A vida está cada vez melhor por essas bandas. Faz dois meses e meio que me mudei pra Londres e só agora comecei a sentir a poeira da mudança baixar e ver uma certa rotina surgir. Já não aguentava mais carregar minha mala pelos metrôs londrinos. Felizmente acabei sendo acolhida por um grande amigo inglês da minha avó francesa (essa avó eu adotei quando era estudante universitária em Paris), que conheci 8 anos atrás, quando me ofereci pra traduzir pro Francês o livro que ele estava escrevendo. Andrew era pastor da igreja protestante e há décadas escreve um livro, em quadrinhos, pra explicar o que na opinião dele é a verdadeira mensagem de Jesus. Pra ele Jesus queria fazer uma revolução de classes e não estava nem um pouco interessado em religião. Adorei o projeto e aceitei traduzir parte dele. Quando me mudei pra Palestina abandonei a tradução por falta de tempo e hoje é a minha avó que cuida da versão francesa da obra de Andrew, que tem vários volumes.

Poucos dias depois de ter chegado aqui minha avó veio nos visitar. Ela ficou hospedada na casa de Andrew e uma noite fui jantar com eles. Andrew tinha preparado um cuscuz marroquino vegano pra nós e passamos a noite conversando sobre a Palestina, os livros dele e a dificuldade de encontrar aluguéis baratos em Londres.

Dias depois desse jantar me vi sentada no chão do quarto que eu tinha alugado por um mês, depois de uma semana de busca intensa por um teto londrino, cada vez mais chocada com o preços dos aluguéis nessa cidade e preocupadíssima com o fato de não estar ganhando dinheiro suficiente pra alugar nem o armário sob a escada onde Harry Potter dormia (eu estava trabalhando só dois dias por semana), quando bateu uma angústia profunda. Eu teria que sair daquela casa dali a poucos dias e ainda não tinha encontrado um novo lar e mesmo se tivesse encontrado, eu não teria dinheiro pra pagar o aluguel. Então senti muito medo e chorei. Mas depois de alguns minutos paralisada pelo medo, meu cérebro foi voltando a funcionar aos pouquinhos. Eu não ia ficar na rua. Tinha pelo menos um sofá amigo à minha disposição. Eu ia conseguir mais trabalho. Na pior das hipóteses eu tinha a quem pedir apoio (financeiro e emocional). Tudo ia dar certo. Então sequei as lágrimas e fui caminhar no parque do lado de casa. Acho que rolou até um suco verde no caminho de volta e dois dedos de prosa com o vendedor da loja de orgânicos da esquina.

No dia seguinte encontrei uma mensagem de Andrew no meu celular me convidando pra morar na casa dele. Um dos quartos da casa, que acolhia um amigo de passagem pela cidade, tinha acabado de ser desocupado. Liguei pra ele pra ter certeza que tinha entendido certo. Sim, o quarto era meu, se eu quisesse. Não, não precisava pagar nada. Nem sequer ajudar com as contas de água e luz. Eu podia me mudar no dia seguinte. Então dei vários pinotes de alegria e até hoje ando por aí com o peito transbordando gratidão, com uma vontade danada de mandar flores pro delegado, de bater na porta do vizinho e desejar bom dia, de beijar o português da padaria…

E foi assim que eu vim parar nessa casa. Andrew tem 73 anos e ficou viúvo dois anos atrás. Hoje ele mora com duas filhas (ele tem quatro filhos ao todo) e Dani, seu fiel companheiro de quatro patas, que sempre quando eu abro a porta me recebe como se eu fosse um dos Beatles. As meninas quase nunca param em casa e dormem muito na casa da terceira irmã, que acabou de ter bebê. Eu também passo pouco tempo aqui, já que agora trabalho todos os dias (alguns dias trabalho 10, 12 horas seguidas). Então nos encontramos à noite e na maior parte do tempo jantamos só nós dois, com Dani deitado embaixo da mesa. Andrew se sente muito sozinho depois de ter perdido a esposa e como os filhos passam cada vez menos tempo com ele, sinto que ele aprecia muito a minha companhia.

Sempre gostei muito de conversar com pessoas mais velhas e aprendo imensamente com essas interações. Outro dia Andrew me disse “Sabe, agora que estou velho descobri porque meu pai, no final da vida, e meu avó me irritavam tanto. Quando a gente fica velho pode continuar fazendo tudo que fazíamos antes, mas precisamos de muito mais tempo. Tudo fica mais lento e ainda não me acostumei com a minha recém adquirida lentidão. Agora as coisas mais banais exigem um esforço imenso, fico cansado tão facilmente. E hoje eu vejo a irritação no rosto dos meus filhos, a falta de paciência comigo. A mesma irritação e falta de paciência que eu sentia com o meu velho pai.”  Isso me partiu o coração, pois me fez lembrar que também sou culpada dessa falta de paciência com os meus pais. Contei pra ele que sempre que vejo um idoso caminhar lentamente e com dificuldade na rua fico ligeiramente constrangida de poder caminhar tão rápido e de passar por ele a toda velocidade. Então diminuo o ritmo e passo lentamente do lado do idoso, na esperança de não fazer com que ele se sinta diminuído pelo vigor que a juventude me dá. Ele riu e disse que eu não devia me sentir constrangida nessas situações e que eu provavelmente não faria o idoso se sentir melhor ao igualar o meu passo com o dele. E tenho certeza que ele está certo. Acho que ao invés de dar a impressão ao idoso de estar caminhando mais rápido, ele deve pensar: “Tadinha dessa moça. Tão jovem e já com problemas nas pernas”.

