Já aconteceu de você achar que não gosta de uma coisa, até descobrir que na verdade a coisa em questão é gostosa, mas tinha sido preparado da maneira errada todas as vezes que você provou? Couve-flor pra mim sempre foi a irmã anêmica do brócolis: insípida e sem graça. Mas um dia resolvi assar uma enorme cabeça de couve-flor que, por causa do meu desprezo, já estava murchando na geladeira e nunca mais a vi com os mesmos olhos. Tem uma receita tradicional palestina onde a couve-flor é cortada em pequenos buquês, frita até ficar bem dourada e servida pura ou com um molho de iogurte de ovelha ou tahina. Eu tinha provado o prato (sem o molho) algumas vezes nas casas dos amigos palestinos, mas comia por educação pois detesto fritura. Como parece que couve-flor cresce quase o ano inteiro nesse país, pensei que tinha que achar uma maneira de incluir esse legume no cardápio com mais frequência. Daí veio a idéia de assá-la. Eu queria o dourado do prato palestino, mas sem o óleo da fritura. Quando peguei um buquezinho recém saído do forno, dourado nos cantos, ligeiramente caramelizado, e ele quase derreteu na minha boca pensei: “Que injusta eu fui com você!” Descobri que se você assar a couve-flor o sabor se concentra, fica apurado e quase adocicado. Já se você fizer como a maioria das pessoas e cozinhá-la na água ou no vapor, o sabor se dissolve, se dissipa e você acaba com um legume totalmente insípido no prato.

Depois de ter feito essa descoberta senti que era minha obrigação reparar os danos que causei à reputação da couve-flor durante todos esses anos. Na série de posts sobre como preparar legumes, sempre ofereço duas maneiras pra preparar um legume X, pra obter o máximo de sabor. Mas no caso da couve-flor, amigos, só existe uma maneira de prepará-la, a maneira certa: assada. Se uma cabeça de couve-flor cruzar o seu caminho, faça um favor a si mesmo, e honre esse pobre legume tão injustamente desprezado, e prepare-a no forno. É tão simples que nem precisa de receita, só instruções:

 • Lave a couve-flor e corte-a em buquês pequenos;

• Espalhe um pouco de azeite em uma forma de vidro rasa ou placa de metal;

• Coloque os buquês de couve-flor na forma, regue com um fio de azeite e tempere com sal;

• Asse em forno médio até ficar macio (teste com a ponta de uma faca) e dourado em alguns lugares (veja foto acima);

• Tempere com pimenta do reino na saída do forno (e um pouco de salsinha fresca picada, se quiser), e deguste imediatamente.

A partir daí as opções são muitas. Você pode simplesmente comer a couve-flor assada pura, como acompanhamento. Você pode fazer um molho de tahina (como esse) e mergulhar os pedacinhos nele antes de degustar (ótimo como entrada ou aperitivo). Você pode usá-la como componente de outras receitas (em uma lasanha, em uma torta salgada, ou quem sabe até em uma pizza). Ou você pode triturá-la no liquidicador com caldo de legumes e um pouco de creme de soja e fazer um super creme de couve-flor. Ou o que mais sua imaginação mandar. Eu gosto de degustá-la pura, mas ontem misturei com um pouco de hummus e ficou muito, muito bom.

Couve-flor assada com hummus

Quando eu estava na França meu sogro disse que quando preparo legumes eles ficam tão gostosos que ele come com prazer. Embora a cozinha francesa seja reputada no mundo todo, o pessoal não costuma ser muito gentil com legumes por lá. Na casa do meu sogro, por exemplo, os legumes são sempre cozinhados no vapor (por muito mais tempo do que o nessessário) e só aparecem no prato pra acompanhar o pedaço de carne, a estrela da refeição. Eu tenho a firme convicção que, preparados corretamente, ou seja, de maneira a intensificar e realçar o sabor, legumes podem virar as estrelas do seu prato. Espero que esses posts ajudem a convencer mais pessoas disso.