Semana passada passei três dias inteiros em Paris, encontrando amigas, explorando a cena vegana da cidade, que continua aumentando, e curtindo um pouco essa cidade que eu tanto adoro. Aconteceu assim.

Cheguei em Paris de trem, vindo do interior da França, num domingo à noite. Sempre que chego em Paris sou invadida pro um sentimento de familiaridade e estranheza ao mesmo tempo. Como quando você volta pra casa dos seus pais, depois de ter morado muito tempo na sua própria casa. Você se sente em casa e ao mesmo tempo ali não é mais a sua casa. Quando eu morava em Paris era diferente. Eu voltava pra cidade depois das férias, mesmo quando as férias eram no Brasil, e assim que chegava na minha rua soltava um suspiro feliz de “lar doce lar”.

A presença da polícia na ferroviária me impressionou, mas logo eu descobriria que isso é a nova norma em Paris. No metrô vi uma senhora empurrando um carrinho de bebê com um cachorrinho poodle dentro. E sorri pensando na história que escutei tempos atrás. Uma brasileira morava em Paris há anos, com os filhos pequenos, e ainda assim não tinha feito amizade com ninguém do prédio. Mas a vida dela mudou radicalmente no dia que ela adotou um cachorro. A partir dali todos os moradores passaram a sorrir pra ela, dizer “bom dia” e puxar conversa, enquanto alisavam o totó. Os parisienses são apaixonados por cachorros, como prova a quantidade de cocô que você vê pelas ruas (diminuiu muito, muito nos últimos anos, pois quem não apanha as obras do seu cãozinho leva multa, mas essa marca registrada das ruas da cidade luz ainda existe). Um conselho: admire os prédios lindos com um olho e não desgrude o outro da calçada.

Cheguei no apartamento de Martine, a amiga francesa de 74 anos que me hospedou, e descobri que ela tinha preparado o seu quarto (o único) pra Anne e pra mim e assim teria que dormir no sofá-cama na sala. Protestamos, por razões óbvias, mas ela recusou firmemente. Engraçado como os franceses têm fama de serem frios e arrogantes, mas eu conheço inúmeras excessões. O que me faz ter certeza que gentileza e hospitalidade estão por todos os lados, independente da cultura.

Segunda

Martine acordou mais cedo pra comprar a deliciosa baguete com cereais da padaria da esquina, o que ela repetiu nas manhãs seguintes. Ela colocou o despertador só pra ter certeza que traria um exemplar pra casa, pois a baguete desaparece em pouco tempo. Ela tinha comprado hummus e uma deliciosa pasta de alcachofras no restaurante grego da rua, onde você pode levar várias pastinhas e outras comidas prontas pra casa. Ela é tão fofa que, além das pastas vegetais, tinha comprado leite de amêndoas e vários burgers veganos pra nós e até separou uma prateleira da geladeira unicamente pra colocar alimentos 100% vegetais.  Era a nossa prateleira na casa. E sempre que comíamos juntas a refeição era vegana, apesar dela ser onívora. Tem pessoas tão maravilhosas na minha vida que é impossível não se emocionar.

Durante o café conversamos sobre o “estado de urgência” decretado pelo governo francês depois dos atentados de novembro em Paris e que continua em vigor. É uma situação especial onde a liberdade dos cidadãos é restringida e o poder que geralmente pertence ao Judiciário passa pras mãos do Executivo. Ela contou revoltada o caso dos ativistas ecologistas que receberam ordem de prisão domiciliar. Eles não tinham cometido nenhum crime, mas o governo queria impedi-los de fazer protestos durante a COP 21 (conferência organizada pela ONU sobre as mudanças climáticas).

Depois do café fui matar a saudade do Marais, um dos meus bairros preferidos na cidade. Quando morava em Paris costumava passear por ali nos fins de semana e voltar a esse bairro sempre traz boas lembranças. Bem ali fica a “Fontaine des Innocents”, construída em cima do cimetério de mesmo nome que existiu ali desde antes de 1130 e que foi destruído em 1780.  Eu descobri isso lendo o livro “O vampiro Lestat”, de Anne Rice (quem viu o filme “Entrevista com o vampiro”, baseado em outro livro de Anne Rice, vai achar o nome familiar. Lestat é o personagem interpretado por Tom Cruise e tem um livro inteirinho dedicado a ele).

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Almocei no Hank Burger, pertinho dali. É uma ‘hamburgueria’ vegana. O burger é um só (esqueci de perguntar de que era feito, mas acredito que tinha proteína de soja na mistura), mas os acompanhamentos variam. Escolhi um com molho de figo e rúcula, Anne pediu o com molho bbq defumado e queijo (vegano, claro). Como acompanhamento tinha batatas fritas (daquelas mais espessas, muito boas) e uma saladinha simples de repolho e cenoura. Também provei a sobremesa do dia, que era um mousse de chocolate excelente. Suspeitei que ele tinha sido feito com aquafaba e antes de ir embora perguntei ao cozinheiro, que confirmou. Pra quem gosta de burgers, vale a pena ir lá.

Continuei a caminhada ao redor do Centro Pompidou, um museu super interessante (nos últimos andares tem uma vista linda da cidade) e fiz uma parada na loja de produtos naturais Bio C Bon, quase em frente ao centro. Visito lojas de produtos orgânicos como alguns visitam museus e me enche de alegria ver que tem sempre novidades vegetais pra experimentar.

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De lá fui pro sex shop que fica alguns passos mais longe, o ‘Passage du Désir’. Ele é um dos meus preferidos. Tudo é lindo, a atmosfera é descontraía, as vendedoras são simpáticas e os sex toys são de primeira. As melhores marcas do mundo são vendidas ali, o que está refletido nos preços. Mas posso afirmar por experiência própria: é muito melhor comprar um sex toy de qualidade, que vai durar anos e funcionar maravilhosamente bem do que comprar algo barato que além de ter um desempenho fraco vai quebrar em pouco tempo. Um pequeno parênteses pessoal. Aos 19 anos montei um negócio de sex toys a domicílio com uma das minhas irmãs, um negócio de família que nos divertia muito. Meu interesse pelo assunto começou ali, mas continuo adorando sex toys e vez ou outra uma amiga me pede conselho (e acompanhamento) na hora de comprar algum.