Andrew tem uma voz de trovão, uma farta barba branca e uma presença que ocupa todo o cômodo, mesmo agora que a saúde começou a dar sinais de fraqueza.  Ele me conta histórias sobre Jesus e os apóstolos, mas de acordo com a sua interpretação. Tudo que ele me fala é interessante e às vezes hilário. Adoro quando ele me explica, com a ajuda de passagens da Bíblia, que Jesus era um anarquista. Imagino a graça que seria oferecer essas lições às crianças da Escola Dominical. Morar em uma casa onde a rede wi-fi se chama “Jesus era um revolucionário” e a senha é “Deus dos marginais” não tem preço.

Meu quarto é bem pequeno e pela primeira vez desde que saí da casa da minha família em Natal, 13 anos atrás, durmo em uma cama de solteiro. Acho que o fato de morar com alguém muito mais velho que eu, dormir em uma cama de solteiro e passar todo o meu tempo em casa dentro do quarto (na sala tem uma televisão e poucas coisas me irritam mais do que esse aparelho) faz com que eu me sinta adolescente novamente. Depois de jantar com Andrew eu lavo a louça, dou um beijo naquele rosto barbudo, outro no ser peludo e saltitante que insiste em se instalar na minha cama quando não estou olhando, e subo por meu quarto. A jornada de uma cozinheira é pesada, principalmente quando passo o dia inteiro trabalhando, e caio na cama exausta. Mas eu sou uma daquelas pessoas que mesmo com o corpo moído e esgotado não conseguem achar o pitoco pra desligar a cabeça. Então gosto de ler na cama e a minha mesa de cabeceira abriga uma coleção pra lá de eclética. No momento tem: ‘A mulher independente’ de Simone de Beauvoir, um livro sobre poliamor chamado ‘The Ethical Slut’, dois livros de Andrew- ‘A Bíblia como Política’ e ‘Deus dos marginais’-, um livro chamado ‘Equal Rites’, recomendado por uma leitora, quatro livros de culinária, uma revista francesa feminista, uma revista inglesa vegana, um livreto sobre a conexão entre capitalismo, comunismo e liberação animal… Mas atualmente tenho um novo ritual na hora de dormir. Estou viciada em um podcast inglês chamado ‘Philosophy Bites’ e gosto de colocar os headphones, apagar a luz e escutar filósofos discutindo Platão, responsabilidade moral e estereótipo implícito.

Então a vida está cada vez melhor por aqui. Tenho um lar, doce, lar (e a cozinha oferece uma viagem aos anos 70), moro com gente maravilhosa, adoro o meu trabalho, o volume de trabalho aumentou consideravelmente, o verão está chegando e a cidade está cada vez mais agradável. Só sinto falta de cozinhar mais. Claro que cozinho o tempo todo no trabalho, mas sinto falta de cozinhar fora dele. Faço comida aqui em casa regularmente e como estou morando com onívoros não posso contar com o que eles preparam pra me alimentar. Mas o tempo é curto e o cansaço é grande, então preparo coisas muitos simples, como feijão (de todas as cores), muita couve do tipo kale, sopas, papa de aveia… Nada que já não tenha aparecido aqui no blog.

Porém semana passada fui invadida por uma vontade aguda de comer dal e como aqui tem uma população indiana e cingalesa grande é fácil encontrar especiarias e lentilha coral em qualquer mercearia. Na esquina do meu prédio tem uma mercearia de um simpático casal do Sri Lanka e em poucos minutos eu estava com todos os ingredientes pra preparar o meu dal. Então me dei conta que nunca tinha publicado uma receita de dal aqui no blog. É de uma simplicidade imensa, mas é uma das receitas que sempre faço quando preciso de algo nutritivo, que vai me alimentar durante horas e que fica pronto em pouco tempo.

Tradicionalmente a mistura de especiarias usada nessa receita (garam masala) é feita da seguinte maneira. As especiarias inteiras (não em pó) são tostadas em uma frigideira seca até começarem a soltar seus aromas. Depois elas são piladas até a mistura virar um pó relativamente fino. Isso é feito enquanto você preparar o prato, na quantidade que você precisar pra receita. Depois de moídas, especiarias vão perdendo o aroma com o tempo, por isso é melhor moer na hora em que você for usar, em pequenas quantidades, pra desfrutar do melhor que elas têm pra oferecer. Eu geralmente faço isso quando preparo pratos indianos, mas como expliquei mais acima, esse dal é uma das receitas que faço quando não tenho muito tempo e preciso de algo robusto e nutritivo. Por isso uso especiarias em pó, pra ir mais rápido. Mas é importante tostá-las no óleo de coco pra intensificar o aroma e o sabor.

Eu tenho um grande amigo francês que faz um dal delicioso. A gente se conheceu na Palestina e ele sempre preparava esse prato quando me chamava pra jantar na casa dele. A receita original usava manteiga, mas meu amigo veganaziva o seu dal substituindo esse ingrediente por margarina. Por mais que eu gostasse daquele dal quem leu esse post sabe que eu considero margarina o condimento do demônio (imaginando, claro, que ele existe e que parte do seu plano diabólico pra destruir os humanos é preparar condimentos pra gente. Suspeito que ele esteja por trás do glutamato monossódico também.). Então sempre pensava que deveria ter uma maneira mais saudável e gostosa de veganizar a receita do meu amigo.

