eu sei, eu sei, ele é um colírio pros olhos…

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 Velouté de cogumelos

Velouté (leia ‘velutê), que significa ‘aveludado’ em Francês, é um tipo de sopa cremosa. Escolha um azeite bem suave pra não encobrir o sabor dos cogumelos. Você pode usar qualquer tipo de pão aqui, mas se o seu tiver uma crosta grossa use apenas o miolo. O shoyu e o misô proporcionam uma dose extra de umami à receita, deixando a sopa ainda mais saborosa. E não deixe de consultar a receita original (em Inglês) pois tenho certeza que com os ingredientes que deixei de fora essa sopa fica ainda melhor. Como disse acima, fiz essa receita com cogumelos frescos e secos e o ideal é uma mistura dos dois.

1 alho-poró ( somente o branco ), picado

1 cebola, picada

2 dentes de alho, amassados/picados

4 x de cogumelos marrons, picados (ou brancos, se realmente for tudo o que você puder encontrar)

1/2x de cogumelos secos (shiitake ou outro cogumelo escuro e de sabor forte)

2 folhas de louro

1 cs de molho de shoyu

1 cc de misô escuro

2 punhados de pão (cerca de 2 xícaras de pão cortado em cubos )

5 cs de azeite de oliva (suave)

Sal e pimenta do reino a gosto

Cubra os cogumelos secos com uma xícara de água e leve ao fogo. Quando começar a ferver desligue o fogo e deixe descansar, coberto, por 15 minutos.

Em uma panela grande aqueça 2 cs de azeite e refogue o alho-poró, a cebola e o alho em fogo baixo, até que fiquem macios e translúcidos. Adicione os cogumelos picados e uma pitada generosa de sal. Deixe cozinhar alguns minutos em fogo médio-alto, até o líquido liberado pelos cogumelos evapore completamente. Adicione as folhas de louro, os cogumelos reidratados (junto com o líquido) e 1 litro de água. Deixe cozinhar, coberto, durante 15 minutos.

Desligue o fogo e acrescente o pão, o molho de shoyu, o miso e uma pitada de pimenta do reino. Quando a sopa tiver esfriado um pouco descarte as folhas de louro e  triture tudo no liquidificador até obter uma mistura homogênea. Com o motor ligado, despeje lentamente 3cs de azeite. Isso vai emulsionar a sopa e deixá-la extremamente cremosa. Aqueça a sopa antes de servir. Prove e ajuste o tempero se necessário. Rende 4 porções.

(Se quiser deixar seu velouté mais elegante, como na foto acima, corte alguns cogumelos em fatias finas e frite no azeite até ficar ligeiramente crocante. Na hora de servir distribua os chips de cogumelos sobre as porções, decore com um fio de azeite e pimenta do reino moída na hora.)

 

Viagens são sempre um desafio pra quem quer se alimentar bem, ainda mais se você for vegano(a). Tento comer frutas e vegetais frescos durante minhas viagens, mas nem sempre é possível e muitas vezes passo dias e dias comendo pão com hummus, porque são as únicas opções vegetais disponíveis. Apesar de ter degustado alguns pratos deliciosos durante minha última viagem pra Paris, quando voltei pra casa só conseguia pensar em sopa. Muita, muita sopa. Então fiz um sopão com os vegetais que consegui encontrar naquele dia, mais lentilhas verdes, e criei exatamente o tipo de prato que o meu corpo pede pra voltar a se sentir bem. Mas, como a foto acima indica, esse posto não é sobre sopa.

Enquanto eu me deliciava com a minha sopinha, a outra moradora dessa casa deixou escapar um ligeiro suspiro. Sopa não é a praia dela. Então no dia seguinte eu decidi compensar o desapontamento causado pela sopa (injustiça total com a coitada da sopa, que realmente estava ótima) fazendo sanduíches de salsicha (vegana). Eu não gosto, ela adora e isso se chama democracia gastronômica. E embora eu não simpatize nem um pouco com comida industrializada, vegana ou não, aceito feliz essas escapulidas ocasionais porque sei que estou fazendo uma pessoa feliz (felizmente as salsichas em questão até que não eram tão malvadas assim, feitas só com tofu, glúten e especiarias). E não vou mentir: achei meus sanduíches deliciosos.

