Khoulud, de véu rosa, com a mãe, a avó e duas filhas. Foto Anne Paq.

Continuando a série “Histórias palestinas”, gostaria de apresentar uma amiga minha muito querida.

Khoulud Ayyad tem 32 anos e mora no campo de refugiados de Aida, na região de Belém, com seu marido Ayman e quatro filhos. Sua família é de Ras Abu Ammar, um vilarejo que fica a 14 quilômetros de Jerusalém. Os 719 habitantes de Ras Abu Ammar foram expulsos pelas tropas do recém-criado estado de Israel no dia 21 de outubro de 1948 e o vilarejo foi completamente destruído. Conheci Khoulud em um centro cultural no campo de Aida assim que me mudei pra cá. Trabalhamos um tempo juntas e logo nos tornamos amigas. Ela é uma das pessoas mais fortes que já encontrei e sua história merece ser contada.

“A vida no campo de refugiados nunca foi fácil, mas lembro de um período, quando eu era criança, que as coisas eram ainda piores. Durante a primeira intifada (entre 1987 e 1993) os soldados israelenses entravam no campo o tempo todo e muitas pessoas foram assassinadas. Todo mundo tinha medo de sair de casa e levar um tiro. Lembro que um dia, eu devia ter uns 8 anos, vi dois jovens correndo no campo. Pensei que os soldados estavam os perseguindo então abri a porta de casa e comecei a agitar os braços, chamando eles pra se esconder ali. Quando meu avô viu a cena me colocou pra dentro e fechou a porta imediatamente. Depois explicou que aqueles jovens não eram palestinos fugindo de soldados israelenses e sim soldados israelenses a paisana correndo atrás de palestinos. Durante a primeira intifada muitos soldados entraram nos campos e nas cidades a paisana pra prender palestinos e ainda continuam fazendo isso.

A adolescência, e as formas de mulher, chegaram muito rápido pra mim e aos 12 anos recebi minha primeira proposta de casamento. A situação econômica era muito difícil e as pessoas se casavam mais jovens do que hoje em dia. Na mesma época um vizinho que era muito próximo da nossa família estava pensando em se casar e quando minha avó disse que eu tinha recebido uma proposta, ele perguntou se também podia pedir minha mão a meu pai. Esse vizinho  era  quinze anos mais velho do que eu e tinha me pegado no colo quando eu era bebê. Desde criancinha eu nutria uma paixão secreta por ele e quando falaram pra eu escolher um dos dois pretendentes eu não hesitei um segundo! Ayman foi preso pela polícia israelense pouco tempo depois e eu tive que esperar ele sair da cadeia pra fazer a festa de noivado. Como eu era jovem demais, esperamos dois anos antes de casar.

As pessoas sentem pena de mim por eu ter me casado aos 14 anos, mas a verdade é que eu casei com o homem que amava e nunca tive nenhum arrependimento. Eu era a melhor aluna da sala, mas depois do casamento abandonei a escola. Eu tinha que cuidar do meu marido, da nossa casa e também dos meus sogros. Por causa da ocupação militar israelense a economia estava parada e depois de ter sido preso várias vezes pelos israelenses Ayman não conseguia arrumar emprego. Aos 15 anos me tornei mãe de gêmeas. Minha mãe, que tinha me tido aos 14 anos, foi avó aos 29! Poucos meses depois, uma das gêmeas morreu e comecei a me sentir muito triste. Eu via minhas colegas de escola passar em frente à minha casa e me olhar com um ar de superioridade, como se elas valessem mais do que eu. Eu sentia falta da escola, dos meus pais, do tempo em que eu ainda podia brincar de boneca e não tinha tantas responsabilidades.  

Alguns anos mais tarde tive meu segundo filho, seguido do terceiro. Meu marido continuava desempregado e nós morávamos, com nossos três filhos, em um pequeno cômodo nos fundos da casa dos meus sogros. Tentei voltar a estudar sozinha algumas vezes, mas as obrigações, a pressão da família e o cansaço sempre me faziam desistir. Quando meu marido finalmente conseguiu um emprego fixo, como motorista de ônibus, começamos a economizar dinheiro pra construir nossa casinha, em cima da casa dos pais deles. Embora feliz pelo meu marido, eu me sentia muito deprimida, enterrada cada vez mais nas obrigações domésticas. De tanto ver o olhar de desprezo das minhas antigas colegas de escola acabei me convencendo de que eu não tinha valor nenhum.

