Ela apareceu aqui no blog muitas luas atrás, em um dos meus posts preferidos de todos os tempos, que eu acho que todos deveriam ler. Mas Sahar é uma das pessoas mais interessantes que eu tive a sorte de conhecer e eu poderia entrevistá-la todo mês e ela sempre teria coisas inspiradoras e corajosas pra contar. E como ela é vegana há anos, ela tinha que aparecer na série “Porque me tornei vegano/a”.

Eu já escutei tantas pessoas dizerem “Eu nunca poderia ser vegetariano/vegano porque ADORO carne”, como se a razão que nos leva a seguir esse caminho fosse um suposto despreço pelo sabor de carnes. Por isso eu acho que a história de Sahar com o veganismo é particularmente interessante. Ela conta que carne sempre foi sua comida preferida, mas que o imenso prazer gustativo que ela sentia ao comer animais não a impediu de enxergar as razões morais por trás do veganismo e adotar uma dieta que respeitasse seus valores mais profundos. Eu sei que isso pode surpreender alguns onívoros que se declaram (uns com orgulho, outros com desconforto) adoradores de carne, mas pra veganos preferência gastronômica não é um argumento moral.

Quando e por que você se tornou vegana?

Aos 13 anos eu entrei em um grupo político de jovens e nesse meio tinha muitos veganos e vegetarianos. Ser carnívoro então se tornou um ato ideológico e eu comecei a dar desculpas pra justificar minha paixão por carne. Mas os argumentos que eu usava (“É assim que as coisas são na natureza”, “Nós estamos no topo da cadeia alimentar” etc) começaram a soar fracos e não convenciam nem mais a mim mesma. Então me tornar vegetariana me pareceu lógico, era uma continuidade ao ato político no qual eu tinha me engajado. Se eu não quero machucar outros seres, então não quero machucar nem seres humanos nem animais em geral. Eu escolhi minha luta e pra mim ser ativista pelos direitos dos palestinos é mais importante, mas isso não me dá o direito de continuar ferindo animais, de continuar participando desse sistema. Então me tornei vegetariana no meu aniversário de 14 anos. Cortar a carne foi muito difícil, pois era algo que eu sempre adorei. Eu sabia que depois desse primeiro passo me tornar vegana seria muito mais fácil. Decidi fazer uma aposta com amiga: eu tentaria ser vegana e ela tentaria parar de fumar.

Você se tornou vegana no início da adolescência e muitos jovens que escolheram o mesmo caminho tiveram dificuldades pra fazer a família aceitar suas escolhas. Como foi a reação dos seus pais?

A esposa do meu pai não come carne (mas come peixe), então aceitar a minha escolha não foi difícil pra ele. A única preocupação dele era com a minha saúde, então prometi fazer exames de sangue de 6 em 6 meses até os 18 anos pra ter certeza que estava tudo bem. Eu prometi que se descobrisse que estava com algum tipo de deficiência eu cuidaria da saúde, tomando suplementos ou voltando a comer carne. Acabei desenvolvendo carência de ferro no início e tomei suplementos.

Qual foi a maior dificuldade que você enfrentou durante a transição?

Parar de comer carne. Definitivamente essa foi a parte mais difícil.

E quais são os aspectos mais difíceis do veganismo pra você hoje?

Não me incomodo com os comentários que as pessoas fazem sobre o meu veganismo. E faço sempre questão de deixar as pessoas à vontade com esse aspecto da minha vida. Antes eu achava que pra comer fora de casa eu tinha que procurar restaurantes especiais, que oferecessem comida vegana, mas agora sei que em qualquer lugar eu vou achar o que comer, nem que seja uma salada. Então comer em restaurantes com onívoros não é um problema. Isso é importante pra mim pois não quero ser um peso pras outras pessoas nessas situações.

Então o mais difícil pra mim é resistir a tentação, saber que posso entrar em um restaurante e pedir carne. Acabei me acostumando, mas ainda é algo difícil. Sempre me pergunto por que não estou comendo carne. E a resposta é: porque é imoral, porque um animal seria assassinado pro meu prazer. Eu sei que comer carne vai me dar prazer, mas isso não justifica o ato. Comer um bife não seria o fim do mundo pra mim. Eu ia me sentira mal depois, mas ia acabar superando. A razão que me faz não ceder à tentação é que tenho medo de provar esse sabor novamente e não conseguir mais parar. Comer carne tem um preço: alguém vai pagar com a vida pelo prazer que eu vou sentir. E eu não tenho direito de tirar a vida de um ser.

Quais são as pessoas ou organizações que te inspiraram e continuam te inspirando no terreno do veganismo ?

Meus amigos, meus colegas de escola e minha família eram todos onívoros, mas algumas pessoas da esquerda radical me inspiraram. Esses ativistas, que lutavam por direitos animais, contra a ocupação israelense na Palestina, por direitos LGBT, consideravam importante viver de acordo com suas convicções. Eles tinham feito a conexão entre todas essas lutas e decidiram agir. Foi isso que realmente me inspirou.

(O grupo ao qual Sahar se refere se chamava Maavak Ehad, que significa “Uma só luta” em Hebraico. Era um grupo de ativistas israelenses da esquerda radical anarquista que lutava por direitos animais e ressaltava a conexão entre os diferentes tipos de luta: feminismo, anti-chauvinismo, contra a ocupação militar israelense na Palestina, por justiça, liberdade, igualdade… O grupo acreditava que toda opressão é enraizada na mesma base ideológica e que o estado, governo e sistema militar existem não pra nos proteger ou nos servir, mas pra preservar a ordem social que permite aos que estão no poder de continuar nos utilizando.)

Depois de ter se tornado vegana, teve algum momento em que você duvidou que esse era o caminho certo pra você?

A produção de carne em Israel é terrível e a produção de laticínios é ainda pior. As vacas são manipuladas pra produzir quantidades absurdas de leite. Não existe uma indústria de carne/laticínios gentil. As etiquetas ‘orgânico’ ou ‘criado em liberdade’ não mudam isso. Aliás muitos dos produtos de origem animais que são ‘orgânicos’ e ‘criados em liberdade’ são produzidos nas colônias ilegais dentro Palestina e na parte do Golan ocupada por Israel.  Eu tenho amigos que têm frangos e consumem seus ovos, mas leite e ovos não me interessam de todo jeito. Honestamente o que sempre me interessou foi carne e não existe carne sem assassinato. Eu sou uma pessoa muito dogmática.