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Voltei de Paris com a mala cheia de guloseimas, vindas da primeira mercearia totalmente vegana da cidade. E além das salsichas defumadas também trouxe alguns pacotes do queijo vegano da marca suíça ‘Vegusto’ (antes que me perguntem, o queijo é bom, mas prefiro o meu). Então fiz o sanduíche que eu gostaria de encontrar nos cardápios das sanduicherias mundo afora. Infelizmente não posso oferecer meus sanduíches pra todos os veganos que leem esse blog, mas posso deixar aqui a receita do molho que faz toda a diferença.

A combinação de ingredientes pode parecer estranha, mas pode confiar. A ameixa seca está ali pra trazer uma nota doce e deixar o sabor mais complexo. Quem diria que ameixa e tomate se dariam tão bem juntos? Além de incrementar o seu sanduíche, independente do recheio, ele fica sublime com qualquer coisa grelhada A(salsichas, tofu, vegetais) e vai fazer você ser a pessoa mais popular do churrasco.

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Molho tomate-ameixa pra arrasar no churrasco vegano

Como ainda não tem tomate fresco por aqui fiz esse molho usando tomates orgânicos enlatados (100% tomate, sem conservantes, temperos nem sal). Como tomates em lata são cozidos, eles são mais concentrados do que tomates frescos, por isso você vai precisar de uma quantidade maior de tomates fresco pra fazer essa receita, além de ter que deixar o molho cozinhar por mais tempo. Use ameixas secas naturais (100% ameixa, sem açúcar), não aquelas em latas que nadam em uma calda doce. Se não encontrar ameixas secas, você pode usar damascos secos (na mesma quantidade) ou passas (cerca de 2cs). Mas saiba que o sabor não será o mesmo. Eu já fiz esse molho com passas e fica bem docinho, muito parecido com um ketchup (só que muito melhor). Também misturei esse molho com feijão marrom cozido (sem caldo) e ficou uma delícia. Quem gosta dos ‘baked beans’ ingleses vai gostar da mistura.

1 cebola, picada

4 dentes de alho, picados

600g de tomates bem maduros (ou 1 lata de tomates)

10 ameixas secas (in natura, NÃO em calda)

2cs (cheias) de tomates secos picados

2cs de vinagre de maçã

2cs de azeite

Sal e pimenta do reino a gosto

Opcional

1/2cc de fumaça líquida (pra fazer uma versão defumada)

ou

Uma pitada generosa de orégano (versão pizza)

ou

Uma pitada generosa de pimenta calabresa (versão picante)

Aqueça 1cs de azeite e doure a cebola. Junte o alho e deixe cozinhar mais 30 segundos. Junte os tomates picados, os tomates secos, as ameixas secas (retire os caroços antes) e uma pitada generosa de sal. Deixe cozinhar coberto, em fogo baixo, até os tomates começarem a se desfazer e o molho ficar espesso. Transfira tudo pro liquidificador, junte o vinagre de maçã, o resto do azeite e uma pitada de pimenta do reino (e um dos ingredientes opcionais, se estiver usando). Triture até obter um molho cremoso e homogêneo. Prove e corrija o tempero (mais sal, mais vinagre, mas pimenta…), se for necessário. Sirva em temperatura ambiente. Rende aproximadamente 2 1/2 xícaras. Se conserva alguns dias na geladeira.

Se alguém estava se perguntando por que esse blog anda tão silencioso, a resposta é: eu estava viajando. Acabo de chegar de uma semana em Paris, então pensei em dividir algumas imagens com vocês.

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Eu estava pensando com os meus botões essa semana sobre o quanto o meu repertório de saladas é vasto e interessante. Antes de abraçar uma alimentação totalmente vegetal salada pra mim significava alface, pepino e tomate, regados com azeite e, se eu estivesse me sentindo particularmente gourmet, umas gotinhas de vinagre balsâmico. Hoje sou capaz de fazer saladas originais e surpreendentes com quase todos os ingredientes que passam pela minha frente.