Khoulud é uma ótima cozinheira e sempre nos convida pra degustar seus quitutes. Nessa foto ela está com Anne, Celine (irmã de Anne) e o marido.

No dia em que nos mudamos pra nossa nova casa, que era pequena, mas que pelo menos tinha um quarto, sala, cozinha e banheiro, me debrucei na janela e fiquei olhando a rua lá embaixo. Eu tinha 24 anos e ainda sonhava em terminar meus estudos, mas meu sonho parecia cada vez mais distante. Ayman veio pro meu lado e vendo minha tristeza disse: ‘Quero que você volte a estudar. Vai ser difícil, as pessoas vão falar que é tarde demais, que você deveria estar em casa cuidando dos seus filhos, mas eu quero que você ignore todos os comentários que elas possam fazer e siga em frente. Eu te darei todo o apoio que você precisar.’ No dia seguinte, dez anos depois de ter abandonado a escola, eu voltei a estudar. Fazia tanto tempo que eu não pegava em um lápis que tive dificuldades pra escrever no início. Comecei um supletivo intensivo, que me permitiria terminar o ginásio e o segundo grau em apenas um ano, e estudava o tempo todo pra recuperar o tempo perdido. Começaram a falar muito de mim, como meu marido tinha previsto, mas isso não me atingia mais. Ayman estava do meu lado e eu não ia deixar mais nada impedir meus planos de se realizarem.

Poucos dias antes das provas de final de ano (aqui na Palestina elas são o equivalente do nosso vestibular, que se chama taugihi) meu cunhado Ali foi assassinado por um soldado israelense.  Naquele dia os soldados tinham cercado o campo e atiravam pra todos os lados. Ali foi prestar socorro a alguns feridos que estavam na rua quando um soldado o viu e atirou pra matar. Meu marido e toda a sua família ficaram devastados e de repente, no meio de tanta dor, injustiça e revolta, terminar meus estudos parecia algo tão sem importância. Eu segui em frente, mas sem a convicção do começo do ano. Ninguém mais acreditava que eu seria capaz de completar o supletivo e no dia seguinte às provas finais meus parentes começaram a me visitar pra dizer que eu não deveria ficar triste quando recebesse os resultados, que eu tinha me esforçado, mas esse negócio de estudar já não era mais pra mim. Qual não foi a surpresa deles quando cheguei em casa com um papel da escola dizendo não somente que eu tinha passado nas provas, mas que minhas notas tinham sido as melhores de toda a Cisjordânia naquele ano! Eu não cabia em mim de felicidade e dois jornais de Belém publicaram artigos sobre minha proeza. (Khoulud guarda até hoje os jornais e me mostrou um deles onde tinha escrito: ‘Depois de dez anos sem estudar, uma mulher do campo de Aida passa em primeiro lugar no taugihi’). Graças às minhas excelentes notas a Universidade Americana de Jenine (no norte da Cisjordânia) me ofereceu uma bolsa de estudos. Como eu não queria ficar longe da minha família, tive que recusar a oferta. Felizmente a Universidade de Belém também me ofereceu uma bolsa de estudos e pude realizar o maior sonho da minha vida: fazer faculdade.

Comecei a estudar Língua e Literatura Inglesa e assim que terminei o curso consegui um emprego de professora em uma escola palestina. Eu estava grávida do meu quarto filho quando duas amigas francesas, Anne e Caroline, que conheciam minha vontade de aprender, me perguntaram se eu gostaria de fazer um mestrado. Respondi que sim, mas que meu salário de professora, mesmo junto com o salário de motorista de Ayman, não me permitia ir tão longe (na Palestina só existem universidades particulares e o custo de um curso superior ou mestrado são bastante elevados). Elas me ajudaram a preparar uma carta onde eu contava minha história, que enviamos em seguida a algumas ONGs européias que financiam a educação de mulheres em países pobres. No dia que dei a luz à minha caçula, recebi o telefonema de uma associação belga dizendo que eles estavam dispostos a patrocinar meu mestrado.

Khoulud segurando o seu diploma de mestrado. Foto Anne Paq.

