Depois de um mês e meio morando em um campo de refugiados na Palestina a sala confortável e espaçosa de onde estou escrevendo essas linhas, no interior da França, me parece o palácio de Versailles. Tem uma lareira acesa aqui do lado. Tem uma parede de vidro na minha frente com vista pra um imenso jardim. Vivaldi está tocando baixinho. E eu estou borbulhando de alegria, achando tudo lindo e delicioso.

Sei que estou devendo um post sobre o tour na Palestina, mas preciso de mais alguns dias pra terminar de chegar aqui (sempre volto da Palestina aos pouquinhos e a viagem emocional é muito mais longa do que a viagem física). Por enquanto deixo vocês com algumas das delícias que apareceram no meu prato por lá.

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1- Cappuccino com leite de soja (na Palestina é fácil encontrar o leite de soja mais cremoso e suave de todos!). 2- Warak Shol (folhas de um tipo de couve, recheadas com arroz e verduras). 3- Hummus em Jerusalém. 4- Focacia com alho e pesto vegano. 5- Várias delícias tradicionais palestinas, no restaurante Hosh Yasmin, em Beit Jala (o meu preferido em toda a Palestina). 6-O pão mais consumido naquelas bandas (que fora da Palestina chamam de ‘pita’). 7- Falafel em toda a sua glória, com molho de tahina e pimenta, em Nablus. 8- Almoço no campo preparado pela sororidade: batata doce, muta’bal, azeitonas pretas, guacamole e tomate. 9- Halawa, um doce preparado somente com dois ingredientes: tahina (pasta de gergelim) e açúcar. Esse foi incrementado com pistaches, cacau, amêndoas e passas. 10- Café palestino, super forte e perfumado com cardamomo. 11-Brunch em Belém, com bagel, muta’bal, cogumelos salteados, espinafre com creme, abobrinha grelhada e molho de tomate cru. 12- Brunch em Tel Aviv, com tofu mexido com cogumelos, kalayat bandora (tomates salteados com cebola), couve-flor assada, molho de tahina, chocolate quente e pão integral com avelãs feito pela minha amiga Johanna.

Prometo voltar aqui segunda pra contar tudo sobre as aventuras do tour Papacapim político-vegano-anarco-punk-feminista na Palestina;)

Faz menos de 24 horas que cheguei em Tel Aviv e estou escrevendo essas linhas da casa da minha amiga Johanna. Ontem tomei café da manhã em Paris. Antes de ontem no interior da França e dois dias antes disso eu estava na Itália. Passar de um país pra outro nessa velocidade me deixou tonta e meu cérebro ainda está processando as mudanças.

A semana na Toscana foi curta pra aproveitar plenamente das maravilhas locais (a comida, as paisagens, a luz…), mas uma das coisas mais bacanas da viagem foi preparar um jantar especial pra vinte pessoas. O convite veio de uma amiga italiana que criou um centro comunitário informal onde ela organiza jantares veganos, aulas de culinária e vários outros eventos interessantes.

Ela e o namorado cultivam vegetais orgânicos e o menu foi inspirado pelos legumes e frutas da estação, que crescem ali no campo deles. Tive o imenso prazer de preparar uma refeição com ingredientes colhidos poucas horas antes, a poucos metros da cozinha onde trabalhei.

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Ainda estou me recuperando da longa viagem e a partir de amanhã estarei ocupada com os preparativos pro tour que começa dia 4 (a ansiedade está nas altura e mal posso esperar pra encontrar o grupo!), mas deixo vocês com algumas fotos do jantar. Foi um dia muito especial. Pude falar um pouco do tipo de culinária que me interessa e dividir algumas delícias com um grupo de veganos, vegetarianos e onívoros. E ainda teve uma conversa muito interessante com os convidados, que fizeram várias perguntas sobre veganismo e nutrição vegetal. O trabalho foi intenso, mas o evento foi muito gratificante.