Então você não acredita que seja possível ter uma ‘carne feliz’ ou ‘produzida humanamente’?

Nos dois casos você vai matar o animal do mesmo jeito. Os animais são tratados como uma mercadoria, algo que vai te dar dinheiro ou prazer. Eu não vejo animais como instrumentos que estão ali pra servir os meus interesses pessoais.

Que conselhos você daria pras pessoas que gostariam de se tornar veganas, principalmente pros adolescentes lendo esse blog?

Pros jovens: tentem convencer os adultos a te darem a permissão pra se tornarem veganos mostrando que seu interesse e compromisso com o veganismo é sério. Aprendam a cozinhar, procurem receitas na internet (como nesse blog que você está lendo agora), façam esforços concretos pra que essa opção se torne possível. No meu caso também tive que fazer exames de sangue regularmente pra tranquilizar o meu pai.

É importante aumentar a variedade de alimentos que você consume. Eu tirei alguns alimentos da dieta, então precisei acrescentar outros.  Quando me tornei vegana meu pai não sabia o que cozinhar pra mim, então comecei a cozinhar. Na época eu praticamente só cozinhava tofu. Mais tarde comecei a preparar novos alimentos e me tornar vegana fez com que eu aprendesse a gostar de muitas coisas: abacate, berinjela, tahina, lentilha, falafel. Ainda penso em todo o abacate que deixei de comer, grande erro!  Graças ao veganismo comecei a cozinhar e descobri que é muito divertido. Eu recomendo demais.

Como já falei, pra mim é importante deixar os amigos à vontade quando saímos pra comer juntos, explicando que não precisamos ir a um restaurante especial, que estarei ok em qualquer lugar, que não me importo se eles comerem carne na minha frente. Muitos veganos não concordam com isso e eu respeito, mas pra mim não ser um peso pros outros é mais importante. De todo jeito tem sempre gente comendo carne ao meu redor, que seja na rua ou na minha família.

Eu acredito que devemos tranquilizar as pessoas, deixando claro pros seus pais que não está faltando nada na sua alimentação, que você não está colocando a saúde em risco, que está acrescentando novos alimentos na dieta, participando da preparação das refeições… Tente se cercar de pessoas que te apoiam, virtualmente ou pessoalmente. É muito útil encontrar pessoas que te apoiam.

Como você fala de veganismo com os onívoros com quem convive?

Entre os 15 e 17 anos eu participei ativamente do movimento de defesa dos direitos animais. Eu participava de protestos, panfletava toda semana, tentava convencer as pessoas ao meu redor… Eu não escondo meu veganismo, mas hoje quando onívoros tentam me convencer das suas razões pra comer animais (na verdade eles estão tentando convencer eles mesmos) eu dou respostas frias porque sei que não vou fazer eles mudarem de ideia. No momento eu me interesso mais pelo ativismo que oferece alternativas. Alguns anos atrás trabalhei como voluntária num espaço ativista que tinha uma cozinha vegana. Na época era o único lugar vegano em Jerusalém. Acho importante criar um lugar pra comunidade da esquerda radical, LGBT e feminista e oferecer alternativas. Me sinto mais a vontade com esse tipo de ativismo.

O veganismo em Israel cresceu absurdamente nos últimos anos e em nenhum lugar que visitei encontrei tantos veganos e tantas opções vegetais nos restaurantes. Como você explica esse fenômeno?

Pra comunidade ativista radical em Israel é muito importante fazer a conexão entre as diferentes lutas. Talvez justamente porque a comunidade ativista é muito pequena lá as ideias se espalharam rápido. Tem as colônias de férias alternativas pros jovens de 14 à 20 anos (uma semana durante o verão, todos os anos), os objetores de consciência (que se recusam a servir o exército), os ativista contra a  ocupação, os ativistas pelos direitos LGBT… A maioria dessas pessoas são veganas e nos espaços alternativos a comida é sempre vegana.  Então mesmo os onívoros têm que comer comida vegana nesses lugares. Nós realizamos workshops sobre feminismo, identidade de gênero, liberação animal e contra a ocupação que oferecem informação, mas também formas de resistência. Eu cresci nesse meio, frequentando esses lugares, então o veganismo acabou se tornando algo natural. Nos centros e lugares onde os ativistas se encontram tentamos criar um espaço que seja o mais seguro possível pra todos. E isso significa não machucar ninguém, o que inclui não machucar animais.

(Isso é algo que sempre admirei nos ativistas israelenses. No Brasil e nos países europeus onde morei os ativistas pelos direitos humanos geralmente não veem a conexão entre as lutas, são completamente cegos pra opressão e injustiça na indústria da carne.)

Então o veganismo se tornou popular primeiro dentro da comunidade radical e aos poucos foi se espalhando pelo resto da sociedade. E uns anos atrás um vídeo de Gary Yourofsky se tornou incrivelmente popular entre israelenses e acabou convencendo muita gente, que não fazia parte da comunidade ativista, a adotar o veganismo.

Falando em Gary Yourofsky (ativista americano pelos direitos animais), em uma entrevista concedida à televisão israelense em 2013, ele declarou que a razão da popularidade do veganismo em Israel é porque “povos que foram oprimidos, como os judeus (…), respondem melhor a esse tipo de revolução pois eles entendem o que é opressão.” E qual não foi a minha surpresa ao ouvir a mesma frase da boca de veganos de outros países! O que você, que é israelense e judia, tem a dizer sobre isso?

Que se a ocupação israelense na Palestina nos ensinou alguma coisa foi que o fato de ter sido oprimido no passado não impede um povo de oprimir outro povo.

À medida que o veganismo cresce em Israel a gente vê uma utilização cada vez maior desse movimento pra conquistar a simpatia dos veganos mundo afora e encobrir as violações dos direitos humanos cometidas pelo governo. Depois do ‘pink washing‘ (a utilização dos direitos LGBT pelo governo israelense pra desviar a atenção dos crimes cometidos contra os palestinos e normalizar a ocupação, colonialismo e apartheid), a nova estratégia de marketing de Israel é o ‘vegan washing’. O que você tem a dizer sobre isso?

