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Shake de banana e alfarroba

 

Logo que me mudei pra cá, tive o prazer de trabalhar durante seis meses, e morar durante algumas semanas, com uma americana chamada Janelle. Nós simpatizamos no minuto em que fomos apresentadas e somos amigas até hoje, apesar dos milhares de quilômetros que nos separam (ela mora em Seattle, EUA). O pai de Janelle é médico e ela estudou saúde pública, então seu conhecimento em matéria de nutrição é admirável. Passamos muitas horas explorando a feira de Jerusalém e a lojinha de produtos orgânicos que fica do lado. Graças à Janelle descobri que cevada não serve só pra fazer bebida, que aveia em flocos grossos é mais gostosa, e segundo ela mais nutritiva, que aveia em flocos finos e que é importante comer um punhado de oleaginosas todos os dias (conselho do seu pai). Ela é vegetariana mas vivia dizendo que se eu cozinhasse pra ela todos os dias ela se tornaria vegana sem hesitar. Um dia, pra agradecer todos os pratos que eu preparei durante as semanas que ela ficou hospedada na minha casa, ela me convidou pra lanchar na casa dela. Nesse dia ela preparou, entre outras coisas, alfarroba quente, um tipo de “chocolate” quente feito com leite de soja e alfarroba em pó no lugar do cacau. Eu não conhecia alfarroba e no início achei a bebida estranha, mas depois de alguns goles comecei a apreciar aquele sabor tão particular.

Antes de voltar pros EUA Janelle me presenteou com o pacote que alfarroba que ela tinha comprado na loja de produtos orgânicos e que ainda estava quase cheio. Adorei o presente mas confesso que ele ficou juntando poeira em uma prateira da minha cozinha durante… anos. Sim, anos. De todos os produtos que descobri com essa amiga, alfarroba foi o mais exótico e o que menos gostei. De dois em dois meses eu abria o potinho onde tinha guardado a alfarroba, cheirava aquele pó marrom e me perguntava o que eu ia fazer com aquilo. Muitas vezes pensei em jogá-lo fora, mas desperdiçar comida vai contra os meus princípios, ainda mais quando a comida em questão foi presente de uma pessoa querida. Alguns meses atrá, decidida a usar a alfarroba antes que ela apodrecesse (vencida já devia estar, mas como a aparêcia e o cheiro continuavam o mesmo declarei que ainda era seguro comsumí-la) preparei uma xícara de alfarroba quente. Essa segunda xícara da bebida me pareceu bem mais gostosa que a primeira então alguns dias depois preparei outra, que achei ainda melhor. Aí pensei : “E se eu colocar alfarroba na minha vitamina de banana?” E antes que eu me desse conta, dois terços do potinho de alfarroba tinha desaparecido e ela tinha entrado na (longa) lista das comidas que adoro. Dizem que é preciso provar pelo menos dez vezes um alimento novo antes de afirmar se você gosta ou não dele e parece que é verdade.

Alfarroba é usada como alternativa ao cacau pras pessoas que prefererem (ou precisam) consumir produtos não excitantes (cacau é excitante, como café, chá…). Embora a aparência seja quase idêntica, não espere o mesmo gosto do cacau. Acho importante insistir nesse ponto pois aqueles que provam alfarroba pensando que se trata de um cacau mais saudável acabam se decepcionando. O sabor é totalmente diferente, mas eu não acho que isso seja um problema, muito pelo contrário. Certo, pras pessoas que não podem comer cacau e que procuram um substituto parecido isso é bem frustante, mas pras todos os outros alfarroba é um sabor a mais a ser descoberto (e desfrutado).

Esse shake (que não passa de uma vitamina, mas que decidi chamar de “shake” pra ficar mais especial) foi minha obsessão no verão passado. Durante os longos meses de calor infernal eu só tinha vontade de beber meu super skake de leite de amêndoas, banana e linhaça, mas eu sempre o preparava com cacau. A versão com alfarroba  além de ser deliciosa, é uma ótima maneira de experimentar esse produto, já que misturado com a banana o sabor fica mais suave. O shake é perfeito no café da manhã, uma alternativa muito mais nutritiva e saborosa do que o tradicional café com pão. Além de ser delicioso e saudável, fica pronto em segundos, podendo ser preparado a qualquer momento do dia (é um dos meus lanches preferidos). Nunca foi tão gostoso ser saudável!