Já faz alguns meses que cozinho regularmente pra uma família onívora que adora vegetais, mas não sabe nem tem tempo de prepara-los. E apesar deles gostarem de tudo que faço (até hoje o único prato que não foi aprovado foi a minha amada sopa missô, mas sei que ela nunca será uma unanimidade), minhas saladas conquistaram o coração desses belgas. Eles gostam tanto que me enviam mensagens durante o jantar pra dizer o quanto estão apreciando minhas preparações. Os coitadinhos sofriam do mesmo problema que eu: o repertório de saladas deles era extremamente limitado e nem um pouco excitante.

Minhas saladas são geralmente improvisadas com os ingredientes que encontro na cozinha, raramente compro ingredientes específicos pra fazer uma salada específica (a menos que eu esteja desejando algo como essa maravilha aqui). E você deveria fazer o mesmo. Essa regra é válida pra qualquer receita, porém saladas, mais do que qualquer outro prato, dependem totalmente da qualidade dos ingredientes utilizados. Por isso a receita pra fazer saladas deliciosas é ir à feira sem lista de compras e manter os olhos e as narinas bem abertos, à procura dos tesouros do dia. Volte pra casa com os vegetais mais frescos, suculentos e perfumados que encontrar e você estará a um passo de ter saladas inesquecíveis na mesa.

A segunda regra pra criar saladas deliciosas é escolher a mistura de ingredientes com sensibilidade. No dia-a-dia prefiro saladas simples, com um número pequeno de ingredientes. Se você tem à sua disposição vegetais capazes de ganhar um concurso de  Miss (Miss Sabor e Aroma:) essa é a rota que você deve seguir. Você pode fazer uma salada com apenas um ingrediente (no verão, quando os tomates estão na sua melhor forma, gosto de degusta-los sozinhos, com uma vinagrete leve e algumas folhinhas de manjericão), mas nesse post gostaria de mostrar como construo o tipo de salada que faço com mais frequência, caso vocês sofram de falta de criatividade saladal.

Na hora de compor as saladas que aparecem diariamente na minha mesa gosto de combinar dois vegetais (dois legumes ou um legume e uma fruta) e pelo menos um deve ser cru (muitas vezes os dois são crus). É importante utilizar vegetais que se harmonizam entre si. Se você não sabe direito o que isso quer dizer, aqui vai uma dica: pense em sabores que se complementam. Se estiver usando um ingrediente amargo (radicchio, endívia, chicória, toranja, pomelo…), junte um ingrediente adocicado (frutas doces, frescas ou desidratadas). Se estiver usando um vegetal ácido (frutas cítricas), utilize algo rico e denso (como abacate ou um molho cremoso). Se um dos ingredientes tiver um sabor muito intenso (cogumelos escuros, tomates secos, alcaparras), compense combinando com um ingrediente suave. O objetivo aqui é equilibrar os sabores e realçar os ingredientes, não anula-los, então cuidado pra não combinar algo de sabor muito delicado com algo de sabor muito potente: o primeiro pode desaparecer diante da força do segundo.

Além do sabor, a textura também deve ser levada em consideração. Macio com crocante, ingredientes mais secos com outros suculentos… Ter texturas diferentes na mesma garfada aumenta o prazer da degustação, por isso incluo sempre um vegetal cru nas minhas saladas: além da abundância de vitaminas, ele traz aquele toque crocante que deixa qualquer receita mais interessante.

E falando em ingredientes crocantes, aqui vai a dica que me fez ter vontade de escrever esse post: acrescente sementes, muitas sementes, nas suas saladas. Também gosto de usar todos os tipos de castanhas (do Pará ou de caju, amêndoas, nozes, pistaches, avelãs), mas como minha alimentação já tem bastante (consumo queijo de castanha e leite de amêndoas todos os dias), estou começando a explorar o maravilhoso mundo das sementes. O outro motivo que fez com que eu aumentasse meu consumo de sementes e diminuísse o de castanhas foi puramente financeiro. Na Palestina castanhas eram relativamente baratas, mas aqui na Bélgica eles pesam mais no bolso. Já sementes, principalmente as de girassol, são baratinhas (enquanto um quilo de castanha do Pará -orgânica- custa 14 euros, um quilo de semente de girassol-também orgânica- custa menos de 3 euros).  E como tento dar prioridade à alimentos produzidos localmente, faz sentido comer maiss sementes (cultivadas aqui do lado, na França) e menos castanhas (que vieram de longe).