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Eu e minha amiga estamos planejando um evento ainda mais especial pro ano que vem: um curso de culinária vegana de uma semana, acompanhado de visitas gastronômicas (veganas) pra descobrir as belezas e a culinária toscana. Estamos pensando em fazer isso no final do verão europeu, em um vilarejo perto de Pisa e se nosso projeto se realizar será uma experiência inesquecível.

E pra quem ficou curioso em saber o menu do jantar, lá vai. Entrada: salada de endro, laranja e azeitonas, toast com pão feito em casa + com hummus de feijão borlotti (como um hummus comum, mas trocando o grão de bico por feijão). Prato principal: farro (mais informações sobre esse tipo de cereal aqui) acompanhado de couve-flor assada com molho de nozes e tomate seco (tirado dessa receita) e omelete de grão de bico com queijo de castanha fermentado, beterraba e ervas frescas. Sobremesa: cheesecake de maçã com caramelo ligeiramente salgado.

Vou aproveitar pra agradecer publicamente Giada e Marco pelo convite, pela hospitalidade, por terem sido meus ‘sous chefs’, pelas inúmeras dicas e por terem dividido comigo o segredo da maravilhosa ‘torta di ceci’. E preciso agradecer também minha fotógrafa preferida, Anne Paq, que fez as fotos que aparecem aqui. Não é todo mundo que tem o privilégio de viajar com uma fotógrafa que aceita o pagamento em comida:)

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E como eu me apaixonei perdidamente pelo queijo de castanha com beterraba e ervas frescas, que além de uma delícia tem uma cor linda, aqui vão as instruções pra vocês prepará-lo em casa.

Queijo de castanha fermentado, beterraba e ervas frescas

Você pode servir esse queijo sobre pedaços de omelete de grão de bico (receita aqui), como eu fiz no jantar, ou usá-lo como recheio pra sanduíche.

Queijo de castanha fermentado (receita aqui)

Beterraba crua ralada, de preferência orgânica

Sal, pimenta do reino e ervas frescas (usei manjerona, tomilho, cebolinha e alecrim)

Comece preparando o queijo, que precisa fermentar durante alguns dias. A receita rende aproximadamente 2x.

Quando o queijo estiver pronto misture com a mesma quantidade de beterraba ralada. Tempere com sal, pimenta do reino e ervas frescas a gosto.

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Um ciao diretamente da Toscana, onde estou descansando por alguns dias antes de ir pra a Palestina e começar uma nova aventura. Ando comendo maravilhas por aqui, mas antes de escrever um post sobre essa viagem gostaria de dividir algo com vocês.

Semana passada eu estive mais uma vez no interior da França e tive a sorte de participar da colheita de açafrão da madrinha de Anne. Faz anos que tento ver a colheita, mas minhas visitas eram sempre fora de época. Por uma feliz coincidência, dessa vez cheguei a tempo pra colher as últimas flores da temporada. Eu nunca tinha visto uma flor de açafrão e fiquei saltitante de alegria por ter a oportunidade de ver uma de perto e descobrir tudo sobre essa especiaria.

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Annie, a madrinha de Anne, planta flores de açafrão (Crocus sativus) há cinco anos. Depois de ver uma reportagem sobre uma produtora de açafrão na França, ela se animou toda e encomendou alguns bulbos, que foram plantados na imensa propriedade da família. Annie planta várias coisas ao redor da casa dela e ela foi abençoada com um dedo verde: tudo que ela planta floresce. Ela me explicou que durante o primeiro ano só algumas flores apareceram. No segundo ano eles encheram a terra de fertilizantes- naturais- e isso foi um grande erro. O resultado foi uma abundância de folhas e nenhuma flor. Annie descobriu que as flores só aparecem se a planta sofrer um pouco, então no ano seguinte ela não colocou nenhum fertilizante na terra e as flores começaram enfim a aparecer em uma quantidade importante. Esse foi o quinto ano de produção e ela foi brindada com mais flores do que nunca: cerca de mil durante o mês que durou a estação (as plantas só florescem uma vez por ano e a estação dura um mês).