Peguei o metrô pra voltar pra casa e na estação ‘Montparnasse’ vi cartazes de uma ONG explicando que com uma doação de 7 euros eles conseguem oferecer um ‘kit dignidade’ (uma toalha, barbeador, escova e pasta de dentes, absorventes e outros produtos básicos e essenciais de higiene) pra ajudar os refugiados. Em todos os cartazes alguém tinha riscado a palavra ‘refugiados’ e escrito ‘franceses’, transformando a frase original “ajude os refugiados” em “ajude os franceses”. Eu e Anne nos indignamos profundamente e ela tirou uma caneta da bolsa e riscou a palavra ‘franceses’ e escreveu novamente ‘refugiados’ nos cartazes. Enquanto nos afastávamos ela disse: “Que país é esse onde até a palavra ‘refugiados’ é uma agressão pras pessoas?”

Depois de passar pelos correios pra mandar um pacotinho pro Brasil (pode surpreender alguns, mas a burocracia sem sentido e as filas intermináveis também estão presentes no “primeiro mundo”) cheguei no apartamento de Martine. Ela preparou um chá de alecrim e tomilho (“Como o que eu tomava quando era pequena no sul da França”, ela me explicou) e conversamos mais sobre ativismo, militância e o aumento da islamofobia e xenofobia na França. Martine foi militante a vida inteira e apesar de ter 74 anos ela continua lutando por direitos humanos. Nos conhecemos graças ao envolvimento dela com a Palestina, que ela visitou várias vezes. Ela até organizou uma oficina de culinária palestina comigo na casa dela uns anos atrás. O chá foi seguido do aperitivo, pois sempre que amigas queridas passam pela casa dela ela abre uma garrafa de champanhe. A única bebida alcoólica que bebo (e mesmo assim muito, muito raramente) é champanhe e Martine tem o mesmo costume. Ela me contou que sempre explica pras pessoas que só bebe “Champanhe ou água!” e às vezes eu copio a minha amiga e digo a mesma coisa.

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Fomos jantar num restaurante vegetariano pertinho da casa dela, o que sempre fazemos quando passo por Paris. O restaurante existe desde 1980 e se chama “Aquarius”. A comida é simples, mas eles tem um prato que adoro: salada de algas frescas com três tipos de algas, abacate, pomelo rosa, tofu e legumes crus.

Terça

Depois de mais baguette com cereais, azeite, za’atar e as deliciosas pastas, fui aproveitar mais um pouco de Paris. Dessa fui passear pelo “Quartier Latin”. Esse é outro bairro que conheço bem porque a faculdade onde estudei, a Sorbonne, fica ali. Ao passar pela frente desse prédio tão imponente e antigo sinto o que na minha terra chamamos de “saudade aliviada”. Meus anos de universitária foram muito importantes, mas por nada nesse mundo voltaria no tempo pra revive-los. Suspeito que muita gente sente a mesma coisa.

Anne queria comprar uma daquelas toalhas ultra finas que secam em pouco tempo (vida de nômade obriga) e fomos na instituição francesa do material pra acampamento (e os mais diferentes esportes): Le Vieux Campeur. São várias lojas no quarteirão da Sorbonne, cada uma especializada em um esporte ou atividade diferente. Pra quem gosta de acampar ou viaja muito, a loja é cheia de engenhocas que facilitam a vida dos viajantes, das toalhas citadas acima à lanternas e carregadores de celular que funcionam à energia solar, passando por potinhos pra transportar comida ou cosméticos e chaveiros que escondem dinheiro.

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Almoçamos no restaurante tibetano vegetariano Pema Thang, que fica pertinho dali. Se você nunca provou comida tibetana, vale a pena visitar o lugar. Os pratos simples e não recomendo o restaurante pra quem evita glúten (as opções sem glúten são limitadas), mas o lugar é aconchegante e tranquilo, pelo menos na hora do almoço durante a semana. E a senhora que cuida de tudo (serve as mesas e cozinha) é uma simpatia. Pedimos mo-moks (ou momos), que são um tipo de guyosas, com os mais diferentes recheios e cozidos no vapor, muito apreciados no Tibete, Nepal, Butão e partes da Índia. O restaurante oferece quatro recheios diferentes (três veganos e um vegetariano). O de repolho é sempre o meu preferido (o de proteína de soja, a outra opção que pedimos, é bem inferior) e veio acompanhado de um molho de coentro fresco batido com tomate cru (simples, mas ótimo!). Também adorei a sopa tradicional chamada ‘tapsa’, feita com farinha de cevada tostada, espinafre e alho. Essa eu vou tentar refazer em casa.

Achei a história do lugar linda (estava escrito no próprio menu). Duas irmãs do Tibete abriram um restaurante tibetano e vegetariano na Holanda muitos anos atrás. Depois elas abriram um segundo na Índia e outro em Paris. Contrariamente aos irmãos holandês e indiano, o restaurante de Paris era o único que servia carne. Ano passado o irmão das proprietárias adoeceu e elas decidiram então retirar toda a carne do restaurante de Paris, algo que elas vinham pensando em fazer há tempos. Desde então a saúde do irmão melhorou muito e a família é “feliz com o karma positivo de não vender mais carne no restaurante” e esperam “que os clientes compartilhem esse Karma positivo degustando comida vegetariana.” A senhora que preparou os pratos explicou que a proposta de pratos veganos está sempre aumentando, pois a clientela vegana não para de crescer. Por isso atualmente 70% do menu é vegano.

Depois do almoço caminhei até um cinema independente, o “Nouvel Odéon”, que só tem uma sala de projeção e uma micro sala de espera-café. Poucas coisas no mundo me deixam mais feliz do que pequenas salas de cinema. Como fui ver um filme japonês e a sessão era no meio da tarde e durante a semana, o público era composto essencialmente por velhinhos aposentados. Isso pra mim é a perfeição absoluta em matéria de cinema. O filme que vi se chama “An” (que significa o nome da pasta doce de feijão azuki tão apreciada pelos japoneses), da diretora Naomi Kawase, e é lindo. Ele tem a poesia e a delicadeza de uma cerejeira em flor e eu me emocionei e chorei várias vezes. Mas só recomendaria o filme pra quem aprecia o ritmo lento e a economia de diálogos do cinema japonês.

