Panzanella

Todo ano vejo o mesmo fenômeno se repetir: as quatro semanas que antecedem as férias são as mais ocupadas do ano inteiro. Parece que as atividades vão se acumulando lentamente e discretamente, pra não chamar minha atenção, durante os outros onze meses do ano e um mês antes das férias, bum!, elas explodem na minha cara. Acredito que isso aconteça com a maioria das pessoas, às vezes mais de uma vez por ano (eu também estava nesse estado antes do natal). Mas eu aguento caladinha porque no final tem uma super recompensa: férias. Só eu, minhas olheiras e meus músculos doloridos sabemos o quanto preciso de descanso. Sem contar que minha cabeça cheia precisa ser esvaziada, pelo menos parcialmente, do seu conteúdo pra deixar espaço pra idéias novas se instalarem.

Esse mês meu projeto no campo de refugiados cresceu e agora, além das aulas de culinária tradicional, eu organizo hospedagem pros estrangeiros que queiram morar algumas semanas com uma família palestina no campo. Assim os estrangeiros têm a oportunidade de mergulhar na cultura local e aprender um pouco de Árabe, além de ter hospedagem mais barata do que em qualquer hotel da cidade, e as famílias que participam do projeto ganham uma fonte de renda suplementar. No campo onde trabalho a situação econômica é crítica e o desemprego atinge mais de 70% da população. O mais difícil quando montei o projeto foi explicar o conceito às famílias. As mulheres acharam absurdo cobrar dinheiro pra acolher estrangeiros, queriam hospedá-los e alimentá-los de graça! A famosa hospitalidade árabe ainda é onipresente aqui, mesmo nas famílias mais humildes. Mas acabei convencendo as mulheres que os estrangeiros pagariam muito mais em um hotel e que no final elas estavam fazendo um favor a eles, não o contrário. O nosso segundo hóspede, um rapaz francês, chegou ontem e está sendo tratado a pão de ló. Agora preciso explicar pras famílias que não precisa tirar os móveis da sala pra mobiliar o quarto do estrangeiro, que não precisa gastar todo o dinheiro deles pra preparar um café da manhã super caprichado (com coisas que eles quase nunca comem), nem preparar jantar pro rapaz às dez da noite, principalmente quando ele acabou de comer no restaurante.

Isso me lembra um projeto parecido que minha irmã Lu tentou organizar no interior do RN, quando ela ainda estava na faculdade. As famílias que participavam do projeto piloto também trataram os hóspedes como se fossem filhos e até compraram presentes pra eles no final da estada. Lu gastou muita saliva explicando que não precisava daquilo tudo, mas os brasileiros também são muito hospitaleiros. Os palestinos têm muita coisa parecida com os brasileiros (tanto boas quanto ruins) e acho que por isso me senti em casa desde o primeiro dia em que cheguei aqui.

Juntando minhas inúmeras atividades com o terrível calor do verão palestino, minhas passagens pela cozinha têm sido breves. Gostaria de oferecer pratos mais elaborados, queridos leitores, mas acho que durante os próximos dias vocês terão que se contentar com saladas. Quando a temperatura aumenta meu estômago só quer saber de legumes crus, frutas, saladas e smoothies. Ele fica tão pouco exigente no verão que ano passado sobrevivi um mês inteiro almoçando exatamente a mesma salada todos os dias. Anne estava trabalhando em Gaza então não tinha ninguém pra reclamar da repetição, mas esse ano ela está aqui e tenho que ser mais criativa. Com a feira estourando de produtos frescos de ótima qualidade, essa não é uma tarefa difícil. A vantagem de comer tanta salada, além do óbvio (uma avalanche de vitaminas, sais minerais e fibras), é que meu repertório de receitas aumentou consideravelmente. Houve uma época, em um passado não muito distante, em que salada pra mim significava alface, tomate e pepino. Perdoem se estou sendo repetitiva, mas o veganismo trouxe tantos alimentos novos pra minha dieta que hoje minhas saladas são mil vezes mais interessantes que as que costumava preparar, um verdadeiro festival de cores e sabores.

Essa panzanella é um exemplo disso. Confesso que me afastei um pouco da receita tradicional (broto de brócolis em uma receita italiana!?!), mas garanto que o resultado final é harmonioso. Porém nada te impede de adaptar a salada aos seus gostos e ao conteúdo da geladeira. Saladas com pão não são exclusividade da cozinha italiana. Aqui no Oriente Médio tem o fatush, que também é uma delícia (postarei a receita um dia), mas os ingredientes da panzanella têm um forte sotaque italiano e é isso que dá personalidade à salada. Se quiser fazer adaptações, lembre-se de utilizar produtos que sigam a mesma linha. Outro detalhe importantíssimo: só pão rústico, aqueles densos e da casca grossa, têm o direito de entrar nessa salada. Se você usar um pão mole (tipo francês ou pão de forma) ele vai absorver a umidade da salada, amolecer demais e ganhar uma textura desagradável.

Agora preciso voltar à labuta, mas enquanto trabalho sonho com paisagens mais verdes, brisas mais frescas, siestas, muitas siestas e tempo pra cozinhar algo que não envolva pepinos.

 Minha Panzanella

Essa é minha última versão da panzanella italiana, usando o que encontrei na geladeira no dia em que preparei, mas a salada pode, e deve, ser personalizada. Mantenha a base (pão, tomate, pepino, pimentão vermelho e mangericão) e varie os outros ingredientes. Algumas sugestões: alcaparras, rúcula, alcachofas, pimentão vermelho grelhado, cebola vermelha, tomates cereja (no lugar do tomate convencional), tomates secos… mas não tudo junto, claro. Lembre-se: use um pão rústico e se ele tiver dormido um ou dois dias na sua cozinha, melhor ainda. Se quiser transformar essa salada em um prato completo junte um pouco de feijão branco ou grão de bico cozido.

Salada

2x de pão rústico em cubos (de preferência integral, cheio de sementes e feito com fermento natural, como esse aqui)

2cs de azeite

4 tomates, cortados em pedaços pequenos

1 pepino pequeno, cortado em pedaços pequenos

1 pimentão vermelho, cortado em pedaços pequenos

1/2x de mangericão fresco

15 azeitonas pretas (melhor se forem conservadas no azeite, não enlatadas, dessas compradas no peso nas lojas de produtos italianos)

2 punhados de espinafre jovem (baby)

1 punhado de broto de brócolis

Molho

4cs de azeite

2cs de vinagre balsâmico

1 dente de alho pequeno picado

sal e pimenta do reino a gosto

Em uma frigideira grande, aqueça 1cs de azeite. Despeje os cubos de pão e regue com mais 1cs de azeite. Frite, mexendo de vez em quando, até ficar crocante e dourando de todos os lados. Reserve. Misture os ingredientes da salada na vasília em que for servir. À parte, misture os ingredientes do molho. Regue a salada com o molho, tempere com sal e pimenta do reino a gosto e mexa bem. Na hora de servir, junte os cubos de pão fritos e misture. Sirva imediatamente. Você pode preparar a salada e misturar com o molho meia hora antes, pro sabor se desenvolver um pouco e todos os ingredientes ficarem em temperatura ambiente (caso seus legumes estejam gelados), mas deixe pra acrescentar o pão segundos antes de servir: assim ele não tem tempo de absorver o molho e continua crocante. Serve 2-4 pessoas.