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No início desse mês o livro de receitas palestinas que eu criei pra arrecadar fundos pro projeto de mulheres no campo de refugiados de Aida ficou (enfim!) pronto. Além de ensinar a fazer 15 receitas tradicionais, o livro explica a situação dos refugiados palestinos e conta a história do projeto. Ele é o fruto de três árduos meses de trabalho e quando o segurei nas mãos pela primeira vez senti uma mistura de alegria e alívio. Nunca imaginei que fazer um livro (sozinha) fosse tão penoso: entre recolher as receitas, fotografar os pratos, escrever os textos e fazer o design/layout, quase perco o juízo. Mas agora que ele está aqui olhando pra mim, estou extremamente feliz por ter controlado a vontade de desistir e ter ido até o final. (Clique nas imagens pra aumenta-las.)

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No início queríamos usar o dinheiro da venda do livro pra fazer um jardim de infância pras crianças especiais do campo. Mas só tínhamos verba pra publicar cem exemplares e como o dinheiro não será suficiente pra dar início a esse novo projeto, decidimos deixar esse sonho pra mais tarde. Então o dinheiro do livro será usado pra organizar uma viagem pras dez famílias do projeto. Se tudo correr como o planejado, em abril iremos ao mar morto, passar o dia tomando sol, piquenicando e nos banhando naquela água salgadíssima. Devido à situação econômica difícil (a taxa de desemprego em Aida é de 70%!), essas famílias raramente saem do campo, então a viagem será o acontecimento do ano e desde janeiro as crianças só falam disso.

livro projeto3Queria mostrar algumas das fotos do nosso livro, pra vocês verem o mimo que ele ficou, e aproveitar pra compartilhar mais uma receita palestina. Adas fat é um prato muito humilde, feito com lentilha (que os palestinos chamam de “a carne do pobre”) e pão. Ele é consumido principalmente no inverno, quando o corpo precisa de alimentos que aquecem e reconfortam.  Essa receita é tradicionalmente vegana, mas a versão que vocês veem aqui é um tiquinho diferente da versão do livro. Islam, que me ensinou a fazer adas fat, usa somente cebola, lentilha, água e sal na sua sopa. Eu gosto de incrementar um pouquinho, juntando mais dois ou três ingredientes. Mesmo ‘incrementada’, essa receita é extremamente simples, barata e nutritiva. O tipo de receita que quebraria um galhão pros estudantes veg(etari)anos, ou qualquer pessoa que queira um jantar rápido, fácil de preparar, mas cheio de proteína (e completa!) e outros nutrientes.

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Em novembro, quando falei que estava escrevendo esse livro, alguns leitores ficaram muito interessados. Pensei em fazer uma versão digital do livro em Português, já que não seria viável enviar exemplares pra tão longe. Mas por causa dos meus diferentes projetos não terei tempo de traduzi-lo esse ano (o livro foi escrito em Inglês). Porém se alguma alma caridosa se oferecer pra fazer a tradução (são só 37 páginas, muitas delas com fotos), eu aceitarei de muito bom grado!

*Zaaki significa ‘gostoso’ em Árabe. O título completo do livro em Português é: Zaaki- Receitas palestinas saborosas direto da nossa cozinha no campo de refugiados de Aida.

adas fat

Adas fat (sopa palestina de lentilha coral e pão)

Lentilha coral cozinha mais rápido e tem um sabor mais suave do que lentilha verde. Ela é tradicionalmente usada em sopas, pois se desfaz durante o cozimento (nunca tente fazer uma salada com esse tipo de lentilha!). Se você não conseguir encontrar lentilha coral na sua cidade, sugiro essa outra receita palestina que usa lentilha comum.