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Logo do lado fica uma das maiores livrarias da cidade, a Gilbert Joseph, que vende tanto livros novos quanto usados. Entrei pra procurar um livro que há tempos quero ler, mas não consegui encontrar nas prateleiras e não tinha tempo pra procurar um vendedor, então deixei pra lá. Depois do filme meu apetite tinha acordado e fui conferir uma doceria vegana que há tempos queria visitar. A doceira se chama “Vegan Folie’s” e oferece cheesecakes, bolos, cupcakes, cookies e outras doçuras, além de alguns salgados (torta salgada e sanduíches) e café/cappuccino. Tudo 100% vegetal e servido com o sorriso. A rua da doceira é muito charmosa, então sentei em frente à vitrine pra admira-la enquanto degustava meus três (!!!!) doces e um café. Provei um cheesecake de caramelo e chocolate (sem graça), um cheesecake de frutas vermelhas (com graça, mas longe de ser algo realmente interessante) e um brownie, que estava delicioso e foi a única coisa que pediria novamente ali. Confesso que saí um pouco decepcionada, pois depois de tanto tempo esperando pra ir lá eu esperava mais. Porém não experimentei tudo. Talvez os cookies, potinhos de sobremesas cremosas, bolos e salgados sejam mais saborosos. Também achei o lugar, que acabou de ser reformado, pouco acolhedor (apesar da simpatia da vendedora) e a iluminação era quase agressiva.

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Continuei o passeio e fui caminhando devagar, embaixo de uma chuva fininha, na direção da Catedral de Notre-Dame. Passei do lado da livraria Shakespeare and Company e não pude resistir a vontade de entrar. Essa livraria existe há décadas e só vende livros em Inglês, novos e usados. O lugar não poderia ser mais charmoso e virou ponto turístico (é proibido fotografar o interior da livraria). Eu não tinha a intenção de comprar nada, pois minha vida de nômade me impede de possuir livros, mas acariciei capas, folheei alguns exemplares e, quando não tinha ninguém olhando, cheirei muitas páginas.

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Notre-Dame fica a poucos passos dali, do outro lado do Senna. Atravessei a ponte às seis em ponto e a vista, o monumento majestoso com um pedacinho do rio, ficou ainda mais mágica com os sinos da catedral badalando.

Em seguida passei pelo Hôtel de Ville, o imponente prédio da prefeitura de Paris, que à noite fica ainda mais bonito, e descobri que o carrossel antiguinho que eu gostava de admirar continua lá. Eu tinha um encontro às 19h, mas antes de pegar o metrô entrei na loja de produtos orgânicos ‘Naturalia’ que fica a poucos metros da prefeitura. Eu precisava comprar os ingredientes pro jantar do dia seguinte e, pra ser bem sincera, eu nunca recuso uma oportunidade de entrar em uma loja de produtos orgânicos. Mesmo quando não compro absolutamente nada (o que acontece com frequência) saio de lá inspirada e otimista depois de ver que a oferta de opções veganas, com expliquei mais acima, não pára de aumentar.

Fui jantar com Ana Carla, uma leitora de longa data do blog. Faz anos que estamos tentando nos encontrar e o mais engraçado é que cada tentativa de encontro foi em um país diferente. Ela é tão nômade quanto eu e depois de não termos conseguido nos encontrar no Brasil ela propôs um encontro na Bélgica, outro na Itália, outro em Londres e finalmente esse em Paris. Os desencontros da vida… Quase não acreditei quando vi que dessa vez, na quinta tentativa (e quinto país), nosso tão esperado encontro ia acontecer!  Fomos jantar no restaurante vegano e crudívoro 42 degrés (“42 graus”, porque nada ali é aquecido acima dessa temperatura).

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Foi o restaurante mais caro que visitei por lá, mas esse tipo de culinária exige mais tempo e dedicação do que culinária cozida, então acho faz sentido. A noite o menu é mais elaborado e os pratos, mais caros. Mas eles abrem pro almoço com um menu reduzido, que muda sempre, e com preços bem mais em conta (prato + entrada ou sobremesa por 15€ , entrada + prato + sobremesa por 19€). A comida é preparada com maestria e muito carinho e a apresentação é tão linda que fiquei com pena de destruir aquela belezura. As combinações de sabores são originais, as técnicas são refinadas e é o tipo de comida que você não conseguiria fazer em casa (detesto pagar caro por algo que sei que faria em casa em 3 minutos ou, pior ainda, que sei que faria bem melhor na minha própria cozinha). E tudo sem glúten, como é de costume na culinária crudívora.

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O que mais gostei foi o prato de queijos (de castanhas) que dividimos na entrada. Nós duas ficamos impressionadas com o sabor e como Ana Carla é onívora e come queijos tradicionais, isso é um enorme elogio. O prato que ela pediu foi o burger de cogumelo com chips de kale (delícia!) e eu pedi um flã salgado de amêndoas com espuma de gergelim, creme de raíz de salsão e wakame (bem ousado, mas eu gosto de aventuras gastronômicas). De sobremesa pedi algo chamado “A mexerica se desvenda” porque achei o nome hilário e porque, como acabei de dizer, minhas papilas gostam tanto de aventura quanto eu e a mistura de mexerica, ganache de limão e granitê de sálvia me intrigou. Achei tudo sublime e embora esse tipo de restaurante não possa entrar com frequência no meu orçamento, vale muito a pena comer lá pelo menos uma vez, com alguém especial. E eu não poderia ter sonhado com um lugar mais bacana pra encontrar uma pessoal tão especial quanto Ana Carla.

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Quarta

O café da manhã foi o mesmo dos dias anteriores: baguete com cereais, pastas vegetais e conversas sobre a situação política e ativismo na França. Procuro não comer pão todos os dias, mas as visitas à Paris são momentos especiais que merecem uma boa baguete. Também provei algumas das geleias feitas pelas amigas de Martine, com as frutas dos seus jardins: uma de mirtilo, outra de laranja amarga.

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Almocei com minha avó e minha prima Flora (ambas adotivas). A história de como Vérène, ‘minha vó francesa’, como gosto de chamá-la, entrou na minha vida é longa e vai ficar pra outro dia. Marcamos o encontro em uma cantina vegana chamada “Le Veganovore”, que oferece um menu bem sucinto, com preço fixo, que muda diariamente. O lugar é pequeno e como as mesas são coladas umas às outras é difícil ter uma conversa tranquila no meio do barulho ambiente. Mas os preços são modestos, as porções são generosas, todos os ingredientes são orgânicos e a chef tem um cuidado todo especial na hora de equilibrar as refeições do ponto de vista nutricional. Todos os dias tem uma sopa, uma opção quente, uma salada completa e duas sobremesas. No dia que estive lá a sopa era de jerimum e cenoura, o prato quente tinha arroz integral, lentilha, legumes cozidos e uma saladinha verde, a salada completa tinha arroz integral, hummus e vários legumes crus.