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A flor só pode ser colhida quando se abre, então todo dia de manhã ela verifica o estado da plantação e colhe as flores abertas. Depois as leva pra casa e, usando uma tesoura, corta a base da flor, separando os três estigmas que cada uma carrega das pétalas. Somente essa parte é utilizada (as pétalas são descartadas), por isso açafrão é a especiaria mais cara do mundo. É necessário colher entre 150 e 200 mil flores pra obter um quilo de açafrão, que por aqui sai por 30 mil euros (na verdade o preço varia entre 25 e 40 mil euros o quilo, dependendo do ano). Eu fiz uma pesquisa rápida e descobri que ele é tão caro quanto o ouro!!! Mas o sabor é tão concentrado que uma pitadinha é suficiente pra perfumar e dar cor a um prato que alimentará muitas pessoas.

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Depois de publicar essa foto no Instagram, uma moça perguntou se esse açafrão era o mesmo vendido no Brasil. Fiquei sem entender a pergunta, desconfiando que ela tinha visto flores de outra espécie por aí, o que, depois de refletir um pouco, seria absurdo, pois flor de açafrão só tem uma, a Crocus sativa, como mencionei acima. Mas outra moça veio refrescar a minha memória, explicando que no Brasil é comum chamar cúrcuma, uma raiz, de ‘açafrão da terra’. Apesar de também dar uma linda cor dourada à comida, cúrcuma tem um sabor completamente diferente e não pode ser usado pra substituir o açafrão verdadeiro em receitas que pede a sua utilização.

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Depois de colher os estigmas, Annie os coloca sobre guardanapos de papel e deixa secando no forno (desligado) por vários dias. O açafrão precisa estar completamente desidratado antes de ser guardado e, dependendo do tempo e da umidade do ar, isso pode levar semanas. Depois de seco, ela guarda tudo em um potinho bem fechado. Annie me explicou que o aroma fica ainda mais intenso com o tempo e depois de ter cheirado e comparado o açafrão recém-colhido, o colhido algumas semanas atrás e o colhido no ano passado eu percebi que a diferença é grande.

Tive a sorte de ganhar um potinho da preciosa especiaria no final da visita (passei horas acariciando o potinho e dizendo: ‘Meu precioso…’) e me diverti brincando com ela na cozinha durante os últimos dias. É preciso colocar os estigmas de molho por alguns minutos em um tiquinho de água quente, pra reidrata-los, antes de utilizá-los. A água se torna dourada e você despeja tudo, estigmas reidratados e água do molho, na receita que estiver preparando. Misturei um tiquinho de açafrão com iogurte natural de soja e degustei sobre peras bem maduras e perfumadas. Iogurte de luxo!

E depois de ver ‘pasta com creme de açafrão’ nos cardápios dos restaurantes aqui da Toscana, resolvi tentar uma versão em casa e fiz hoje por almoço macarrão com creme de açafrão e funcho (erva-doce) grelhado. A ideia parecia ótima e o molho ficou lindo, dourado, graças ao açafrão, e perfumadíssimo. Mas a verdade é que nem eu nem a massatariana da casa aprovamos a combinação. Ficou interessante e o sabor não era desagradável, mas não ficamos com vontade de repetir a receita. Depois de degustar o resto do almoço algumas horas depois, nós duas concordamos que a receita é melhor fria, mas mesmo assim não acho que ela merece aparecer por aqui. Como açafrão custa os olhos da cara e um pedaço do braço, não vou pedir pra ninguém comprar esse ingrediente caríssimo pra fazer uma receita mais ou menos. Mas prometo que se algum dia fizer uma receita supimpa com açafrão, publicarei aqui.