1 cebola grande, picada

4 dentes de alho, ralados/picados

1x de lentilha coral

2 tomates, picados

Uma pitada generosa de cúrcuma

1 folha de louro

Azeite, suco de limão, sal e pimenta do reino a gosto

Pão, de preferência integral

Aqueça 1cs de azeite e doure a cebola. Junte o alho e cozinhe mais 30 segundos. Acrescente a lentilha coral, os tomates, a cúrcuma, o louro, sal e 1 litro de água. Quando começar a ferver baixe o fogo e deixe cozinhar, coberto, até a lentilha ficar bem macia. Desligue o fogo e tempere com pimenta do reino, 1cs de azeite e suco de limão a gosto (usei o suco de  ½ limão grande). Prove e corrija o sal (talvez você queira junta mais um pouco de suco de limão também).

pão e azeite

Toste o pão até ficar ligeiramente crocante. Rasgue o pão em pedaços e distribua nos pratos onde for servir a sopa (cerca de duas fatias pequenas por porção). Regue o pão com azeite (1cs por porção) e cubra com a sopa quente. Rende 4 porções.

*Pra complementar a refeição: esse prato é tradicionalmente servido com uma salada crua de tomate, pepino, pimentão e salsinha, temperada com sal, azeite e suco de limão. Os legumes crus aumentam a dose de vitaminas da refeição e são o complemento perfeito pra esse prato (que já tem a proteína da lentilha e os carboidratos complexos do pão integral).

Waraka dawali u qussa: folhas de parreira e legumes recheados com arroz.

Queria falar de duas coisas hoje: meu prato palestino preferido e Draguitsa, uma das minhas melhores amigas que, olha que coincidência maravilhosa, faz esse prato divinamente bem.

Como em vários lugares do mundo, os palestinos gostam de rechear folhas de parreira. Na Palestina esse prato é chamado de “waraka dawali” (ou só dawali, pros íntimos) e as folhas são recheadas com uma mistura de arroz e especiarias. Geralmente os dawalis são preparados com abobrinhas e berinjelas, recheadas com o mesmo arroz. Os legumes são colocados em camadas na panela, com um frango inteiro, e tudo cozinha junto. Algumas pessoas também colocam carne moída no arroz. Porém existe uma versão sem frango e sem carne (“dawali siami”), preparada pelos palestinos cristãos durante a quaresma.

Uvas e figos colhidos no jardim de Draguitsa.

Aqui o jejum da quaresma é levado muitíssimo a sério e os cristãos não comem nenhum produto de origem animal. Isso mesmo, o jejum aqui não se restringe à carne, ele é totalmente vegano. O termo “siami” significa que o prato em questão é 100% vegetal, logo pode ser consumido durante a quaresma. Existem versões “siami” de vários pratos tradicionais, criadas exatamente pra matar a fome da galera do jejum, digo, dos cristãos.

Mas voltemos ao dawali (versão “siami”, claro). Eu não sou a única a adorar esse prato, ele é extremamente popular entre os palestinos. Por isso tive a oportunidade de comer dawalis preparados por várias amigas e até pelas mães de algumas amigas. Os melhores que comi até então são os da minha vizinha Violete (palestina cristã ortodoxa), os da minha grande amiga Draguitsa (bósnia muçulmana), os de Khoulud (palestina muçulmana) e os de Fida (palestina católica), esposa do meu amigo Tawfic. Cada uma delas tem uma receita ligeiramente diferente, refletindo as diferenças de nacionalidade e, curiosamente, de crença também.  As cristãs, por exemplo, colocam um pouco de hortelã no recheio, enquanto as muçulmanas acham isso uma heresia! Já vi minhas amigas prepararem (e ajudei a preparar) dawalis dezenas de vezes. Já dei até curso ensinando a fazer dawali (dentro do meu projeto no campo de refugiados). Depois de quase cinco anos morando na Palestina e de ter degustado quilos de dawali, acho que finalmente adquiri conhecimento suficiente pra falar dessa iguaria aqui e dividir a receita com vocês.