Existe essa tendência em Israel e em outros lugares onde têm movimentos de justiça social (direitos LGBT, direitos animais etc.)… Quando Israel se mostra progressivo em alguns desses campos isso é usado como uma maneira de legitimar a ocupação. O fato de que nós somos morais em uma coisa não significa que nós temos uma justificativa pra sermos imorais em outras coisas. “Se nós somos bons pros animais, obviamente nós somos bons pros palestinos e é impossível que a ocupação seja algo errado.” E Israel usa isso com bastante frequência agora que o veganismo está se tornando muito popular no país. Direitos animais aqui se tornou algo importante, o que é uma grande conquista pra um movimento que trabalha há muitos anos pra que isso aconteça e é importante reconhecer essa conquista. Mas tem pessoas, principalmente pessoas no governo, que estão usando isso ao seu favor. Tel Aviv foi eleita a cidade mais ‘vegan friendly’ do mundo e algumas pessoas estão usando isso pra dizer: “Vejam o quão liberal e democrático é esse país e fechem os olhos pras coisas menos liberais e democráticas que esse país faz, como a ocupação.” Então é um discurso problemático. De um lado nós precisamos ter muito cuidado pra não destruir os esforços do movimento vegano e de direitos animais em Israel. Eles são realmente impressionantes e é muito bacana ver o que aconteceu por aqui nos últimos anos. Mas por outro lado dizer que isso é algo bom e positivo e que deve continuar não pode encobrir o fato de que a ocupação ainda exite e é algo ruim e negativo.

Num dia normal, o que aparece no seu prato?

Eu não tomo café da manhã. Geralmente almoço restos do dia anterior. Ou então como hummus e falafel ou comida etíope. Pro jantar eu gosto de preparar receitas rápidas porque nunca lembro de deixar ingredientes de molho no dia anterior. Macarrão com abobrinha, stir fry com os vegetais que eu encontrar na geladeira, tofu e arroz. Gosto muito de rechear legumes. Outro dia eu recheei um jerimum pequeno com triguilho, folhas do jardim e tomates secos. Também cozinho muita lentilha. E todas as refeições que preparo têm que ter uma salada crua.

Você está no corredor da morte e tem direito a pedir qualquer coisa, vegana ou não, pra sua última refeição. O que você pediria?

Abacate com cogumelos refogados, costelas, ervilha torta e os seus aspargos grelhados. E de sobremesa um cheesecake de frutas vermelhas.

Pode dividir a receita do abacate com cogumelos com os meus leitores?

Claro. Pique os cogumelos que você mais gostar (eu uso portobello e champignons) e refogue em um pouco de azeite. Tempere com tomilho fresco ou seco, sal e pimenta do reino. Corte um abacate ao meio e retire caroço. Faça cortes na polpa (criando um jogo da velha na diagonal), mas sem cortar a casca. Tempere o abacate com limão, sal e pimenta do reino. Recheie cada metade com os cogumelos quentes (preenchendo a cavidade antes ocupada pelo caroço e cobrindo toda a polpa) e sirva com uma colher. A colher é importante!

Ano passado os participantes do tour Papacapim na Palestina tiveram a sorte de conversar com Sahar. Ela fez uma palestra ultra VIP sobre a militarização da sociedade israelense e ainda preparou um almoço vegano delicioso pra nós  (a moça cozinha muito bem). Espero que os grupos desse ano tenham a mesma oportunidade.  (Anúncio: Ainda tem vaga nos tours desse ano! Interessados, por favor escrevam pra papacapimveg@gmail.com)

 E se você perdeu os outros post da série ‘Porque me tornei vegana/o’, aqui estão:

“Me tornar vegana foi uma maneira de me tornar politizada”- Johanna

“Hoje eu acho fácil ser vegano, o difícil mesmo é amar, respeitar e aceitar a minha própria espécie” -João

“O veganismo foi uma maneira de alinhar minhas convicções com os meus atos” – Anne

“O veganismo talvez seja a alimentação do futuro” – Samira

“Manter a serenidade diante de tanta crueldade e indiferença é um desafio, mas é necessário” – Lobo

A vida está cada vez melhor por essas bandas. Faz dois meses e meio que me mudei pra Londres e só agora comecei a sentir a poeira da mudança baixar e ver uma certa rotina surgir. Já não aguentava mais carregar minha mala pelos metrôs londrinos. Felizmente acabei sendo acolhida por um grande amigo inglês da minha avó francesa (essa avó eu adotei quando era estudante universitária em Paris), que conheci 8 anos atrás, quando me ofereci pra traduzir pro Francês o livro que ele estava escrevendo. Andrew era pastor da igreja protestante e há décadas escreve um livro, em quadrinhos, pra explicar o que na opinião dele é a verdadeira mensagem de Jesus. Pra ele Jesus queria fazer uma revolução de classes e não estava nem um pouco interessado em religião. Adorei o projeto e aceitei traduzir parte dele. Quando me mudei pra Palestina abandonei a tradução por falta de tempo e hoje é a minha avó que cuida da versão francesa da obra de Andrew, que tem vários volumes.

Poucos dias depois de ter chegado aqui minha avó veio nos visitar. Ela ficou hospedada na casa de Andrew e uma noite fui jantar com eles. Andrew tinha preparado um cuscuz marroquino vegano pra nós e passamos a noite conversando sobre a Palestina, os livros dele e a dificuldade de encontrar aluguéis baratos em Londres.

Dias depois desse jantar me vi sentada no chão do quarto que eu tinha alugado por um mês, depois de uma semana de busca intensa por um teto londrino, cada vez mais chocada com o preços dos aluguéis nessa cidade e preocupadíssima com o fato de não estar ganhando dinheiro suficiente pra alugar nem o armário sob a escada onde Harry Potter dormia (eu estava trabalhando só dois dias por semana), quando bateu uma angústia profunda. Eu teria que sair daquela casa dali a poucos dias e ainda não tinha encontrado um novo lar e mesmo se tivesse encontrado, eu não teria dinheiro pra pagar o aluguel. Então senti muito medo e chorei. Mas depois de alguns minutos paralisada pelo medo, meu cérebro foi voltando a funcionar aos pouquinhos. Eu não ia ficar na rua. Tinha pelo menos um sofá amigo à minha disposição. Eu ia conseguir mais trabalho. Na pior das hipóteses eu tinha a quem pedir apoio (financeiro e emocional). Tudo ia dar certo. Então sequei as lágrimas e fui caminhar no parque do lado de casa. Acho que rolou até um suco verde no caminho de volta e dois dedos de prosa com o vendedor da loja de orgânicos da esquina.