A manteiga entra no dal pra dar cremosidade e untuosidade ao prato. Muita gente acredita que margarina é um bom substituto vegetal, e talvez o único, pra esse ingrediente. Mas além de ser criação do coisa ruim, como expliquei no famoso post, as qualidades gustativas e culinárias da margarina deixam muito a desejar. Manteiga é uma gordura saturada, por isso é sólida em temperatura ambiente. Margarina é composta de óleos vegetais (hidrogenados ou interestificados) e é composta basicamente de gordura insaturada. Por isso não oferece a mesma untuosidade, nem se comporta da mesma maneira em massas folhadas etc. Por muito tempo fiz dal só com azeite, mas nunca fiquei totalmente satisfeita com o resultado. Então lembrei que tem um óleo vegetal rico em gordura saturada (aquele outro tipo de gordura saturada que faz bem) e que por isso oferece as mesmas propriedades culinárias da manteiga: óleo de coco virgem. Claro que o sabor não tem nada a ver com o sabor da manteiga, mas nessa receita o suave aroma de coco casa perfeitamente bem com o resto dos ingredientes. Nasceu o dal dos meus sonhos, vegano, ultra cremoso e delicioso.

 Como eu disse, a vida está ficando cada vez melhor por aqui.

 dal

 Dal

Duas coisas importantes nessa receita: a lentilha tem que ser coral (ela se desfaz depois de cozida, dando a consistência típica do dal) e o óleo tem que ser de coco e virgem. Expliquei o porquê do óleo no texto acima. Também expliquei porque usei especiarias em pó e não o método tradicional pra fazer ‘garam masala’. Então não deixe de ler o texto pra entender melhor a receita. Uma observação sobre óleo de coco virgem: como ele se solidifica quando a temperatura esfria, dependendo do frio/calor que estiver fazendo onde você mora o seu óleo estará líquido ou sólido. Isso pode gerar confusão na hora de medir as colheradas, pois quando medimos uma colher de sopa do óleo solidificado a quantidade é geralmente maior do que se ele estivesse líquido. Por isso na receita abaixo indiquei as medidas do óleo líquido e sólido.  E se você ainda tem medo da gordura do coco, leia esse post.

 250g de lentilha coral

1 folha de louro

1 cebola grande

4-6 dentes de alho grandes

1/2 polegar de gengibre fresco (opcional)

1cc rasa de cominho em pó

1cc rasa de semente de coentro em pó

1/2cc de cúrcuma

1/2cc de canela

1 pitada de cravo em pó (opcional)

1 pitada de cardamomo em pó (opcional)

óleo de coco virgem

Sal a gosto

 

Despeje as lentilhas em uma panela média e cubra com água fria. A quantidade de água necessária vai variar um pouco, pois quanto mais velha a lentilha, mais água você vai precisar e maior o tempo de cozimento. Comece com 1 parte de lentilha pra 3 partes de água e acrescente mais água durante o cozimento, se for necessário. Junte o louro e punhadinho de sal e leve ao fogo alto. Assim que começar a ferver baixe o fogo e cozinhe até a lentilha se desintegrar completamente e se transformar em uma sopa espessa.

Enquanto a lentilha cozinha, pique a cebola e o alho e rale o gengibre. Aqueça 2cs de óleo de coco líquido (1cs cheia se ele estiver sólido) e doure a cebola. Junte o alho e o gengibre (se estiver usando) e deixe cozinhar por mais 30 segundos. Junte todas as especiarias e toste, mexendo com uma colher de pau, até elas começarem a liberar um aroma intenso (isso só leva uns 15-20 segundos). Despeje a lentilha cozinha e mexa bem. Deixe cozinhar mais 5 minutos em fogo baixo, pra lentilha absorver bem os temperos e encorpar mais um pouco. Junte 2 cs de óleo de coco virgem (se ele estiver líquido. Ou 1 cs bem cheia do óleo solidificado) e misture bem. O dal tem que ficar bem cremoso e rico, então não tenha medo de juntar mais um pouquinho de óleo de coco se achar necessário. Prove e corrija o sal.

Sirva acompanhado de arroz basmati, ou sozinho. Rende 4 porções (se servido junto com arroz e alguma verdura) ou 2 porções como prato único. O dal pode ser conservado por vários dias na geladeira (o frio vai deixá-lo mais espesso, então acrescente um pouco d’água na hora de esquentar) e também pode ser congelado.

Esse blog nasceu na Palestina, cinco anos atrás, no inverno. Fazia meses que eu dizia querer começar um blog, sem nunca colocar a ideia em prática. Anne insistia que a ideia era boa, que minhas receitas eram boas, que a minha escrita era boa… Mas no fundo uma voz me dizia: ‘Quem vai querer ler o que você tem pra dizer?’, então eu tratava de me ocupar com outras coisas e desistia do blog. Até que nesse famoso inverno Anne foi pra Gaza e eu fiquei em Belém. Uma noite eu perdi o sono e, sozinha na sala da minha linda casa de pedra, a dois passos da igreja da Natividade (onde Jesus nasceu), criei o Papacapim.