Mas vou ser bem sincera com vocês. Não morro de amores pelo sabor do açafrão. É interessante com arroz (como na paella espanhola) e vi que em vários lugares ele é usado em sobremesas (ontem mesmo vi um sorvete de açafrão no cardápio do restaurante onde almocei), mas ele está longe, longe de ser uma das minhas especiarias preferidas. Mas talvez eu aprenda a gostar mais dele com o tempo…

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Agora vou esticar um pouco as pernas e aproveitar essa luz linda que tem aqui na Toscana antes que o dia se vá. A próxima vez que eu sentar em frente ao computador pra escrever um post estarei na terra santa. Mal posso esperar!

*Um enorme obrigada à Annie pela visita, explicações, pelas fotos (a primeira e a segunda foram feitas por ela) e, claro, pelo potinho com vários gramas da preciosa especiaria.

No início da semana deixei Bruxelas. Os dias que antecederam a partida foram preenchidos com despedidas: pessoas, lugares, os pertences que se acumularam durante o último ano… No ônibus que me levou embora fiz o balanço dos 13 meses que fiquei na cidade. Foram muitas oficinas de culinária veganas e palestinas (também 100% vegetais) e pela primeira vez na vida trabalhei como chef particular (pra uma família de onívoros!). E no emaranhado de pessoas incríveis e projetos interessantes que cruzaram o meu caminho esse ano teve:

Uma palestra sobre a Palestina pra um grupo de catecismo, onde uma das crianças perguntou se eu tinha morrido e ressuscitado na Palestina.

Palestras sobre a questão dos refugiados palestinos pra grupos de uma escola de segundo grau, onde um terço dos adolescentes saiu da sala chorando, um terço querendo dar murros na parede de tanta revolta e outro terço balançando a cabeça em descrédito, achando que tudo que eu tinha exposto era mentira ou, no mínimo, exagero (até as fotos e mapas feitos pela ONU). Pelo menos minhas palestras não deixam ninguém indiferente.

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Uma colaboração (criação de receitas e oficinas) com dois rapazes belgas que decidiram cultivar cogumelos em borra de café.

A realização de um jantar pra comemorar a construção de um banheiro seco, parte de um projeto muito bacana em um parque da cidade. No primeiro encontro que tive com o coletivo que construiu o banheiro eles explicaram que queriam incentivar o pessoal a usar o banheiro seco do parque e fizeram o seguinte pedido: “Gostaríamos que você preparasse um jantar que desse vontade ao pessoal de usar o banheiro”. Voltei pra casa rindo muito, depois de ter explicado que o processo de digestão leva algumas horas e que a menos que eu utilizasse laxantes poderosos na comida, o que comprometeria a minha reputação de cozinheira, eu não podia fazer os convidados do jantar usar o banheiro imediatamente.

O encontro com um grupo de afegãos requerentes de asilo e a descoberta da situação revoltante das pessoas que são obrigadas a fugir de sua terra, cruzando vários países numa travessia que pode durar meses e custar a vida, e quando chegam na Europa são tratadas com desprezo total e perseguidas como fora-da-lei. Nunca a minha vontade de ver o final de fronteiras no mundo foi tão grande. Ninguém é ilegal!

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O trabalho voluntário com uma ONG que ajuda estrangeiros sem visto que foram colocados no que o governo belga chama de ‘Centro Fechado’, mas que não passa de um eufemismo pra ‘prisão’, enquanto esperam ser deportados. A dor das visitas que fiz naquela prisão, onde pessoas choravam de desespero enquanto me explicavam que se fossem deportados pros seus países de origem seriam perseguidas, torturadas e assassinadas. O sentimento esmagador de impotência diante da injustiça, que eu senti tantas vezes quando morava na Palestina. E, mais do que tudo, a revolta rachando o meu peito quando eu recebia um telefonema do advogado ou de um dos meus colegas da ONG avisando que aquela pessoa tinha acabado de ser deportada.

O envolvimento com o grupo de apoio à requerentes de asilo LGBT e as histórias assustadoras de quem escapou de países onde homossexualidade é crime. Algumas me assombraram tanto que nunca conseguirei esquecer.

