Posts de categoria: Sopas

Minha nada mole vida.

Gostaria de passar por aqui com mais frequência, mas no momento parece impossível. Impressionante como essas férias estão agitadas, contrariamente ao que sugere a foto acima. Pra não ficar tanto tempo longe, estou passando rapidinho só pra dividir uma receita ultra simples, mas saborosa. Espero voltar com mais tempo da próxima vez pois já estou com saudade desse meu cantinho.

Creme de macaxeira (mandioca)

Servi esse creme com maxixe refogado e acho que ficou perfeito. Se não souber preparar maxixe aconselho adaptar minha receita de pirão de maxixe: omita a farinha de mandioca (já que não haverá pirão) e cozinhe o legume sem água, pra não formar nenhum caldo. No post onde divido a receita do pirão de maxixe tem algumas fotos do sítio onde armei a rede da primeira foto e onde preparei esse creme de macaxeira.

2x de macaxeira cozida

2x da água de cozimento da macaxeira

3cs de azeite

Sal e pimenta do reino a gosto

Bata a macaxeira cozida com a água do cozimento no liquidificador até ficar homogêneo. Com o motor ligado, despeje o azeite em fio. Tempere com sal e pimenta do reino e leve o creme ao fogo durante alguns minutos pra esquentar. Sirva quente, acompanhado de maxixe (veja observação no início da receita) ou outro legume refogado.

Servi o creme de macaxeira no almoço, acompanhado de maxixe, repolho refogado, arroz, banana da terra frita e proteína de soja (feita pela minha mãe).

Sopa de feijão, couve e milho

Eu poderia tomar sopa todos os dias sem nunca reclamar. Na verdade isso até me deixaria bem feliz. Mas a outra moradora da casa não divide minha empolgação com sopas. Ela gosta, sempre limpa o prato, mas nunca proclamou “Que vontade de tomar sopa hoje!”. Se tiver, ela toma, mas se puder escolher, ela escolhe outra coisa. Pra mim não tem criação culinária mais perfeita do que sopa. Ela é generosa e acolhe os mais diferentes tipos de verduras, leguminosas, cereais e ervas. Ela é democrática e aceita tanto os ingredientes mais humildes quanto os mais requintados.  Ela é econômica e transforma alguns punhados de alimentos em jantar pra várias pessoas. Ela não faz bagunça na cozinha, você só precisa de uma faca, uma tabua de legumes e uma panela. Ela recicla os restos. Ela oferece muitos nutrientes e poucas calorias (as minhas sopas, pelo menos). Ela aquece o corpo por dentro e reconforta. Não consigo entender gente que não gosta de sopa.

Como a senhora papacapim está atualmente em Gaza, onde vai passar um mês inteiro trabalhando, estou aproveitando que sou a única moradora da casa pra curtir alguns prazeres solitários. Não, não é o que você está pensando. Tento espantar a solidão fazendo coisinhas que agradam mais a mim do que a ela. Rever Dirty Dancing e o Rei Leão. Comer espinafre três vezes por dia. Tomar sopa todas as noites. Eu não sou muito difícil de agradar…

Sopas de feijão são minhas preferidas e posso preparar inúmeras versões.  Sempre começo a construir a receita a partir do feijão que tiver na cozinha. Em seguida abro a geladeira à procura dos vegetais disponíveis e escolho os que combinarem melhor com o tipo de feijão (quando a geladeira está quase vazia sou bem menos seletiva). Essa é minha base. Depois é só juntar um cereal (arroz, trigo, cevada, milho, pão, macarrão…), selecionar um ou dois temperos que se harmonizem com o resto e pronto. A sopa está pronta. Gosto de sempre finalizar minhas sopas de feijão com coentro ou salsinha fresca e uma dose generosa de suco de limão. Seguindo esse esquema, é difícil fazer uma sopa ruim.