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As opções de sobremesa eram creme de chocolate ou creme de batata doce com limão, ambos acompanhados de crumble de amêndoas. Como éramos três pude provar um pouco de tudo. O tempero poderia (deveria) ser menos tímido e o acréscimo de um molho simples teria transformado a refeição em algo realmente saboroso, mas saí de lá satisfeita e bem nutrida, com a barriga cheia de vegetais orgânicos e sem ter gastado muito.  Preciso dizer que uma das preparações, a mais simples de todas, realmente me impressionou. Eu não dava nada pelo creme de batata doce (do tipo laranja, não aquelas que encontramos com mais frequência no Brasil) e limão, mas foi a sobremesa que Flora escolheu e quando provei tive a agradável surpresa de descobrir um sabor delicado e uma textura ultra cremosa, mas leve. Foi o que mais gostei ali e quando fui elogiar a chef ela me explicou que só levava três ingredientes: batata doce (do tipo laranja) cozida, limão e um tico de açúcar mascavo.

No caminho entre o Veganovore e a estação de metrô encontrei mais uma loja de produtos orgânicos, ‘La Vie Claire’. Elas estão por todas as partes em Paris hoje em dia e, como vivo repetindo aqui, fazem a alegria dos veganos de passagem que querem experimentar produtos especiais. Não estou dizendo que pra ser vegana é preciso ter uma loja de produtos orgânicos super bem equipada por perto (e, consequentemente, muito dinheiro pra gastar lá, já que esses produtos são mais caros). É totalmente possível ser vegana comprando somente vegetais frescos na feira (a mais barata que você encontrar) e produtos secos (cereais, leguminosas) em um supermercado comum ou mercadinho. Essas lojas oferecem algumas delícias pros momentos especiais, mas não são de maneira alguma indispensáveis.

Entrei na loja de orgânicos porque eu viajaria no dia seguinte e queria comprar alguns ingredientes pra preparar a comida que seria consumida na estrada. As companhias ‘low cost’, que têm os voos mais baratos, não oferecem comida a bordo (elas vendem alguns sanduíches, mas nada vegano) e é difícil encontrar comida vegana em aeroportos. Por isso sempre viajo com um lanchinho na bolsa, mas dessa vez eu sairia de casa por volta das 10h e só chegaria na minha destinação final depois da meia noite, por isso eu precisava preparar uma lancheira com duas refeições robustas. Um dia escreverei um post sobre como preparar comida pra viagens de avião, pois acabei me tornando expert no assunto e tenho dicas preciosas pra compartilhar.

No caminho pro apartamento de Martine comprei os legumes que faltavam pro jantar (no mercadinho da esquina, porque nem só de lojas de produtos orgânicos vivem as veganas) e como tinha uma livraria independente do lado, entrei pra perguntar se tinha o livro que eu estava procurando e bingo! Cheguei no apartamento no final da tarde e comecei a preparar o nosso jantar de despedida. Tempos atrás prometi fazer um fondue vegano pra ela, que nunca esqueceu a promessa, e como Anne estava desejando um fondue desde o ano passado eu decidi fazer as duas felizes. Preparei o rejuvelac semanas antes, na casa do meu sogro, e fui pra Paris com ele na mala. Na segunda-feira misturei o rejuvelac com castanhas de caju trituradas (comprei manteiga de castanha pronta na loja de orgânicos, pois Martine não tem liquidificador) e coloquei pra fermentar. Então meu queijo de castanha tinha fermentado por dois dias (como estava frio coloquei o pote do lado do aquecedor pra acelerar o processo) e agora estava pronto pra se transformar em fondue.

Enquanto fazia o fondue (falei sobre a receita, como fazer rejuvelac e tudo mais nesse post) aproveitei pra preparar as refeições do dia seguinte, que seriam degustadas durante a viagem. Fiz uma salada de quínua vermelha com tofu defumado, couve kale refogada, brócolis no vapor e cobri tudo com brotos de alfafa e rúcula. Na hora de fazer o molho pra salada olhei pra panela de fondue, dei um pulo e gritei: “Aha!”. Juntei duas colheres de sopa do queijo de castanha derretido à salada e quase me dei um abraço pra agradecer a ideia maravilhosa que tive. (No dia seguinte, enquanto degustava minha salada maravilhosa, tive vontade de me dar dois abraços pois ficou extremamente delicioso). Preparei também meus acompanhamentos preferidos pra degustar com fondue: brócolis (que também foi parar na salada do dia seguinte) e batatas no vapor, maçã em fatias e a tradicional baguete.

Na hora de servir o fondue Martine disse: “Não sei se vai combinar, mas guardei uma garrafa de champanhe especialmente pra tomar com vocês na despedida.” Quem recusaria um gesto tão lindo? Então eu declarei que champanhe combina demais com fondue vegano e tivemos um jantar maravilhoso, com comida ótima, champanhe de primeira e a companhia de pessoas muito especiais.

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Em dias de viagem, principalmente viagens longas, gosto de tomar um café da manhã reforçado e nutritivo. Minha opção preferida nesses momentos é papa de aveia ou aveia dormida. Preparei aveia dormida na noite anterior, que coloquei pra descansar na geladeira com o leite de amêndoas que Martine tinha comprado pra nós, mais um punhado de chia. Servi com castanhas do Pará picadas e degustei tudo com café.  Depois de me despedir da minha querida amiga Martine parti rumo ao aeroporto de Orly. Felizmente ela mora pertinho de Montparnasse, de onde sai um ônibus que te leva direto pra esse aeroporto. Mais prático do que isso só se eu conseguisse me teleportar com a mala e tudo (meu sonho!!!!). O tráfego estava tranquilo e cheguei cedo no aeroporto. Fui tomar mais um café pra enfrentar a viagem, um pequeno ritual meu, e qual não foi a minha surpresa ao descobrir que no Starbucks do aeroporto de Orly tem não uma, mas duas opções de leite vegetal: soja e coco. Gostaria de dizer que, por razões políticas, não gosto de Starbucks e nunca tomo o café deles. Só faço uma exceção quando estou em aeroportos franceses, pois apesar de todo o progresso em matéria de alimentação vegana que aconteceu nos últimos anos, achar leites vegetais em cafés franceses ainda é um desafio. Como não sou fã de leite de soja e leite de coco é o meu preferido, principalmente com café, dei três pinotes de alegria, pedi um cappuccino grande com leite de coco e sentei pra degustá-lo, enquanto esperava o check-in do meu voo abrir, pensando nas aventuras que me aguardam nesse novo capítulo da minha vida.