Meu objetivo era, como está escrito lá em cima, desmistificar a culinária vegetal. Eu queria mostrar que veganos não comem só folhas, que comida vegetal pode ser extremamente interessante, variada, acessível, saborosa e capaz de seduzir até onívoros. Os blogs veganos em Português que cruzaram o meu caminho nessa época ofereciam receitas que agradariam a Sandra de 15 anos, se eu tivesse me tornado vegana durante a adolescência. Acabei percebendo que isso faz sentido, já que muitas pessoas se tornam veganas no final da adolescência e nessa fase geralmente temos uma quedinha por junk food (por isso via tanta receita de coxinha, bolo de caneca e estrogonofe de proteína texturizada de soja). Mas aos 26, com um paladar adulto e mais exigente, eu queria comida de verdade, cheia de vegetais, com sabores mais intrigantes e mais sofisticados. Talvez eu não tenha procurado direito, talvez as receitas que apareciam na minha cozinha já estavam sendo publicadas em outros blogs brasileiros, mas o fato é que o Papacapim nasceu porque eu achava que tinha um buraquinho virtual que eu podia preencher. Na pior das hipóteses, pensei com meus botões, eu terei um registro on-line das minhas invenções, desocupando o espaço que elas ocupavam na minha mente.

Minhas aspirações eram tão modestas que levei alguns meses antes de começar a contar às pessoas ao meu redor que eu tinha um blog. Apesar de ter nascido em fevereiro de 2010 o blog se manteve secreto até o final de abril, início de maio. Por isso resolvi comemorar o aniversário do Papacapim nesse período do ano, que foi quando ele se tornou público.

Durante meses eu só tinha duas leitoras: minha irmã Lila e minha amiga Monalisa. Mas o prazer que eu sentia ao preparar os posts (criar as receitas, fotografá-las e escrever os textos) era tão grande que a falta de popularidade não me desencorajou e segui em frente, feliz da vida. Eu tinha arrumado meu lar virtual, preparava comida com todo o amor do mundo, colocava na mesa e esperava os convidados aparecerem. E aos poucos eles foram chegando. Pelos comentários que vocês fizeram, a maioria das pessoas chegou no blog procurando uma ou outra receita específica e acabou ficando porque , além de terem sido seduzidas pelas receitas, se encantaram com a conversa.

Ao mesmo tempo que a turma participando desse banquete virtual aumentava, fui explorando outros assuntos. Primeiro timidamente, com medo de algumas pessoas pensarem que, agora que eu tinha fisgado a atenção delas com receitas veganas, eu ia aproveitar a audiência conquistada e mudar de assunto. Pra minha grande felicidade ninguém reclamou. Assim a Palestina e o meu ativismo pelos direitos humanos entraram no blog e nunca mais saíram. A partir daí fiquei tão à vontade que tirei a roupa (metaforicamente). Abri meu coração várias vezes e descobri que tenho os melhores leitores que passeiam por essa world wide web.

Depois do nascimento do blog naquela noite de inverno palestino, mudei de casa (e país) duas vezes. Perdi a conta das atividades em que me envolvi (remuneradas ou não, mas todas lícitas, juro!). Meu ativismo se expandiu. Meus interesses se alargaram. Descobri novas paixões, novas lutas. Meu estilo de culinária evoluiu. Meu estilo de fotografia também evoluiu. E tudo isso ficou refletido aqui no blog. Posso abrir qualquer post, ao acaso, e ao lê-lo sei exatamente onde eu estava e como eu me sentia, as dificuldades e felicidades que povoavam minha vida naquele exato momento. O que era pra ser um blog de receitas veganas virou algo com um significado muito maior pra mim. É uma plataforma onde minhas três paixões (culinária vegetal, ativismo e escrever) se encontram. É onde eu reúno as coisas que são importantes pra mim e compartilho com quem quiser ouvir. Porque a mágica só acontece quando o que eu tenho pra dizer passa pro lado de lá da tela.

De vez em quando também acontece de algumas coisas passarem pro lado de CÁ da tela. Muitas pessoas que acompanham o blog me escreveram nesses cinco anos. Não caberia em um post todas as coisas lindas que elas me disseram. Muitas histórias me tocaram na alma e encheram meus olhos de lágrimas. Muitas me fizeram passar um dia inteiro com um sorriso de orelha à orelha e com o coração inchado de alegria. As pessoas que escrevem esses emails geralmente querem me agradecer pela inspiração, pela ajuda que encontraram no blog, pelas dicas que tiveram um impacto positivo na vida delas e pelas receitas que alegraram seus almoços de domingo. Algumas foram além da comida. Nunca esquecerei da enfermeira que me escreveu contando que só depois de ter começado a ler o meu blog tinha descoberto algo que até então estava totalmente ausente na sua profissão: que ‘alimentar’ também era uma parte fundamental do ‘cuidar’. Desde então a alimentação tinha adquirido uma outra dimensão e tinha se integrado aos cuidados que ela oferecia à mãe doente de câncer. Ou da jovem que me escreveu contando que depois de ter falado pros pais que era lésbica eles reagiram com violência verbal e física e enquanto ela atravessava esse inferno, meu blog tinha sido um refúgio pra ela e que “foi lendo o seu blog e suas histórias inspiradoras que eu achava forças para seguir em frente.” Então percebi que o blog tinha se transformado em algo muito maior do que uma coleção de receitas veganas.