Essa é minha última receita de sopa de feijão e, devo avisar, uma das melhores de todos os tempos. Uma das mais simples, também. Sem tomate, sem caldo de legumes. É raro aparecer uma sopa aqui em casa sem esses dois ingredientes. Mas descobri que o caldo do feijão, a água em que ele foi cozinhado, é muito melhor pra preparar sopas (de feijão). Descobri também que aquela história que não se deve salgar o feijão até ele estar totalmente cozido, senão ele demora mais pra ficar pronto, não passa de uma lenda. Sal não aumenta o tempo de cozimento do feijão coisíssima nenhuma! Eu testei várias vezes. A única coisa que aumenta o tempo de cozimento de leguminosas é acidez (nada de colocar tomate, por exemplo, num feijão que está cozinhando). O sal, ao contrário, deixa a pele do feijão intacta e o interior extremamente macio, cremoso, até. Faça o teste se não acreditar em mim. Perdão, minha mãe, mas nunca mais farei feijão como a senhora me ensinou.

Queria evitar o papo nutricional porque acho chato tentar convencer alguém a comer algo somente porque é carregado de nutrientes. Ainda mais essa sopa, que de tão deliciosa vai fazer você esquecer que ela é saudável. Mas preciso dizer uma coisinha. Com feijão, couve e brócolis, essa sopa é rica ferro, cálcio e tem muita proteína (e completa, já que o feijão vem acompanhado de milho). Também suspeito que ela tenha poderes mágicos. Nas noites frias do inverno palestino, quando sento sozinha pra degustar minha sopa de feijão, a solidão parece diminuir.

Sopa de feijão vermelho, milho e couve

Cozinho 1/2kg de feijão de manhã, com sal e umas folhinhas de louro, congelo uma parte dos grãos e guardo o resto pra preparar essa sopa à noite. É importante usar feijão cozinhado no mesmo dia, pois o caldo entra na composição da sopa. Uso feijão vermelho (deve ter um nome, mas não sei qual), que é extremamente saboroso, mas na falta, feijão preto também fica bom aqui. Milho fresco é infinitamente melhor do que enlatado, mas acho que não tem milho nessa época do ano no Brasil, então vou liberar o uso das latinhas dessa vez. Mas não deixe de experimentar com milho fresco quando as espigas começarem a aparecer na feira.

3x de feijão vermelho cozido (na água com sal e umas folhinhas de louro)
1 cebola grande picada
4 dentes de alho amassados/picados
2x de brócolis picado (buquês e talos)
1x de milho cru (o equivalente a uma espiga de milho), ou congelado, ou enlatado
2 folhas grandes de couve
1,2 litro de caldo de feijão (água onde o feijão cozinhou)
1cc de cominho em pó
1cc de semente de coentro em pó
1cc de páprica (melhor se for defumada), opcional
1cc de sal de salsão (se não tiver, use sal normal)
1 folha de louro
1cs de azeite, ou outro óleo vegetal
Um punhado de coentro fresco picado
Sal e pimenta do reino a gosto
Suco de limão pra servir

Em uma panela grande, aqueça o azeite e refogue a cebola picada durante alguns minutos. Junte o alho, o comino, semente de coentro, páprica e sal de salsão e refogue mais um minuto. Junte o milho e refogue mais dois minutos. Acrescente o brócolis, o feijão cozido, o louro e o caldo de feijão. Quando começar a ferver baixe o fogo e deixe cozinhar tampado em fogo baixinho. Se o caldo evaporar demais antes dos legumes ficarem pronto, junte um pouco de água. Retire o talo das folhas de couve, enrole bem apertado (formando um charuto) e corte em tiras finas. Quando os legumes estiverem cozidos junte a couve picada e o coentro, tampe a panela e desligue o fogo. A couve vai cozinhar no calor da sopa. Espere alguns minutos, prove a sopa, corrija o sal e acrescente pimenta do reino a gosto. Na hora de servir regue a sopa com suco de limão. Rende 4 porções.

Ajo blanco

Alguns meses atrás publiquei minha receita de gazpacho e ela provocou curiosidade em alguns e estranheza em outros. Sopa gelada ainda é um conceito bizarro no nosso país, o que, como disse minha irmã nos comentários, é surpreendente tendo em vista o calorão que faz na nossa terra. Eu cresci em Natal, onde é verão o ano inteiro, e mesmo nos dias mais quentes tomar um prato de sopa fumegante parecia algo absolutamente natural, afinal sopa é algo que se come quente, certo? Eu também achava, mas graças ao meu amado gazpacho o mundo das sopas geladas me parece hoje muito atraente e tenho certeza que depois de passada a estranheza das primeiras colheradas os sépticos concordarão comigo.