No dia seguinte encontrei uma mensagem de Andrew no meu celular me convidando pra morar na casa dele. Um dos quartos da casa, que acolhia um amigo de passagem pela cidade, tinha acabado de ser desocupado. Liguei pra ele pra ter certeza que tinha entendido certo. Sim, o quarto era meu, se eu quisesse. Não, não precisava pagar nada. Nem sequer ajudar com as contas de água e luz. Eu podia me mudar no dia seguinte. Então dei vários pinotes de alegria e até hoje ando por aí com o peito transbordando gratidão, com uma vontade danada de mandar flores pro delegado, de bater na porta do vizinho e desejar bom dia, de beijar o português da padaria…

E foi assim que eu vim parar nessa casa. Andrew tem 73 anos e ficou viúvo dois anos atrás. Hoje ele mora com duas filhas (ele tem quatro filhos ao todo) e Dani, seu fiel companheiro de quatro patas, que sempre quando eu abro a porta me recebe como se eu fosse um dos Beatles. As meninas quase nunca param em casa e dormem muito na casa da terceira irmã, que acabou de ter bebê. Eu também passo pouco tempo aqui, já que agora trabalho todos os dias (alguns dias trabalho 10, 12 horas seguidas). Então nos encontramos à noite e na maior parte do tempo jantamos só nós dois, com Dani deitado embaixo da mesa. Andrew se sente muito sozinho depois de ter perdido a esposa e como os filhos passam cada vez menos tempo com ele, sinto que ele aprecia muito a minha companhia.

Sempre gostei muito de conversar com pessoas mais velhas e aprendo imensamente com essas interações. Outro dia Andrew me disse “Sabe, agora que estou velho descobri porque meu pai, no final da vida, e meu avó me irritavam tanto. Quando a gente fica velho pode continuar fazendo tudo que fazíamos antes, mas precisamos de muito mais tempo. Tudo fica mais lento e ainda não me acostumei com a minha recém adquirida lentidão. Agora as coisas mais banais exigem um esforço imenso, fico cansado tão facilmente. E hoje eu vejo a irritação no rosto dos meus filhos, a falta de paciência comigo. A mesma irritação e falta de paciência que eu sentia com o meu velho pai.”  Isso me partiu o coração, pois me fez lembrar que também sou culpada dessa falta de paciência com os meus pais. Contei pra ele que sempre que vejo um idoso caminhar lentamente e com dificuldade na rua fico ligeiramente constrangida de poder caminhar tão rápido e de passar por ele a toda velocidade. Então diminuo o ritmo e passo lentamente do lado do idoso, na esperança de não fazer com que ele se sinta diminuído pelo vigor que a juventude me dá. Ele riu e disse que eu não devia me sentir constrangida nessas situações e que eu provavelmente não faria o idoso se sentir melhor ao igualar o meu passo com o dele. E tenho certeza que ele está certo. Acho que ao invés de dar a impressão ao idoso de estar caminhando mais rápido, ele deve pensar: “Tadinha dessa moça. Tão jovem e já com problemas nas pernas”.

Andrew tem uma voz de trovão, uma farta barba branca e uma presença que ocupa todo o cômodo, mesmo agora que a saúde começou a dar sinais de fraqueza.  Ele me conta histórias sobre Jesus e os apóstolos, mas de acordo com a sua interpretação. Tudo que ele me fala é interessante e às vezes hilário. Adoro quando ele me explica, com a ajuda de passagens da Bíblia, que Jesus era um anarquista. Imagino a graça que seria oferecer essas lições às crianças da Escola Dominical. Morar em uma casa onde a rede wi-fi se chama “Jesus era um revolucionário” e a senha é “Deus dos marginais” não tem preço.

Meu quarto é bem pequeno e pela primeira vez desde que saí da casa da minha família em Natal, 13 anos atrás, durmo em uma cama de solteiro. Acho que o fato de morar com alguém muito mais velho que eu, dormir em uma cama de solteiro e passar todo o meu tempo em casa dentro do quarto (na sala tem uma televisão e poucas coisas me irritam mais do que esse aparelho) faz com que eu me sinta adolescente novamente. Depois de jantar com Andrew eu lavo a louça, dou um beijo naquele rosto barbudo, outro no ser peludo e saltitante que insiste em se instalar na minha cama quando não estou olhando, e subo por meu quarto. A jornada de uma cozinheira é pesada, principalmente quando passo o dia inteiro trabalhando, e caio na cama exausta. Mas eu sou uma daquelas pessoas que mesmo com o corpo moído e esgotado não conseguem achar o pitoco pra desligar a cabeça. Então gosto de ler na cama e a minha mesa de cabeceira abriga uma coleção pra lá de eclética. No momento tem: ‘A mulher independente’ de Simone de Beauvoir, um livro sobre poliamor chamado ‘The Ethical Slut’, dois livros de Andrew- ‘A Bíblia como Política’ e ‘Deus dos marginais’-, um livro chamado ‘Equal Rites’, recomendado por uma leitora, quatro livros de culinária, uma revista francesa feminista, uma revista inglesa vegana, um livreto sobre a conexão entre capitalismo, comunismo e liberação animal… Mas atualmente tenho um novo ritual na hora de dormir. Estou viciada em um podcast inglês chamado ‘Philosophy Bites’ e gosto de colocar os headphones, apagar a luz e escutar filósofos discutindo Platão, responsabilidade moral e estereótipo implícito.