A comida foi o ponto de partida da minha revolução pessoal. Primeiro me tornei vegana, depois abandonei o mestrado em Linguística pra me dedicar à culinária vegetal, em seguida me mudei pra Palestina e ajudei a criar um projeto de empoderamento pra mulheres refugiadas, criei o Papacapim… E a comida estava sempre no centro de tudo. Hoje, depois de ter passado vários anos na cozinha, meditando, transformando o meu alimento, criando, alimentando as pessoas que eu amo, afogando minhas mágoas, celebrando vitórias, relembrando, distribuindo amor com cada garfada, inspirando, compartilhando meus conhecimentos e ajudando a construindo um futuro melhor, me convenci de que cozinhar é um ato emancipador, empoderador e revolucionário. É uma maneira de resistir (à ocupação militar israelense, como as mulheres do campo estão fazendo, às doenças que atingem a população mundial e já causam mais morte do que a fome e a pobreza) e de lutar (por um mundo mais justo, por mais compaixão com os animais humanos e não humanos, contra a destruição do planeta, por uma vida mais vibrante e cheia de energia). Então comer é um ato político e cozinhar é um ato revolucionário, de resistência e empoderador.

E exatamente no mês em que o blog completou cinco anos recebi o email de uma leitora que foi o melhor presente que alguém poderia ter me oferecido. Violeta contou sua história de uma maneira lindíssima, cheia de humor e lirismo e me mostrou mais uma vez o poder transformador que cozinhar o seu próprio alimento tem. Esse email, que li no andar de cima de um daqueles ônibus típicos que tem aqui em Londres, no caminho do trabalho, me emocionou ao ponto de me fazer chorar. Duas vezes. Depois saí contando pros amigos, pra família e pra quem ia passando pela minha frente. Aquilo era lindo e inspirador demais, eu precisava dividir com o mundo! Então perguntei à Violeta se poderia publicar o email dela aqui e ela fez a gentileza de aceitar.

Oi, Sandra!

(ou [A] Papa, como eu gosto de chamar, quando tenho conversas imaginárias contigo ou quando falo pras pessoas que esse pão delicioso aí é receita da Papa e pra elas, por favor, entrarem no site pra poderem mudar a vida delas também)

[AVISO: conteúdo do texto altamente metafórico, a autora teima em achar que sabe filosofar (e pior ainda, poetisar!). Você foi avisada!]

 Apesar de tudo isso, eu só comentei no site duas vezes, há uns dois anos, acho. Você com certeza não se lembra, nem faz ideia de que QUASE botei a mochila nas costas e fui pra Natal no começo do ano, só pra poder te conhecer (e não aconteceu porque na época eu estava organizando uma mudança de casa envolvendo quatro cidades diferentes e não consegui terminar tudo a tempo de te [stalkear] conhecer)

Há muito tempo que fico procrastinando esse meu e-mail! Acho que a gente gosta muito de viver na terra da fantasia, de ficar só imaginando que “um dia vou mandar um email, e vai ser lindo, e vou chorar…) mas trazer as coisas pra vida real dói, dá medo e a gente vai deixando tudo nos braços de Morfeu.

Então hoje eu vim fazer uma visitinha no site e vi a notícia do Tour e falei, nossa, tem que mandar email pra saber mais. Pensei em deixar pra lá (MUITO provavelmente não tenho bufunfa suficiente pra ele, hello!, estudante universitária falando aqui!), mas dessa vez falei, NÃO! Vou mandar o email e vou falar, e vou jogar Morfeu pra escanteio! HA!

Sabe, querídissima Papa, o momento em que eu abri o seu Papacapim foi uma virada na minha vida. Eu não sabia, não tinha idéia, só queria fazer um blog, tive a ideia de chamar *papacapim*, fui ver se já existia, BANG!

(Pausa pra imaginar o poderoso punho do ativismo político-gastronômico me acertando no estômago!)

Aquele foi o momento que descobri: eu tinha vivido uma vida sem paixões. Nada. Eu me julgava tão bem informada, tão militante pelas minhas causas, tão íntegra e na verdade eu só era… chata. entediante. desapaixonada pelo mundo.

Não, eu não tinha me apaixonado pela vida e ficado decepcionada. Eu simplesmente tinha decidido, desde muito nova, que aquilo tudo era uma droga mesmo, e eu não queria nada com aquela realidade enquanto ela não fosse um pouco melhor. Então eu esperneava e lutava, desprezando o mundo, me mantendo longe dele, sem dar uma chance pra ser conquistada…. E quando viver numa torre de mármore doía demais, eu permitia um affair, um caso de alegria e prazer com a vida, vivido nas sombras da noite, amando ilicitamente essa coisa sem nome, linda demais, que é viver. E então me repudiava, me maltratava, sendo fora-da-lei e carrasco no mesmo corpo. Eu tinha sim, paixões!, dizia a mim mesma. Era a mais apaixonada das criaturas, navegando numa cruzada contra o mundo! Isso sim era paixão nobre, merecedora! Não tinha tempo a perder com bobagens!

Tola criança!

Vivia uma vida cinza e sem prazer, me vangloriando disso – e, horror dos horrores, desejando o mesmo para todo o mundo!

Então, exatamente como qualquer comédia-romântica-hollywoodiana-com-mulher-séria-profissional-que-desconhece-o-amor-e-se-apaixona-sem-querer-numa-aventura-cheia-de-diversão-na-sua-Sessão-da-Tarde!, em alguns momentos, mal sabia eu, a vida me seduziu, e o caminho não teve volta.

E foi no seu site. E foi porque você decidiu compartilhar todo o amor que tem por viver com o mundo inteiro. E foi porque você colocou alma nas suas receitas, suas palavras, porque você salgou seus quitutes com lágrimas, adoçou com cafuné, temperou com risos. Como casais sempre vão se lembrar do primeiro encontro, eu sempre vou me lembrar daqueles primeiros dias, quando aquela coisa maravilhosa tomou conta de mim, quando eu acordava sorrindo pensando em aveia dormida, e ia dormir pra sonhar que rolava na feira abraçada com uma melancia. Pra mim, foi onde tudo começou de verdade.