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PS Escreverei em breve sobre esse novo capítulo aqui no blog, mas quem me segue no Instagram e FB já sabe onde estou.

PPS Um dia reunirei todas as dicas de Paris em um super Guia Vegano da cidade, mas por hora coloco aqui a lista dos lugares mencionados acima (Google vai te ajudar a encontrar os endereços, sites, páginas FB com horários de funcionamento e telefones…) :

Hank Burgers - hamburgueria vegana, 55 Rue des Archives, 3ème.

Bio C Bon – loja de produtos orgânicos.

Passage du Désir – sex shop na Rue St Martin (Marais).

Aquarius – restaurante vegetariano com opções veganas, 40 Rue de Gergovie, 14ème.

Le Vieux Campeur – loja de equipamentos e acessórios pra vários esportes e atividades ao ar livre (várias lojas, separadas por esporte, no Quartier Latin).

Pema Thang – restaurante tibetano vegetariano com 70% do menu vegano, 13 Rue de la Montagne Sainte Geneviève, 5ème.

Nouvel Odéon – cinema independente com apenas uma sala de projeção e uma lista de filmes reduzida, mas sempre interessante, 6 Rue de l’École de Médecine.

Gilbert Joseph – livraria que vende livros novos e usados, misturados nas prateleiras (os usados tem uma etiqueta na lombada indicando).

Vegan Folie’s – doceria vegana com algumas opções salgadas, 53 Rue Moufettard.

Shakespeare and Company – livraria anglófona que vende livros novos e usados.

Naturalia – loja de produtos orgânicos (vários endereços na cidade).

42 degrés – restaurante vegano crudívoro e orgânico, 109 Rue du Faubourg de la Poissonière.

Le Veganovore – cantina vegana e orgânica, Rue de Paradis.

La Vie Claire – loja de produtos orgânicos.

E, como sempre, o site Happy Cow será o seu melhor amigo na hora de descobrir todos os endereços vegetarianos/veganos/veg friendly da cidade, incluindo lojas de produtos orgânicos.

Acabo de chegar de dez dias de férias em Marselha. “Chegar” é modo de falar, pois na verdade eu não chego, eu passo. E estou novamente de passagem no interior da França, mas já de malas prontas pra próxima aventura. (Lembrando a quem não sabe: o Papacapim está no Instagram e sempre compartilho fotos das minhas andanças e comilanças pelo mundo.)

Mas então, Marselha. Apesar de ter morado seis anos inteirinhos em Paris, nunca tinha me aventurado pelo sul da França. Um grande erro que decidi corrigir. Quando eu levava minha vida tranquila de universitária na cidade luz meus amigos parisienses diziam: “Marselha? Oh, la, la! É uma cidade suja, barulhenta e perigosa!” E eu pensava com os meus botões que essa noção de “cidade perigosa” é relativa e que não podia ser pior do que as grandes metrópoles brasileiras. Pois tenho a satisfação de informar que meus amigos parisienses estavam errados. Marselha, a segunda maior cidade da França, é incrível, vibrante, um caldeirão cultural com praias lindas de águas cristalinas e pessoas gentis e simpáticas. Sim, a criminalidade existe, principalmente em certos bairros (longe do circuito turístico), exatamente como em todas as cidades onde as desigualdades sociais são gritantes e a discriminação racial rola solta. Mas em nenhum momento me senti em perigo. E sim, a cidade é menos “arrumadinha” que a capital e tem graffiti em praticamente todos os muros e portas, mas não considero isso sujeira: adoro arte de rua. Sem falar que com tanta gente falando Árabe ao meu redor me senti em casa.

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E o que me deixou ainda mais feliz foi ver o quão vegan-friendly a cidade é. Além de ter vários restaurantes vegetarianos (sempre com opções veganas) e um vegano, em praticamente todos os lugares tinha opções vegetais. Achei o pessoal super consciente da existência de veganos e preocupado em oferecer opções pra todos. Parece que, pelo menos nessa cidade, não somos totalmente invisíveis aos olhos dos restaurantes tradicionais. Em vários cafés/lanchonetes/restaurantes vi no menu (que na França sempre fica do lado de fora, pra você saber o que pode comer- e quanto vai pagar- antes de decidir entrar, super útil pra veganos) opções “carnívoras” e “vegetarianas”, que na maior parte do tempo eram 100% vegetais. Achei engraçado eles escreverem “sanduíche/prato carnívoro” (ou simplesmente “carni”) e minha imaginação fértil imaginava as coisas mais loucas.

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Então aqui vai um pequeno guia com os lugares onde comi durante minha visita à Marselha. Quase todos esses lugares eram vegs e orgânicos. Foi emocionante ver que veganismo e comida orgânica andam juntinhos por lá, o que não significa que os preços são mais caros do que os lugares vegs não-orgânicos. Os arredores da praça Cours Julien é a parte mais bacana da cidade (bares, cafés, livrarias independentes…) e é o lugar ideal pra se hospedar (foi lá onde fiquei), pois a partir dali dá pra visitar quase tudo a pé. Todos os endereços do guia  ficam no centro, com excessão da pizzaria, então o acesso é fácil.

Não pude visitar todos os restaurantes que estavam na minha lista, pois com tantos produtos maravilhosos acabei cozinhando bastante em casa. Recomendo, como sempre, uma visita ao site Happy Cow pra ver a lista completa com todos os lugares vegs e veg-friendly da cidade.

Duas especialidades gastronômicas locais são acidentalmente veganas: panisse e pistou. A primeira é um tipo de ‘polenta’ feita com farinha de grão de bico, que você deixa esfriar e, depois de firme, corta em rodelas e depois frita. Panisse é servida em cones de papel na beira da praia ou em bares, como lanche ou acompanhando o aperitivo. Pistou é o pesto do sul da França, mas diferente do irmão gêmeo italiano ele não leva queijo (só manjericão, azeite, alho, pimenta do reino e sal). Recomendo os dois, separados ou, melhor ainda, juntos.