Então a vida está cada vez melhor por aqui. Tenho um lar, doce, lar (e a cozinha oferece uma viagem aos anos 70), moro com gente maravilhosa, adoro o meu trabalho, o volume de trabalho aumentou consideravelmente, o verão está chegando e a cidade está cada vez mais agradável. Só sinto falta de cozinhar mais. Claro que cozinho o tempo todo no trabalho, mas sinto falta de cozinhar fora dele. Faço comida aqui em casa regularmente e como estou morando com onívoros não posso contar com o que eles preparam pra me alimentar. Mas o tempo é curto e o cansaço é grande, então preparo coisas muitos simples, como feijão (de todas as cores), muita couve do tipo kale, sopas, papa de aveia… Nada que já não tenha aparecido aqui no blog.

Porém semana passada fui invadida por uma vontade aguda de comer dal e como aqui tem uma população indiana e cingalesa grande é fácil encontrar especiarias e lentilha coral em qualquer mercearia. Na esquina do meu prédio tem uma mercearia de um simpático casal do Sri Lanka e em poucos minutos eu estava com todos os ingredientes pra preparar o meu dal. Então me dei conta que nunca tinha publicado uma receita de dal aqui no blog. É de uma simplicidade imensa, mas é uma das receitas que sempre faço quando preciso de algo nutritivo, que vai me alimentar durante horas e que fica pronto em pouco tempo.

Tradicionalmente a mistura de especiarias usada nessa receita (garam masala) é feita da seguinte maneira. As especiarias inteiras (não em pó) são tostadas em uma frigideira seca até começarem a soltar seus aromas. Depois elas são piladas até a mistura virar um pó relativamente fino. Isso é feito enquanto você preparar o prato, na quantidade que você precisar pra receita. Depois de moídas, especiarias vão perdendo o aroma com o tempo, por isso é melhor moer na hora em que você for usar, em pequenas quantidades, pra desfrutar do melhor que elas têm pra oferecer. Eu geralmente faço isso quando preparo pratos indianos, mas como expliquei mais acima, esse dal é uma das receitas que faço quando não tenho muito tempo e preciso de algo robusto e nutritivo. Por isso uso especiarias em pó, pra ir mais rápido. Mas é importante tostá-las no óleo de coco pra intensificar o aroma e o sabor.

Eu tenho um grande amigo francês que faz um dal delicioso. A gente se conheceu na Palestina e ele sempre preparava esse prato quando me chamava pra jantar na casa dele. A receita original usava manteiga, mas meu amigo veganaziva o seu dal substituindo esse ingrediente por margarina. Por mais que eu gostasse daquele dal quem leu esse post sabe que eu considero margarina o condimento do demônio (imaginando, claro, que ele existe e que parte do seu plano diabólico pra destruir os humanos é preparar condimentos pra gente. Suspeito que ele esteja por trás do glutamato monossódico também.). Então sempre pensava que deveria ter uma maneira mais saudável e gostosa de veganizar a receita do meu amigo.

A manteiga entra no dal pra dar cremosidade e untuosidade ao prato. Muita gente acredita que margarina é um bom substituto vegetal, e talvez o único, pra esse ingrediente. Mas além de ser criação do coisa ruim, como expliquei no famoso post, as qualidades gustativas e culinárias da margarina deixam muito a desejar. Manteiga é uma gordura saturada, por isso é sólida em temperatura ambiente. Margarina é feita com óleos vegetais (hidrogenados ou interestificados) e é composta basicamente de gordura insaturada. Por isso não oferece a mesma untuosidade, nem se comporta da mesma maneira em massas folhadas etc. Por muito tempo fiz dal só com azeite, mas nunca fiquei totalmente satisfeita com o resultado. Então lembrei que tem um óleo vegetal rico em gordura saturada (aquele outro tipo de gordura saturada que faz bem) e que por isso oferece as mesmas propriedades culinárias da manteiga: óleo de coco virgem. Claro que o sabor não tem nada a ver com o sabor da manteiga, mas nessa receita o suave aroma de coco casa perfeitamente bem com o resto dos ingredientes. Nasceu o dal dos meus sonhos, vegano, ultra cremoso e delicioso.

 Como eu disse, a vida está ficando cada vez melhor por aqui.

 dal

 Dal

Duas coisas importantes nessa receita: a lentilha tem que ser coral (ela se desfaz depois de cozida, dando a consistência típica do dal) e o óleo tem que ser de coco e virgem. Expliquei o porquê do óleo no texto acima. Também expliquei porque usei especiarias em pó e não o método tradicional pra fazer ‘garam masala’. Então não deixe de ler o texto pra entender melhor a receita. Uma observação sobre óleo de coco virgem: como ele se solidifica quando a temperatura esfria, dependendo do frio/calor que estiver fazendo onde você mora o seu óleo estará líquido ou sólido. Isso pode gerar confusão na hora de medir as colheradas, pois quando medimos uma colher de sopa do óleo solidificado a quantidade é geralmente maior do que se ele estivesse líquido. Por isso na receita abaixo indiquei as medidas do óleo líquido e sólido.  E se você ainda tem medo da gordura do coco, leia esse post.

 250g de lentilha coral

1 folha de louro

1 cebola grande

4-6 dentes de alho grandes

1/2 polegar de gengibre fresco (opcional)

1cc rasa de cominho em pó

1cc rasa de semente de coentro em pó

1/2cc de cúrcuma

1/2cc de canela

1 pitada de cravo em pó (opcional)

1 pitada de cardamomo em pó (opcional)

óleo de coco virgem

Sal a gosto

 

Despeje as lentilhas em uma panela média e cubra com água fria. A quantidade de água necessária vai variar um pouco, pois quanto mais velha a lentilha, mais água você vai precisar e maior o tempo de cozimento. Comece com 1 parte de lentilha pra 3 partes de água e acrescente mais água durante o cozimento, se for necessário. Junte o louro e punhadinho de sal e leve ao fogo alto. Assim que começar a ferver baixe o fogo e cozinhe até a lentilha se desintegrar completamente e se transformar em uma sopa espessa.