Esse prato é especial por duas razões. Primeiro porque só é possível fazer dawalis a partir do final da primavera e até o meio do verão. Essa é a melhor época pra colher as folhas de parreira, que estão novinhas, tenras e saborosas. Antes disso as parreiras estão peladas e no final do verão as folhas engrossam, ganham um sabor forte bem menos agradável e algumas ficam ligeiramente felpudas. A folha novinha e fresca, colhida no jardim da cozinheira na hora de preparar o prato (parreiras aqui são extremamente comuns e quase todo mundo tem uma) tem um sabor único, verde e com uma pontinha de limão. As palestinas costumam congelar alguns quilos de folhas de parreira pra consumir mais tarde e também é possível comprar folhas conservadas em garrafas durante uma parte do ano, mas nada que se compare ao sabor das folhas frescas. E como preparar as folhas e enrolar os dawalis um por um leva um baita tempo, não é um prato que podemos degustar todos os dias, fazendo com que ele seja ainda mais especial.

Draguitsa colhendo uvas no jardim de casa.

No final de junho, antes de sair de férias, fui convidada pra um almoço de despedida na casa de Draguitsa e Mustafa. Talvez vocês lembrem de Mustafa, pois contei a emocionante história dele e do seu pai aqui no blog. Nesse post comentei que Draguitsa é uma excelente cozinheira, daquelas que adoram fazer tudo em casa. Na minha última visita à sua casa, semana passada, ela mostrou o vinagre de figo e o kombucha que estão incubando na sua cozinha e pude degustar as alcaparras e picles colhidos e preparados por ela.

Nesse dia colhemos: uvas, pimentões, manjericão, vários tipos de pimenta e os frutinhos da rosa mosqueta (uma delícia!).

Pão tradicional, assado sobre pedras.

Draguitsa estudou hotelaria na Iugoslávia, onde conheceu o marido, que estava estudando fisioterapia na mesma universidade. Como temos a paixão pela cozinha em comum, nossas conversas sempre giram em torno de comida. Além de cozinhar divinamente bem e de ser uma maga das conservas, Draguitsa borda e tem um verdadeiro dom com as plantas (ornamentais e comestíveis). Ela é uma daquelas pessoas com “mãos de fadas” e sua aparência delicada e voz suave me fazem desconfiar que talvez minha amiga seja realmente da turma dos elfos. Ela também é extremamente inteligente, além de Bósnio, Esloveno e Árabe ela fala um Inglês digno da corte da rainha Bete (que ela aprendeu sozinha, assistindo televisão, meu povo!) e coordena um projeto de mulheres que fazem bordados tradicionais, vendidos aqui e na Europa.  Sua generosidade é infinita e nunca saí da casa dela com as mãos vazias. Na última visita, por exemplo, ganhei figos do jardim e seu maravilhoso pão, assado nas pedras.

Naquele almoço de junho Draguitsa fez questão de preparar dawalis, pois ela sabe o quanto adoro esse prato. Cheguei cedo pra fotografar suas mãos de fada em ação, pois já tinha decidido dividir a receita com vocês. Sei que poucas pessoas têm parreiras no jardim, o que torna o ingrediente principal desse prato quase impossível de encontrar por aí. Mas aqui vai um consolo: é possível fazer uma versão usando folhas de repolho pré-cozidas e exatamente o mesmo recheio. Esse é outro prato tradicional daqui e gosto quase tanto dele quanto de dawali. Consolo número dois: inspirada pelos sabores desse prato, criei uma receita usando ingredientes encontrados facilmente no Brasil e em Portugal. Modéstia à parte, minha versão não faz feio perto dos dawalis de Draguita. Voltem aqui na sexta pra conferir.

Agora passemos à receita (sem medidas, como toda boa receita tradicional) dos dawalis de Draguitsa. Comece escolhendo folhas de parreiras bonitas e viçosas, de tamanho médio. Lave-as e corte o cabinho de cada uma. Ferva uma quantidade grande de água e mergulhe as folhas na água fervente por 30 segundos. Cozinhe 10-15 folhas por vez e repita a operação até acabar o estoque de folhas. Reserve. Deixe o arroz de molho por meia hora, enxague e escorra bem (pra se livrar de uma parte do amido, que deixa o arroz grudado). Misture o arroz escorrido com cebola e tomate picadinhos, alho ralado, um pouquinho de salsinha e as seguintes especiarias: cominho, semente de coentro em pó, páprica suave, noz moscada, pimenta do reino e cúrcuma. Tempere com sal e um pouco de azeite. Recheie cada folha de parreira pré-cozida (o lado brilhante pra baixo) com um pouco do arroz cru temperado. Não exagere na quantidade de arroz e enrole a folha apertando bem.Veja o passo a passo nessas fotos (clique em cada uma pra ver melhor).