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O artista e tradutor português que conheci quando trabalhei como intérprete em um seminário internacional sobre ‘Práticas de Emancipação Coletiva’ e que se tornou o meu melhor amigo na cidade. Passei muitas horas conversando com ele sobre a política no Brasil, assunto que o intriga bastante, e o ajudando a traduzir documentários sobre a luta por direitos das comunidades quilombolas no meu país, quando ele não entendia o Português brasileiro (e rindo dos nossos dialetos respectivos).

A amiga basca que me convidou pra colaborar com um dos eventos gastronômicos-culturais que ela organiza em Bruxelas e me incentivou a criar um menu de inspiração palestina, que foi acompanhado por uma exposição efêmera das fotos de Anne (que estava em Gaza naquele momento).

As atividades gastronômicas pra crianças e o baby-sitting ocasional pros amigos de uma amiga, que tinham crianças super interessantes. Tive conversas profundas com o casal de gêmeos de 4 anos sobre a construção do gênero (Eu: ‘Vocês têm certeza que sou menina? Talvez eu seja menino.’ Eles: ‘Você tem um rabo de cavalo e brincos, então é menina.’ Eu: ‘Conheço meninos que usam brincos e têm o cabelo grande. E conheço alguém que nasceu menina, mas hoje é menino.’ Eles, animadíssimos: ‘Ahhh! Como é o nome dele agora?’). A menina, que tinha os olhos dourados de uma leoa, os mais lindos que já vi, me fazia rir muito com suas observações. Um dia, já deitada, ela me chamou no quarto pra dizer: ‘Estou com saudade de Mandela’. Pois é, em algum lugar em Bruxelas tem uma menininha de 4 anos com saudade de Mandela!

Também cozinhei em um caminhão (‘food truck’), fui contratada pela Sociedade Vegetariana Belga pra fazer o meu primeiro churrasco vegano, fiz uma vídeo-conferência sobre a violação dos direitos humanos na Palestina pra funcionários brasileiros (um grupo em Recife e outro em Porto Alegre) de uma empresa de softwares americana (!!!!), recebi a visita de amigos da França, Alemanha, Jerusalém, Noruega, Itália e Espanha…

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E nem tive tempo de participar de todos os projetos que gostaria. Na minha lista ficou pendente o convite pra organizar oficinas de culinária  (vegana) pra requerentes de asilo LGBT, tentativa de criar um espaço seguro, mas ao mesmo tempo descontraído, onde essas pessoas pudessem dialogar e trocar confidências. Se tem uma coisa que o projeto no campo de Aida me ensinou foi que comida une as pessoas e cria laços poderosos. Também fui convidada, mas não tive tempo de participar, pra cozinhar pras prostitutas da ‘rua da luz vermelha’ de Bruxelas, um projeto independente que oferece uma refeição quente, manicure e cabeleireiro pras meninas algumas vezes por mês. Minha amiga basca também me chamou pra dar palestras sobre sexualidade positiva pra um grupo de mulheres, vindas de um meio conservador e opressor, que estavam aprendendo a ‘pole dance’ pra superar complexos com o próprio corpo, projeto que ela está atualmente desenvolvendo.

Não sei que tipo de CV estou tentando construir, mas minha passagem por Bruxelas o deixou ainda mais heteróclito. Então, sentada naquele ônibus, eu fiz o que faço com frequência: agradeci por ter a oportunidade de viver essa vida extravagante, mas que me convém perfeitamente e que me enche de felicidade. Às vezes a instabilidade e o medo de não conseguir me manter me paralisam por um momento, que pode durar alguns segundos ou vários dias, mas quando coloco a cabeça no travesseiro e fecho os olhos, só sobra a gratidão profunda que carrego no coração.