Enquanto a lentilha cozinha, pique a cebola e o alho e rale o gengibre. Aqueça 2cs de óleo de coco líquido (1cs cheia se ele estiver sólido) e doure a cebola. Junte o alho e o gengibre (se estiver usando) e deixe cozinhar por mais 30 segundos. Junte todas as especiarias e toste, mexendo com uma colher de pau, até elas começarem a liberar um aroma intenso (isso só leva uns 15-20 segundos). Despeje a lentilha cozinha e mexa bem. Deixe cozinhar mais 5 minutos em fogo baixo, pra lentilha absorver bem os temperos e encorpar mais um pouco. Junte 2 cs de óleo de coco virgem (se ele estiver líquido. Ou 1 cs bem cheia do óleo solidificado) e misture bem. O dal tem que ficar bem cremoso e rico, então não tenha medo de juntar mais um pouquinho de óleo de coco se achar necessário. Prove e corrija o sal.

Sirva acompanhado de arroz basmati, ou sozinho. Rende 4 porções (se servido junto com arroz e alguma verdura) ou 2 porções como prato único. O dal pode ser conservado por vários dias na geladeira (o frio vai deixá-lo mais espesso, então acrescente um pouco d’água na hora de esquentar) e também pode ser congelado.

Esse blog nasceu na Palestina, cinco anos atrás, no inverno. Fazia meses que eu dizia querer começar um blog, sem nunca colocar a ideia em prática. Anne insistia que a ideia era boa, que minhas receitas eram boas, que a minha escrita era boa… Mas no fundo uma voz me dizia: ‘Quem vai querer ler o que você tem pra dizer?’, então eu tratava de me ocupar com outras coisas e desistia do blog. Até que nesse famoso inverno Anne foi pra Gaza e eu fiquei em Belém. Uma noite eu perdi o sono e, sozinha na sala da minha linda casa de pedra, a dois passos da igreja da Natividade (onde Jesus nasceu), criei o Papacapim.

Meu objetivo era, como está escrito lá em cima, desmistificar a culinária vegetal. Eu queria mostrar que veganos não comem só folhas, que comida vegetal pode ser extremamente interessante, variada, acessível, saborosa e capaz de seduzir até onívoros. Os blogs veganos em Português que cruzaram o meu caminho nessa época ofereciam receitas que agradariam a Sandra de 15 anos, se eu tivesse me tornado vegana durante a adolescência. Acabei percebendo que isso faz sentido, já que muitas pessoas se tornam veganas no final da adolescência e nessa fase geralmente temos uma quedinha por junk food (por isso via tanta receita de coxinha, bolo de caneca e estrogonofe de proteína texturizada de soja). Mas aos 26, com um paladar adulto e mais exigente, eu queria comida de verdade, cheia de vegetais, com sabores mais intrigantes e mais sofisticados. Talvez eu não tenha procurado direito, talvez as receitas que apareciam na minha cozinha já estavam sendo publicadas em outros blogs brasileiros, mas o fato é que o Papacapim nasceu porque eu achava que tinha um buraquinho virtual que eu podia preencher. Na pior das hipóteses, pensei com meus botões, eu terei um registro on-line das minhas invenções, desocupando o espaço que elas ocupavam na minha mente.

Minhas aspirações eram tão modestas que levei alguns meses antes de começar a contar às pessoas ao meu redor que eu tinha um blog. Apesar de ter nascido em fevereiro de 2010 o blog se manteve secreto até o final de abril, início de maio. Por isso resolvi comemorar o aniversário do Papacapim nesse período do ano, que foi quando ele se tornou público.

Durante meses eu só tinha duas leitoras: minha irmã Lila e minha amiga Monalisa. Mas o prazer que eu sentia ao preparar os posts (criar as receitas, fotografá-las e escrever os textos) era tão grande que a falta de popularidade não me desencorajou e segui em frente, feliz da vida. Eu tinha arrumado meu lar virtual, preparava comida com todo o amor do mundo, colocava na mesa e esperava os convidados aparecerem. E aos poucos eles foram chegando. Pelos comentários que vocês fizeram, a maioria das pessoas chegou no blog procurando uma ou outra receita específica e acabou ficando porque , além de terem sido seduzidas pelas receitas, se encantaram com a conversa.

Ao mesmo tempo que a turma participando desse banquete virtual aumentava, fui explorando outros assuntos. Primeiro timidamente, com medo de algumas pessoas pensarem que, agora que eu tinha fisgado a atenção delas com receitas veganas, eu ia aproveitar a audiência conquistada e mudar de assunto. Pra minha grande felicidade ninguém reclamou. Assim a Palestina e o meu ativismo pelos direitos humanos entraram no blog e nunca mais saíram. A partir daí fiquei tão à vontade que tirei a roupa (metaforicamente). Abri meu coração várias vezes e descobri que tenho os melhores leitores que passeiam por essa world wide web.

Depois do nascimento do blog naquela noite de inverno palestino, mudei de casa (e país) duas vezes. Perdi a conta das atividades em que me envolvi (remuneradas ou não, mas todas lícitas, juro!). Meu ativismo se expandiu. Meus interesses se alargaram. Descobri novas paixões, novas lutas. Meu estilo de culinária evoluiu. Meu estilo de fotografia também evoluiu. E tudo isso ficou refletido aqui no blog. Posso abrir qualquer post, ao acaso, e ao lê-lo sei exatamente onde eu estava e como eu me sentia, as dificuldades e felicidades que povoavam minha vida naquele exato momento. O que era pra ser um blog de receitas veganas virou algo com um significado muito maior pra mim. É uma plataforma onde minhas três paixões (culinária vegetal, ativismo e escrever) se encontram. É onde eu reúno as coisas que são importantes pra mim e compartilho com quem quiser ouvir. Porque a mágica só acontece quando o que eu tenho pra dizer passa pro lado de lá da tela.