Shake de banana e alfarroba

Gosto de comprar vários quilos de banana, deixar amadurecer bem, cortar tudo em rodelas e congelar em saquinhos. Assim nunca sou pega desprevenida quando bate a vontade de tomar esse shake (e, acredite, isso acontece quase todos os dias). É importante congelar bananas bem maduras, já que congelado qualquer alimento parece menos doce pras nossas papilas. Eu nunca adoço minhas vitaminas pois acho totalmente desnecessário, mas se você congelar bananas ligeiramente maduras (e não extremamente maduras) o sabor e a doçura serão menos intensos. Não tenha medo de deixar a casca da banana começar a ficar preta antes de congelá-las. Aliás essa é uma ótima maneira de salvar aquelas bananas que estão meio “passadas”. Sempre compre sementes de linhaça inteiras e moa em casa (no liquidificador). Linhaça se oxida muito rápido depois de moída e precisa ser guardada no congelador, em um recipiente fechado. Sugiro aqui que você use 2cc de alfarroba e 1cc de cacau pra bebida ficar menos “estranha” pros novatos em matéria de alfarroba. Se você já conhece e gosta de alfarroba, ou prefere saborear ela sozinha, deixe o cacau de lado. Se, ao contrário, você detesta alfarroba (espero que você tenha provado dez vezes antes de chegar à essa conclusão), ou não encontrar esse produto na sua cidade, use somente o cacau (2cc são suficientes). A bebida será tão saudável e deliciosa quanto.

 

1x (bem cheia) de banana congelada em rodelas (1 banana grande)

1x de leite de amêndoas gelado (receita aqui)

1cc de linhaça moída

2cc de alfarroba em pó

1cc de cacau em pó

 

Bata tudo no liquidificador até ficar cremoso. A conscistência será muito parecida com a de um milk shake feito com sorvete.  Sirva imediatamente. Rende 1 porção.

 

 

 

Pavê de banana com coco, baunilha e rum

 

Acho que não é mais segredo que não sou muito fã de sobremesas. Eu gosto de um pedacinho de bolo de vez em quando e com certeza aprecio um cookie ou um gelato bem feitos, mas a verdade é que raramente sinto desejo de comer doces. E como aqui em casa só tem eu e Anne, isso significa que qualquer sobremesa que eu fizer será dividida por dois e eu terei que dar conta de metade de um bolo de chocolate! Parece um sonho pra você? Pra mim não. Então geralmente só faço sobremesas quando temos convidados pra jantar. O que aconteceu sábado passado.

Como o prato principal era lasanha (receita nova que espero publicar aqui no dia que descobrir como fazer uma lasanha branca parecer atraente na foto) eu queria uma sobremesa leve. Criei esse pavê de banana com coco, baunilha e rum pra um dos jantares no meu “restaurante ocasional” ano passado. Foi um sucesso absoluto entre meus convidados europeus. Pois é, europeus. Sempre fico com receio de dividir minhas receitas de sobremesas com o pessoal do Brasil. Eu conheço suficientemente bem o repertório de sobremesas do meu país pra saber que “leve”, “pouco doce” e “sobremesa” nunca são combinados na mesma frase. Claro que não reclamamos diante de uma salada de frutas, embora boa parte dos meus compatriotas despeje uma dose generosa de leite condensado no seu prato antes de comê-la. Mas a verdade é que as sobremesas que fazem o pessoal da minha terra salivar são extremamente doces e carregadas de gordura, vinda de latinhas de leite condensado e creme de leite.

Esse pavê está bem longe das sobremesas descritas acima. Ele é leve e delicadamente perfumado com baunilha e rum. Gosto de usar biscoitos do tipo “speculoos” (os da marca “Lotus” são os melhores e são veganos), uma especialidade belga ligeiramente caramelizada e com toques de canela. Nunca vi esses biscoitos no Brasil mas você pode substituí-los por seu biscoito preferido. O importante é que ele não seja muito doce e tenha um sabor que se harmonize com os outros ingredientes. O leite de coco deixa o creme mais cremoso, mas o sabor fica bem suave no final. Pra mim uma sobremesa merece nota 10 quando os sabores são deliciosos e claramente detectados, sem uma espessa camada de açúcar encobrindo tudo, e as texturas interessantes. Esse pavê é um ótimo exemplo disso. Banana, rum, baunilha e coco vão muito bem juntos e as camadas diferentes oferecem texturas que se complementam.