Se quiser fazer a abobrinha e a berinjela recheadas, que acompanham tradicionalmente os dawali e aumentam consideravelmente o sabor do prato, o trabalho será dobrado. As palestinas usam um utensílio próprio pra cavar o interior dos legumes, que nunca vi em nenhum lugar fora daqui, mas talvez com uma colher, uma faca e muita paciência seja possível conseguir o mesmo resultado. Escolha abobrinhas e berinjelas bem pequenas, cave o interior dos legumes crus, retirando a maior parte da polpa, e preencha a cavidade com o arroz temperado. Só precisa encher até a metade, pois durante o cozimento o arroz expande bastante. Disponha fatias grossas de tomates e cebolas (mais tomate do que cebola) em uma panela grande e alta, forrando completamente o fundo com uma camada espessa desses legumes. Regue generosamente com azeite e tempere com sal e pimenta do reino. Coloque as berinjelas recheadas, as abobrinhas recheadas e, por último, as folhas de parreira recheadas. É preciso respeitar essa ordem, pois as folhas são mais delicadas do que os legumes e não podem ficar muito perto da chama do fogão. Junte água suficiente pra cobrir tudo (pra deixar o prato ainda mais saboroso você pode usar um caldo de legumes caseiro), junte mais um pouquinho de sal e azeite e leve ao fogo. Quando ferver, baixe a chama e deixe cozinhar em fogo baixíssimo, coberto, até os legumes ficarem macios e o arroz bem cozido (prove regularmente). Esse é um prato que é ainda mais gostoso quando os legumes cozinham até quase se desfazerem, então não tenha medo de cozinhar longamente (se a panela secar, junte mais água ou caldo de legumes). O prato pronto não deve ter quase nenhum líquido, então retire a tampa e deixe evaporar o caldo no final do cozimento.

Se quiser servir da maneira tradicional, despeje o conteúdo da panela sobre uma travessa redonda e grande. Deguste regado com um pouco de suco de limão, acompanhado de pão rústico e salada de tomate, pepino e hortelã fresca. Aqui não se usa pratos individuais, todos comem diretamente da travessa, com as mãos. Acho que fica ainda mais gostoso degustado assim.

Espero que tenham gostado desse mergulho na culinária palestina. Draguitsa vai ficar feliz ao ver que publiquei a receita dela (ela lê o blog com a ajuda de google translator), mas, modesta que é, não vai concordar com os elogios. Cibele a conheceu quando esteve aqui e pode confirmar que tudo que disse é verdade (não é, moça?). E não esqueçam de passar por aqui na sexta pra conferir a minha versão (muito mais acessível) desse prato.

 

Sopa de lentilha palestina

 

Prometi uma receita de pão integral pra minha amiga Mona, mas ela vai ter que esperar um pouquinho. Desde a semana passada que estou participando de um projeto muito interessante mas que está consumindo todo o meu tempo. Sem tempo pra cozinhar, estamos nos alimentando de quinoa, macarrão e os legumes solitários que encontro na geladeira. Mas estava ocupada demais pra fazer compras no sábado, dia de ir à feira e fazer o estoque de verduras da semana, e hoje cheguei ao fim da despensa (o “fim do poço” culinário). A maior parte do meu prato é preenchida com verduras e legumes, em qualquer refeição (sim, mesmo no café da manhã), e quando me deparo com uma geladeira vazia, preparar o jantar vira missão impossível. Felizmente pra essas ocasiões existe o prato do pobre.

Em cada país do mundo exite um prato típico (ou vários) que usa somente alguns ingredientes baratos, mas que é capaz de encher a barriga de qualquer trabalhador faminto. Na India eu descobri o daal (sopa de lentilhas), que custava menos que um copo de chá, no Egito tem o koshari (um prato de macarrão com lentilhas, cebola frita e molho apimentado) que, segundo um artigo que li recentemente, alimentou os revolucionários da praça Tahrir, e por aí vai.