Mas apesar da minha motivação inicial ter sido o meu orçamento pequeno, hoje consumo sementes porque me apaixonei pelo sabor. Linhaça, chia e gergelim fazem parte da minha alimentação há tempos, mas agora estou consumindo sementes de girassol e de jerimum (abóbora) aos punhados! E além de serem deliciosas, sementes são um concentrado de nutrientes (gorduras boas, proteínas, fibras, vitaminas e minerais). Comecei usando sementes de maneira tímida, mas isso mudou alguns meses atrás. Trato sementes como um dos elementos que compõem a salada, não como um condimento. Ao invés de salpicar um pitadinha aqui e outra acolá, junto algumas colheradas cheias de sementes às minhas receitas. A textura fica mais interessante, o sabor mais intenso e aproveito melhor os nutrientes que elas oferecem.

Mas se você não tem intimidade nenhuma com sementes, talvez seja mais prudente começar a utiliza-las com parcimônia, pra dar uma chance às suas papilas de se adaptarem aos novos sabores. E pra que os nutrientes sejam assimilados em maiores quantidades, você deve deixa-las de molho durante 12 horas antes de consumi-las. Confesso que nunca faço isso (esquecimento), mas sempre tosto ligeiramente antes de acrescenta-las aos meus pratos. Isso libera uma quantidade maior de nutrientes (menos do que quando as deixamos de molho, infelizmente), mas pra mim é uma etapa fundamental por outro motivo: o calor deixa as sementes mais crocantes, perfumadas e melhora ainda mais o sabor.

E se a criatividade saladal ainda não chegou aí, aqui vão umas receitinhas ultra simples pra te inspirar. E um super bônus: a minha vinagrete preferida, que transforma qualquer salada boba em algo interessante e que tem um ingrediente surpresa (pulando de empolgação e me sentindo um gênio por ter pensando nisso SOZINHA!): semente de linhaça moída. Por que colocar linhaça no molho da sua salada? Eu poderia dizer ‘pra incluir mais fibras e ômega 3 da sua dieta, oras’, mas a verdade é que a quantidade utilizada aqui é pequena, logo os benefícios nutricionais também (embora seja sempre uma boa ideia acrescentar tiquinhos de linhaça aos seus pratos, pois no final do dia, juntando tudo, você terá consumido uma quantidade mais importante). Apesar dessa ideia ter partido de uma boa intenção nutricional, hoje acrescento linhaça às minhas vinagretes porque elas resolveram um pequeno problema que vagava sem solução pela minha cozinha.

Como consumo geralmente duas saladas por dia, passo bastante tempo fazendo vinagretes durante a semana. Não que seja um trabalho difícil, nem demorado, mas ao invés de preparar um porção só pra salada que eu estava prestes a consumir pensei que poderia fazer quantidades maiores, pra vários dias. Depois guardo minha vinagrete em um recipiente de vidro, bem fechado, na geladeira, e vou usando durante a semana. Só que o frio faz com que o azeite engrosse e se separe do vinagre. Nada que alguns minutos em temperatura ambiente, ou uma colher de água quente, não resolvesse. Eu disse que era um problema pequeno, micro, até. Mas depois de ter feito uma vinagrete com linhaça moída descobri o seguinte. Ela se mistura aos líquidos e cria uma emulsão perfeita, que não se separa no frio da geladeira. Micro problema resolvido e agora quando coloco a cabeça no travesseiro à noite me sinto a Einstein das panelas veganas.