Ah, eu vivia a mais maravilhosa Lua de Mel de Ágave com o mundo!

Me apaixonar pela comida foi só o primeiro affair dessa festa swing loucona que ando vivendo desde então. Em dois meses, dei um pé na bunda da minha cidade quente, poeirenta e elitista; pé na estrada, fui viajar um pouquinho – que virou um poucão e, um mês depois, fui parar em Natal!

É um filme lindimais, o tal Forrest Gump – e só faço arrepiar toda vez que vejo aquela menininha, tão pequena, com os joelhos na terra, olhar pro alto e sussurrar: “Dear God, make me a bird, so I can fly far far away from here”. Queria asas. Todos queremos nossas asas.

E foi naquela viagem pra Natal que dei meus primeiros voos. A minha professora podia não estar ali, mas aquele lugar falou comigo. A liberdade que encontrei ali sussurrou e encontrou seu caminho pra dentro dos meus ossos, de pássaro agora.

Um mês depois, estava morando na minha casa nova, no interior de Minas dessa vez. Nossa, como vivi! Trazia gente querida pra casa, fazia sanduíches de hommus, lasanha de berinjela e vitamina de banana e aveia. Fiz piqueniques de falafel no parque, enquanto lia sobre a necessidade de sermos humanos, mamíferos pulsantes, ao invés de homens de lata. Escrevi poesia enquanto tomava sopa cremosa com lentilhas. Eu não precisava me reinventar. Eu precisava me inventar!

Em dias menos gloriosos, comi pão com feijão re-amanhecido várias vezes na geladeira, cremosíssimo, cheio de pimenta e alegria, como se comesse um banquete. Em dias menos gloriosos ainda, miojo com gengibre, tomate e shoyo, imaginando um yakissoba todo colorido. Cada item da minha cozinha era um tesouro à parte, cheio de receitas para sussurrarem nos meus ouvidos famintos de ideias.

Cantei recolher cada bago do trigo/forjar no trigo o milagre do pão/e se fartar de pão para cada bola de massa que botava pra dormir, amando cada dia mais o pão nosso de cada dia.

E, quando o ano terminou de novo, com a mochila nas costas e esse caso de amor – agora incurável – pela vida, fui viajar. Na beira do asfalto, pedindo bondade e alguns quilômetros a mais para todos que passavam, aprendi tantas outras coisas, que a comida não poderia me ensinar, mas que só o alimento pôde sustentar. Muitas vezes, esse alimento era água e banana. Mas ah, as coisas que vi! Amei o calor, o suor, o frio, a fome, a barriga cheia demais, o céu nublado e as estrelas. Odiei também. E senti medo. Muito medo. Daí fiquei viva.

Andei descalça. Aprendi que eu era bicho também. Esqueci e tive que aprender de novo. Desaprendi mais do que aprendi, porque ficar vazia é tão mais interessante às vezes.

E agora, a viagem acabou, outras coisas surgem. Como aplicar tudo isso nessa vida louca de cidade grande que levo agora? Morar na capital é lindo, e essa roça grande de Belzônti é deliciosa, mas cadê essa vida linda? E ser bicho? E cadê minha lasanha de berinjela quando fico 12, 14 horas fora de casa todo dia? E as sopas demoradas? Os mingaus? E quando é preciso pegar ônibus pra poder fazer piquenique no parque?

Como ser mamífero num ambiente que me ensina todos os dias a sermos homens de lata? Pior ainda, como tratar de outras gentes, conhecendo-as humanas, mamíferas, quando nos pedem o tempo inteiro para sabê-las apenas como átomos, células, tecidos, cânceres e nos dizem que suas histórias só nos servem se forem histórico clínico? Suas dores de nada nos interessam se não forem físicas, seus sofrimentos devem ser tratados apenas com cartelinhas mágicas, não com palavras e abraços reais. Como lutar contra isso sem precisar guerrear?

Não tenho resposta para nada disso ainda. Mas agora já aprendi a me inventar. Me empoderei. Preparo minha vida com carinho e banho-maria. E tudo, tudo isso começou aqui, nesse seu site lindo, com suas aulas de vida disfarçadas de culinária. Porque preparar o próprio alimento não é simplesmente picar, aquecer, salgar. É dizer que somos poderosos o suficiente para escolhermos o que entra na nossa vida, na nossa alma, em nosso corpo.

Porque cozinhar é poder.

Obrigada, querida Sandra, por me apontar esse caminho.

 Amor e chá com biscoitos,

Violeta Braga.

Eu é que te agradeço, Violeta. Obrigada a todos vocês por estarem aqui. Obrigada por voltarem sempre, deixarem comentários, me enviarem emails. Obrigada pelo apoio, por me deixarem entrar em suas casas com minhas histórias e receitas. Por me convidarem pra mesa de vocês. Pelo carinho e por me inspirarem e me encorajarem a continuar com o blog. Bendita a noite em que eu criei o Papacapim! Graças ao blog e à comida que eu crio entrei em contato com pessoas incríveis e fiz amigos maravilhosos. A minha gratidão será eterna. Talvez ele tenha inspirado e transformado a vida de várias pessoas, mas podem ter certeza que a maior transformação de todas aconteceu do lado de cá.