De vez em quando também acontece de algumas coisas passarem pro lado de CÁ da tela. Muitas pessoas que acompanham o blog me escreveram nesses cinco anos. Não caberia em um post todas as coisas lindas que elas me disseram. Muitas histórias me tocaram na alma e encheram meus olhos de lágrimas. Muitas me fizeram passar um dia inteiro com um sorriso de orelha à orelha e com o coração inchado de alegria. As pessoas que escrevem esses emails geralmente querem me agradecer pela inspiração, pela ajuda que encontraram no blog, pelas dicas que tiveram um impacto positivo na vida delas e pelas receitas que alegraram seus almoços de domingo. Algumas foram além da comida. Nunca esquecerei da enfermeira que me escreveu contando que só depois de ter começado a ler o meu blog tinha descoberto algo que até então estava totalmente ausente na sua profissão: que ‘alimentar’ também era uma parte fundamental do ‘cuidar’. Desde então a alimentação tinha adquirido uma outra dimensão e tinha se integrado aos cuidados que ela oferecia à mãe doente de câncer. Ou da jovem que me escreveu contando que depois de ter falado pros pais que era lésbica eles reagiram com violência verbal e física e enquanto ela atravessava esse inferno, meu blog tinha sido um refúgio pra ela e que “foi lendo o seu blog e suas histórias inspiradoras que eu achava forças para seguir em frente.” Então percebi que o blog tinha se transformado em algo muito maior do que uma coleção de receitas veganas.

A comida foi o ponto de partida da minha revolução pessoal. Primeiro me tornei vegana, depois abandonei o mestrado em Linguística pra me dedicar à culinária vegetal, em seguida me mudei pra Palestina e ajudei a criar um projeto de empoderamento pra mulheres refugiadas, criei o Papacapim… E a comida estava sempre no centro de tudo. Hoje, depois de ter passado vários anos na cozinha, meditando, transformando o meu alimento, criando, alimentando as pessoas que eu amo, afogando minhas mágoas, celebrando vitórias, relembrando, distribuindo amor com cada garfada, inspirando, compartilhando meus conhecimentos e ajudando a construindo um futuro melhor, me convenci de que cozinhar é um ato emancipador, empoderador e revolucionário. É uma maneira de resistir (à ocupação militar israelense, como as mulheres do campo estão fazendo, às doenças que atingem a população mundial e já causam mais morte do que a fome e a pobreza) e de lutar (por um mundo mais justo, por mais compaixão com os animais humanos e não humanos, contra a destruição do planeta, por uma vida mais vibrante e cheia de energia). Então comer é um ato político e cozinhar é um ato revolucionário, de resistência e empoderador.

E exatamente no mês em que o blog completou cinco anos recebi o email de uma leitora que foi o melhor presente que alguém poderia ter me oferecido. Violeta contou sua história de uma maneira lindíssima, cheia de humor e lirismo e me mostrou mais uma vez o poder transformador que cozinhar o seu próprio alimento tem. Esse email, que li no andar de cima de um daqueles ônibus típicos que tem aqui em Londres, no caminho do trabalho, me emocionou ao ponto de me fazer chorar. Duas vezes. Depois saí contando pros amigos, pra família e pra quem ia passando pela minha frente. Aquilo era lindo e inspirador demais, eu precisava dividir com o mundo! Então perguntei à Violeta se poderia publicar o email dela aqui e ela fez a gentileza de aceitar.

Oi, Sandra!

(ou [A] Papa, como eu gosto de chamar, quando tenho conversas imaginárias contigo ou quando falo pras pessoas que esse pão delicioso aí é receita da Papa e pra elas, por favor, entrarem no site pra poderem mudar a vida delas também)

[AVISO: conteúdo do texto altamente metafórico, a autora teima em achar que sabe filosofar (e pior ainda, poetisar!). Você foi avisada!]

 Apesar de tudo isso, eu só comentei no site duas vezes, há uns dois anos, acho. Você com certeza não se lembra, nem faz ideia de que QUASE botei a mochila nas costas e fui pra Natal no começo do ano, só pra poder te conhecer (e não aconteceu porque na época eu estava organizando uma mudança de casa envolvendo quatro cidades diferentes e não consegui terminar tudo a tempo de te [stalkear] conhecer)

Há muito tempo que fico procrastinando esse meu e-mail! Acho que a gente gosta muito de viver na terra da fantasia, de ficar só imaginando que “um dia vou mandar um email, e vai ser lindo, e vou chorar…) mas trazer as coisas pra vida real dói, dá medo e a gente vai deixando tudo nos braços de Morfeu.

Então hoje eu vim fazer uma visitinha no site e vi a notícia do Tour e falei, nossa, tem que mandar email pra saber mais. Pensei em deixar pra lá (MUITO provavelmente não tenho bufunfa suficiente pra ele, hello!, estudante universitária falando aqui!), mas dessa vez falei, NÃO! Vou mandar o email e vou falar, e vou jogar Morfeu pra escanteio! HA!

Sabe, querídissima Papa, o momento em que eu abri o seu Papacapim foi uma virada na minha vida. Eu não sabia, não tinha idéia, só queria fazer um blog, tive a ideia de chamar *papacapim*, fui ver se já existia, BANG!

(Pausa pra imaginar o poderoso punho do ativismo político-gastronômico me acertando no estômago!)

Aquele foi o momento que descobri: eu tinha vivido uma vida sem paixões. Nada. Eu me julgava tão bem informada, tão militante pelas minhas causas, tão íntegra e na verdade eu só era… chata. entediante. desapaixonada pelo mundo.

Não, eu não tinha me apaixonado pela vida e ficado decepcionada. Eu simplesmente tinha decidido, desde muito nova, que aquilo tudo era uma droga mesmo, e eu não queria nada com aquela realidade enquanto ela não fosse um pouco melhor. Então eu esperneava e lutava, desprezando o mundo, me mantendo longe dele, sem dar uma chance pra ser conquistada…. E quando viver numa torre de mármore doía demais, eu permitia um affair, um caso de alegria e prazer com a vida, vivido nas sombras da noite, amando ilicitamente essa coisa sem nome, linda demais, que é viver. E então me repudiava, me maltratava, sendo fora-da-lei e carrasco no mesmo corpo. Eu tinha sim, paixões!, dizia a mim mesma. Era a mais apaixonada das criaturas, navegando numa cruzada contra o mundo! Isso sim era paixão nobre, merecedora! Não tinha tempo a perder com bobagens!

Tola criança!

Vivia uma vida cinza e sem prazer, me vangloriando disso – e, horror dos horrores, desejando o mesmo para todo o mundo!

Então, exatamente como qualquer comédia-romântica-hollywoodiana-com-mulher-séria-profissional-que-desconhece-o-amor-e-se-apaixona-sem-querer-numa-aventura-cheia-de-diversão-na-sua-Sessão-da-Tarde!, em alguns momentos, mal sabia eu, a vida me seduziu, e o caminho não teve volta.