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L’écomotive – café vegetariano e orgânico, com muitas opções veganas. 

Foi o lugar que mais gostei na cidade. O café é ótimo e tem leite de soja (vinde a nós, cappus veganos!). São três opções de pratos por dia e o menu muda o tempo todo (opções sem glúten). Tem também bolos, tortas e cookies, sempre com opções veganas. Minha amiga Haidi, que já apareceu aqui no blog, é a cozinheira nos fins de semana. Como ela é vegana, nos sábados e domingos os três pratos são veganos e a oferta de doçuras vegetais aumenta (na foto acima todos os doces são veganos!). O lugar é charmoso e descontraído. De manhã é bem calmo e como tem wi-fi é um ótimo lugar pra trabalhar (se, como eu, você precisa trabalhar durante as férias). Preços bem em conta (9 euros o prato completo). Fica aberto até às 19h, mas não serve jantar.

L’écomotive

2 Place des Marseillaises, 13001 Marseille

Aberto os sete dias da semana, das 8h às 19h.

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Londonewyork- restaurante vegano orgânico

O único restaurante vegano da cidade atualmente só abre pro almoço. Como em todos os restaurantes orgânicos que oferecem produtos locais e sazonais, o menu muda constantemente. No dia que estive lá provei quatro pratos diferentes e alguns estavam ótimos, outros nem tanto. Provei também uma sobremesa que estava sensacional: torta folhada de coco e caramelo salgado. O que mais me chamou a atenção, no entanto, foi um seitan feito com arroz, logo sem glúten. Eu nunca gostei da textura nem do sabor de seitan e por ser glúten puro sempre deixa meu estômago se sentindo triste, triste, mesmo quando eu como só um pedacinho. Mas o seitan de arroz não só é totalmente sem glúten (mais agradável pro estômago) como ainda é muito mais gostoso e suculento do que o seitan de trigo. Um achado!

Londonewyork

77 Rue de Lodi, 13006 Marseille

Aberto de segunda à sábado, das 10h às 18h.

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Le cours en vert – restaurante vegetariano orgânico com opções veganas

O menu muda todos os dias, de acordo com o que for encontrado na feira daquele dia. Então os legumes são super frescos, de estação e orgânicos. Provei três pratos diferentes e a comida estava gostosinha, mas não provocou grandes emoções em ninguém (talvez eu não tenha tido sorte no dia em que estive lá).

Le cours en vert

102 Cours Julien, 13006 Marseille

Aberto os sete dias da semana, das 12h às 15h e das 19h30 às 22h.

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Green Bear – café-lanchonete vegetariano com opções veganas.

Passei por lá no final da tarde e já não tinha mais quase nada pra comer, então só tomei um cappuccino e provei um mousse de framboesa (à base de aquafaba). Green Bear tem três endereços na cidade e o que visitei (abaixo) tem wi-fi e uma sala perfeita pra quem quer responder emails ou planejar as visitas do dia em um lugar agradável, acompanhada de um cappu vegano.

Green Bear

123 La Canebière – 13001 Marseille

Aberto de segunda à sexta, das 11h às 17h.

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La Baie du Dragon – vietnamita/tailandês. Restaurante tradicional com vários pratos 100% vegetais.

Foi uma experiência e tanto jantar nesse restaurante. O dono, que também serve as mesas, é uma figura. Ele é engraçado e caloroso, mas não hesita em te dar umas respostas secas se achar a sua pergunta idiota (“Nem cru é o que exatamente? Aqueles rolinhos primaveras com papel de arroz?” “Não, é nem cru!” Quando os benditos chegaram eram exatamente os rolinhos com papel de arroz.) Mas ele é gente finíssima e um grande simpatizante do veganismo. O adesivo que vocês vêem acima, criado pela associação de direitos animais L214, significa que o restaurante, apesar de tradicional, se compromete a oferecer pratos veganos elaborados e saborosos pros clientes vegs. O menu tem uma seção especial com pratos veganos: entradas, pratos principais, acompanhamentos.  Ele explicou que se dependesse só dele o restaurante seria 100% vegetal. A conversa que escutei na mesa ao lado fez meu queixo cair. A cliente pediu sugestões de pratos. Ele sugeriu todos os pratos veganos do menu (!!!!). Ela disse: “Eu não sou vegetariana” e ele respondeu: “Uma pena!”.  Os pratos são muito bem temperados, os sabores equilibrados e delicados e o tofu é uma delícia! Muitas opções sem glúten. Os pratos são individuais (porções pequenas), então não cometam o mesmo erro que eu pedindo um prato pra duas. O restaurante é bem popular, então lembre de reservar no fim de semana.

 La Baie du Dragon

8 Place Notre Dame du Mont, 13006 Marseille

Aberto de segunda à sábado, das 12h às 14h30 e das 19h às 22h30.

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Pizzaria L’eau à la bouche – pizzaria tradicional que oferece uma pizza vegetariana sem queijo

Segundo Haidi, é a melhor pizzaria da cidade. Pra nossa grande sorte tem uma pizza 100% vegetariana no menu. Na hora de fazer o pedido falei: “Uma vegetariana sem queijo, por favor” e fiquei aguardando a cara de choque e/ou reprovação do pizzaiolo. Pra minha grande surpresa ele (que descobri depois ser o dono da pizzaria) respondeu, sem levantar os olhos, que a vegetariana da casa nunca tem queijo. Ô glória! Agradeci por ele ter pensado nos veganos e ele respondeu: “Mas é normal! Nó temos que pensar em agradar todos os clientes!” E a pizza não decepcionou (abobrinha e berinjela grelhadas, cebola, coração de alcachofra, alcaparras, azeitonas pretas, tudo numa massa fininha, do jeito que eu gosto). Dica: peça a pizza pra viagem e vá degustá-la na praia que fica ali do lado (Corniche, ver mais abaixo), sentada sobre as pedras com o mar turquesa aos seus pés. A pizzaria também funciona em um food truck no verão (na cidade l’Estaque, colada à Marseilha), que além da vegetariana também oferece uma pizza sem glúten.

L’eau à la bouche

120 Corniche Président John Fitzgerald Kennedy, 13007 Marseille

Aberta de quarta à domingo, de 12h à 15h e de 18h à 23h.