Se você e todos os seus amiguinhos usam esse truque há anos, por favor não me conte. Permita que eu continue me achando sabida:)

 salada maça-aipo-girassol

Salada de maçã, aipo e semente de girassol

Eu uso cerca de 1/3x de sementes pra fazer uma salada pra dois. Se você não tem costume de consumir sementes, use uma quantidade menor. Gosto de juntar as sementes por último, pra que elas continuem crocantes.

1 maçã bem crocante, cortada em fatias finas

2 1/2 x de aipo cortado em fatias finas

1/3 x de semente de girassol descascadas (ou menos, de acordo com o seu gosto)

Metade da receita da minha vinagrete preferida (abaixo)

Misture a maçã e o aipo, regue com a vinagrete e misture bem. Despeje as sementes de girassol sobre uma frigideira (seca) e toste em fogo médio, mexendo de vez em quando, até elas começarem a ficar douradas e liberarem um aroma intenso. Polvilhe a salada com as sementes e sirva imediatamente. Rende 2 porções.

 salada beterraba-aipo-semente jerimum

Salada de beterraba cozida, aipo e semente de abóbora

Mais uma vez, adapte as quantidades de sementes de acordo com o seu gosto. E pros interessados em informações nutricionais, essa salada é uma bomba de ferro.

2 beterrabas médias cozidas, cortadas em cubinhos

2x de aipo cortado em fatias finas

1/3 x de semente de abóbora descascada (ou menos, de acordo com o seu gosto)

Metade da receita da minha vinagrete preferida (abaixo)

Misture a beterraba com o aipo, regue com a vinagrete e misture bem. Despeje as sementes de abóbora sobre uma frigideira (seca) e toste em fogo médio, mexendo de vez em quando, até elas começarem a se partir e liberarem um aroma intenso. Polvilhe a salada com as sementes e sirva imediatamente. Rende 2 porções.

 vinagrete com missô e linhaça

Minha vinagrete preferida

No mundo da gastronomia esnobe (aquele que nasceu lá na França) ‘vinagrete’ significa um molho à base de óleo (geralmente azeite) e vinagre usado em saladas. E a linguista que mora dentro de mim (ela passa a maior parte do tempo dormindo, mas de vez em quando acorda gritando), pediu pra eu dizer que ‘vinagrete’ é uma palavra feminina. A vinagrete típica francesa é feita com azeite, vinagre, mostarda de Dijon, sal e pimenta do reino. Essa foi a receita de base que inspirou a minha vinagrete preferida. Apesar da receita francesa usar mais azeite do que vinagre, eu gosto de usar quantidades iguais desses ingredientes, pois prefiro vinagretes mais leves (e mais ácidas). A receita abaixo deve servir de guia, mas sinta-se livre pra adaptar as quantidades de acordo com o seu gosto. Mas vou logo avisando que os sabores aqui são intensos. Se quiser fazer a vinagrete sem missô (por que? POR QUE??), lembre de juntar uma pitada de sal no final.

1/2 cs de missô escuro

1/2 cs de mostarda de Dijon (cremosa ou com os grãos inteiros)

4cs de vinagre balsâmico

4cs de azeite

1/2cs de linhaça moída

Uma pitada de pimenta do reino moída na hora

Misture o missô e a mostarda. Acrescente metade do vinagre e mexa bem pra dissolver tudo. Junte o resto do vinagre, o azeite e a linhaça moída e misture vigorosamente com a colher. Tempere com a pimenta do reino. Nesse ponto você deve provar a vinagrete e se quiser um sabor mais suave acrescente um pouco mais de azeite. Rende molho suficiente pra temperar uma salada grande, ou duas pequenas. Se quiser dobre a receita e guarde o resto na geladeira, em um recipiente de vidro bem fechado (se conserva uns 4 dias). A vinagrete vai engrossar um pouco (a linhaça vai continuar absorvendo líquido), mas nada que altere o sabor. Se quiser, junte 1cs de água pra que ela fique na consistência ideal.

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E enquanto escrevia esse post no meu escritório fiz uma pausa pra degustar mais uma das minhas saladas com sementes. Essa aqui tem quantidades iguais de funcho (erva doce) e maçã, mais sementes de girassol tostadas e minha vinagrete preferida.