Por mais que eu adore os elaborados e deliciosos pratos de festas, também presentes em todas as culturas do mundo, o prato do pobre tem um lugar especial no meu coração. Não somente ele alimenta e permite que milhões de pessoas sobrevivam todos os dias mas, contrariamente ao que se possa imaginar, visto que os ingredientes são sempre tão simples, alguns são extremamente saborosos. A limitação, nesse caso financeira, nos obriga a ser criativos e a aproveitar os ingredientes da melhor maneira possível. Sem contar que, sendo carne e laticícios produtos de luxo na maior parte do mundo, os pratos do pobre são sempre veganos.

Aqui na Palestina os pratos do pobre são feitos com lentilha e arroz. Eu já publiquei a receita do Mujadara, um dos meus pratos preferidos, e hoje gostaria de dividir com vocês a sopa de lentilha que salvou o jantar de hoje. Essa sopa é parecida com daal, mas é feita com arroz e não usa as especiarias da prima indiana. Ela é delicadamente temperada (só um toque de cominho e um pouco de suco de limão), mas é deliciosa e alimenta por várias horas. Tirando a cebola e o alho (e o limão), essa sopa usa ingredientes do armário, o que significa que mesmo com a geladeira vazia você será capaz de preparar um jantar nutritivo, saboroso e que fica pronto em meros 20 minutos. E viva o prato do pobre!

 

Sopa de lentilha palestina

A lentilha usada aqui é do tipo coral (veja foto no final da receita), que não tem casca e cozinha muito mais rápido do que lentilha verde e marrom. Acredito que usando mais água e deixando a sopa cozinhar mais tempo, você poderá usar lentilhas verdes (nunca testei, então não posso dar instruções precisas). Mas não deixe de procurar lentilha coral pra fazer o prato tradicional pelo menos uma vez. Preparada na panela de pressão, a sopa não só fica pronta mais rápido como se torna mais cremosa.

1 1/2x de lentilha coral

1/3x de arroz

2cs de azeite

1 cebola picadinha

2 dentes de alho grandes picados

1 cubo de caldo de legumes

1/2cc de cominho

1,5l de água

suco de 1 limão médio

sal

Em uma panela de pressão, aqueça o azeite e refogue a cebola até ficar dourada. Junte o alho e refogue mais 1 minuto. Junte os outros ingredientes, menos o suco de limão, e aumente o fogo. Quando começar a ferver, tampe a panela de pressão e deixe cozinhar 15 minutos, em fogo baixo, à partir do momento em que a panela “pegar pressão” (começar a apitar). Desligue o fogo e deixe a pressão se liberar naturalmente. Tempere com o suco de limão e corrija o sal. Sirva bem quente. Eu gosto de servir a sopa com fatias de limão pra quem gostar de sopa mais azedinha (eu gosto!). Serve 4 porções.

Lentilha coral, que perde esse linda cor laranja durante o cozimento.

 

Patê de falafel (cru)

Há algum tempo comecei um « restaurante ocasional ». Duas vezes por mês transformo minha casa em restaurante very privê, só pra amigos e amigos dos amigos. Sábado passado servi um menu completamente cru, da entrada à sobremesa. Os dias que antecedem a comilança são preenchidos com tensão, expectativa e muito trabalho. Sou naturalmente insegura e extremamente perfeccionista na cozinha, uma combinação nem um pouco feliz. Sempre fico com medo dos convidados não gostarem da comida. Às vezes esse medo, como aconteceu sábado passado, chega perto de “pavor”. A grande maioria dos meus clientes é onívora, mas são pessoas gastronomicamente abertas e curiosas, que gostam de descobrir novos sabores. Porém um menu completamente vegano e cru talvez fosse demais pra eles. Ledo engando! Estou descobrindo a culinária viva (crua) e apesar da minha pouca experiência nessa área o jantar foi um sucesso. Não tenho a intenção de me tornar crudívora mas como cozinheira gourmet que sou, estou sempre tentando expandir meus horizontes culinários, descobrir novos ingredientes e técnicas e nesse sentido a culinária viva é uma mina de inspiração.