PS Estou pensando seriamente em imprimir em uma camiseta a frase “Cozinhar é poder.” E de substituir “Eu te amo” por “Você é o tahine do meu hummus” (uma versão romântica de outra frase ótima que Violeta me mandou:)

Quando escrevi o primeiro Guia Vegano de Natal, em 2012, comer fora de casa ainda era um desafio pros veganos natalenses ou de passagem pela cidade. Um ano depois as opções tinham aumentado e escrevi a segunda parte do Guia. Esse ano fiquei extremamente feliz ao perceber que, seguindo a tendência mundial, o movimento vegetariano/vegano está ganhando força na cidade. Embora ainda não possa ser considerada um paraíso vegano, hoje a lista de restaurantes veganos/vegetarianos em Natal está mais longa e, o que me deixou mais impressionada, opções de pratos 100% vegetais aparecem no cardápio de vários restaurantes onívoros. Por isso repito: o futuro é vegetal!

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A descoberta mais feliz foi o restaurante vegano ‘A Casa’, que tem dois endereços na cidade. Um restaurante vegano no centro da cidade e outro perto da faculdade (pra facilitar a vida dos estudantes veganos e do pessoal veg que trabalha no centro), oferecendo comida nutritiva por um preço acessível? Maravilha! Fez muito sentido fazer a palestra ‘Alimentação vegana: elitista ou popular?’ nesse restaurante, pois eles estavam ali pra provar que comida vegetal é a mais popular e barata de todas. Como disse minha amiga Bárbara, ‘em que mundo feijão com arroz é mais caro do que bife?’. E A Casa faz um feijão delicioso. A feijoada vegana (foto acima), então, foi a melhor que já comi na vida! A comida é vendida no peso e eles também fazem quentinhas. Chegue cedo no restaurante de Potilândia (a primeira e segunda fotos), pois eles fazem comida em pequenas quantidades (pra não ter desperdício) e geralmente depois das 12h30 já acabou tudo. O restaurante do centro (terceira e quarta fotos) é bem maior e tem mais opções de pratos.

A Casa (aberto de segunda a sábado, das 11h30-14h)

Rua Granada, 126 – Potilândia

Rua Princesa Isabel, 680 (sobreloja da livraria Asa Branca)

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Pium, que fica a poucos quilômetros de Natal, está cada vez mais acolhedora pros veganos e o restaurante ‘Pé na Terra’ é mais uma opção pra quem estiver a caminho das praias do litoral sul, ou quiser respirar ares diferentes sem se afastar muito da capital. Lá você encontra tapiocas recheadas (tapioca com abacate, que ideia genial!), saladas, sucos, vitaminas, cervejas artesanais e nos fins de semana rola bobó de grão de bico (aquele que apareceu aqui no blog!). Também é possível encomendar comida (quentinhas ou congelados). Além de oferecer comida vegana, o local vende biocosméticos, grãos e ervas medicinais, além de promover eventos como bailes e apresentações de música brasileira. Que tal uma roda de coco com chope artesanal e comida vegana, tudo junto? Lá tem! E pra deixar essa feminista aqui ainda mais feliz, é um negócio criado por duas mulheres. Poucas coisas me alegram mais do que ver, e apoiar, negócios veganos criado por mulheres. Quando visitei o espaço elas estavam de mudança, então essa foto é do endereço antigo. Mas pelo que vi, o novo local é ainda mais lindo.

Pé na terra (de quinta a domingo, das 16h20-23h59).

Na Oca da floricultura Terra Viva, depois do posto policial da entrada de Pium.

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Meses atrás minha irmã enviou fotos do cardápio e das saladas lindas que ela comeu no restaurante ‘Enquanto seu lobo não vem’, dizendo que eu ia adorar o lugar. Ela estava certa. Apesar de não ser um restaurante vegano, o cardápio foi claramente criado pra alegrar essa parte da população. Tem muitas opções veganas (tudo claramente marcado no cardápio): saladas completas com proteína vegetal (tofu, cogumelo shitake, falafel ou hummus), entradas quentes, sanduíches e waffles salgados. Alguém deve ter contado pra eles que pra deixar os veganos realmente felizes era preciso oferecer sobremesas saborosas, então eles foram particularmente generosos nessa área. Tem waffles doces (abacaxi caramelizado, bola de creme de cupuaçu e calda de chocolate, ou com morangos frescos, sorvete de banana, creme de avelã e chantilly), sobremesas geladas (pedaços de brownie, sorvete de banana, calda de caramelo e chantilly) e cupcakes. E pro pessoal que evita glúten, além das saladas tem pene de arroz e cupcake sem glúten também. Os sucos e smoothies são divinos e ainda tem açaí, pra quem não é fã de sobremesas muito doces (presente!). Os preços são mais elevados, então é um lugar pra visitar só de vez em quando.

Enquanto seu lobo não vem (aberto de segunda a domingo, à partir das 12h)

Av. Praia de Genipabu, loja 12, Edifício Maria Clara, Ponta Negra

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‘Cantinho natureba’ é mais um restaurante mixto: metade do pequeno cardápio é veg, com opções que mudam diariamente. O lugar é simples, mas super agradável e no dia que estive lá pude escolher entre 4 opções veganas. Provei a berinjela assada com molho de tomate (que pedi sem o gorgonzola) e o tofu grelhado. Tudo acompanhado de salada, grão de bico e arroz integral. Nós, veganos, agradecemos quando os restaurantes entendem que ninguém fica de pé por muito tempo comendo somente folhas. Precisamos de cereais integrais e de leguminosas pra acompanhar a saladinha! E além dos pratos serem balanceados, as porções são honestas e gostei do carinho que colocaram na salada. Faltou o mesmo carinho com o tofu, mas é raro encontrar cozinheiros onívoros que sabem tratar esse ingrediente como se deve (com exceção dos japoneses, que fazem tofu melhor do que ninguém). A berinjela também deixou a desejar.