E foi no seu site. E foi porque você decidiu compartilhar todo o amor que tem por viver com o mundo inteiro. E foi porque você colocou alma nas suas receitas, suas palavras, porque você salgou seus quitutes com lágrimas, adoçou com cafuné, temperou com risos. Como casais sempre vão se lembrar do primeiro encontro, eu sempre vou me lembrar daqueles primeiros dias, quando aquela coisa maravilhosa tomou conta de mim, quando eu acordava sorrindo pensando em aveia dormida, e ia dormir pra sonhar que rolava na feira abraçada com uma melancia. Pra mim, foi onde tudo começou de verdade.

Ah, eu vivia a mais maravilhosa Lua de Mel de Ágave com o mundo!

Me apaixonar pela comida foi só o primeiro affair dessa festa swing loucona que ando vivendo desde então. Em dois meses, dei um pé na bunda da minha cidade quente, poeirenta e elitista; pé na estrada, fui viajar um pouquinho – que virou um poucão e, um mês depois, fui parar em Natal!

É um filme lindimais, o tal Forrest Gump – e só faço arrepiar toda vez que vejo aquela menininha, tão pequena, com os joelhos na terra, olhar pro alto e sussurrar: “Dear God, make me a bird, so I can fly far far away from here”. Queria asas. Todos queremos nossas asas.

E foi naquela viagem pra Natal que dei meus primeiros voos. A minha professora podia não estar ali, mas aquele lugar falou comigo. A liberdade que encontrei ali sussurrou e encontrou seu caminho pra dentro dos meus ossos, de pássaro agora.

Um mês depois, estava morando na minha casa nova, no interior de Minas dessa vez. Nossa, como vivi! Trazia gente querida pra casa, fazia sanduíches de hommus, lasanha de berinjela e vitamina de banana e aveia. Fiz piqueniques de falafel no parque, enquanto lia sobre a necessidade de sermos humanos, mamíferos pulsantes, ao invés de homens de lata. Escrevi poesia enquanto tomava sopa cremosa com lentilhas. Eu não precisava me reinventar. Eu precisava me inventar!

Em dias menos gloriosos, comi pão com feijão re-amanhecido várias vezes na geladeira, cremosíssimo, cheio de pimenta e alegria, como se comesse um banquete. Em dias menos gloriosos ainda, miojo com gengibre, tomate e shoyo, imaginando um yakissoba todo colorido. Cada item da minha cozinha era um tesouro à parte, cheio de receitas para sussurrarem nos meus ouvidos famintos de ideias.

Cantei recolher cada bago do trigo/forjar no trigo o milagre do pão/e se fartar de pão para cada bola de massa que botava pra dormir, amando cada dia mais o pão nosso de cada dia.

E, quando o ano terminou de novo, com a mochila nas costas e esse caso de amor – agora incurável – pela vida, fui viajar. Na beira do asfalto, pedindo bondade e alguns quilômetros a mais para todos que passavam, aprendi tantas outras coisas, que a comida não poderia me ensinar, mas que só o alimento pôde sustentar. Muitas vezes, esse alimento era água e banana. Mas ah, as coisas que vi! Amei o calor, o suor, o frio, a fome, a barriga cheia demais, o céu nublado e as estrelas. Odiei também. E senti medo. Muito medo. Daí fiquei viva.

Andei descalça. Aprendi que eu era bicho também. Esqueci e tive que aprender de novo. Desaprendi mais do que aprendi, porque ficar vazia é tão mais interessante às vezes.

E agora, a viagem acabou, outras coisas surgem. Como aplicar tudo isso nessa vida louca de cidade grande que levo agora? Morar na capital é lindo, e essa roça grande de Belzônti é deliciosa, mas cadê essa vida linda? E ser bicho? E cadê minha lasanha de berinjela quando fico 12, 14 horas fora de casa todo dia? E as sopas demoradas? Os mingaus? E quando é preciso pegar ônibus pra poder fazer piquenique no parque?

Como ser mamífero num ambiente que me ensina todos os dias a sermos homens de lata? Pior ainda, como tratar de outras gentes, conhecendo-as humanas, mamíferas, quando nos pedem o tempo inteiro para sabê-las apenas como átomos, células, tecidos, cânceres e nos dizem que suas histórias só nos servem se forem histórico clínico? Suas dores de nada nos interessam se não forem físicas, seus sofrimentos devem ser tratados apenas com cartelinhas mágicas, não com palavras e abraços reais. Como lutar contra isso sem precisar guerrear?

Não tenho resposta para nada disso ainda. Mas agora já aprendi a me inventar. Me empoderei. Preparo minha vida com carinho e banho-maria. E tudo, tudo isso começou aqui, nesse seu site lindo, com suas aulas de vida disfarçadas de culinária. Porque preparar o próprio alimento não é simplesmente picar, aquecer, salgar. É dizer que somos poderosos o suficiente para escolhermos o que entra na nossa vida, na nossa alma, em nosso corpo.

Porque cozinhar é poder.

Obrigada, querida Sandra, por me apontar esse caminho.

 Amor e chá com biscoitos,

Violeta Braga.

Eu é que te agradeço, Violeta. Obrigada a todos vocês por estarem aqui. Obrigada por voltarem sempre, deixarem comentários, me enviarem emails. Obrigada pelo apoio, por me deixarem entrar em suas casas com minhas histórias e receitas. Por me convidarem pra mesa de vocês. Pelo carinho e por me inspirarem e me encorajarem a continuar com o blog. Bendita a noite em que eu criei o Papacapim! Graças ao blog e à comida que eu crio entrei em contato com pessoas incríveis e fiz amigos maravilhosos. A minha gratidão será eterna. Talvez ele tenha inspirado e transformado a vida de várias pessoas, mas podem ter certeza que a maior transformação de todas aconteceu do lado de cá.

PS Estou pensando seriamente em imprimir em uma camiseta a frase “Cozinhar é poder.” E de substituir “Eu te amo” por “Você é o tahine do meu hummus” (uma versão romântica de outra frase ótima que Violeta me mandou:)