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Videodrome 2 – café-cinema, que também funciona como locadora de filmes

Esse lugar singular vale uma visita, mesmo se você estiver sem fome. Além de poder alugar DVDs e assistir a filmes na pequena sala de projeção nos fundos do café, todo dia rola uma sopinha que me garantiram que é sempre vegana. No dia que fui lá a sopa era de abobrinha com pistou (o famoso pesto local, acidentalmente vegano) e estava divina! Veio acompanhada de três fatias generosas de um maravilhoso pão au levain com passas. Por 4€ você tem uma refeição nutritiva e saborosa. Também tem sempre um cookie vegano e sem glúten no balcão (feito com farinha e óleo de coco, gostosinho mas que não tinha nada da textura/sabor de cookie). Tem mesas no exterior, na praça Cours Julien, e é super agradável tomar uma (cerveja ou xícara de chá) admirando os passantes.

Videodrome 2

49 Cours Julien, 13006 Marseille

Aberto de terça à domingo, das 15h às 2h.

Un mexicain à Marseille – lanchonete mexicana com opções veganas

Veganos podem pedir um burrito  ou tacos 100% vegetais (com feijão, milho, legumes grelhados, arroz, tomate e guacamole). Sucos/smoothies feitos na hora. Simples, barato, nutritivo e capaz de satisfazer grandes apetites.

 Un mexicain à Marseille

5 Place Paul Cézanne, 13006 Marseille

Aberto todos os dias da semana, das 12h às 24h.

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 Bio C Bon – loja de produtos orgânicos

Na França as lojas de produtos orgânico são uma mina de ouro pros veganos. Essa era um paraíso pra nós: frutas e verduras, leguminosas cruas e cozidas, burguers, salsichas, queijos, muitas pastas pra passar no pão, biscoitos, cereais, iogurtes, chocolates e mais de trinta (!!!) tipos de leite vegetal. As opções sem glúten abundam (achei até massa folhada pra assar em casa sem glúten!) e a loja é cheia de tesouros pros veganos gourmets (algas frescas! crepe de sarraceno! pasta de chocolate e avelã! creme de alcachofra!). Claro que os preços nesses tipos de lojas são mais elevados do que em supermercados, mas a qualidade é excelente e você encontra produtos que não são vendidos em outros lugares.

 Bio C bon

89 Cours Julien, 13006 Marseille

Aberta todos os dias da semana, das 9h30 às 20h (domingo das 9h30 às 13h30)

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Marché Paysan Cours Julien – feira orgânica

Uma vez por semana, nas quartas, tem uma feira orgânica na praça Cours Julien. As frutas e verduras orgânicas, produzidas localmente e vendidas pelos próprios agricultores, já valem a visita. No dia que estive lá comprei kale, vários folhosos pra salada (os vendedores fazem uma mistura com todas as folhas disponíveis, se você pedir) e tupinambo (também conhecido como ‘alcachofra-girassol’), um legume que eu conhecia de vista, mas nunca tinha experimentado (adorei!). Mas o que faz dessa feira um lugar ainda mais especial pras pessoas veganas é uma barraquinha onde um rapaz muito simpático faz um número impressionante de molhos, pastas pra passar no pão, legumes temperados e geleias, tudo com os vegetais que ele mesmo planta e colhe (orgânicos). Ele explicou que não usa nenhum ingrediente de origem animal nos seus produtos e, respeitando a tradição culinária do sul da França, faz tudo com um excelente azeite. Vi que em um potinho entrava mel na composição, mas todos os outros eram 100% vegetais. Voltei pra casa com uma pasta de beterraba e raiz forte, pistou, molho de pimenta, favas com coentro e ganhei de presente do vendedor um chutney de jerimum e gengibre. O que eu gostaria de ter levado pra casa, se ainda tivesse espaço na sacola: abobrinha com hortelã, abobrinha agridoce com curry, funcho romeno, ajvar (pasta de pimentão vermelho), caviar de berinjela, caponata… Descobri, graças à senhora que nos hospedou durante alguns dias, que um almoço ou jantar pro pessoal do sul pode ser composto somente desse tipo de preparações (muitas vezes feitas em casa), mais um bom pão, uma salada crua e vinho. A geladeira dela estava cheia de potinhos de vidros com os mais variados legumes, todos preparados por ela, e na hora das refeições ela colocava tudo na mesa, junto com uma salada fresquinha, e cada uma se servia do que quisesse, como um piquenique. Se você quiser preparar uma refeição nesse estilo e provar as delícias que são os legumes e as pastas do sul, você precisa visitar essa barraquinha.

Marché Paysan

Praça Cours Julien

Todas as quarta-feiras, das 7h às 13h (melhor ir cedo).

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Saladin Épices du Monde – Mercado de frutas e verduras e loja de especiarias 

Do lado do Marché  de Noailles eu achei o meu parque de diversões. Se chama “Saladin” e lá você vai achar o que acredito ser todas as especiarias que já apareceram nessa terra. Dei tantos pinotes lá dentro que uma certa pessoa ameaçou me filmar e colocar o vídeo no blog pra vocês verem e, imagino, rirem. Tinha as mais variadas frutas secas (tâmaras suculentas), tomates secos, farinha de grão de bico indiana, muitos, muitos tipos de azeitonas (verdes, pretas, temperadas), vários tipos de cogumelos desidratados, dezenas de ervas secas, especiarias de todos os tipos… Tinha até cumaru (tonka) do Brasil! E mais de trinta tipos de sal (juro, eu contei). As duas fotos acima só mostram um pedacinho da coleção de sal da loja. Tinha sal roxo, azul, cinza, preto, defumado, temperado, com gosto de ovo (queria trazer o saco inteiro pra usar no meu omelete vegano), flor de sal, cristais em forma de pirâmide… Durante os dez dias que passei na cidade fui à essa loja cinco vezes, ou seja, um dia sim e outro não. No final eu já estava contando a minha vida na Palestina em Árabe pro vendedor marroquino e ninguém mais se dava o trabalho de falar Francês comigo. Quase peço um emprego lá, aceitando ser paga em sal (sabiam que é daí que vem a palavra ‘salário’? Eu ia voltar às origens da prática). Se você gosta de cozinhar recomendo demais uma visita à essa loja.