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A pergunta que ando escutando com mais frequência agora é: mudou pra onde? Por enquanto, pra lugar nenhum. A verdade é que serei nômade durante os próximos seis meses. Estou atualmente na França, mas daqui a alguns dias irei pra Toscana (uma semana de férias, com uma oficina de culinária no meio), depois pra Palestina (onde vai acontecer esse tour político-gastronômico-ativista), depois volto pra França (onde passarei o natal e o ano novo), depois irei ao Brasil. Vou passar os meses de janeiro e fevereiro em terras tupiniquins e já estou com várias ideias de projetos por lá. Aguardem! E se tiverem sugestões, me escrevam!

À partir de março as coisas ainda não estão totalmente definidas. Apesar da insegurança, que bate na minha porta regularmente (se engana quem acha que ela não tem o meu endereço. Mesmo na estrada, sem domicílio fixo, ela sabe onde me encontrar), mal posso esperar pra descobrir o que o próximo ano vai me oferecer. Espero que 2015 queira fazer comigo o que a primavera faz com as cerejeiras:)

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*Todas as fotos foram feitas em Bruxelas, durante os últimos 13 meses, com o meu telefone. Algumas precisam de legenda, então lá vai: a quarta é do grupo de requerentes de asilo afegãos, durante a gravação do clip de um dos rapazes do grupo (ele canta rap), a quinta foto é da prisão pra estrangeiros sem visto que mencionei no texto e a décima primeira é do menu  palestino, pintado pela minha amiga basca, que servi no evento também mencionado no texto. E pra quem ficou curioso pra saber quem escreveu o poema que aparece na primeira foto, ele é de Leonard Cohen.

Sabiam que é possível fazer sopas cremosas sem nenhum tipo de creme (animal ou vegetal)? Uns tempos atrás aprendi esse truque e desde então utilizo regularmente nas sopas aqui em casa ou no trabalho. É bem simples, mas engenhoso. Essa técnica culinária tradicional usa manteiga, mas quando li sobre ela pensei imediatamente que talvez funcionasse com uma gordura de origem vegetal. E eu estava certa. Se você colocar sua sopa dentro do liquidificador, ligar o motor e acrescentar azeite (gordura) aos pouquinhos, ele vai se misturar com a sopa (água) e com o ar incorporado pelas hélices e isso vai criar uma emulsão. Voilà! Sopa cremosa (até a cor fica mais clara, como se você tivesse acrescentado creme) e com o delicioso e delicado sabor de azeite.

Claro que essa técnica exige que você triture sua sopa. Mas se você gostar de sopa com pedaços inteiros, triture somente uma parte da sopa, junto com o azeite, depois despeje de volta na panela onde ficaram pedaços de legumes intactos. Eu gosto de usar esse truque com praticamente todas as sopas de legumes, mas acho que o resultado é particularmente saboroso se a base da sopa for tomates. O que não é surpreendente, já que eles se dão muitíssimo bem com azeite.

E já que estou falando de sopas, aqui vai mais uma dica.  Eu adoro sopas de legumes, mas sozinhas elas não me deixam saciadas por muito tempo. Então quando quero transformar uma sopa de legumes humilde em um prato completo e nutritivo, acrescento lentilhas cozidas. Essa é a maneira mais fácil de aumentar drasticamente a quantidade de proteínas da sua sopa e transformá-la em refeição completa. Lembram que proteína é um dos componentes chaves de uma refeição capaz de saciar qualquer apetite?

Eu sempre tenho restos de lentilhas cozidas na geladeira ou no congelador e isso facilita e muito a vida na hora de preparar refeições. Mas se esse não for o seu caso, você pode cozinhar lentilhas à parte pra acrescentar à sua sopa. Comparadas com outras leguminosas (feijões, grão de bico) lentilhas não demoram muito pra cozinhar. E a mistura de lentilha verde com essa sopa de tomate e cenoura é uma das minhas preferidas. Adoro sopa de tomate (como essa), mas junto com cenoura e aipo o resultado é ainda melhor. A cenoura suaviza a acidez do tomate e deixa a sopa mais espessa e o aipo (opcional, mas recomendado) realça ainda mais o sabor.