Os anos de mestrado foram os mais difíceis da minha vida. Eu trabalhava das 8 às 14 horas e como a escola fica em um vilarejo um pouco distante de Belém, eu saía de casa às seis e meia da manhã e só voltava depois das três da tarde.  Minha mãe cuidava do bebê enquanto eu trabalhava e na volta da escola eu passava pela casa dela pra pegá-lo. Chegando em casa eu tinha que preparar comida pras crianças, ajudá-las a fazer a lição, limpar a casa… tudo em poucas horas. Às cinco da tarde Ayman chegava do trabalho e eu saía pra universidade, onde eu ia três vezes por semana pra assistir às aulas do mestrado. Eu voltava pra casa de noite e depois de dar banho no bebê, fazer o jantar e colocar as crianças pra dormir eu tinha que preparar a aula dos meus alunos e estudar pro mestrado. Eu só ia dormir às duas da manhã e no dia seguinte me levantava às cinco pra preparar o café das crianças, deixar as grandes na escola e o bebê na casa de minha mãe, antes de ir pro centro de Belém pegar o ônibus que me levaria pro trabalho. Às vezes, por causa dos check points (barragens militares israelenses dentro dos territórios palestinos, onde os soldados controlam a identidade dos palestinos e decidem quem pode ou não passar), a viagem que podia ser feita em poucos minutos levava mais de uma hora. Eu só tinha um dia de folga por semana e aproveitava pra fazer pesquisas e escrever minha dissertação. Até hoje quando penso no meu mestrado me pergunto como consegui ir até o final. Se antes de ter começado alguém me dissesse que eu teria que enfrentar tudo aquilo, eu teria dito que nunca seria capaz de passar por cima dessas dificuldades. Mas consegui. Quando recebi meu diploma de mestrado ano passado Ayman fez uma grande festa e chamou toda a família. Ele trouxe um bolo imenso, com minha foto colada na cobertura e tudo, enquadrou meu diploma e pregou na parede da sala. Ele estava tão orgulhoso de mim! Ayman nunca fez faculdade e hoje me olha cheio de admiração.

Com o marido e Sheraze, a filha caçula. Foto: Anne Paq.

Nossa vida mudou muito. A ocupação israelense continua e os check points aumentam a cada ano. O muro construído por Israel passa ao lado do campo e roubou mais um pedaço das nossas terras. Ainda não temos o direito de entrar em Jerusalém. O exército ainda invade o campo semanalmente. Perdi a conta do número de vezes que os soldados entraram na minha casa no meio da noite, nos colocaram pra fora e nos deixaram esperando no frio, às vezes embaixo de chuva, durante horas, sem razão nenhuma. É sempre mais difícil quando você tem crianças pequenas e é obrigada a tirá-las da cama porque os soldados estão gritando no seu ouvido e quebrando os seus móveis. Numa noite muito fria fiquei com tanta pena de colocar meus filhos, tão pequenininhos, na rua que disse aos soldados que não ia sair de casa coisa nenhuma, mas eles nos obrigaram a sair e fiquei horas em pé, com o bebê nos braços e os outros chorando agarrados às minhas pernas, sentindo a dor terrível que é não poder proteger os próprios filhos. Nossos dias são tão duros e de noite não temos o direito de colocar a cabeça no travesseiro e descansar porque os soldados israelenses invadem nossa casa, nosso quarto, nosso sono…  E depois eles dizem que somos nós os terroristas! Mas a gente continua lutando. Graças aos nossos esforços, reformamos nossa casinha e pudemos comprar móveis melhores. Continuo trabalhando como professora de Inglês e Ayman ainda é motorista de ônibus. Nossa caçula vai fazer quatro anos em breve e já posso pensar no meu próximo objetivo: fazer doutorado. Só falta encontrar uma organização que queira me ajudar a realizar mais esse sonho.”

Khoulud sempre me recebeu, independente do quão cansada e ocupada estivesse, com um grande sorriso no rosto e um copo de chá na mão. Nos conhecemos há quatro anos e nunca, nunca escutei ela reclamar, somente agradecer as oportunidades que a vida ofereceu e o apoio incondicional do seu marido. Sua determinação me inspira e minha admiração por ela é imensa. Vi várias pessoas ficarem impressionadíssimas com a escolha de vida que fiz, declarando que sou muito corajosa. Quando isso acontece eu agradeço o elogio, embora sinta que não o mereço, mas só consigo pensar em uma coisa: ah, se vocês conhecessem Khoulud…