Conclusão: toda a minha gratidão vai pros restaurantes que se esforçam em oferecer opções veganas em seus cardápios, mas fico triste quando esses pratos são uma alternativa inferior em matéria de sabor. Bato palmas, muitas palmas pros chefs que decidem cozinhar pratos veganos, mas não custa nada fazer um esforcinho pra oferecer opções que sejam tão gostosas quanto os ítens onívoros do menu. Se não sabe como fazer isso, pergunte a um chef/cozinheiro vegano. Ou aos clientes veganos que aparecerem no seu estabelecimento. Tenho certeza que eles podem te dar boas dicas. Todo mundo vai sair ganhando: sua clientela vegana aumentará, você poderá se orgulhar de todos os pratos que saem da sua cozinha e até alguns onívoros começarão a pedir as opções veganas. Comida boa de verdade agrada qualquer pessoa, independente das orientações gastronômicas, e é cada vez mais comum ver onívoros optando por pratos vegetais por razões de saúde ou ecológicas.

Cantinho natureba (aberto de segunda a sexta das 11h30-15h, domingos e feriados das 11h30-14h30)

Av. Capitão Mor Gouveia, 167

Minha amiga Potyra me levou pra comer no restaurante libanês Rachid’s e foi uma alegria só! Ainda não conheci uma criatura sequer que não gostasse de comida libanesa, ou do Oriente Médio em geral. É muito, muito bom! E o que eu mais gosto nesse tipo de culinária é que ela é muito inclusiva: têm várias opções naturalmente veganas. Como esses pratos são tradicionais e não adaptações pra agradar os clientes vegs, você sente a (imensa) diferença no sabor. Foram gerações e mais gerações de mães cozinhando vegetais com amor, centenas de anos de acumulação de conhecimento pelos chefs, tudo traduzido naqueles pratos. Eles foram criados pra serem gostosos, não pra serem ‘saudáveis’, ‘naturais’ ou ‘veg-friendly’. E como eles foram criados com o único intuito de serem deliciosos, mesmo os onívoros se rendem aos encantos do falafel, hummus e afins. Na Palestina, por exemplo, sanduíche de falafel não é uma variação vegetal e inferior do sanduíche com carne. É um sanduíche à parte, que seduz tantas papilas quanto as opções com derivados de animais. Mas estou divagando.

Voltando ao Rachid’s, a comida não decepcionou. Os sabores são autênticos e os pratos veganos abundam: falafel, hummus, taboule, charuto de folha de uva ou couve, baba ganush (que na Palestina chamam de mutabbal), molho de tahine, pãozinho recheado com espinafre, mdardara (o mesmo que mujadara)… A oferta era grande e a moça que me atendeu foi uma simpatia na hora de explicar quais ítens tinham ingredientes de origem animal, indo perguntar na cozinha quando ela não tinha a resposta e trocando molhos pra que meu prato fosse 100% vegetal.

Rachid’s

Avenida Estrela do Mar, 2231

E eu não podia deixar de fora a loja que é xará do blog. (Na verdade quase, pois o nome desse blog aqui é ‘Papacapim’ e o nome da loja é ‘Papa Capim’. Muita gente escreve o nome do blog separado, o que eu não consigo entender, já que ali em cima está escrito PAPACAPIM juntinho.) O engraçado é que alguns leitores de Natal me escreveram perguntando se eu tinha alguma coisa a ver com essa loja de produtos naturais. Uma leitora foi mais longe ainda e já chegou afirmando ‘A loja é sua, não é?’. Não, não é. Bem que eu gostaria de ter uma loja de produtos naturais, mas o nome foi só uma coincidência. Mas o dono da loja, olha que mundo pequenino, acabou descobrindo o meu blog e desde então acompanha o que escrevo por aqui. Eu sei porque ele me escreveu um email contando tudo:) Na loja você encontra uma variedade imensa de temperos (incluindo fumaça em pó, o que em terra de vegano equivale a ouro, pois trás de volta pra nossa dieta aquele sabor defumado que faz falta pra muita gente), leguminosas, cereais, farinhas integrais, suplementos e alimentos industrializados veganos e sem glúten (biscoitos, barrinhas, pães). Adorei os patês veganos à base de biomassa de banana verde (brilhante!) e tem também patês de tofu, que me impressionaram menos. Além da fumaça em pó, que é baratinha, achei mais dois tesouros por lá: morango congelado (muito mais barato do que morango fresco e perfeito pra fazer geleias, compotas e essa torta aqui) e chocolate de cupuaçu. Esse último revolucionou o meu mundo.

Papa Capim – alimentos saudáveis

Av. Prudente de Morais, 6332-A, Candelária

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Agora é só esperar pela próxima oportunidade de tomar café de frente pra esse mar, torcendo pra que no ano que vem Natal tenha uma variedade ainda maior de lugares veganos/vegetarianos e simpatizantes com a alimentação vegetal.

A primeira e a última foto foram feitas por Anne Paq.