A receita de hoje também vem da Andaluzia e dizem que é uma versão primitiva do gazpacho. Por isso esse “ajo blanco” é conhecido como gazpacho branco, mas tirando a temperatura em que os dois são servidos eles não têm nada em comum. Enquanto o gazpacho é feito com tomates, o ajo blanco transforma amêndoas, pão e azeite em algo absurdamente cremoso e aveludado. Ao provar essa sopa é difícil acreditar que não tem creme nos ingredientes. O sabor do alho é suave e só aparece pra realçar a mistura e o toque de vinagre equilibra tudo. Mas o mais impressionante é que ele é servido com uvas brancas e o contraste entre a sopa perfeitamente temperada e o doce das uvas é incrível. Parece uma mistura maluca, mas confie em mim: ela foi criada por um gênio das panelas. E eu falei que essa sopa é absurdamente cremosa? Vou falar mais uma vez: absurdamente cremosa e deliciosa. Seria uma pena deixar o preconceito com as sopas geladas te afastar dessa pérola da culinária espanhola.

E antes de dividir a receita, gostaria de apresentar o mais novo membro da família.

Conheçam o gatinho que ainda não tem nome. Anne encontrou esse filhote embaixo de um carro, perto da nossa rua. Ele estava ferido e faminto e nem se movia mais. Anne chegou em casa e disse “Eu vi um gatinho… pequenininho assim…acho que ele está morrendo… pobre gatinho…” E ficou esperando minha reação. Eu disse: “Vá buscar o gatinho” e ela saiu nas carreiras e voltou minutos depois com essa coisinha fofa no colo. Bastou dois dias de cuidados, comida e carinho pro gatinho se transformar. Agora ele sobe em tudo, pula em todos e quer afago o tempo todo.

 

Ajo Blanco

Essa é a minha versão do ajo blanco espanhol, usando os ingredientes tradicionais, mas adaptando as medidas aos meus gostos. Um bom liquidificador (potente) é indispensável pra realizar essa receita com sucesso, já que você precisa transformar amêndoas inteiras em creme. A qualidade do pão também está diretamente ligada à qualidade do produto final, então compre o melhor pão que puder (branco mas rústico, do tipo italiano). Parece mais lógico usar amêndoas sem pele (pra evitar o trabalho de descascá-las) e em pedaços (já que tudo será triturado no fim) mas: 1-graças ao método explicado abaixo, descascar as amêndoas é facílimo e não leva mais de 5 minutos e 2- o sabor é realmente melhor e mais fresco quando usamos amêndoas inteiras com pele.

1/2x de amêndoas inteiras

2x de pão branco de ótima qualidade (de preferência ciabatta ou outro pão rústico italiano)

1 dente de alho pequeno

3cs de azeite

1 1/2cs de vinagre de sidra

1/3cc de sal (ou a gosto)

2x de água gelada

uvas brancas pra servir (geladas)

Cubra as amêndoas com água e leve ao fogo. Quando começar a ferver, conte até 10 e desligue. Escorra as amêndoas, jogue um pouco de água fria por cima e retire a pele. A técnica é simples: segure a amêndoa na parte mais larga,  entre o polegar e o indicador da mão esquerda , com o polegar e o indicador da mão direita quebre a pontinha da amêndoa e puxe a pele pra baixo, que sairá com facilidade (troque as mãos se for canhoto, claro). Repita a operação com todas as amêndoas e reserve. Molhe o pão com um pouco de água. Coloque as amêndoas descascadas, o pão (retire o excesso de água espremendo com as mãos), o alho, o vinagre, o sal e 1x de água gelada no liquidificador e triture tudo. Quando estiver homogêneo (talvez leve alguns minutos) junte mais 1x de água gelada e despeje o azeite em fio, com o liquidificador funcionando. A sopa deve ficar bem lisa e cremosa, então dependendo da potência do seu liquidificador você terá que ser paciente. Transfira a sopa pra um recipiente com tampa e deixe na geladeira por 2 horas, ou até ficar bem gelada. Na hora de servir corte as uvas (também geladas) ao meio, retire as sementes e disponha uma dose generosa de uvas sobre cada porção de sopa (elas vão afundar, mas não tem problema). Por ser uma receita muito rica e cremosa, gosto de servir porções bem pequenas (em copinhos, como na foto). Rende aproximadamente 750ml, o que significa de 6 a 8 porções como entrada/aperitivo (depende do tamanho dos seus copinhos).