Será que essa sobremesa vai fazer sucesso na sua casa? Se você for vegano, com certeza. Se leite condensado é pra suas sobremesas o que oxigênio é pros seus pulmões, talvez não. Mas comer algo leve de vez em quando (especialmente quando o assunto é sobremesa, que sempre chega quando seu estômago já está cheio) não deixa de ser uma boa idéia. E quer saber? Decidi que essa foi a última vez que dei explicações e me desculpei por uma sobremesa que criei. Existem milhões de receitas carregadas de açúcar e gordura por aí e ninguém vai ficar decepcionado se eu continuar criando receitinhas mais leves. Principalemente quando elas são tão saborosas quanto esse pavê.

Pavê de banana com coco, baunilha e rum

Você pode substituir os speculoos por biscoito do tipo “maizena” ou “maria”. Se estiver usando um favo de bauniilha corte-o ao meio no sentido do comprimento e, com a ponta da faca, raspe as sementes. Guarde o favo dentro de um pote de açúcar (o açúcar ficará deliciosamente perfumado) ou faça seu próprio extrato de baunilha, guardando os favos usados dentro de uma garrafinha com algum álcool forte, como whisky, e deixando macerar durantes várias semanas. Detesto sobremesas doces demais então uso o mínimo possível de xarope de bordo. Se você quiser um pavê mais doce aumente a quantidade de xarope/açúcar no creme. Gosto de fazer pavês individuais pois é mais bonito e mais fácil de controlar as porções.

2 bananas médias

8,10 biscoitos speculoos, quebrados em pedacinhos pequenos (essa quantidade pode variar dependendo do tamanho do biscoito usado)

1 ½ x de leite de soja

5cs de creme de coco (a parte cremosa do leite de coco)

2cc de amido de milho

2cs de xarope de bordo, ou açúcar demerara

1 favo de baunilha (as sementes), ou 1/2cs de extrato natural de baunilha

uma dose mais 1cc de rum envelhecido

1cs de azeite (ou margarina) pra fritar as bananas

Comece colocando uma lata de leite de coco na geladeira por pelo menos duas horas. O leite de coco vai se separar: a parte cremosa (gordura) vai ficar em cima e a parte mais líquida (água) embaixo. Abra, tomando o cuidado de não sacudir a lata, e retire 5 cs do creme que se encontra na superfície. Guarde o resto pra outra utilização. Em uma panela pequena, misture o creme de coco com o leite de soja, o xarope de bordo (ou açúcar) e as sementes de baunilha (se estiver usando extrato, acrescente depois). À parte dissolva o amido de milho em 2cs desse líquido e despeje tudo na panela. Cozinhe em fogo baixo, mexendo sempre com uma colher de pau, até engrossar ligeiramente. O creme continua a engrossar enquanto esfria. Desligue o fogo e junte 1cc de rum e o extrato de baunilha, se não estiver usando as sementes. Cubra com papel filme* pra impedir que uma película (nata) se forme,ou faça como eu: continue mexendo o creme até ele esfriar completamente. Aqueça o azeite (ou margarina) em uma frigideira, de preferencia de ferro. Descasque e corte as bananas ao meio, no sentido do comprimento. Frite até ficar  dourado dos dois lados. Despeje uma dose de rum (eu não meço, mas deve ser umas 3cs) e imediatamente incline a frigideira sobre a chama, deixando o fogo “entrar” na frigideira, pra flambar as bananas. Monte os mini pavês: despeje metade do creme frio no fundo de 6 copinhos, cubra com uma camada de biscoitos quebrados, seguido das bananas flambadas em pedaços, mais uma camada de biscoitos quebrados e termine com o resto do creme. Cubra cada copinho com um pedaço de papel alumínio (ou papel filme) e transfira pra geladeira. Deixe gelar por pelo menos 2 horas antes de servir. Rende 6 mini pavês (uso copinhos de 100ml).

 

*Pequena correção: esqueci de especificar que o papel filme tem que ficar diretamente em contato com o creme pra impedir que uma nata se forme.