Um dos pratos que o pessoal mais gostou durante o jantar foi um canapé de tomate e pepino com patê de falafel. “Falafel” é a fast food do Oriente Médio. É feito com grão de bico moído (cru), misturado com tempeiros e ervas, moldado em bolinhas e frito em muito óleo. Pode ser comido puro ou, o mais comum aqui, dentro de um pão pita  (parece com pão sírio mas é mais macio) com hummus e verduras cruas, como tomate, pepino e repolho. Quem já provou sabe que esse é um dos melhores sanduíches que existe no mundo (e, bonus!, ele é vegano). Eu vi uma receita de falafel cru, sem grão de bico, em um site de alimentação crua e fiquei intrigada. Decidi usar a idéia principal, que era substituir o grão de bico por amêndoas, mas fazer algumas adaptações, mantendo os temperos usados tradicionalmente no falafel frito. Porém a maior inovação foi fazer a receita em forma de patê. O resultado foi espetacular! Esse patê tem o sabor inconfundível do falafel, mas em matéria de nutrição dá de dez a zero no original. Servido sobre rodelas de pepinos, com uma metade de tomate cereja por cima, se transforma em um aperitivo (ou entrada) original, leve e muito saboroso. As bolinhas fritas devem estar morrendo de inveja.

Patê de falafel

Você vai precisar de um bom liquidificador ou um multiprocessador (aqueles com lâmina em “s”) pra fazer esse patê (ou qualquer patê à base de oleaginosas). Se não achar tomates cereja, ou se na sua cidade eles forem terrivelmente azedos (como os vendidos em Natal), use tomates normais. Dependendo do tamanho dos tomates usados, corte-os em quatro ou oito (no sentido vertical), tire as sementes e corte cada quarto/oitavo em três pedaços.  A idéia é que cada pedacinho tenha aproximadamente o mesmo diâmetro das rodelas de pepino. Não vai ficar tão bonito quanto os canapés feitos com tomates cereja, mas o gosto será o mesmo.

1x de amêndoas (inteiras, com casca), de molho 8 horas

1x de abobrinha italiana em cubinhos, crua

1x de coentro picado grosseiramente (mais ou menos um punhado generoso)

1x de salsinha picada grosseiramente (idem)

2cs de suco de limão

2cs de tahina (se ainda não sabe o que é tahina clique aqui)

1cc rasa de cominho

1cc rasa de semente de coentro em pó

1 cebolinha nova picada (a parte branca e um pouco do verde)

½ dente de alho (ou 1 bem pequeno) ralado

sal e pimenta do reino a gosto (uso 1/2 cc rasa do primeiro e uma boa pitada do segundo)

água, se necessário

Pra montar os canapés

-tomates cereja (de boa qualidade) cortados ao meio, na vertical (veja nota mais acima)

-rodelas de pepino, não muito finas

Escorra as amêndoas e triture no liquidificador até elas se quebrarem em pedacinho miúdos. Transfira pra outro recipiente e reserve. Coloque os ingredientes restantes, menos a água, no liquidificador e por último adicione as amêndoas trituradas. Isso evita que elas formem uma massa compacta no fundo do copo,  dificultando o trabalho das hélices. Bata na velocidade máxima até ficar homogêneo. Você vai precisar desligar o motor algumas vezes e mexer a mistura com uma colher, pra facilitar o processo. Junte um pouco de água se o patê parecer muito encorpado. Porém tenha em mente que a conscistência deve ser bem densa então tente não acrescentar mais de ¼ de xícara de água. Prove e corrija o sal e a pimenta, se necessário. Coloque 1/2cc de patê em cima de uma rodela de pepino e cubra com uma metade de tomate cereja. Repita quantas vezes for necessário. Rende 2x de patê e (não contei direito então o número é aproximado) uns 80 canapés.