Eu uso o pão tradicional palestino (“tabun” em Árabe) nessa receita. Ele é assado em um forno de pedra, feito com uma mistura de farinha branca e integral (de verdade), é crocante nas bordas e macio no meio e tem um sabor delicioso. Pena que seja cada vez mais difícil encontrar esse pão por aqui.

Tem pratos que não são nem um pouco fotogênicos. Sopas e comidas marrom, por exemplo, são difíceis de fotografar. Imagine então a complicação pra fazer uma sopa marrom parecer apetitosa na foto.

Tenho consciência que a foto acima não vai te dar vontade de correr pra cozinha e preparar uma sopa de feijão imediatamente. Sei igualmente que sopa de feijão preto é algo tão humilde, tão simples, que essa receita provavelmente chamará a atenção de pouca gente. Mas talvez você seja um noviço na cozinha. Talvez você não saiba como preparar sopa de feijão. Talvez você esteja sem idéia pro jantar de hoje ou quem sabe até esteja procurando inspiração pra reciclar aquele resto de feijão do almoço. Talvez você tenha simplesmente esquecido como sopa de feijão é capaz de reconfortar a alma e preencher um estômago vazio com muitos nutrientes por um preço módico. Talvez você precise dessa receita.

Na defesa da minha sopinha não posso nem alegar que ela é original. A receita é simples e os ingredientes não poderiam ser mais básicos, mas tem aquele gostinho maravilhoso de comida de mãe (ou de avó). Embora a receita seja de minha autoria, tenho certeza que as donas de casa do Nordeste fazem versões muito parecidas. Mas acho importante dividir as receitas mais singelas também porque às vezes é disso mesmo que precisamos: simplicidade, praticidade, sabor e muitas vitaminas. Às vezes tudo o que a gente precisa é de um prato de sopa de feijão.

Sopa de feijão preto

Eu gosto de fazer essa sopa com feijão que cozinho no mesmo dia, assim posso aproveitar todo o caldo. Também é possível fazer essa sopa usando restos de feijão do dia anterior. Nesse caso, como o caldo estará mais encorpado e misturado com os grãos, use 4x de feijão e acrescente água suficiente pra cozinhar os legumes. Quando uso feijão sem tempero coloco 2 cubos de caldo de legumes na sopa. Se o feijão já estiver temperado, 1 cubo é suficiente.

1 cebola grande picada

½ pimentão picado

4 dentes de alho, ralados ou amassados

1x de salsão picado (talo e folhas)

1 cenoura em cubinhos

5 tomates em cubinhos

2 batatas em cubos médios

3x de feijão preto cozido (só os grãos)

1 ½ litro de caldo de feijão ( a água onde ele foi cozinhado)

1 ou 2 cubos de caldo de legumes (depende se o feijão já estiver temperado ou não)

1cc rasa de cominho

1cc rasa de semente de coentro em pó

1/2cc de páprica (melhor se for defumada)

1 pimenta de cheiro picadinha

1 punhado de coentro picado

2cs azeite

sal a gosto

2cs de suco de limão, mais pra servir

Em uma panela grande aqueça o azeite e doure a cebola. Junte o alho, pimentão, salsão e cenoura e refogue durante alguns minutos. Junte todos os outros ingredientes, menos o coentro fresco, e deixe cozinhar coberto, em fogo baixo, até os legumes ficarem macios. Deixe a sopa esfriar um pouco e triture mais ou menos 1/3 no liquidificador (se quiser uma sopa ainda mais cremosa triture a metade). Triturar uma parte dos ingredientes é meu segredo pra fazer sopas deliciosas e cremosas. Devolva a sopa triturada pra panela e corrija o sal. Aqueça a sopa e junte o coentro e o suco de limão antes de servir. Sirva com fatias de limão pra quem quiser colocar mais um pouco na seu prato. Rende 4 porções.