Bolo "fondant" chocolate-banana

 

Na era pré-vegana da minha vida, criei um bolo de chocolate intenso e úmido que batizei, humildemente, de Supremo. Anos depois, a primeira receita vegana doce que criei foi inspirada nesse bolo. A mudança principal foi ter substituído os ovos por bananas. Eu estava muito apreensiva com relação ao resultado, mas o bolo que tirei do forno superou minhas expectativas. Ao invés de ter criado a versão vegana do Supremo, eu tinha criado algo completamente diferente. Não que isso seja ruim, claro. A receita rendeu um “fondant” de chocolate e banana. Os franceses gostam de usar a palavra “fondant” pra descrever bolos densos e levemente cremosos, que derretem na boca.

Essa receita foi criada em 2007 e me fez pensar na evolução do meu paladar nos últimos três anos. Hoje em dia eu praticamente não uso mais margarina nem açúcar nas minhas sobremeses. Fiz uma pequena atualização e na versão 2010 mantive a margarina mas cortei o açúcar (a receita original tinha 2cs de açúcar, o que acho totalemente dispensável, quase uma afronta!) e acrescentei um bocadinho de rum. Confesso que, embora tenha um lugar especial no meu coração, esse bolo não é o meu preferido. Hoje posso fazer bolos mais elaborados e interessantes, mas decidi publicar a receita aqui por três razões. Primeiro porque com apenas quatro ingredientes (o rum é opcional), é difícil achar um bolo mais econômico e fácil de fazer. Novato(a) na cozinha vegana? Nada tema! Se você for capaz de ligar o forno e amassar banana, então consegue fazer esse bolo de olhos fechados. Segundo porque dei a receita pra uma amiga e ela me disse que sempre que faz esse bolo as pessoas devoram tudo e imploram pela receita. Vale salientar que estamos falando de onívoros, o que pra mim é um elogio dobrado. Terceiro porque esse é o bolo preferido de Anne e ela é muito exigente com bolos e sobremesas em geral. Então pensei que se você não for “doçofóbica” (no meu dicionário isso significa alguém que tem fobia de tudo que é doce) nem nutrir um certo desprezo por chocolate, como essa que vos escreve, então você tem fortes chances de gostar do meu “choco-banana”.

 

Bolo “fondant” chocolate-banana (vulgo “choco-banana”)

 

O ideal aqui é usar um chocolate que tenha 50% de cacau. Use a menor forma que você tiver, pois esse é um bolo pequeno. Já brinquei bastante com essa receita e sugiro algumas variações no final.

 

200g de chocolate meio amargo (vegano)

2cs (rasas) de margarina

2 bananas maduras

2cs de farinha de trigo (sem fermento)

1cs de rum (opcional)

margarina e cacau em pó pra untar a forma

 

Quebre o chocolate em pedacinhos e derreta em banho maria junto com a margarina. Não deixe a água ferver pois isso queimaria o chocolate. Amasse as bananas com um garfo até virar um creme, e não sobrar nenhum pedaço de banana inteiro. Peneire a farinha de trigo sobre as bananas e misture bem. Despeje o chocolate e a margarina derretidos sobre a massa (e o rum, se estiver usando) e mexa delicadamente até ficar homogêneo. Coloque a massa em uma forma pequena, untada com margarina e polvilhada com cacau (caso não tenha cacau, polvilhe com farinha de trigo) e asse em forno médio. Dependendo do seu forno, o bolo estará pronto entre 20 e 30 minutos. Faça o teste com uma faca fininha: ao espetar o meio do bolo, ela tem que sair quase limpa. Não asse demais pois o bolo tem que ficar denso e suculento. Deixe esfriar um pouco e corte em quadrados. Deguste ainda morno.

 

Variações:

• Já fiz o bolo sem margarina nenhuma e deu certo. Ficou ligeiramente mais denso, mas eu não ligo e Anne acha até melhor.

• Você pode acrescentar um punhadinho de oleaginosas à massa. Na foto usei noz pecã, mas avelã também deve ficar bom.

• Uma vez usei só 150g de chocolate e não vi diferença nenhuma no resultado final.

• Se seu chocolate for muito doce (como são todos os chocolates no Brasil) e você quiser um sabor mais intenso e menos enjoativo, acrescente 1cs de cacau em pó (sem açúcar) à farinha e peneire os dois juntos antes de misturar com o resto dos ingredientes.

• Pode substituir a margarina por creme de coco. Deixe uma lata de leite de coco na geladeira por algumas horas.  No frio a gordura do coco sobe e agua desce. Abra a lata com cuidado, sem sacudir.  Então é só usar o creme de coco espesso que fica na parte superior da lata.