 Saladin Épices du Monde

10 Rue Longue des Capucins, 13001 Marseille

Aberta todos os dias da semana, das 7h30 às 19h

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Marché de Noailles 

O quarteirão dessa feira (‘marché’ em Francês significa ‘feira’) vale uma visita. É aqui que se concentram as mercearias, restaurantes e padarias árabes (Marrocos, Tunísia e Argélia, países que formam o Magrebe) e é um dos lugares mais animados e coloridos da cidade. Lá você encontra cafés populares, onde velhinhos e jovens jogam conversa fora, padarias cheias de tesouros, restaurantes típicos e mercearias com (pausa dramática, corações veganos batendo acelerado) tahine libanesa! A única, a verdadeira, a sensacional, a que tem a reputação de ser a melhor do mundo! E por um precinho muito camarada, principalmente quando você compara com a tahine horrível que encontramos nas lojas orgânicas daqui.

As padarias tunisienses/marroquinas/argelinas são ótimas pra quando você quiser preencher um buraquinho no estômago, mas não tiver fome suficiente pra uma refeição completa. Além de vários tipos de pão (alguns com levain), você encontra folhados recheados com tomate e pimentão (tem a aparência de um crepe crocante, dobrado e com uma forma quadrada), o delicioso pão de sêmola (com ou sem fermento) e alguns doces veganos (pergunte se não tem manteiga nem mel, pois muitos têm).

Se a fome apertar, muitos restaurantes du Magrebe, embora sempre sirvam carne, oferecem opções naturalmente veganas. Tagines ou couscous de legumes (geralmente com grão de bico e muitas especiarias) são deliciosos.

Marché de Noailles (também conhecido como Marché des Capucins)

Rue du Marché des Capucins.

Aberto de segunda à sábado, das 8h às 19h.

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Durante as férias visitei duas ocupações (que os franceses chamam de ‘squats’). Le Raccoon (Place du Lycée) e Le Kiosque (38, Rue Clovis Hugues). Essas ocupas são lugares onde ativistas se encontram, trocam informações e organizam eventos. Fui ver um filme feminista de 1983 (‘Born in Flames’)  no Raccoon e participei de um evento de solidariedade com prisioneiras/os trans no Kiosque.  Fiquei sabendo desses eventos olhando as paredes da cidade: tem sempre cartazes colados por todos os lados com a programação dos dois lugares.

Nas duas ocupas a luta contra os vários tipos de opressão estão interligados, por isso quando rola comida por lá, é sempre vegana. O Raccoon também organiza jantares veganos onde cada um dá  o que quiser. Nas duas ocupas você encontra livros e panfletos sobre feminismo, racismo, imigrantes e refugiados, direitos animais, veganismo… No Raccon tem até uma ‘ loja grátis’ com roupas e sapatos que estão à disposição gratuitamente. São os lugares ideais pra entrar em contato com a cena ativista da cidade, aprender e conhecer pessoas bacanas (e veganas!).

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E antes de terminar esse guia, vou fazer algo que ainda não tinha feito nos outros Guias Veganos que publiquei aqui no blog: sugerir lugares que não têm nada a ver com comida. Se você estiver em Marselha não deixe de visitar um espaço cultural chamado ‘La Friche’, que fica na rua Jobin, no bairro Belle de Mai (foto que abre esse post e as duas acima). O centro foi criado em uma antiga fábrica de tabaco e tem salas de exposições, uma livraria, um café, um restaurante, quadra de basquete, pista de skate… Nos andares não utilizados (o prédio é enorme) crianças andam de patins e brincam livremente. A partir de março o terraço no último andar começa a funcionar e o centro organiza festas ali nas noites de verão.

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A Corniche também vale uma visita. As praias são bem diferentes das nossas, com pedras enormes e zero areia. Tem uma mini praia onde as pedras são minúsculas (foto acima), mas o pessoal que quer nadar geralmente pula das pedras direto pra água. Parece que no verão fica tudo lotado, mas como passei por lá no meio do inverno estava tudo tranquilo e pude piquenicar (a pizza mencionada acima) admirando a beleza do lugar.

Vale muito a pena sair um pouco da cidade e visitar pelo menos uma calanque. ‘Calanque’ é, de acordo com Wikipidia “um acidente geográfico encontrado no Mar Mediterrâneo, que se apresenta sob a forma de uma angra, enseada ou baía com lados escarpados, composta por estratos de calcário, dolomita ou outros minerais carbonatos.” Procurem ‘calanques’ no Google e vocês vão ver que coisa mais linda elas são. Visitei a calanque de Sormiou (dá pra ir de ônibus do centro de Marseille), que fica no Parque Regional das Calanques. Na entrada do parque você pode escolher uma das várias trilhas, mais ou menos longas. A caminhada é bem puxada, pois o terreno é extremamente acidentado, mas pra quem gosta de natureza e pode caminhar por várias horas , o passeio é incrível. As fotos abaixo dizem tudo.

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Não sei se ele sabe, mas tenho grandes planos pra 2016. Vai ser mais um ano nômade, com muitas mudanças (geográficas), planos bem soltinhos, pra caber as oportunidades que forem cruzando o meu caminho, desafios pessoais, ativismo e (espero) muitos encontros. Mais do que tudo, vai ser um ano de espralício*!

E pra não pegar ninguém desprevenido dessa vez, vou logo avisando que vou passar uma parte de 2016 no Brasil. A data certa da minha chegada ainda não foi definida, mas chego por aí no final do primeiro semestre e, a princípio, fico em terras tupiniquins até o final do ano.

Minha família mora em Natal e é sempre lá que fico quando estou no Brasil, mas a novidade é que esse ano vou ficar uns tempos em Recife. Tenho muitos amigos na cidade e a comunidade vegana de lá é incrível, por isso decidi passar uma chuva por lá.

Darei informações mais concretas sobre as atividades que serão realizadas, e onde vocês poderão me encontrar, mais pra frente. Mas também gostaria de viajar um pouquinho dentro do país, então quem quiser organizar eventos Papacapimsais em sua cidade fique à vontade pra dividir suas ideias comigo (por email é melhor: papacapimveg@gmail.com). Acredito que vai ter umas oficinas de culinárias em Natal e Recife, mas seria lindo encontrar leitores e leitoras de outras cidades, trocar ideias e cozinhar com elxs.

Que esse ano seja lindo e que o espralício se manifeste na vida de vocês também. E estou cá de dedos cruzados pra que em 2016 eu conheça mais pessoas que estão do lado de lá dessa tela.

*Palavra inventada pela minha amiga Cibele. Ou foi por Carol. As duas usam. Perguntei à Cibele como ela explicaria o significado de ‘espralício’. Ela respondeu: “Definições matam o espralício. Hay que sentirlo.”