Por que não despejar as lentilhas cruas diretamente na panela com os legumes e deixar cozinhar tudo junto? Primeiro porque sua sopa vai demorar mais pra ficar pronta. Lentilhas levam entre 20 e 30 minutos pra cozinhar, então se elas estiverem cozinhando (à parte, na água com sal e uma folha de louro) antes mesmo de você começar a preparar o resto da sopa, você economizará tempo. Se for esperar que todos os legumes tenham sido cortados, que a cebola e o alho tenham sido refogados e só então você começar a cozinhar a lentilha, junto com os outros ingredientes, sua sopa vai levar o dobro de tempo pra ficar pronta. O segundo motivo é mais subjetivo. Eu gosto de sopa cremosas, mas com alguns pedacinhos inteiros pra mastigar. Então trituro minha sopa, deixando-a bem cremosa, e só depois junto as lentilhas, pra criar um contraste de texturas. Acho uma delícia sentir na boca essas bolinhas macias junto com cremosidade dos legumes.

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A foto acima é do meu creme de brócolis, com o acréscimo de lentilhas. Eu coloco lentilha em quase todas as sopas de legumes que faço, pra fazer um upgrade de ‘entrada’ pra ‘prato principal’. E antes de passar à receita, gostaria de contar que fiquei surpresa com o número de pessoas que me escreveram interessadas no tour político/gastronômico na Palestina. O grupo já está completo, mas o interesse foi tão grande e tantas pessoas me escreveram pedindo pra fazer outro tour no ano que vem que provavelmente outras viagens virão. Podem deixar que farei o anúncio aqui no blog quando tudo se confirmar. E tem mais! Vou dividir fotos e histórias desse tour aqui no blog, pra vocês acompanharem virtualmente nossa aventura. E vai ser uma tremenda aventura, podem apostar!

 Sopa de tomate, cenoura e lentilha

Você pode usar um resto de lentilhas que está sobrando na geladeira ou cozinhar lentilhas especialmente pra essa sopa. Eu gosto de cozinhar minhas lentilhas na água com sal e uma folha de louro. Não aconselho usar lentilha coral aqui. Elas devem sempre ser usadas junto com os outros ingredientes da sopa, pois se desfazem completamente durante o cozimento. Se quiser uma sopa com lentilha coral, sugiro essa ou essa aqui.

1 cebola grande, picada

4 dentes de alho, picados/amassados

4 cenouras médias, em rodelas finas

8-10 tomates maduros, em pedaços médios

1 galho de salsão (com as folhas), picado – opcional

5 cs de azeite (escolha um azeite de sabor suave)

2x de lentilhas verdes cozidas (ler acima)

Sal e pimenta do reino a gosto

Em uma panela grande aqueça 1cs de azeite e doure a cebola. Junte o alho e deixe cozinhar mais 30 segundos. Acrescente as cenouras, baixe o fogo e deixe cozinhar coberto até elas amolecerem, mexendo de vez em quando. Se o fogo estiver bem baixo e a panela coberta, não precisa acrescentar água: a cenoura vai cozinhar no próprio vapor. Mas se começar a grudar no fundo da panela você pode juntar um pouquinho de água (e verifique se o fogo está baixo, mesmo). Quando a cenoura estiver macia junte os tomates e o salsão, se estiver usando. Tempere com sal e pimenta do reino a gosto, cubra e deixe cozinhar até os tomates se desintegrarem completamente. Depois que a sopa estiver esfriado um pouco, passe tudo no liquidificador até que fique homogêneo. Com o motor ligado, despeje aos pouquinhos 4 cs bem cheias de azeite. Talvez você precise de um pouco mais, então continue juntando o azeite aos pouquinhos até que a sopa adquira uma cor mais clara, como se você tivesse acrescentado creme. Coloque a sopa de volta na panela, junte a lentilha cozida (e escorrida), prove e corrija o tempero. Se achar a sopa espessa demais, junte um pouco d’água até atingir a consistência desejada. E não esqueça de aquecer a sopa antes de servir. Rende 4 porções como prato principal.